Capítulo 3: Sem Necessidade de Sol Em Um Céu de Junho
Capítulo 3: Sem Necessidade de Sol Em Um Céu de Junho
YOHILA é uma banda japonesa de rock alternativo centrada na música JUN.
Eles são conhecidos como “a nova geração do rock depressivo” devido à visão de mundo pessimista e misantrópica de suas letras.
- Visão Geral
Em 31 de julho de 20XX, iniciaram suas atividades postando um lyric video de “Hydrangea and the Ghost” em um site de compartilhamento de vídeos. Continuaram a lançar músicas de forma enérgica e fizeram sua estreia em CD no dia 1º de novembro do mesmo ano, pelo selo indie “FABLE RECORDS”.
Embora sejam apresentados como uma banda, os membros — além do guitarrista, vocalista (e tecladista) JUN — não são fixos. A formação varia dependendo da música. Além disso, pouquíssimas informações sobre JUN foram reveladas, e quase não há exposição na mídia, inclusive em entrevistas. Mesmo após a estreia, eles não realizaram shows ao vivo, focando exclusivamente na produção musical.
Membros:
- JUN:
Mulher. Idade desconhecida. Responsável pelos vocais, guitarra, teclado e composição de todas as músicas.
“Na verdade, eu tive o pressentimento de que ‘poderia ser’ desde a primeira vez que nos encontramos.”
Desviei o olhar da página da Wikipedia aberta no meu celular e encarei Junna.
“Eu não costumo pesquisar sobre bandas, mas fiquei curioso sobre a YOHILA... Eu conhecia o nome JUN e sabia que JUN escondia sua identidade.”
Ei.
Junna, você é—
—a JUN da YOHILA?
Lembrei das palavras que estava prestes a dizer, que foram cortadas pelo sinal da escola e desapareceram. Depois disso, achei melhor não tocar no assunto por conta própria e guardei a dúvida no fundo da mente.
“Sua voz é praticamente a mesma.”
“...Eu sei, né?” respondeu Junna em um tom monótono. Como ela já era desprovida de emoção, não fazia muita diferença.
“Então, sim.”
Em uma tarde chuvosa depois da escola. Nós dois na nossa sala de audiovisual de sempre, passando o tempo como de costume, sorri para Junna.
“Nada mudou. Agora que tenho certeza de que a Junna é a JUN da YOHILA... nada mudou.”
“...É.” Junna assentiu e deu um sorriso fraco. “Obrigada, Shigure.”
Em seguida, ela começou a cantarolar e a anotar uma melodia em um caderno de partituras. Eu já tinha ouvido sobre as melodias que surgiam na cabeça dela e sobre seu processo de composição durante nossa ligação ontem à noite, então apenas escutei em silêncio seu cantarolar e observei seus dedos brancos e finos dançarem levemente.
Murmurei: “É uma melodia bonita.”
“Não é?” As bochechas de Junna relaxaram em satisfação. “É o som que você, Shigure, me fez tocar. Ah... tem uma música em que estou trabalhando que usa o ‘som do Shigure’. Quer ouvir?”

“...Tudo bem mesmo?”
“Sim. A letra ainda não está pronta, então é só um cantarolar, e tudo, menos a guitarra e o piano, é programado... Se você não se importar com uma versão inacabada, eu gostaria que a ouvisse. Quero saber o que você acha.”
“Eu adoraria.”
Sim era a única resposta possível. Ter a chance de ouvir em primeira mão uma música nova da minha banda favorita — e ainda por cima uma versão em andamento que nunca seria lançada ao público — era uma honra grande demais.
Embora feliz, eu também estava nervoso e, enquanto eu endireitava minha postura...
“Shigure, lá atrás. Chega pro lado.” Junna se levantou e mudou da fileira de trás para a mesma que a minha, sentando-se ao meu lado. Por algum motivo, ela segurava um par de fones de ouvido com fio. Não os fones sem fio, mas aqueles que ela carregava no pescoço.
“...Por que você está vindo para o meu lado? Se você pudesse apenas me entregar...”
“Só vai.” Junna me empurrou e tomou seu lugar à força.
A parte macia do braço dela tocou no meu, e um aroma doce pairou no ar. Fiquei ainda mais rígido com um tipo diferente de tensão.
“Eu coloco para você.” Junna inseriu os fones nos meus canais auditivos congelados. Orelha direita, depois a esquerda. No lado dela, a orelha direita, ela apenas encaixou. “Prontinho.”
Para o lado oposto, a orelha esquerda, Junna teve que passar o braço por volta de mim e se inclinar. O perfume doce se intensificou, e algo mais macio que seu braço pressionou meu corpo.
“É difícil de colocar...” Ter ela se contorcendo naquela posição era insuportável. Seu hálito quente fazia cócegas no meu ouvido, e eu já nem conseguia mais respirar direito.

“...Hm. Pronto. Okay, vou dar o play.”
Justo quando eu estava prestes a atingir meu limite prendendo a respiração, Junna finalmente se afastou, mexeu no celular e tocou a música. A qualidade do som era baixa, talvez por ter sido gravada em casa, e a bateria e o baixo programados eram simples. Mas era isso que a tornava especial. Uma demo bruta que normalmente não se teria a chance de ouvir.
Escutei atentamente—
“............”
—ou não. Talvez por estar curiosa sobre a minha reação, Junna ficou espiando meu rosto o tempo todo enquanto eu ouvia a música, me encarando. E, além do mais, nossos corpos estavam pressionados um contra o outro novamente. Honestamente, eu não conseguia me concentrar na música de jeito nenhum.
“O que achou?”
A música, que pareceu longa o suficiente para valer por duas ou três, terminou. Quando minha opinião foi solicitada, tirei os fones e respondi enquanto os devolvia.
“ Err, é... foi boa. Sim.”
“............Mmm. Sua reação foi meio morna... Não foi boa?” ela perguntou ansiosa, e eu entrei em pânico.
“D-De jeito nenhum! Eu só estava nervoso, só isso. Sério, foi incrível. Eu gosto.”
“...Entendo.” Olhando fixamente nos meus olhos, com a mão tocando a minha enquanto pegava os fones, Junna disse: “Eu também gosto.”
—Com o rosto sério. Meu coração falhou uma batida. Senti como se meu coração tivesse sido apertado por uma prensa.
Ao me ver paralisado, Junna cerrou os olhos e sorriu. Ela acrescentou em tom de brincadeira: “Desta música.”
“A-Ah...”
Mesmo sabendo que Junna era a JUN da YOHILA, minha atitude e postura em relação a ela não mudariam. Mas e quanto a Junna?
Parecia que tínhamos ficado muito mais próximos do que antes de ela revelar sua identidade.
Tanto física quanto mentalmente.
☂
“Shigure, o que você acha que é o mais importante para se aproveitar a música?” perguntou Junna, enrolando o fio do fone de ouvido.
A posição dela não tinha mudado — continuava ao meu lado, tão perto que nossos ombros podiam se tocar. Respondi, tentando sutilmente colocar certa distância entre nós enquanto me empertigava.
“O quê, tipo... bons fones de ouvido?”
“É. Isso também é importante, mas...” Junna instantaneamente se aproximou, fechando a distância até que ela fosse zero — ou melhor, menos que zero. Nossos ombros estavam colados.
“Tem algo ainda mais importante, não tem?” Ela aproximou a boca do meu ouvido. “—Os seus ouvidos”, sussurrou.
Seu hálito úmido, como uma brisa após uma chuva de verão, percorreu meu rosto. Instintivamente, cobri o ouvido com a mão e me afastei dela num solavanco.
“O-O quê? Meus ouvidos...?”
“Você não pode escutar se não conseguir ouvir. É óbvio, né?” Junna assentiu, concordando consigo mesma. Ela não veio atrás de mim desta vez.
Ela guardou os fones agora enrolados em sua mochila, que estava na mesa atrás dela, e começou a remexer lá dentro.
“E sendo assim,”
“...E sendo assim?”
“Acho que vou limpá-los.” Com isso, Junna tirou um limpador de ouvido. Era um modelo clássico: uma haste fina de bambu com uma pequena espátula chata em uma extremidade e um tufo de penugem branca e macia na outra.
“E sendo assim,” disse Junna, sentando-se novamente em sua cadeira e batendo nas próprias pernas. “Pode vir.”
“P-Pode vir...?”
“Estou dizendo para você deitar aqui.”
“Espera, por quê?!”
“Por quê? Para limpar seus ouvidos, é claro...”
“Não é isso que eu quis dizer. Por que você vai limpar meus ouvidos?!”
“Limparei seus ouvidos para que você possa aproveitar a música ainda mais. Eu já te disse isso, não disse?”
Junna acenou com o limpador como se fosse a batuta de um maestro, com um olhar de exasperação.
“...É, eles com certeza precisam de uma limpeza. Parece que você não está ouvindo o que eu digo. Vou ter que fazer uma limpeza bem caprichada… e sendo assim, deita logo?”
Ela não está sendo um pouco autoritária com esse “e sendo assim” dela?
“Não, eu entendo a lógica. É o motivo que eu não captei direito, ou talvez a situação esteja avançando rápido demais para eu acompanhar. Além disso, se você me emprestar o limpador, eu mesmo posso fazer.”
“Não.” Tentei resistir a ser levado pela correnteza, mas Junna foi irredutível.
“É perigoso fazer sozinho, já que você não enxerga. Você pode riscar o interior do ouvido. É mais seguro ter outra pessoa fazendo... e sendo assim, deite?”
Pat, pat, pat, pat. Ela deu tapinhas nas coxas, me apressando.
[Del: “...Ficando saidinho de repente. Seu senso de espaço pessoal está com defeito ou algo assim?” - Junna, prólogo.]
Olhei para a entrada da sala de aula. A porta estava trancada, então não havia perigo de ninguém entrar. Desisti e ergui as duas mãos.
“...Está bem, tudo bem.”
E então, olhei para as pernas de Junna. Suas pernas brancas e puras se estendiam sob a bainha da saia.
Suas coxas fartas brilhavam sob as luzes fluorescentes, com o tecido fino da saia pressionando o vale entre elas. Por causa disso, todo o contorno de suas pernas estava claramente visível.
Na verdade, a saia dela parecia... mais curta que o normal.
“Pare de devorá-las com os olhos e deite-se.”
“E-Eu não estava... devorando nada.”
O fato de a minha negação ter saído tão fraca provavelmente foi só impressão minha também.
Desviei o olhar das pernas de Junna, tirei meus sapatos de interior e me deitei de lado no banco comprido.
Após verificar a posição do meu “travesseiro” por cima do ombro, abaixei cuidadosamente a parte superior do corpo.
“Hyaa?!”
No momento em que a parte de trás da minha cabeça as tocou, Junna soltou um som.
“...Não faça barulhos estranhos.”
“É-É que... faz cócegas...” Junna desviou o olhar e se mexeu. Havia uma sensação macia atrás da minha cabeça. Eu sentia tantas cócegas quanto ela.
Não fisicamente, mas mentalmente.
Um ângulo totalmente novo: olhar para o rosto de Junna tendo o teto da sala de aula como pano de fundo.
Ao ver o volume generoso de seu busto projetando-se e bloqueando minha visão de baixo, não pude deixar de pensar novamente: “Cara, ela é realmente bem desenvolvida...” Enquanto eu encarava, Junna me deu um peteleco leve na testa.
“Sua cabeça. Vire-a para o lado.”
“...Sim.”
Hesitei por um segundo sobre qual lado virar, mas escolhi a direita, oferecendo meu ouvido esquerdo. Suas coxas frescas e macias tocaram minha bochecha, e meu ouvido direito roçou no tecido da saia.
No meu campo de visão estava o espaço de armazenamento sob a mesa comprida e o banco. Foquei minha atenção naquela cena inorgânica, tentando suprimir as batidas do meu coração, esperando que elas se perdessem no som da chuva.
“Vejamos agora...”
Senti Junna espiando meu canal auditivo. Sua voz ficou mais próxima e o perfume doce se intensificou.
“...Hmm. Estão surpreendentemente limpos.”
Era a primeira vez que alguém olhava dentro dos meus ouvidos; havia um leve embaraço indescritível nisso, e comecei a me inquietar.
“Certo então, lá vou eu — estou... colocando... tudo bem?”
“T-Tudo bem. Seja gentil.”
“Pode contar comigo. Acho que vai doer um pouco quando eu romper a membrana, porém...”
[Almeranto: Essa conversa fora de contexto fica muito suspeita kkkkkkk.]
“Dá para não fazer piadas estranhas numa situação dessas?”
Se ela rompesse a membrana — meu tímpano — eu passaria longe de aproveitar qualquer música. Vendo meu medo genuíno, Junna se desculpou.
“Desculpe. Falo sério agora, então não se mexa.”
“...Okay.”
Fechei os olhos. O limpador foi inserido lentamente no meu canal auditivo e, com a pequena espátula na ponta, ela começou a raspar cuidadosamente... scritch... scritch...

Houve um pouco de dor. Mas a sensação era boa. O som de raspado do instrumento contra as paredes do meu canal auditivo e os pelos finos ecoava, soando bem ao lado do meu tímpano.
“............”
Junna estava em silêncio, talvez concentrada na tarefa, e apenas nossa respiração podia ser ouvida. E além disso, o som distante da chuva. Com os olhos fechados, meus outros sentidos se aguçaram.
Com a audição, eu sentia a respiração de Junna, o som da chuva forte e o ruído do limpador.
Com o olfato, sentia um aroma doce e sensual, como uma mistura de flores e sabonete.
Com o tato, sentia o movimento da espátula raspando lá dentro e o calor suave contra minha bochecha.
“—Uau. Peguei um grande. Te mostro depois.”
“A-Ah...”
Raspa, puxa, insere e raspa, puxa e insere, e scritch-scritch-raspa . Após repetir esse movimento várias vezes: “...É. Acho que é só isso.”
Junna murmurou e soprou uma lufada de ar suave no meu canal auditivo. Como ela fez isso sem aviso, levei um susto e soltei um ganido.
“Uwah?!”
“Hyah?!”
O grito estranho da própria Junna se sobrepôs ao meu.
“Shigure. Não se mexa, faz cócegas...”
“...Você também, Junna. Não sopre de repente no meu ouvido.”
“É para limpar. Para soprar a cera fininha... Fuuu .”
“Oah?! E-Ei, para com isso!”
“Hehe. Sua reação é engraçada, Shigure. Seu ouvido está vermelhinho. É fofo”, Junna deu uma risadinha. Eu quis ver a expressão dela e tentei mover os olhos, mas ela segurou meu rosto no lugar com uma mão fria.
“Não, não se mexa. Estou fazendo os toques finais.”
O tufo de penugem branca da outra extremidade foi inserido e movimentado. As fibras fofas faziam cócegas.
“ —Mm. Prontinho.”
Puxando a penugem do meu canal auditivo, ela deu um “fuu” nele e disse com satisfação. Comecei a me sentar, mas...
“Shigure, ainda não. Agora é o ouvido direito”, Junna me deteve. “Vire para cá.”
“...Sim.”
Fiz o que Junna mandou, rolando sobre o travesseiro macio de colo — ou melhor, de coxas — e mudando minha posição.
O que significava que, agora, o corpo de Junna estava bem na frente do meu rosto.
“Para o direito, talvez eu seja um pouco mais cuidadosa... e leve o meu tempo.”
O perfume doce ficou mais forte. Aquele interlúdio estranhamente prazeroso, porém doloroso — onde o embaraço definitivamente superava o conforto — parecia que continuaria por mais um bom tempo.
☂
Pouco depois das 17h, ainda era cedo demais para os alunos dedicados às atividades de clubes voltarem para casa, mas a maioria dos outros estudantes já havia partido.
“Até amanhã.”
Junna, com a capa da guitarra nas costas e a mochila escolar na mão, olhou para trás de dentro da sala de aula e se despediu. Levantei a mão e respondi: “Sim.”
“Até amanhã.”
“...Mm.”
Junna saiu da sala de audiovisual. Quando a porta se fechou e o silêncio foi restaurado, o som da chuva subitamente pareceu mais alto. Como no momento em que você retira fones de ouvido com cancelamento de ruído.
“Haa...”
Soltei um suspiro profundo.
Desde que descobri que Junna frequentava a escola a partir da enfermaria e comecei a almoçar com ela e Akagi, passamos a nos ver mesmo quando não estava chovendo, mas o tempo que passávamos juntos era limitado. O intervalo de almoço durava menos de uma hora e, mesmo com o tempo depois das aulas, eram no máximo umas três horas.
Eu quero estar mais com ela , pensei.
“Não consegui perguntar de novo hoje.”
As palavras “Quer ir embora junto comigo?” haviam ficado presas na minha garganta.
Desde que nos conhecemos, tornou-se uma espécie de regra não dita nos separarmos ali, e nunca tínhamos saído da sala de aula lado a lado. Todas as vezes, eu pensava: Hoje é o dia , mas, quando chegava a hora, eu hesitava e acabava não dizendo.
Eu pensava demais, preocupado que pudéssemos atrair atenção desnecessária ou que boatos estranhos surgissem se fôssemos vistos juntos, e engolia minhas palavras.
Além disso, sempre chovia nos dias em que eu encontrava Junna na sala de audiovisual. Como ambos tínhamos guarda-chuvas, também era difícil caminhar lado a lado.
Embora, talvez, tudo isso fosse apenas uma desculpa que eu criava para a minha própria covardia.
“...Bem, tanto faz. Está bom assim... Já é o suficiente.”
Coloquei meus fones e, enquanto ouvia uma música da YOHILA criada pela Junna — JUN — apaguei as luzes, tranquei tudo, devolvi a chave e me dirigi ao saguão de entrada.
Os guarda-chuvas no suporte eram escassos. A maioria era de vinil transparente e barato, indistinguível sem algum tipo de marcação.
Entre eles, havia um guarda-chuva que se destacava.
Um guarda-chuva azul-violeta. O rosto de Junna brotou na minha mente, mas ela já tinha ido embora, então devia pertencer a outro aluno.
Procurei entre o bando de guarda-chuvas de vinil sem originalidade e peguei o meu, que tinha um adesivo com o logo da banda YOHILA (um brinde da edição limitada de lançamento do último single deles) no cabo branco.
Justo quando eu estava prestes a sair, alguém saltou de trás de um pilar. Como se estivesse esperando uma deixa, uma pequena estudante apareceu.
“...?!”
Meus olhos se arregalaram e tirei os fones.
“J-Junna... você ainda não foi para casa?”
“Nop. Roubaram meu guarda-chuva”, disse Junna, com os olhos baixos e a cabeça pendida, desanimada.
Olhei para o suporte de guarda-chuvas. No meio da floresta de vinil transparente, o azul-violeta cor de hortênsia se destacava mesmo à distância.
“Tem um monte de guarda-chuvas de vinil aqui. Você não poderia simplesmente pegar um emprestado e devolver depois?”
“Isso... não é nada rock 'n' roll.”
O que é “rock 'n' roll”? — Junna bateu no chão com o salto do sapato.
“Não é certo usar as coisas dos outros... mas está caindo o mundo lá fora, não está? Sem um guarda-chuva, vou ficar encharcada, não vou? E sendo assim, Shigure.”
Ela olhou para mim. A capa da guitarra não estava mais em suas costas.
“...Posso entrar debaixo do seu também?”
☂
“E a sua guitarra?”
“Deixei na enfermaria. Ela tem capa impermeável, mas prefiro não molhar se puder evitar... Além disso, ela atrapalha. E é pesada. Meus ombros ficam muito tensos.”
“Entendo. É, carregar isso todo dia na ida e vinda da escola deve ser um fardo e tanto.”
Enquanto conversava com Junna lado a lado, dei uma olhada ao redor.

Felizmente, não havia mais ninguém no saguão de entrada. A chuva caía com força, e uma grande quantidade de água jorrava das calhas como uma cachoeira.
“É. E isso aqui também... atrapalha, é pesado e deixa meus ombros tensos. Estou num beco sem saída porque, ao contrário da minha guitarra, não posso simplesmente deixar para trás.”
“...Ah. Deve ser difícil.”
Dei uma resposta vaga enquanto ainda olhava para fora e abri meu guarda-chuva de vinil barato.
“Vamos, vamos indo. Pare de dizer bobagens e—”
Algo macio e fofinho tocou o braço que segurava o guarda-chuva, e minhas palavras ficaram presas na garganta. O cheiro da chuva se misturou à fragrância de flores.
“Bobagem? ‘Isso’ aqui é bobagem para você, Shigure?”
“V-Você está perto demais. Se afasta um pouco.”
“Eu me afasto se você responder à minha pergunta. Você prefere os grandes ou os muito grandes?”
“Não tem uma opção ‘pequenos’...?”
“Você gosta dos pequenos?”
A voz de Junna assumiu um gélido cortante, como chuva congelante, e ficou grave. Um calafrio subiu pela minha espinha e eu me empertiguei.
“E-Eu gosto dos grandes.”
“E quanto à altura?”
“Altura? Eu não me importo muito, de qualquer jeito—”
“............”
“E-Eu gosto de garotas mais baixas... eu acho? Se tiver que escolher.”
“Você passou.”
Que tipo de teste é esse? Ao ouvir minha resposta, Junna afastou o corpo.
Mas ela ainda estava perto. O diâmetro do guarda-chuva era de cerca de setenta centímetros, então, se ambos tentássemos caber embaixo dele, nossos braços se tocariam. No momento em que saímos da proteção do saguão, as gotas de chuva bateram contra o vinil, fazendo um som de refrigerante efervescente sobre nossas cabeças.
O cheiro da chuva ficou mais forte, mas o aroma doce vindo ao meu lado não sumiu; na verdade, parecia se destacar ainda mais. Cheiro de xampu, ou talvez de condicionador.

Junna é baixinha, na casa dos 1,50, e quando ficamos lado a lado, a cabeça dela chega mais ou menos na altura do meu ombro. Enquanto estávamos em silêncio, parecia que o calor dos nossos corpos estava derretendo no ar e se misturando.
Passamos pelo monótono pátio de manobra dos carros em silêncio e atravessamos o portão deserto da escola.
“...Portão da escola”, disse Junna, abrindo a boca. “É uma palavra que você não quer muito dizer em voz alta. Soa como ‘anal’.”
“Que tipo de assunto é esse?!”
Eu não pareço um idiota por ter ficado todo nervoso e com o coração batendo forte, tentando desesperadamente encontrar um assunto para começar a conversar enquanto caminhávamos lado a lado?
“Eu sempre uso o portão dos fundos. Então, isso parece novo.”
“Ah... entendo.”
“É. Ir para casa com alguém e caminhar ouvindo o som da chuva também é novo... Estou sempre sozinha, com meus fones de ouvido. Assim não preciso ouvir o barulho. Mas...”
A chuva batia no guarda-chuva, nas árvores à beira da estrada, na cidade. Os sapatos pisavam no asfalto molhado e vários carros passavam, espirrando a água acumulada na estrada, repelindo a chuva que caía. O falatório das pessoas. A agitação. O mundo estava cheio de sons.
“É bom ir para casa ouvindo sons que não sejam música de vez em quando também.”
“...É.”
Inclinei o guarda-chuva para evitar que Junna se molhasse e assenti.
“Em dias de chuva, nos dias em que te encontro, eu também sempre vou para casa sozinho ouvindo música.”
“Ah. De quem são as músicas que você ouve?”
“Suas.”
“Eu sabia.”
Junna se mexeu. Como se estivesse com cócegas. E então:
“...Na verdade, eu estava curiosa sobre isso antes mesmo de começarmos a conversar. O guarda-chuva com o adesivo da YOHILA no cabo. Eu me perguntava de quem era.”
Ela colocou suavemente a mão sobre a minha, que segurava o cabo do guarda-chuva.
“Era mesmo seu, Shigure...”
Talvez para evitar que eu me molhasse, Junna inclinou o guarda-chuva para o lado oposto. Ao mesmo tempo, ela pressionou o corpo contra o meu, com o braço tocando o meu.
“Estou feliz.”
Além disso, ela encostou a cabeça no meu ombro e murmurou com uma voz cheia de alívio. — Estamos no meio da cidade aqui.
“J-Junna... você está perto demais.”
“É para não nos molharmos. Nós dois.”
“Não, eu estou bem, então—”
“Shh.”
Junna silenciou meus protestos e, ainda pressionada contra mim, pegou seu smartphone.
Com uma mão habilidosa, ela iniciou o aplicativo de gravação e começou a cantarolar. Graças a isso, fiquei sem palavras.
A melodia de Junna — de JUN — fluía perto do meu ouvido. A melodia tocada pelo “coração” dela. Era brilhante, pura e refrescante, como um refrigerante gelado.
Será que meu passo se tornou mais lento e vagaroso porque eu não queria que o som das minhas pisadas no asfalto molhado estragasse a música dela?
Ou era porque, ao diminuir o passo, eu queria estar com ela por mais um minuto, um segundo sequer?
Provavelmente eram as duas coisas.
A caminhada de aproximadamente dez minutos da escola até a estação mais próxima pareceu terrivelmente curta e intensa.
“...Ei.”
Eu disse, justo quando o cantarolar de Junna terminou. Talvez porque a estação estivesse se aproximando e o número de pessoas passando tivesse aumentado, Junna se afastou suavemente. Ela guardou o celular e olhou para mim.
Parei de caminhar e, debaixo do guarda-chuva, nossos olhos se encontraram.
“Se você não se importar—”
—E nesse exato momento, um caminhão grande vindo da frente passou em alta velocidade, espirrando a água da chuva acumulada em um desnível da estrada com um estrondo enorme.
Caminhando na beira da estrada, instintivamente tentei virar o guarda-chuva — mas aí a Junna se molharia, então usei meu próprio corpo como escudo.
“Kya?!”
Água fria espirrou nas minhas costas e Junna soltou um grito. Foi como ter um balde de água jogado em mim. Um vento carregando o cheiro de escapamento passou soprando.
“Shigure! V-V-Você está bem?!”
Junna, estranhamente agitada, perguntou em pânico. Só de ver aquela reação, valeu a pena ter ficado encharcado.
“...Espera aqui um segundo. Vou dar uma surra naquele motorista com a minha guitarra.”
“Espera você. Você nem está com a sua guitarra agora. Calma.”
Segurei Junna, que estava prestes a sair correndo, e trouxe de volta o guarda-chuva que eu tinha inclinado para ela.
“Estou bem. Só me molhei um pouco...”
“Um pouco? Você está ensopado.”
Como Junna disse, eu estava encharcado, principalmente nas costas, como se tivesse sido pego por um temporal passageiro sem guarda-chuva. A água escorria da minha franja.
“...Por aqui.”
Junna puxou minha manga e fomos para debaixo de um toldo próximo.
Em frente a uma loja com as portas fechadas. Enquanto eu fechava meu guarda-chuva, Junna tirou um lenço da bolsa.
“Você... me protegeu? Para eu não me molhar?”
Ela limpou diligentemente meu corpo molhado. Embora não estivéssemos tão próximos quanto debaixo do guarda-chuva, estávamos de frente um para o outro no espaço limitado do toldo.
Desviei o olhar de Junna e respondi enquanto coçava a bochecha.
“...Bem, foi apenas um reflexo. Você não se molhou, não é?”
“Não. Estou bem.”
Quando Junna passou os braços para limpar minhas costas, foi como se ela estivesse me abraçando. Naquela posição, Junna murmurou, bem perto do meu ouvido:
“Mas eu posso ter me molhado... de um jeito diferente?”
“............”
Fingi que não ouvi.
“Quer ir para um motel?”
“Do que você está falando?!”
[Del: ………Poh .]
Dei um pulo para longe, surpreso com o comentário repentino. Junna, com o rosto sério, disse:
“Bem, você ficou mais ensopado do que eu pensava... ah, não eu, você, Shigure. Suas roupas estão encharcadas. Você vai pegar um resfriado desse jeito, então achei que deveria descansar. Um lugar onde você possa secar suas roupas, aquecer o corpo e relaxar. Um motel. C.Q.D.”
“...Entendi?”
Coloquei a mão no queixo e fechei os olhos.
“É verdade que um hotel teria um secador para as roupas, um banho para aquecer e uma cama para descansar. Boa ideia — que nada! Sua idiota!”
“Ai.”
Dei um peteleco na cabeça dela. Junna segurou a cabeça com as duas mãos e olhou para mim com seus olhos cerrados.
[Almeranto: Isso me lembrou muito Chuunibiyou.]
“Tocar é permitido, mas violência não.”
“Lá vem você de novo com essas piadas...”
“...Mas Shigure, você ia dizer uma coisa antes, não ia?”
“Antes?”
Logo antes de o caminhão jogar água na gente, provavelmente.
...Ei. Se você não se importar—
“Se deveríamos ir para um motel depois daqui.”
“Eu não ia dizer isso! Qual é a imagem que você tem de mim?!”
Parar em um hotel na nossa primeira caminhada juntos para casa seria muita cafajestagem.
“—Eu só ia perguntar: ‘Quer ir embora junto comigo de agora em diante?’”
Eu disse, mexendo na minha franja úmida.
Junna piscou. “Mm...”
“Nos dias de chuva, depois de passarmos o tempo na sala de audiovisual. Existe o risco de outros alunos nos verem, mas—”
“Tudo bem.”
Junna assentiu antes mesmo de eu terminar de falar e disse com firmeza.
“Eu não me importo que nos vejam. Se isso significar que posso passar mais tempo com você, Shigure.”
“...Entendo.”
Eu quero estar mais com ela. — Fiquei feliz que Junna parecia sentir o mesmo que eu. Meu corpo estava encharcado e frio, mas uma sensação quente se espalhou pelo meu peito.
“A propósito,” Junna inclinou a cabeça. “Ainda vamos para o hotel?”
“Não vamos, sua idiota.”
“Ai.”
Dei um segundo peteleco nela e os olhos de Junna lacrimejaram.
“...Eu não vou pegar um resfriado por causa de algo assim. Diferente de você, eu não sou idiota e sou bem treinado pelo atletismo. Não se preocupe com isso.”
[Almeranto: Aposta quanto que ele vai ficar resfriado?]
☂
Pelo visto, eu tinha pegado um resfriado.
[Almeranto: Alá kkkkkkk. | Del: Levantou bandeira, perdeu.]
No dia seguinte àquele em que voltei para casa com Junna, o tempo continuava chuvoso. Eu me sentia bem quando acordei, mas comecei a passar mal no trem lotado a caminho da escola e, quando a segunda aula começou, minha cabeça girava de febre.
“Com licença... posso ir à enfermaria? Ah, não precisa de ninguém para me acompanhar.”
Incapaz de aguentar mais, levantei a mão, obtive permissão do professor e me levantei.
“Ora. Um encontro secreto, Shigure?”
Yōjirō imediatamente me provocou em um sussurro, mas no momento em que viu meu rosto, disse com preocupação: “...Cuide-se”. Enquanto eu me dirigia à porta nos fundos da sala de aula...
“Ora. Um encontro secreto... não parece o caso. Cuide-se.”
Yamada teve exatamente a mesma reação. Como esperado de amigos de infância.
Saí da sala e caminhei pelo corredor mal iluminado, observando pelo canto do olho a chuva do céu cinzento bater contra a vidraça. Conforme passava pelas salas e descia as escadas, o barulho desaparecia e um silêncio denso como lama preenchia os arredores.
Tudo o que eu conseguia ouvir era o som da chuva.
Senti que estava prestes a perder a consciência, mas forcei meu corpo pesado e lânguido a cambalear ao longo da linha branca pintada no chão.
Quando finalmente cheguei à enfermaria, a placa na porta dizia “Ausente” — bati mesmo assim e entrei sem esperar resposta.
Assim que abri a porta, vi a cortina da cama no canto mais distante sendo fechada com um ruído brusco. Dei um sorriso irônico e chamei através da cortina.
“...Junna. Sou eu.”
“Shigure?”
Junna espiou por uma fresta na cortina.
“O que houve? Seu rosto está ruim.”
Você quer dizer “aparência”. “Seu rosto está ruim” é apenas um insulto gratuito — eu não tinha energia nem para retrucar. Desabei na cama mais próxima.
“Sh-Shigure!”
Junna correu em pânico. Ela me analisou com uma expressão preocupada.
“Você não está se sentindo bem? Pegou um resfriado?”
“...Parece que sim. Sinto que estou com febre.”
“Ah, não. I-I-Isso é, isso é terrível!”
Junna estava em polvorosa.
“Um evento de cuidar do doente!”
“Um evento de cuidar do doente...?”
Junna deu as costas ao meu olhar desconfiado e mexeu no celular.
“...Ah, alô? Sensei?”
Ela aparentemente estava contatando Akagi. Provavelmente vai pedir para ela voltar — pensei.
“Desculpe, tem outro filme que preciso que você pegue emprestado... Sim... É ‘Bohemian Rhapsody’. De repente, fiquei com vontade de assistir.”
—ou foi o que achei, mas ela começou uma conversa estranha. Ela estava mesmo fazendo a professora ir a uma locadora? Ela está de plantão.
“...Hã, você já terminou e está voltando? I-Isso é um problema... Eu quero muito assistir ao Freddie Mercury. Quero assistir, quero assistir, quero assistir.”
Junna começou a fazer birra. Minha cabeça estava começando a doer.
“...Mm. Obrigada! Não tenha pressa, tá bom? Não... tenha... pressa...”
Junna terminou a ligação com Akagi. Ela cruzou os braços, encostou o punho na bochecha e contorceu seu rosto inexpressivo em uma carranca falsa.
“Hum, isso é um problema... Parece que a Sensei não voltará tão cedo.”
Isso é porque você acabou de armar para isso. — Ouvi tudo alto e claro — eu quis dizer, mas meu corpo estava pesado e era um esforço grande demais. Apenas virei de bruços para cima e coloquei as costas da mão na testa. Estava fervendo.
“Por enquanto, vamos medir sua temperatura. Um termômetro, um termômetro...”
Junna abriu uma gaveta na mesa. Tive um vislumbre do que parecia ser um termômetro.
“.........Não tem nenhum.”
Não, tinha um sim — pensei, mas minha cabeça estava nublada pela febre e talvez eu tivesse visto errado. Junna, após vasculhar o quarto inteiro, voltou de mãos vazias.
“Acho que não tem escolha.”
Junna parou ao lado da cama e olhou para mim.
“Vou ter que usar minha mão para verificar. Vejamos agora...”
Os dedos de Junna estenderam-se lentamente, afastaram minha franja e sua palma tocou minha testa. Estava macia e fresca.
Ela a acariciou gentilmente, como se estivesse verificando a textura em vez do calor.
“...Não consigo dizer direito com a mão.”
“Consegue sim. Está obviamente quente...”
“O doente deve ficar quieto.”
Quando reuni forças para retrucar, ela me calou secamente. Junna tirou a mão da minha testa, levantou a própria franja e revelou sua testa branca.
E então, ela aproximou o rosto.
“O quê—?!”
Junna fechou os olhos. Por um segundo, achei que ela ia me beijar — mas não. O que se encontrou não foram nossos lábios, mas nossas testas.
“............”

Um segundo, dois segundos, três segundos, quatro segundos, cinco segundos—
O longo e arrastado momento estremeceu. O som da chuva e o zumbido do ar-condicionado. Não se ouvia o som da respiração. Ambos estávamos prendendo o fôlego. Meu rosto ficou ainda mais quente, e o calor se misturou onde nossas testas se tocavam.
“...Você está com uma febre muito alta.”
Eventualmente, Junna afastou a testa e murmurou. Minha franja, que havia sido levantada, fluiu suavemente para baixo, e a cor de hortênsia apareceu por entre os fios. Ela estreitou os olhos para mim.
“E seu rosto está vermelhinho também”, anunciou ela, com o próprio rosto tão vermelho quanto o meu.
“Você precisa ser cuidado até ficar bem. Vou cuidar de você até a Sensei voltar, Shigure.”
☂
“Shigure. Quer um pouco de água?”
No quarto com ar-condicionado e cheiro de desinfetante, Junna estava sentada em uma cadeira dobrável ao lado da cama e perguntou, segurando uma garrafa de 500 ml de água mineral.
Respondi: “...Sim”, e me sentei. Diante disso, Junna abriu a tampa.
“Quer que eu te dê? De boca em boca.”
Ela disse em tom de brincadeira, do seu jeito de sempre. No entanto...
“Sim, por favor...”
Com a consciência turva pela febre, não entendi completamente as palavras dela e apenas assenti. Junna pareceu pega de surpresa. “Hã?”, gaguejou ela, perplexa.
“E-Era brincadeira, sabe?”
“Brincadeira? Só me dá logo, anda. Estou com sede...”
“Ah-wah-wah-wah.”
Apressada, Junna entrou em pânico. Franzi a testa.
“...O que foi? Eu disse para andar logo. Minha garganta está—”
“E-Está bem! ... Glup... ”
Junna, parecendo ter tomado uma decisão, levou a garrafa aos lábios. Franzi ainda mais a testa.
“Por que você está bebendo?”
“Mmmph, mmmph.”
“Eu não estou entendendo. Engole primeiro, depois fala.”
“Mmm-mmph, mm-mmph.”
Junna, com as bochechas estufadas, apontou para a própria boca, mas eu ainda não tinha ideia do que ela queria dizer. O que ela estava tentando me falar?
“...Esquece. Me dá aqui.”
Arranquei a garrafa da mão dela e bebi. Junna engoliu a água e murmurou: “...Ah.”
“U-Um beijo indireto...”
“O que foi que disse?”
“N-N-Nada!”
Junna olhou para baixo e começou a se inquietar. Vendo as orelhas dela ficarem vermelhas, eu disse:
“Enfim, você não precisa cuidar de mim. Seria ruim se eu te deixasse doente... Você ficaria encrencada, não é? Se isso afetasse seu trabalho. Você comentou que estava com um ‘prazo apertado’ recentemente.”
Mesmo frequentando a escola a partir da enfermaria, Junna concilia os estudos com sua carreira profissional na música. Se ela ficasse doente, isso afetaria seu cronograma e várias outras coisas.
Como a YOHILA não realiza shows ao vivo, ela provavelmente não é tão ocupada quanto um artista comum, mas ainda assim. Como ela faz isso comercialmente, não pode simplesmente tirar uma folga com facilidade.
“ Mm. Bem... isso é verdade, mas” — Junna brincou com o cabelo. Ela enrolou as pontas de seu cabelo preto e roxo em volta do dedo indicador. — “O tempo que passo com o Shigure também é importante, e...”
Ela olhou para mim.
“Se for um resfriado vindo de você, eu ficaria até feliz.”
“...Que tipo de presente é esse?”
“Além disso!” — Junna inclinou-se para frente. Ela aproximou o rosto o suficiente para nossas respirações se misturarem.
“A razão pela qual pegou um resfriado é porque você recebeu aquele banho de água por mim. Então é natural que eu cuide de você, Shigure, até que melhore. É meu dever. Minha expiação.”
“Expiação...”
“E” — Junna apontou o dedo indicador para a ponta do meu nariz enquanto eu me afastava. “Tem outro motivo para você ter pegado um resfriado. Porque não descansou como eu ‘sugeri’... Na próxima vez que algo parecido acontecer,”
Justo quando Junna levava o dedo que estivera apontando para os próprios lábios, a porta da enfermaria se abriu com um estalido.
“Vamos para um hotel na próxima, okay?”
“...!”
“...Vocês dois.”
Akagi, que apareceu no pior momento possível, suspirou por baixo da máscara.
“Não usem as camas daqui para esse tipo de coisa. Como a Amamori diz, se forem fazer isso, façam em outro lugar. E eu não vou tolerar que você mate aula, Kurimoto.”
Fui atingido por uma forte dor de cabeça e tontura, e me deixei levar pela perda de consciência, como se para escapar da realidade.
☂
“Eu vou levá-lo.”
37,9 graus Celsius. Após ter minha temperatura medida novamente por Akagi, recebi, para meu alívio, permissão para ir embora mais cedo. Junna segurava um guarda-chuva para mim enquanto eu seguia Akagi até o estacionamento.
“...E quanto a eu ir junto?”
“Não.”
A resposta de Akagi foi seca. Com um guarda-chuva vermelho, desenhado como um tradicional japonês sobre o ombro, ela olhou para trás.
“Este é um ‘momento importante’, não é? Seria um problema se você pegasse um resfriado.”
“...Hmhmm.”
Junna resmungou. O guarda-chuva balançou, e a chuva acumulada em sua superfície tamborilou.
O guarda-chuva de Junna era azul-violeta.
Era o mesmo que eu tinha visto no suporte ontem. O que significava que o guarda-chuva dela não tinha sido roubado; ela estava mentindo.
O motivo era óbvio: criar um “pretexto” para caminhar comigo até em casa.
“Shigure.”
Debaixo do mesmo guarda-chuva daquele dia, Junna sussurrou. Seu hálito quente cutucou a nuca do meu pescoço, e uma fragrância doce misturada ao cheiro de asfalto molhado atingiu minhas narinas.
“Descanse bem, tá?”
“Sim...”
“Quando você melhorar, vamos sair para algum lugar, okay?”
“...Sim.”
Ela tinha garantido uma promessa minha em meio à confusão, mas eu estava mais do que feliz em aceitar. Sorri e assenti. “Isso!”, disse Junna, exteriormente radiante em seu habitual jeito inexpressivo.
Mas, se você olhasse de perto, podia ver as rugas sutis nos cantos dos olhos, o leve erguer dos lábios e a elevação quase imperceptível no tom de voz — pequenos sinais de suas emoções. Cada vez que eu notava essas mudanças em Junna, meu coração se aquecia.
“Entre.”
Quando finalmente chegamos ao carro, Akagi fechou seu guarda-chuva e entrou primeiro. Fiquei confuso.
“...Sensei? Esse não é o banco do passageiro?”
“É um carro estrangeiro. A esquerda é o assento do motorista, e a direita é o do passageiro.”
“U-Um carro estrangeiro...”
Um carro esportivo preto. Não entendo muito de carros, então não saberia dizer o modelo, mas tanto o exterior quanto o interior tinham um design estiloso e pareciam incrivelmente caros.
“...Enfermeiras escolares ganham tanto dinheiro assim?” perguntei maravilhado enquanto Junna segurava o guarda-chuva para eu entrar. O chassi do carro quase raspava o chão.
“Bem, até mais. Estou mais preocupada com você sofrer um acidente, Sensei, do que com o estado do Shigure.”
“Não se preocupe. Só sofri dois acidentes de carro em toda a minha vida.”
Ela já sofreu dois... Coloquei o cinto de segurança com toda a diligência.
Akagi fechou a porta, cortando a voz de Junna que continuava resmungando sobre “dirigir com segurança” e “uma multa de cem milhões de ienes se você bater”, e deu a partida. Sob a chuva, Junna, segurando o guarda-chuva azul-violeta com estampa de hortênsias, acenou, despedindo-se. Até eu sumir de vista.
“—Muito bem, então. A estação mais próxima é um trajeto curto demais... Onde você mora?”
“Kichijoji.”
“Linha Chuo, hein. Então vou te levar até Shinjuku. Se eu correr, chegaremos em uns quinze minutos.”
“...Por favor, dirija com segurança.”
A cidade de Nishi-Ikebukuro passava pela janela baixa junto com as gotas de chuva. Olhei de relance para o perfil de Akagi.
“Sobre a Amamori,” começou Akagi, sem que eu precisasse perguntar. Ela provavelmente se ofereceu para me levar para que pudéssemos conversar sem que Junna ouvisse.
“O empresário dela é um amigo meu.”
“O empresário dela é seu...”
Com meu cérebro anuvado pela febre, recordei o conteúdo do artigo sobre a YOHILA.
“FABLE RECORDS, não era? Essa pessoa trabalha lá?”
“...Não, não é isso. Ainda não foi anunciado oficialmente, mas a YOHILA já mudou de gravadora, e foi decidido que farão sua estreia major em breve.”
Não fiquei particularmente surpreso. Considerando a popularidade da YOHILA e o número de visualizações de suas músicas, parecia até algo atrasado.
“Eu descobri a YOHILA primeiro e a apresentei para a agência de música de um amigo. Isso foi há uns seis meses. Atualmente, esse amigo está cuidando do gerenciamento da Amamori — da YOHILA — e eles estão no processo de preparação para a estreia major pelo selo.”
“...Entendo.”
Não havia música tocando. Apenas o som da chuva, do ar-condicionado e do carro rodando preenchiam o ar com leve aroma de menta no interior.
“A senhora já conhecia a Junna antes de ela começar aqui, Sensei?”
“Sim. Fui eu quem recomendou que ela fizesse o exame de admissão para o nosso colégio. Aqui, eu poderia falar com o diretor e conseguir permissão para ela frequentar as aulas a partir da enfermaria. Achei que seria mais fácil para ela equilibrar a carreira musical com os estudos.”
“A senhora tem algum tipo de podre do diretor?”
“...Com a Amamori.” Akagi me ignorou, pisou no acelerador e continuou. “Com a JUN da YOHILA, fui apresentada por um conhecido. Conheço alguns dos engenheiros e da equipe de estúdio envolvidos nas gravações dela.”
“Que tipo de conexões a senhora tem?!”
“Velhas conexões. Kurimoto, você... conhece uma banda chamada ENDY?”
“Conheço. Qualquer um que goste de música japonesa e rock conhece.”
ENDY era uma banda de rock composta por quatro garotas que esteve ativa quando eu estava no ensino fundamental.
Eram muito populares, fizeram temas para vários animes e filmes, e apareciam sempre em programas de música na TV, mas — há três anos, anunciaram subitamente o fim da banda. Após um show final no Budokan que encerrou a turnê pelo Japão, elas sumiram dos holofotes.
A música delas, baseada em hard rock, nu metal e post-hardcore, era estranhamente feroz para uma banda feminina e, junto com os vocais roucos que ostentavam uma habilidade de canto esmagadora, eram as mais legais. Foi uma das bandas que me fez gostar de rock japonês.
“Eu sou a ex-vocalista deles.”
“.........O quê?”
Não pude acreditar no que ouvi.
Virei o rosto para o banco do motorista e encarei o perfil dela, escondido pela máscara.
“Err, hum... Eu ouvi direito? Senti como se a senhora tivesse acabado de revelar que é a ex-vocalista da ENDY, Akagi-sensei.”
“Eu sou EIMEE. Akagi Eimi.”
“Pode me dar um autógrafo?!”
“Estou dirigindo.”
Akagi deu um sorriso irônico. Talvez porque estivesse se maquiando de forma diferente, eu não conseguia notar que Akagi era EIMEE apenas pelos olhos, e seu cabelo vermelho brilhante, marca registrada dos dias de banda, tinha sido substituído por um corte curto e preto comum, mas...
“Tenho usado esta máscara todo este tempo porque lidar com isso é um saco...”
Uma voz metálica e rouca. Embora um pouco abafada pela máscara, agora que eu sabia a identidade dela, a voz certamente condizia.
“...Não apenas na música, mas em qualquer esforço criativo, a criação é frequentemente chamada de ‘um ato que desgasta a alma’.”
Ao me ver tenso e em silêncio após descobrir quem ela era, Akagi murmurou como se falasse consigo mesma. Com seus olhos sombreados de vermelho ainda fixos na estrada:
“Isso é porque as criações nascem do que molda o criador por dentro. É o trabalho de mergulhar fundo no mar do próprio coração, procurando uma joia entre dezenas de milhares, centenas de milhões de grãos de areia, e então lapidá-la... Você pode sufocar no processo de mergulho, ou pode mergulhar repetidamente e nunca encontrar uma joia. No meio da lapidação, pode perceber que o que acreditava ser uma joia não passava de uma pedra.”
Akagi falava de forma desapaixonada. Eu não conseguia ler nenhuma emoção em seu perfil ou em sua voz.
“E quando você finalmente lança o trabalho finalizado ao mundo, o que o espera é o julgamento impiedoso dos outros. Para um trabalho ser criticado, é o mesmo que a própria alma do criador ser criticada, e é por isso que é insuportável. O coração de algumas pessoas se estilhaça e nunca mais volta... Bem, o motivo pelo qual eu saí foi completamente diferente. Mas viver desgastando e expondo a própria alma não é um feito pequeno.”
Três anos atrás, o motivo do fim da ENDY no auge da popularidade foi anunciado na forma de comentários das integrantes. Mas os sentimentos escritos ali talvez não fossem a história toda. A sombra profunda que caiu sobre os olhos de Akagi despertou um pensamento sombrio.
“Ainda assim, eu tinha minhas companheiras. Amigas com quem eu podia compartilhar as alegrias e tristezas. Mas a JUN da YOHILA — a Amamori — está sozinha agora. Ela não tem ninguém.”
Este devia ser o ponto principal. A voz de Akagi e suas mãos apertando o volante ficaram tensas.
“Quando você passa do indie para o major, a resposta será maior do que nunca. O bom e o ruim... Diversas opiniões e sentimentos de várias pessoas vão cair como uma tempestade. O coração dela estará prestes a quebrar. Em momentos como esse—” as luzes traseiras do carro à nossa frente tingiram o perfil de Akagi de um vermelho profundo. O semáforo no cruzamento ficou vermelho. Ela pisou no freio gentilmente, devagar.
“—Seja o guarda-chuva dela.”
[Del: … (suspira) … Falou e disse.]
Akagi olhou para mim.
“Quero que você apoie a Amamori. Eu, a empresária dela e os outros adultos ao redor dela, é claro, vamos apoiá-la, mas somos adultos, afinal de contas. Há uma distância inevitável entre nós e alguém mais jovem. Por isso, Kurimoto—”
E, com isso, Akagi puxou a máscara para baixo. Ela revelou seu rosto escondido e, com uma voz sem barreiras, disse-me diretamente:
“Estou contando com você pela Amamori.”
“Sensei...”
Uma febre não causada por um vírus brotou em mim, e minhas palavras ficaram presas na garganta.
No canto da minha visão, gotas de chuva batiam no para-brisa e escorriam, os limpadores moviam-se como um metrônomo irregular e o sinal de pedestres brilhava em verde. Justo quando estava prestes a ficar vermelho, eu finalmente assenti.
“...Sim.”
Olhei de volta nos olhos de Akagi e — se eu pudesse ter respondido com firmeza, teria sido ótimo. Mas, intimidado pela aura da Akagi sem máscara e ansioso sobre se uma pessoa comum como eu poderia realmente ser um apoio para Junna, que vive como musicista...
“V-Vou dar o meu melhor...” foi a resposta insegura que consegui dar.
Os lábios vermelhos de Akagi se curvaram em um sorriso.
“—É. Estou contando com você.”
E então, ao dar a partida no carro novamente, ela operou o visor de áudio com uma mão.
“Desculpe por isso, logo quando você não está se sentindo bem por causa do resfriado... Como um pedido de desculpas,” ela exibiu uma lista completa de faixas da ENDY, incluindo as músicas da era indie que já não estavam mais em catálogo. “Até chegarmos à estação, eu vou cantar para você. Por cima das nossas próprias faixas... Algum pedido?”
PLAYLIST DAS MÚSICAS QUE SÂO MENCIONADAS NA OBRA. (O autor tem um ótimo gosto)
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(Crédito para o @Thang por reunir)
Traduzido por Moonlight Valley
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