Capítulo 2: A Garota Sozinha e Misteriosa
Capítulo 2: A Garota Sozinha e Misteriosa
Gotas de chuva batiam contra a janela, e o ar estava úmido e pesado, parecendo aderir à minha pele. Estava chovendo há dias a fio, e um temporal daqueles. Era o tipo de clima que exasperaria até alguém como eu, que não desgosta da chuva, mas, em contraste com o céu escuro e cinzento, meu coração estava ensolarado.
Como estava chovendo, não houve treino de atletismo pela manhã, então cheguei cedo à escola e abri um livro de bolso em minha mesa.
O título era Koi-suru Leucochloridium —
O gênero era romance. O mistério que eu terminara no outro dia era bom, então escolhi outra obra bem avaliada do mesmo autor, e por acaso era um romance.
Meu encontro com Junna não tinha nada a ver com isso, e não era como se eu estivesse saltitante logo cedo só porque a veria por causa da chuva.
[Del: Aham, sei~ ]
Neutralizei a doçura enjoativa da história com o amargor do meu café e deixei minhas bochechas relaxarem em um sorriso.
[Del: O café é canônico kkkkkk.]
“Bom dia, você está em um bom humor raro esta manhã, Shigure,” alguém me disse.
Ele não tinha cabelos naturalmente ondulados como os meus, mas sim cabelos castanhos que ele propositalmente fizera permanente e clareara em um salão, combinados com um rosto andrógino e uma estrutura alta e magra de quase 180 centímetros. Era meu colega de classe, Kuzumi Yōjirō. Ele colocou sua bolsa molhada sobre a mesa e passou a mão pelo cabelo de forma exibicionista.
“Todos esses dias chuvosos, e um temporal para completar... Você está realmente tão feliz por terem cancelado o treino da manhã?”
Um jeito estranhamente pretensioso e sombrio de falar, além de uma atitude descaradamente direta, eram os traços definidores desse cara. Além de sentarmos um atrás do outro no início, acabamos próximos novamente após a troca de lugares depois do feriado prolongado, tornando-o a pessoa com quem eu mais conversava na classe.
“Bem, sim. Isso faz parte.”
Fechei meu livro, mudando do modo leitura para o modo conversa. Percebi que quase trinta minutos haviam se passado desde que eu chegara à escola, e a sala de aula agora fervilhava com alunos que haviam terminado seus treinos matinais.
Para constar, Yōjirō é do clube de basquete e, como eles treinam no ginásio, não têm seus treinos cancelados mesmo quando chove.
“‘Faz parte’?” — A sobrancelha de Yōjirō deu um solavanco. Ele puxou a cadeira, aproximando-se. — “O que significa que existem outros motivos, então. Algo simples, tipo o livro que você está lendo ser bom?”
“Isso faz parte também.”
“‘Faz parte’ de novo!? Você tem um monte de motivos para estar de bom humor!”
As reações de Yōjirō eram sempre exageradas. Ele colocou a mão no queixo, pensando.
“...O que poderia ser? Você viu a calcinha de uma garota bonita através das roupas encharcadas pela chuva?”
[Almeranto: Quase, foi um pouco mais .]
“Não.”
“Você ficou prensado contra uma garota bonita em um trem lotado?”
“Não.”
“Uma garota bonita e—”
“Você tem um número bem limitado de palpites, não tem?”
“Você conheceu uma?”
“............”
Silenciosamente, desviei o olhar. Os olhos de Yōjirō se arregalaram. “O quê?” ele disse, inclinando-se para frente. Ele bateu as mãos na minha mesa, levantando o traseiro da cadeira.
“Não acredito, eu acertei!? Você conheceu uma garota bonita, Shigureee!”
“Você está sendo barulhento demais.”
Repreendi o gritante Yōjirō. Um grupo de garotas dos clubes de esportes, que conversava perto da mesa do professor, olhou em nossa direção. Yōjirō perguntou em um sussurro:
“...Como ela é?”
“‘Como ela é’, hein...” — Imaginei Junna e respondi. — “Ela tem um corte chanel preto com uma cor interna azul-violeta.”
“Hã. Isso é único. O que mais? Tipo a altura dela, ou o tamanho do busto.”
“...Eu não sei o tamanho do busto dela. Ela está na faixa baixa dos 150 centímetros... Quanto a outras características marcantes além do cabelo, ela usa fones de ouvido sem fio pretos e carrega um estojo de guitarra.”
“Oh! Então ela curte música?”
“Ela é aluna daqui, do mesmo ano que nós.” — Pausei por um momento antes de perguntar: — “Não a conhece?”
Yōjirō tem um círculo de amigos muito mais amplo que o meu, é um seguidor total de tendências e é bem informado sobre o que acontece na escola. Ele tem uma fraqueza particular por garotas bonitas, então achei que ele saberia sobre Junna, mas...
“...Não. Não a conheço.”
Yōjirō franziu a testa. Ele tocou a têmpora com o dedo.
“Uma cor interna azul-violeta e um estojo de guitarra. Com características óbvias, ela deveria se destacar... será que ninguém percebe só porque é uma cor interna? E tem muita gente que toca guitarra em bandas. Também existe a possibilidade de ela não ser tão bonita assim, e você apenas ter um gosto estranho, Shigure—”
“Não.”
Neguei imediatamente a afirmação de Yōjirō. Junna é o tipo de garota que 100 em cada 100 pessoas concordariam que é linda, embora eu não possa negar que meus próprios gostos fogem do padrão.
“...Ah, certo. Se você tem tanta certeza, Shigure, então tenho certeza de que é o caso. O que torna tudo ainda mais estranho; não tem como meus olhos perderem uma garota bonita, especialmente uma que estuda na nossa escola...”
“O nome dela é Amamori Junna.”
“Amamori Junna? Nunca ouvi falar dela.” Yōjirō cruzou os braços. E então: “Ei, Haruka!”, ele chamou. Na frente da sala, uma das garotas que conversava reagiu, voltando um olhar suspeito para ele.
“...O quê?”
“Vem aqui um segundo. Aqui!”
“Hã? Ai, que saco...”
A garota que ele chamara praguejou para o acenante Yōjirō. Yamada Haruka. Membra do clube de tênis e amiga de infância de Yōjirō. Seu rabo de cavalo alto balançava enquanto ela se aproximava com passos longos, seus olhos afiados estreitados.
“O quê?”
A pressão em sua voz era tão aguda quanto seu olhar. Mas Yōjirō não se abalou.
“Você conhece uma garota chamada Amamori Junna? Do primeiro ano aqui,” ele perguntou. A expressão de Yamada tornou-se ainda mais severa.
“Não, não conheço, mas... Você está tentando dar em cima dela ou algo assim? Kuzujirou.”
“Eu não, o Shigure que está.”
“Hã?” — Seus olhos perigosamente estreitados se arregalaram, e Yamada olhou para mim. — “...Kurimoto-kun?”
“É incomum, não é?”
“Sim, é incomum. E, inesperadamente, eu não sabia que você se interessava por garotas, Kurimoto-kun...?”
“Bem, eu sou um adolescente, afinal.” Eu estava exasperado com a surpresa de Yamada.
[Almeranto: Cara, estou achando bem interessante essa novel, porque esse prota eu achei bem pra frente. Mal começamos e ele já admite que tem interesse nela. Prota bom é assim, que não tem vergonha ou insegurança.]
Sendo amiga de infância de Yōjirō e da mesma classe, eu tive algumas chances de conversar com Yamada, mas nunca soube que ela tinha essa impressão de mim.
“...Eu não sou tão inescrupuloso quanto o Kuzujirou, mas acho que estou interessado até certo ponto?”
Kuzujirou era o apelido de Yōjirō. Segundo Yamada, Yōjirō sempre fora um mulherengo e um paquerador, e ganhou esse nome no ensino fundamental quando tentou dar em cima de quatro garotas ao mesmo tempo. “Kuzu” vem de “Kuzumi”.
[Almeranto: O cara tentou fazer mais do que um Hat-Trick.]
“Ahaha, entendi. Bem, contanto que você não seja um lixo, é um alívio.”
Ela deu uma risadinha, cobrindo a boca.
Yamada só era dura com lixos como Yōjirō; ela era, no geral, uma garota brilhante, alegre e fácil de conversar. Com seus olhos claros brilhando de curiosidade, ela se agachou em frente à minha mesa para encontrar meu olhar.
“— Então? Que tipo de garota nosso Kurimoto-kun adolescente está tentando conquistar?”
Se Junna era um céu nublado e chuvoso, Yamada era como um céu azul claro e sem nuvens.
Contei à bem relacionada Yamada, que era tão ou mais popular que Yōjirō, sobre as características de Junna e perguntei se ela sabia de algo, mas, mais uma vez, saí de mãos vazias.
Uma garota que eu só consigo encontrar depois da escola, na sala de audiovisual, em dias de chuva —
Quem diabos é ela?
☂
Depois da escola, a chuva continuava a cair com a mesma intensidade daquela manhã.
Visitei a sala de audiovisual e encontrei Junna lá, mexendo em sua guitarra com seus olhos sonolentos. Ela não estava usando fones e, ao notar minha chegada primeiro, parou a afinagem e me cumprimentou.
“Bom dia, Shigure.”
“Opa, bom dia... é sério?”
“Nesta indústria, é sempre ‘bom dia’.”
“Que indústria é essa? Você não dormiu demais de novo, não é?”
“Não dormi, vim direitinho hoje de manhã. Impressionante, né?”
“Será mesmo?”
Dei um sorriso irônico para a orgulhosa Junna, coloquei minha bolsa de verniz — que estava estufada com meu agasalho e livros — sobre a mesa e ocupei meu lugar de costume, na fileira à frente dela, antes de virar meu corpo inteiramente para encará-la. Então, fui direto ao ponto. Não há momento melhor que o presente.
“Pensando bem—”
Em que sala você estuda, Junna? — Eu estava prestes a perguntar, mas a pergunta ficou presa na minha garganta.
O que me travou foi o modo como Junna falou. Para alunos como nós, vir à escola de manhã é o normal e o esperado, mas talvez fosse diferente para ela.
“............”
Junna olhou para mim. Após alguns segundos de silêncio, continuei.
“Essa guitarra...”
O que saiu não foi a pergunta que eu havia preparado.
“É uma Telecaster?”
Por algum motivo, senti que não deveria perguntar aquilo. Então, rapidamente inventei outra questão e a lancei no lugar.
Olhando para a guitarra com seu corpo surf green , pickguard branco e ferragens douradas brilhantes, perguntei, e Junna balançou o dedo, dizendo: “Quase.”
“Parece uma, mas não é. É uma guitarra japonesa chamada MOON Reggae Master.”
“Reggae?”
“Sim. A mesma reggae que o SiM incorpora.”
“Você gosta? Eu sempre tive a impressão de que era uma música ‘ensolarada’.”
Uma imagem de Junna sob um sol ofuscante, usando óculos escuros e pulando em uma praia de areia enquanto girava uma toalha, brotou na minha cabeça. Parecia completamente fora de lugar.
“Eu não desgosto. Musicalmente, há muitos elementos que eu curto... mas o reggae não tem nada a ver com o motivo de eu ter escolhido esta guitarra. Você não sabe?”
“............”
Eu não tinha a menor ideia.
“Porque o Igarashi-san a usava.”
“Igarashi-san?”
“O guitarrista e vocalista do Syrup. Igarashi Takashi.”
Syrup16g é uma banda representativa do rock depressivo. Eles são chamados de “Reis do Rock Depressivo” e dizem até que são a razão de o termo ter passado a existir. São provavelmente os mais famosos da cena e, é claro, eu também os conhecia. No entanto—
“Ah, é mesmo? Eu não sabia disso. Eu escuto muita música diferente, mas quase nunca procuro informações sobre as bandas em si. Para ser honesto, da maioria das bandas, eu nem sei o nome dos integrantes.”
“Eeeh...” — Junna ficou em silêncio, deixando escapar um som que era uma mistura de surpresa e exasperação.
Eu a havia decepcionado? Com Junna, cujas emoções eram indecifráveis por sua expressão, perguntei timidamente:
“Isso... isso é ruim? Eu sou um fã falso?”
“—Hein? Ah, não.” — Disse Junna após um momento de vacuidade, então balançou a cabeça vigorosamente de um lado para o outro. Seu cabelo balançou, revelando a cor interna azul-violeta. Para Junna, foi uma reação estranhamente grande.
“Eu não acho. Todo mundo aproveita música do seu próprio jeito. Eu costumo pesquisar muito... tipo o histórico e a personalidade do criador, ou as circunstâncias de como uma música nasceu... mas acho que não se aprofundar demais permite que você aprecie mais a música em si, sabe? Sim, acho que está tudo bem não pesquisar cada detalhezinho. Para você, Shigure.”
Ela disse tudo de uma vez. Relaxei, aliviado.
“ ...Mm. Entendi.”
É melhor não pesquisar cada detalhezinho. Estávamos falando de música, mas pensei que o mesmo provavelmente poderia ser dito sobre a própria Junna.
Encontrar Junna assim em tardes chuvosas e passar o tempo juntos era inacreditavelmente divertido. Então talvez fosse só isso que importava. Não havia necessidade de me forçar a cavar seu histórico ou pesquisar coisas só porque eu estava curioso sobre quem ela era.
Vamos apenas aproveitar as coisas como elas são.
Eu tinha certeza de que Junna iria querer que eu fizesse isso também. No entanto, a pergunta que eu acabara de engolir seria, por acaso, respondida muito em breve.
☂
No quarto período do dia seguinte, o tempo estava ensolarado, mas acabei me lesionando.
Estávamos jogando futebol em um campo que ainda não havia secado completamente quando um defensor me deu uma rasteira e eu levei um tombo feio — esfolando o joelho. Felizmente, o ferimento em si não era grave, mas, por insistência do professor de educação física, acabei indo para a enfermaria.
Eu realmente não queria estar ali. A enfermeira da nossa escola, uma mulher chamada Akagi, tem uma reputação terrível. Os alunos a temem sob o apelido de “Ogra Vermelha”. Dizem que ela trata os alunos como cães e que suas palavras são tão afiadas quanto suas agulhas.
Tomei coragem e bati na porta.
“...Entre.”
A voz era baixa e abafada. Ao abrir a porta, o ar gelado do ar-condicionado e o cheiro de desinfetante me atingiram. Akagi estava sentada à mesa central, usando um jaleco branco de forma relaxada sobre uma blusa de tricô sem mangas, revelando seus ombros claros. Ela usava uma máscara descartável e tinha olhos longos e estreitos, acentuados por uma maquiagem vermelha marcante.
“O quê? Cabulando aula?”
Ela me insultou de imediato, chamando-me de “brutamontes” enquanto examinava meu joelho. Apesar da aspereza nas palavras e das provocações de cunho pessoal que me deixaram sem jeito, o tratamento que ela aplicou ao ferimento foi, surpreendentemente, cuidadoso.
Foi então que, pelo canto do olho, notei algo em uma das camas ao fundo. Um estojo de guitarra preto espreitava por trás da cortina entreaberta. Um sapo azul-violeta balançava no zíper.
“—Junna?”
Ao meu murmúrio, Akagi parou o curativo.
“Você conhece a Amamori?”
“Hã? Ah, bem...”
“Qual é o relacionamento de vocês?”
Eu não sabia como responder. Como descrever alguém que você só encontra em tardes de chuva? Antes que eu pudesse formular uma frase, a cortina da cama se abriu.
“...Já está quase na hora do almoço. Sensei, estou ficando com fome—”
A pessoa que apareceu, tirando os fones de ouvido, era de fato Junna. No momento em que nossos olhos se encontraram, ela congelou, sem palavras.
“Shigure?” — A voz dela saiu fraca e trêmula. — “Por que você está aqui...?”
“Eu me machuquei durante a aula. E você, Junna? Não está se sentindo bem?”
“E-Eu estou—”
Junna baixou o olhar, hesitando. Ela ficou em silêncio, apertando firmemente a bainha da saia com as duas mãos. Eu estava confuso.
“Junna...?”
“Amamori,” Akagi foi quem tomou a palavra. Ela colocou um curativo sobre a ferida desinfetada e, após lançar um olhar para a Junna cabisbaixa, anunciou: “é uma aluna que frequenta a escola a partir da enfermaria.”
☂
“Frequentar a escola pela enfermaria” significa, na prática, passar a maior parte da vida escolar ali em vez de na sala de aula. Sem assistir às aulas com os outros, o aluno conta com a ajuda da enfermeira para estudar por conta própria e garantir os créditos e a frequência necessários para se formar.
“Bem, em resumo, é um passo antes de abandonar a escola de vez. Em vez de cortar totalmente os laços, ela consegue manter o status de ‘estudante’ vindo para este espaço limitado. Algo assim”, explicou Akagi.
“...Entendo.”
Após ouvir a explicação de Akagi, escolhi minhas palavras com cuidado. Minha primeira preocupação foi com a saúde dela.
“Não é que ela sofra de alguma doença grave, é? Tipo algo crônico.”
[Almeranto: Ufa, já estava suando frio…]
“Oh, fisicamente ela é o retrato da saúde. Se eu tivesse que dizer—”
“Também não é doença mental,” Junna interrompeu a fala de Akagi. Sentada na beira da cama, ela balançava as pernas com sua habitual expressão inexpressiva. “Eu só gosto de ficar sozinha... Não quero me envolver desnecessariamente com outras pessoas, então venho para a enfermaria, onde há menos gente. Não fui à sala de aula... nem uma única vez desde que comecei aqui.”
Nem uma única vez. — Então era isso. Por isso o Yōjirō, a Yamada e todo mundo não sabiam quem era a Junna.
“Eu também escalono meu horário de chegada. Às vezes saímos da escola ao mesmo tempo, mas tento ser o mais discreta possível usando o portão dos fundos.”
“Você é bem minuciosa nisso...”
De fato, eu nunca a tinha visto. Exceto... “naquele lugar”.
“...Fico entediada na enfermaria o tempo todo, então vou para a sala de audiovisual depois das aulas. É bem isolada acusticamente, então posso tocar minha guitarra, e posso ligar o ar-condicionado se estiver quente. A regra de não poder comer ou beber é um ponto negativo, mas, fora isso, é o melhor lugar. É como um estúdio.”
“E quase não vai ninguém lá depois da aula, também.”
“É, então eu baixei a guarda. Esqueci de trancar. E então...” Junna olhou para a janela. As cortinas brancas estavam escancaradas. Ela semicerrou os olhos para a luz do sol que jorrava de um céu azul límpido — nada parecido com o dia nublado em que nos conhecemos — e murmurou: “Eu te conheci, Shigure.”
“Eu gosto de ficar sozinha e não quero me envolver com pessoas desnecessárias... mas se for você, Shigure, tudo bem.”
Eu não conseguia ler sua expressão, mas sua voz era suave e clara, como se tivesse brotado das profundezas de seu coração. Uma emoção pura, sem filtros.
“Junna...”
Deve haver um motivo. É difícil acreditar que a escola permitiria que ela frequentasse a enfermaria apenas porque ela “gosta de ficar sozinha” — ainda havia algo que Junna estava escondendo. Mas, mesmo assim, não senti necessidade de descobrir.
Se Junna, que evitava e detestava interagir com os outros a ponto de se isolar na enfermaria, ainda estava disposta a aceitar a minha presença...
(Shigure) “Tenho um favor para pedir, no entanto.”
“...Um favor?”
Junna olhou para mim. Encontrei seus olhos um tanto ansiosos e sorri. “Sim.”
“De agora em diante, não apenas na sala de audiovisual, mas... posso vir te ver na enfermaria também? No intervalo do almoço, por exemplo. Aqui o clima também não importaria.”
“...!”
Os olhos de Junna se arregalaram. Uma alegria vívida espalhou-se por seu rosto, que antes estava pintado de surpresa, mas, no momento em que seus lábios se abriram e um sorriso estava prestes a florescer...
“S-Sim...”
Junna olhou para baixo, escondendo rapidamente a expressão. Ela se inquietou na cama. O sol brilhante atravessava sua franja caída, iluminando o preto e o azul-violeta. Espreitando-me por entre os fios, Junna respondeu com uma voz que suprimia as emoções.
“Tudo bem. Eu almoço aqui também... Então, você quer... almoçar junto? Nós dois...”
“Eu também estou aqui, sabe? Desculpe estourar a bolha de vocês.” — Akagi, que havia lido o ambiente e praticamente se tornado parte do cenário, saiu do “mudo” e deu um sorriso irônico.

☂
Almoçar na enfermaria era uma experiência inédita para mim. Nem na sala de aula, nem no refeitório, mas na enfermaria. O espaço, impregnado com o cheiro de desinfetante, era, no entanto, bem climatizado e confortável.
Tínhamos acabado de mudar para os uniformes de verão no início da semana passada e, embora a chegada definitiva do verão ainda estivesse um pouco distante, um dia ensolarado como o de hoje ainda era úmido e quente.
Em uma escola como a nossa, onde apenas locais limitados, como a sala dos professores e a biblioteca, tinham ar-condicionado, esta sala era um oásis precioso.
“Especialmente quando está quente, um número incômodo de pessoas vem se amontoar aqui.” — Disse Akagi, dando de ombros com seus ombros expostos enquanto se sentava em sua cadeira com as pernas cruzadas. — “Mesmo que não estejam realmente doentes. É por isso que faço questão de agir da forma mais horrível possível, para que os alunos sintam que ‘querem evitar usar este lugar o máximo possível’.”
Que tipo de postura é essa para uma enfermeira escolar? — engoli esse retruque junto com um pedaço de frango frito.
Junna, sentada ao meu lado, cutucava os pimentões verdes em seu bentô com os hashis e disse:
“Você é horrível sem nem precisar se esforçar, Sensei. É por isso que está cobrindo a boca com uma máscara?”
“Amamori.” — O rosto de Akagi se abriu em um sorriso por baixo da máscara. — “Eu vou te mandar para o hospital.”
“Que tipo de coisa é essa para uma enfermeira escolar dizer!?” Não pude deixar de intervir, mas Junna não se abalou.
“Sem violência. Sem abuso verbal, também.”
“ Hmph ... Esses pimentões verdes. Não os deixe sobrar, ouviu?” — Akagi mudou de assunto casualmente. Para as duas, esse era provavelmente um diálogo comum. — “Se você deixar até um único pedaço, não faço mais o seu almoço.”
“...Você é tão má.” Junna franziu a testa e levou o pimentão verde que estivera cutucando com os hashis à boca.
“—Hm... Não é tão amargo quanto eu pensei. É até que bom?” — Desviando meu olhar da Junna, que piscava surpresa, olhei para Akagi à minha frente.
“Foi você quem fez o bentô da Junna, Sensei?”
“Sim. A Amamori é cheia de frescura para comer.”
O bentô que Junna havia espalhado era pequeno, como se esperaria de uma garota, mas tinha muitos itens diferentes, era colorido e parecia que muito trabalho fora dedicado a ele. Pimentões verdes salteados com peixinhos, omelete enrolado com shiso, kinpira de cenoura e bardana, brócolis, porco frito com gengibre... O arroz era de sete grãos, polvilhado com furikake de shiso vermelho. E de sobremesa, havia até iogurte com uma geleia vermelha.
“Se eu a deixar por conta própria, ela só come coisas como pães doces e salgadinhos, coisas que fazem mal para ela. Então, como enfermeira da escola, preparo refeições saudáveis e nutricionalmente equilibradas para ela.”
“Todo dia?”
“Todo dia. E, para constar, não uso nenhum ingrediente de loja, tudo é feito em casa.”
“Is-isso é incrível...”
[Almeranto: Quem é essa enfermeira? A mãe dela?]
Encarei o frango frito congelado do meu próprio bentô e resmunguei. Acho que coisas prontas são bem gostosas, mas a dedicação dela está em outro nível.
“A boca dela é a pior”, disse Junna, mastigando o porco com gengibre, que fora feito com bastante cebola fatiada finamente e caramelizada, e fez um sinal de positivo. “Mas a comida dela é a melhor.”
“Ora, obrigada.” — Akagi semicerrou os olhos e sorriu. Revi minha opinião sobre ela.
“Você é o modelo de uma enfermeira escolar, Sensei...”
Talvez ela seja apenas boca-suja e, na verdade, seja uma boa professora que se importa com seus alunos.
“Honestamente, eu achei que você fosse uma pessoa mais assustadora. Exatamente como diziam os boatos.”
“...Boatos? Que tipo de boatos?”
“Que quando alguém batia na porta, você dizia ‘espere’ como se estivesse comandando um cachorro, e a pessoa ficava esperando por cinco minutos.”
“Isso era para dar tempo da Amamori se esconder.”
“Que quando alguém dizia que estava se sentindo mal e pedia para usar uma cama, você dizia para dormir no chão.”
“Isso é porque eles estavam claramente fingindo. Não tem problema eu vadiar, mas não permito que os alunos o façam.”
“Que seu jeito de tratar os ferimentos e sua fala eram rudes, e as pessoas iam para curar uma ferida física e saíam com uma mental.”
“Isso é bobagem. Deixando meu modo de falar de lado, meu tratamento foi gentil e cuidadoso, não foi?”
“Que um grito que não parecia ser deste mundo foi ouvido lá de dentro.”
“Aquilo era death growl . Eu estava ouvindo Crossfaith ou A Crowd of Rebellion no máximo.”
“Por favor, pare de tocar rock pesado na enfermaria.”
“Talvez fosse o Maximum the Hormone ou Fear, and Loathing in Las Vegas que eu estava ouvindo?”
“Junna, você deveria usar seus fones também.”
“Você nunca sente o desejo de não apenas ouvir a música com os ouvidos, mas senti-la com o corpo todo...?”
“...Sinto, mas estou dizendo que você deveria escolher o local, Garota Barulhenta.”
“É. NOISEMAKER é legal, não é?”
“Não estou falando da banda. Eu gosto especialmente de ‘NAME’.”
Enquanto brincávamos um com o outro do nosso jeito habitual, Akagi soltou um “Heh heh...” pela garganta. Ela apoiou a bochecha na mão em sua mesa e nos observou.
“Vocês dois se dão tão bem. Esta é a primeira vez que vejo a Amamori tão tagarela.”
“...É mesmo?”
Eu tive a impressão de que ela era apenas direta e, na verdade, falava muito — ou melhor, fazia muitas piadas. Aparentemente, ela fica quieta quando está só com a Akagi. Ela ficou quase completamente em silêncio durante a refeição também.
“Se serve de consolo, esta é a primeira vez que ela comenta sobre a minha comida. Tudo o que ela faz é reclamar que não gosta disso ou daquilo.”
“Estou impressionado que você continue fazendo para ela todo dia...” Eu me admirei novamente.
Quando olhei de soslaio para Junna, ela deve ter pensado que eu a estava repreendendo por sua atitude, pois virou o rosto com um bufo. Voltei meu olhar para Akagi e perguntei:
“Enfim, você não vai comer, Sensei? O almoço.”
Não havia bentô na frente de Akagi, e ela não mostrava sinal de que ia começar a comer. Akagi assentiu. “Ah.”
“Eu só como duas refeições por dia. Pulo o almoço. E geralmente apenas faço uma grande quantidade de bentôs de uma vez e embalo a porção que não consigo comer sozinha. Realmente não dá tanto trabalho.”
Eu não conseguia identificar a expressão de Akagi por causa da máscara mas, mesmo assim, sua consideração e preocupação com Junna eram mais do que aparentes, e senti que ela realmente era uma boa professora, afinal.
“...Sensei,” disse Junna, abrindo a boca. Ela encarou o rosto de Akagi, prestes a colocar em palavras a gratidão que geralmente mantém escondida no coração—
— mas não colocou. Na verdade, no momento seguinte, ela disse algo incrivelmente rude.
“Aposto que todo mundo na escola acha que você é feia.”
“...Amamori.” — Akagi sorriu, seus olhos não estavam sorrindo nem um pouco. — “Você não vai ganhar bentô a partir de amanhã.”
☂
Desde aquele dia, passei a visitar a enfermaria durante o intervalo do almoço e conseguia ver a Junna todos os dias, mesmo quando não estava chovendo.
No entanto, no dia seguinte e no outro também, a chuva caiu sem parar. Foi anunciado que a região de Kanto havia entrado em uma temporada de chuvas um pouco tardia. Como resultado, o tempo que eu passava com a Junna inevitavelmente aumentou e, como consequência —
“...Shigure. Quer um pouco de ninjin shirishiri ?”, perguntou Junna, que havia aproximado sua cadeira mais do que antes, para uma posição onde nossos ombros quase se tocavam. Mesmo que eu me afastasse sutilmente, ela diminuía a distância na mesma medida, então era inútil.
Um cheiro doce de shampoo emanava de seu cabelo preto-azeviche e brilhante.
“É uma delícia, sabia? Abre o bocão...”
“Coma você mesma.” Com isso, a bronca de Akagi veio voando de lado, sem perder o compasso.
“Não tente empurrar suas cenouras para os outros só porque você não gosta delas.”
“Você está enganada, Sensei. O objetivo não é empurrar minhas cenouras para ele, é dar comida na boca do Shigure. Por favor, não entenda errado.”
[Del: Desculpa reversa?? Que ideia…]
“............”

Deveria eu responder a isso? As palavras dela são tão grudentas, mas sua voz e expressão são tão secas que é difícil dizer se ela está brincando ou falando sério.
“Amamori.”
Akagi a castigou com um tom mais baixo e sério do que antes.
“Coma você mesma. Isso vai estragar o equilíbrio nutricional perfeito.”
“...Mmm.” Junna fez beicinho e largou os hashis. Fiquei interiormente aliviado. Se não fosse pela intervenção de Akagi, eu poderia ter ficado sem saber como reagir, tornando as coisas embaraçosas.
“...Vocês dois... São sempre assim tão grudentos?” — Akagi suspirou por baixo da máscara e cruzou os braços. Ela encarou nós dois e perguntou:
“O que vocês dois fazem na sala de audiovisual depois da escola?”
“Aproveitamos o isolamento acústico para fazer isso e aquilo...”
“Nós ouvimos a Junna tocar guitarra, ou apenas conversamos normalmente, eu acho”, respondi, ignorando o fraseado sugestivo de Junna.
“Ontem e anteontem, assistimos a filmes. Na tela grande.”
A sala de audiovisual é equipada com aparelhos e um projetor para reproduzir materiais didáticos visuais, ou seja, mídias como DVDs. Não se pode comer pipoca, já que é proibido comer e beber, mas é o ambiente perfeito para curtir um filme.
“...Ah. O que vocês assistiram?”
“Cada um recomendou um. Eu escolhi ‘Se7en’ e,”
“Eu escolhi ‘O Nevoeiro’.”
[Almeranto: Que filme bom que é ‘O Nevoeiro’. Se tiverem a oportunidade, assistam; o plot é incrível .]
“De todos os filmes deprimentes para escolher...”
“Junna e eu temos gostos parecidos. Em filmes, livros e música. O motivo de termos nos dado bem foi que nossos gostos em um gênero de nicho musical coincidiram.”
— Enquanto eu falava, Junna, ao meu lado, começou a cantarolar.
Junna ocasionalmente começava a cantarolar assim. Segundo ela, a melodia era o seu “humor do momento”, mas, em todas as vezes, era estranhamente agradável aos ouvidos e eu me via cativado.
“Música de nicho?”, Akagi perguntou novamente.
“Coisas um pouco mais antigas, como rock depressivo.”
Enquanto ouvia o cantarolar de Junna, continuei minha conversa com Akagi. Junna, cantarolando, parara de comer e balançava o corpo de um lado para o outro, apertando o celular contra o peito.
“Nós dois gostamos de uma banda chamada YOHILA.”
“—O quê?”
Akagi franziu a testa. Talvez ela não conseguisse me ouvir direito por causa do cantarolar de Junna.
“YOHILA. Eles ainda são uma banda indie, mas eu realmente amo as letras e a música deles... É uma banda nova que também é chamada de ‘A Nova Geração do Rock Depressivo’. Você não os conhece?”
“............”
Eu esperava que ela respondesse com um “Nunca ouvi falar” em um milésimo de segundo, mas Akagi ficou em silêncio. Ela me encarou com uma expressão indecifrável.
“Kurimoto, você—”
—E, justo nesse momento, houve uma batida na porta da enfermaria.
“...!” Junna deu um pulo de susto e parou de cantarolar.
Todos nos viramos para olhar para a entrada ao mesmo tempo. Deveria haver uma placa na porta dizendo “Ausente”, mas...
“Com licença!”
A porta foi deslizada sem a menor cerimônia.
As pessoas que apareceram foram um estudante alto com cabelo castanho claro e uma estudante esguia com rabo de cavalo — a dupla de amigos de infância, Yōjirō e Yamada.
A partir do momento em que a porta se abriu, o tempo parou, e um silêncio tenso preencheu o espaço que cheirava a desinfetante. Quem o quebrou foi...
“Err... Shigure?”
Yōjirō, que abrira a porta. Ele olhou para mim, apontou para a pessoa ao meu lado e perguntou:
“Poderia ser ela... a famosa ‘Amamori Junna’-chan?”
☂
“—A famosa?” Junna me encarou. Desviei o olhar dela e cocei a nuca com um “Err...”
É fácil imaginar por que isso aconteceu.
Até eu começar a vir para cá, eu costumava almoçar com o Yōjirō na sala de aula. Então, do nada, eu disse a ele: “A partir de amanhã, vou almoçar em outro lugar”.
Mesmo que eu tivesse inventado uma desculpa como “fiquei próximo de um cara de outra turma no treino de atletismo recentemente...”, é natural que ele ficasse desconfiado.
“O Shigure foi quem nos contou”, disse Yōjirō, aproximando-se com audácia e um sorriso charmoso em seu rosto bonito. “Que ele conheceu uma garota super bonita!”
“Uma garota super bonita. Super bonita... Super... Hmmm? ”
O peso do olhar de Junna na lateral do meu rosto pareceu aumentar. Eu não podia negar, já que era a mais pura verdade. Decidi mudar de assunto.
“...Vocês me seguiram?”
“Sim. Afinal, acabamos de ter aquela conversa. Achei que tinha algo suspeito, então decidi conferir quem o Shigure estava realmente encontrando!”
“E-Eu fui contra, sabe?”, disse Yamada, que, ao contrário de Yōjirō, que admitiu sem um pingo de vergonha, fechou a porta da enfermaria, lançou um olhar nervoso para Akagi e, após sussurrar um “C-Com licença...”, aproximou-se de nós. “Mas eu estava curiosa. A garota que o Kurimoto-kun está tentando conquistar—”
“Eu não estou tentando conquistar ninguém!?”
Tenho certeza de que neguei isso gentilmente quando falei da Junna para a Yamada. Em primeiro lugar, eu gostaria que ela não falasse disso na frente da própria pessoa.
Como esperado, Junna voltou seus olhos sanpaku para mim e...
“………………”
...ficou me encarando como se tivesse algo a dizer. Achando que ela suspeitava que eu fosse um garanhão, eu disse: “E-Eu não estou dando em cima de você, tá?”, só por precaução, mas a testa de Junna franziu. Será que isso foi desnecessário?
“De qualquer forma, Shigure. Essa garota é seriamente super bonita!”
Quem me lançou um bote salva-vidas foi Yōjirō. Junna, cujo rosto ele estava espiando de perto, recuou com um “Hk!?” e congelou.
Como se para tranquilizá-la, Yōjirō aprofundou o sorriso: “Prazer em conhecê-la, Amamori-san! Eu sou Kuzumi Yōjirō. O melhor amigo do Shigure.”
“Melhor amigo? Você quer dizer má influência.”
“Eu sou Yamada Haruka! Com o Kurimoto-kun, nós somos... tipo, amigo de amigo?”
“Eu esperava que você dissesse apenas amigos, mas...”
“............” Junna comparou silenciosamente os rostos de Yōjirō e Yamada.
“Yōjirō e Yamada...”, ela murmurou, inclinando a cabeça. “RAD e Jennifer Yamada-san?”
“Ela me chamou pelo primeiro nome, sim!”
“Quem é Jennifer!? Eu sou Haruka!”
“Nós não somos do Misoshiru.”
Yōjirō, Yamada e eu reagimos e retrucamos individualmente. Junna apontou para mim e anunciou:
“Shigure, você passa. Os outros dois reprovados.”
“Por quê!?”
Os gritos de Yōjirō e Yamada se sobrepuseram. Junna não respondeu e se escondeu atrás de mim.

Para constar — RADWIMPS, também conhecida como RAD, é uma banda de rock famosa liderada por Noda Yōjirō, e “Jennifer Yamada-san” é uma música relativamente obscura, mesmo entre os grandes trabalhos da RAD.
Misoshiru's é uma misteriosa banda mascarada que possui uma amizade profunda com a RAD e dizem ter fornecido a eles “Jennifer Yamada-san”.
“—E-Erm, Amamori-san?”
“…………”
“Alôôô?”
“Eu não interajo com pessoas que reprovam,” Junna respondeu rispidamente a Yōjirō e Yamada, que tentavam falar com ela, e sentou-se de volta em sua cadeira. Ela colocou os fones de ouvido que estavam pendurados em seu pescoço, deu o play na música e retomou sua refeição em silêncio.
Na tela de seu celular, que estava sobre a mesa — a música que tocava era “Hikikomori Rollin’”, da RADWIMPS.
[Del: Caso não saibam, a RAD é responsável também pela trilha sonora de filmes de animes marcantes, tais como os clássicos Your Name, Weathering with You e Suzume.]
O som da chuva, o zumbido do ar-condicionado e o som alto da música escapando de seus fones coloriam o silêncio que se seguiu.
Vendo Junna completamente retraída em seu próprio mundo...
“A Amamori é extremamente tímida com estranhos,” Akagi, que estivera observando a situação quietamente, suspirou e tomou a palavra.
“Ela frequenta a escola a partir da enfermaria. Seria de grande ajuda se pudessem manter isso apenas entre vocês.” — Ao ouvirem as palavras de Akagi, Yōjirō e Yamada trocaram olhares.
Eles olharam para Junna, que continuava a mover seus hashis silenciosamente com um rosto emburrado, ainda usando os fones.
“P-Parece que nós...”
“Invadimos o espaço, não foi?” Eles pareciam abatidos e juntaram as mãos em um pedido de desculpas para mim. “— Foi mal!” Eu também senti vontade de me desculpar.
☂
“Aquela atitude foi terrível, sabe.”
Naquele dia, depois da escola. Sozinho com Junna na sala de audiovisual, toquei no assunto do que havia acontecido durante o dia.
O tempo continuava chuvoso. Estava úmido hoje, então o ar-condicionado estava ligado. Mas o motivo de o ar parecer mais frio que o normal provavelmente não era apenas por causa disso.
“Foi errado da parte deles me seguir e invadir daquele jeito, mas ainda assim, ser tão hostil... ei, para com isso! Não coloque os fones de ouvido.”
“ ...Mmm. Você é barulhento, Shigure.”
Tendo os fones que estava prestes a colocar abaixados, Junna franziu a testa levemente.
As emoções negativas de Junna tinham mais probabilidade de aparecer em seu rosto do que as positivas. Ela cerrou os lábios e resmungou:
“Eu te disse, não disse? Não quero me envolver desnecessariamente... com pessoas desnecessárias. Estou bem sendo hostil.”
“Junna...”
“Não vou ouvir mais sermões. Vou até bloquear a voz do Shigure.” Junna ergueu seus fones de ouvido de alta performance com cancelamento de ruído, me ameaçando. Parecia que a aversão dela por outras pessoas era mais séria e severa do que eu pensava.
“Tudo bem, eu não vou dizer... não direi mais nada.” Suspirei e levantei as duas mãos.
“Deixe-me te perguntar uma coisa em vez disso,” olhei Junna direto nos olhos e perguntei: “Por que você é tão amigável comigo? É porque temos gostos parecidos?”
“Isso faz parte, mas...” — Junna desviou o olhar e olhou para baixo. — “O motivo principal é... um palpite?”
“Um palpite?”
“E sua voz, sua aparência, sua vibe... e muito mais.”
“Não fale como se fosse um artista de festival.”
“É o mesmo que quando ouço uma música que gosto. Senti intuitivamente: ‘Ah, isso é bom’. Eu não pensei, eu senti. Esse é o motivo, okay?”
“...Entendo.”
“E tem mais.”
“Opa, tem mais!?”
“Sim. Na verdade, o headliner ainda não foi anunciado.”
Um headliner é o artista mais famoso que se apresenta em um festival de música, a atração principal. Ela provavelmente está tentando dizer que há outro motivo, ainda maior, para ser tão amigável comigo, mas talvez seja indelicado perguntar agora. O headliner geralmente é anunciado primeiro, no entanto — vou me abster de fazer esse retruque também.
“Ei, Shigure,” Junna murmurou em uma voz tão baixa que poderia ter se perdido no som suave da chuva, mas que de alguma forma chegou claramente aos meus ouvidos.
“Mesmo depois de descobrir que eu frequento a escola pela enfermaria, você ainda me trata da mesma forma. Então... está tudo bem? Se eu te contar meu outro ‘segredo’.”
“—Huh?” eu disse, surpreso. Ao meu lado, Junna começou a mexer no celular.
A capinha de silicone azul-violeta. A mesma cor de hortênsia do sapo pendurado no zíper do estojo da guitarra e da cor interna de seu cabelo.
E hortênsias também são conhecidas como—
“Yohira.”
“...Este é o meu LINE. Me adiciona.”
“O-Oh...”
Você não tinha dito que não tinha? — pensei, mas peguei meu próprio celular e escaneei o código QR para adicionar amigos exibido na tela.
O nome da conta dela era “JUN”, e seu ícone era uma ilustração apresentando uma hortênsia sendo atingida pela chuva. Era o logotipo da banda YOHILA.
“Foi uma mentira quando eu disse que não tinha antes... Estou usando principalmente para o ‘trabalho’ agora, então achei que meu nome me entregaria, e não podia te contar.”
Uma brisa soprou, e um aroma doce provocou meu nariz. Quando levantei o olhar da tela do celular, os olhos de Junna estavam bem na frente dos meus. Fui engolido por seus olhos, que eram como lagos profundos e límpidos, e meu fôlego falhou.
“Bem, você pode não saber, Shigure, já que não procura informações sobre ‘criadores’. JUN é o meu outro nome.”
Espiando meu rosto de perto, Junna revelou. A identidade especial que ela vinha escondendo tão cuidadosamente.
“Eu sou a vocalista, guitarrista, tecladista e compositora da YOHILA.”
PLAYLIST DAS MÚSICAS QUE SÂO MENCIONADAS NA OBRA. (O autor tem um ótimo gosto)
Spotify
Youtube
(Crédito para o @Thang por reunir)
Traduzido por Moonlight Valley
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