Capítulo 4: Hortênsias e Fantasmas
Capítulo 4: Hortênsias e Fantasmas
Recebi uma mensagem da Junna dizendo “Estou aqui, um pouco adiantada” pouco depois das nove da manhã. Duas horas antes do nosso horário combinado.
Acordado pela notificação do LINE mais de uma hora antes do meu despertador, arrumei-me às pressas e saí correndo de casa.
O céu estava limpo. Como havia chovido no dia anterior, o ar estava pesado e úmido. Corri pelo calor grudento que subia do asfalto queimado em direção ao nosso ponto de encontro. Mesmo com uma pausa para recuperar o fôlego em um sinal vermelho, era uma distância que eu conseguia cobrir em menos de dez minutos.
“Desculpe, fiz você espe—”
“Você está atrasado, Shigure.”
Em frente a uma sorveteria na saída norte da Estação Kichijoji, Junna me notou, tirou os fones de ouvido e me repreendeu. Limpei o suor da testa e protestei.
“Você é quem chegou cedo demais. Duas horas não é ‘um pouco’.”
“...É a abreviação de ‘eu queria estar com você o maior tempo possível, por isso cheguei bem cedo’, sabe?”
“Hã? A-Ah... e como eu deveria saber dessa abreviação?!”
Fui pego de surpresa pela piada característica dela com o rosto sério, mas retruquei mesmo assim.
Junna resmungou um “...Mmm” , parecendo insatisfeita, mas guardou o celular como se estivesse desistindo e perguntou com uma expressão preocupada:
“Como você está se sentindo? Teve alguma recaída ou algo assim?”
“Nada. Descansei bem.”
O dia em que saí cedo da escola foi quinta-feira, e hoje era domingo. Tirei a sexta de folga por precaução, então faz três dias que não vejo Junna.
Durante esse tempo, fizemos planos de sair pelo LINE.
『JUN: Onde você mora, Shigure?』
『Shigure: Kichijoji.』
『JUN: Então vamos para lá.』
E assim, com essa troca curta de mensagens, nosso destino foi decidido.
“Enfim” — encarei Junna. — “Suas roupas...”
Pela primeira vez vendo a Junna com roupas casuais, ela estava usando uma camiseta branca oversized , uma regata preta e botas curtas pretas de plataforma.
De seus tornozelos apareciam meias listradas no mesmo azul-violeta e preto de seu cabelo.
Ela usava uma gargantilha fina no pescoço. Sua bolsa era uma mini shoulder bag de couro preto com peças de metal pesado que chamavam a atenção, e ela não estava carregando a capa da guitarra.
“Você é bem boyish , hein?”
[Almeranto: A calça boyish, mais conhecida como calça boyfriend, é aquela peça jeans mais soltinha, parecida com o modelo masculino.]
“É. É rock, né?”
“Mais para um estilo meio punk? Ficou bem —”
E com isso, Junna de repente agarrou a bainha de sua camiseta com as duas mãos e a levantou com força.
A bainha tinha um comprimento que era longo demais para uma camiseta, mas curto demais para um vestido, de onde se estendiam suas pernas brancas e nuas.
“A propósito, estou usando calças por baixo.”
“..................”
“Shorts jeans — Ai.”
Dei um peteleco na cabeça da Junna e elevei a voz.
“N-Não me assuste desse jeito! Achei que você não estava usando nada... de novo.”
“—‘De novo’?”
“...Não é nada.”
Empurrei a memória do que tinha visto naquele dia chuvoso depois da escola para fora da cabeça. Limpei a garganta e voltei ao assunto.
“E-Enfim! Ficou bem em você, sim. Muito bem.”
“...Mm.”
Elogiada, a expressão de Junna suavizou. Seus olhos se estreitaram levemente e seus lábios se abriram em um sorriso — mas eu percebi que ela estava feliz. Suas bochechas também estavam levemente coradas.
“Você também, Shigure.”
Junna me olhou de cima a baixo, da cabeça aos pés, com cuidado.
“...É simples, mas combina com você.”
Eu estava usando uma camiseta cinza-gelo, calças pretas e tênis brancos.
“Esses Hay Smiths são de couro legítimo?”
“São Stan Smiths. E sim, minhas roupas são baratas, mas gasto bastante nos meus sapatos.”
“Ah. Por quê?”
“Por quê...?”
É porque fui aconselhado que isso te faz parecer mais estiloso. Por aquele cara, o Yōjirō.
“É porque sou do clube de atletismo. Sapatos são importantes, né?”
Sentindo que seria cafona responder honestamente, disse algo que soasse plausível. Junna olhou para mim. “Ah é?”
“O quê... eu tinha certeza de que era por algum motivo inteligente, como ‘isso faz você parecer mais estiloso’.”
Ela está falando de você, Yōjirō.
“Você tem um cheiro sutil de normie , Shigure...”
[Almeranto: É uma gíria da internet, geralmente usada de forma irônica ou depreciativa para descrever algo, alguém ou um ambiente que exala conformidade social, previsibilidade ou consumo de massa.]
“Como?”
“O fato de você ser amigo de um garoto bonito e de uma gyaru . E de estar em um clube de esportes.”
“O primeiro ponto à parte, o segundo é um julgamento muito vago. Se for dizer isso, eu acharia que estar em uma banda é mais normie e de quem gosta de curtir.”
“Na verdade não. A taxa de introvertidos entre membros de bandas é surpreendentemente alta... embora existam muitos caras com a cabeça na sarjeta, os galãs. Mais para FUCK do que para ROCK.”
“...Aconteceu algo ruim com você relacionado a uma banda? Eu escuto, sabe?”
“Lá vem o ‘eu escuto’... A frase padrão de um galã.”
Enquanto estávamos ali conversando, o suor que eu tinha limpado começou a brotar novamente. Pedi uma pausa.
“Enfim, não deveríamos ir a algum lugar? Algum lugar com ar-condicionado.”
Graças à Junna ter chegado cedo demais, o lugar que eu tinha escolhido com antecedência ainda não estava aberto, mas um café de rede ou restaurante de fast-food deve estar funcionando.
Junna, que não tinha transpirado nem uma gota, assentiu. “Você tem razão.”
“Vamos, então. Para a sua casa, Shigure.”
“Nada disso. Você é quem está toda animada para ‘dar o play’, dona Cabeça-na-Sarjeta.”
No momento em que o local foi decidido como a minha região, eu já previa isso.
Ignorei o comentário atrevido de Junna e segui em direção à galeria de lojas.
☂
“Falando nisso,” eu disse, acomodando-me no acolchoado cor de vinho da cafeteria de estilo Nagoya, após umedecer a língua com o café gelado servido não em um copo, mas em uma caneca de aço inoxidável.
“A Akagi-sensei era a EIMEE da ENDY, hein...?”
“ Mm— ”
Junna, com a colher na boca, olhou para mim. Ela havia pedido um cream soda , e sobre o refrigerante de melão que enchia o característico copo em formato de bota, uma montanha de sorvete de massa repousava no lugar do gelo comum.
“...Você ouviu? Da própria Sensei?”
“Sim. Outro dia, quando ela me deu carona. Fiquei tão surpreso... chocado de verdade. Para ser honesto, ainda não consigo acreditar. Quer dizer, é a ENDY, a ENDY.”
A mão que segurava a caneca tremeu levemente. A febre do meu resfriado já tinha baixado, mas a empolgação que senti naquele dia, longe de esfriar, só tinha crescido. Continuei, deixando minha paixão ardente fluir como se exalasse vapor:
“Eu viciei nelas quando estava no ensino fundamental, e foi o primeiro CD que comprei com meu próprio dinheiro, aquele... Eu queria ir aos shows também, mas a concorrência pelos ingressos era tão alta que eu nunca conseguia, aquela! Todas as pessoas para quem apresentei a banda ficaram viciadas, e no dia seguinte ao anúncio do fim delas, quase metade da classe faltou à escola de choque, aquela! Aquela ENDY.”
“...É.” Junna pegou um pouco de sorvete e concordou. “Eu entendo. Porque eu gostava delas também.”
“Não é?! E o que é mais: a vocalista, a EIMEE-san, é... a figura central indiscutível da banda, uma frontwoman absoluta. Por que alguém assim está no nosso colégio? É impossível, não é?!”
“Uh-huh, você tem razão. É impossível.” Junna fincou a colher no sorvete. “...Falar de outra mulher durante o nosso encontro, isso é que é impossível”, murmurou ela em uma voz baixa e quieta. Congelei como se tivesse sido banhado em nitrogênio líquido.
“Isso foi uma piada, sabe?”
“...Não me pareceu uma piada.”
“Eu tenho uma dívida com a Sensei” — disse Junna, de olhos baixos, enquanto mexia no seu cream soda com a colher. — “Tanto pessoal quanto profissionalmente. É graças à Sensei que tenho permissão para frequentar a escola pela enfermaria, e foi por causa dela que comecei a querer buscar o ‘topo’ na música... se formos ver, o motivo de eu ter começado uma banda foi em grande parte por influência delas. Então, eu entendo por que você está tão animado, Shigure.”
“Ah... então foi assim. Você foi influenciada pela ENDY e montou uma banda.”
Eu tinha ouvido a história de como ela fora autorizada a ficar na enfermaria pela Akagi outro dia — aparentemente, o diretor é um fã fanático de ENDY, especialmente da EIMEE, e aceita qualquer pedido minimamente razoável da Akagi — mas eu não sabia que ela também era a razão de Junna ter começado a tocar.
Como esperado da ENDY, como esperado da EIMEE-san.
“—Mas,” Junna contraiu os lábios enquanto bebia o refrigerante efervescente. Ela me encarou de baixo. “Shigure, você não está mais animado agora do que quando descobriu que eu era a JUN da YOHILA?”
“..............N-Não, não estou... eu acho...?”
“O que foi essa pausa? E você gaguejou. E foi uma pergunta.”
Junna estufou as bochechas de raiva. E então, segurando a colher, a enterrou em um canto do sorvete já derretendo.
“No fim, a YOHILA é... eu sou apenas esse nível de existência para você, Shigure. Mesmo você tendo dito que me amava...” resmungou ela, enfiando uma colherada atrás da outra na boca. “ Isfo é tãu trifte... e duídu... injufto... deprimente...”
A língua dela devia estar dormente pelo gelado, porque ela estava enrolando as palavras. Apoiei a bochecha na mão sobre a mesa e a observei em silêncio.
Diante disso, Junna rapidamente começou a demonstrar ansiedade.
“...Shigure. Por que... você não está dizendo nada? Afinal, alguém como eu—”
“Não, eu só estava pensando que, mesmo quando você está emburrada, você é fofa, Junna.”
“...?!”
Junna foi pega de surpresa e derrubou a colher. Ela desapareceu sob a mesa.
“............Galã.”
Ofereci uma explicação tardia para Junna, que me espiava com apenas a metade superior do rosto visível:
“Eu não sou galã. É que eu meio que suspeitava que você fosse a JUN da YOHILA desde o começo, então o choque foi menor. Se eu não estivesse esperando, teria ficado tão surpreso e animado quanto.”
“...‘Tão quanto’?”
Um brilho perigoso surgiu nos olhos de Junna. Corrigi-me rapidamente.
“YOHILA mais! Acho que eu teria ficado mais animado com você, Junna.”
“..................”
Como se estivesse confirmando se minhas palavras não eram mentira, Junna estreitou os olhos e me encarou. O interior da loja estava climatizado, mas senti um suor frio brotar nas minhas costas. Eventualmente:
“Entendo”, o semblante de Junna suavizou e ela relaxou no sofá. “Então você fica mais animado... ou melhor, mais excitado por mim do que pela Akagi-sensei.”
“Eu não disse isso de jeito nenhum, na verdade.”
“—Estou errada?”
“...Não está errada.” Se eu negasse aqui, Junna provavelmente ficaria de bico de novo, então admiti docilmente.
“Você tem razão. Se eles forem grandes demais, você nem saberia o que fazer com eles, não é?”
Do que você está falando? Eu não perguntei. — Bebi meu café sem açúcar em silêncio, aproveitando o amargor que me mantinha desperto.
No entanto, depois disso...
“O quê?! Isso não é justo!”
Quando Junna descobriu que Akagi tinha cantado para mim no carro, ela elevou a voz.
“Eu vou cantar para você também, Shigure. Não é justo!”
Ela estava furiosa novamente. Exigiu que fôssemos a um karaokê. Dei um sorriso irônico.
“Não, ‘não é justo’... sobre isso?”
☂
Três horas inteiras, começando às dez da manhã. Depois de aproveitarmos o karaokê ao máximo, estávamos almoçando em um café-restaurante dentro de um shopping.
“Não tinha muitas músicas da YOHILA, né?”
“Bem, afinal, é uma banda indie.”
“Tinha um monte de músicas da Sensei e das outras... até videoclipes e filmagens de shows, um monte.”
“Afinal, elas foram uma banda major, superpopular.”
“...Eu preciso me esforçar mais também”, murmurou Junna, comendo uma massa com uma pilha de tomates e presunto cru que parecia o Monte Everest.
O número de músicas da YOHILA disponíveis no karaokê era pequeno o suficiente para contar nos dedos de uma mão, e cantamos todas rapidinho. Depois disso, cada um cantou as músicas que gostava.
De música japonesa a ocidental, de temas de anime a músicas de Vocaloid, de sucessos recentes a músicas de uma década atrás.
Não eram músicas feitas pela JUN, mas os vocais eram da JUN, então parecia que eu estava ouvindo covers . Ter sua artista favorita cantando para você as músicas de outros artistas que você gosta é uma experiência luxuosa que não se consegue nem em um show ao vivo.
—Não, no caso da YOHILA, ela não faz shows de jeito nenhum, então, normalmente, você nem teria a chance de ouvi-la cantar ao vivo.
E, no entanto, existem tantos outros fãs de YOHILA além de mim.
“Você não planeja fazer shows ao vivo mesmo depois de se tornar major, Junna?”
Não pude evitar perguntar. Parte disso era pura curiosidade, mas...
“Sua voz ao vivo foi incrível, sabe.”
Senti que era um desperdício. Ouvindo a Junna cantar, comecei a me perguntar se estava tudo bem eu ter aquela voz só para mim. Ela não deveria ser entregue a mais pessoas?
Junna parou de comer e baixou a cabeça.
“Eu... não consigo fazer shows. Não tenho integrantes.”
“E quanto a músicos de apoio...?”
“Não vou fazer.”
Balançando a cabeça diante das minhas palavras, Junna disse com firmeza. Sua expressão, sombreada pelos longos cílios e pela franja, estava rígida, como se tivesse congelado. Uma expressão de zero absoluto que poderia congelar o coração de qualquer um que a visse.
“...Entendo.”
Eu me contive para não insistir mais. Com uma voz animada para dissipar o clima sombrio:
“Desculpe por perguntar algo estranho. O que você quer fazer esta tarde?”
Mudei de assunto. Junna olhou para mim.
“Qualquer coisa está bom”, disse ela. Seus olhos pareciam sonolentos e, como sempre, inexpressivos, mas a frieza de antes havia sumido. Estavam quentes e levemente suavizados.
“Desde que eu possa passar o tempo com você, Shigure, qualquer coisa está bom.”
“E-Esse tipo de resposta é a mais difícil de lidar...”
O olhar da Junna era tão direto que precisei desviar o meu.
Era a mesma sensação que tive quando estava monopolizando o canto dela, a sensação de receber algo grande demais para eu segurar nas mãos. Em meio à alegria e felicidade, havia uma emoção levemente áspera.
—Mas fingi não notar. Olhei de volta para Junna e sorri.
“Deveríamos apenas fazer umas compras e dar uma caminhada tranquila? O tempo está bom, e você provavelmente deveria tomar um pouco de sol de vez em quando também, Junna.”
☂
O cantarolar de Junna ecoava pelo parque exuberante.
O Parque Inokashira estava fervilhando neste feriado. Muitos passantes eram atraídos pela melodia que Junna tecia — ou talvez pela beleza dela, que parecia brilhar excepcionalmente sob o sol — e se viravam para olhar.
A bolsa de ombro dela quicava no ritmo dos seus passos, criando um polirritmo alegre junto com o som de suas botas de plataforma batendo no chão. O sapo pendurado na bolsa — uma figura de borracha de um sapo-flecha, colorida com um padrão sinistro e psicodélico de amarelo e preto — balançava como se estivesse dançando.
“Você está de bom humor”, eu disse quando o cantarolar parou, e Junna se virou.
“Sim. Eu não gosto de dias ensolarados nem de multidões, mas você está aqui, Shigure. E eu consegui o sapo-flecha que eu queria no gacha do Geroppi!”
“Geroppi” é o personagem de perereca que Junna adora. Pelo que sei, a história do personagem é que ele é um “sapo celestial” que caiu na terra com a chuva. Existem vários produtos oficiais e variações; o normal é verde, o azul-violeta no case da guitarra dela é da sua cor favorita de hortênsia, e o que está pendurado na bolsa agora é o raro sapo-flecha que ela conseguiu hoje em uma daquelas máquinas de cápsulas.
“Um sapo-flecha... a ‘Yellow Frog’ da YOHILA também é baseada em um, certo?”
“ Uh-huh, uh-huh. Duas mil vezes mais potente que a morfina, sabe? É incrível. E as cores dele são tão vibrantes e fofas.”
Junna mexeu no sapo de borracha — que seria perigoso até de tocar se fosse real — e parou ao meu lado.
“Chama-se coloração de advertência, eu acho. Eles têm cores deliberadamente chamativas para avisar aos predadores que são venenosos.”
“Sim. Exatamente como a cor do meu cabelo”, disse Junna, beliscando uma mecha de seu cabelo, que tinha aquele roxo vibrante na parte de baixo.
“...Você também tem um veneno potente, Junna?”
“Quem sabe? Você pode descobrir se der uma mordida... Ah.”
Eu me esquivei de Junna, que tentou se pressionar contra mim enquanto dizia aquilo, e apressei o passo.
O Parque Inokashira é enorme, centrado em torno de um lago de 43.000 metros quadrados. Há vários cafés e barracas, e bancos para descansar espalhados pelo caminho que circunda a água. Naquele domingo à tarde, a maioria estava ocupada. Talvez por ser um raro dia de sol no meio da estação chuvosa, estava mais lotado do que o esperado.
“Sh-Shigure!”
Junna veio correndo atrás de mim. Ela parecia um pouco inquieta, olhando para o meu rosto furtivamente.
“H—”
“H?”
A mão branca de Junna ao meu lado tateou o ar.
“...O tempo está... bom, não está?”
Ela fez uma viseira sobre a testa. “É”, eu disse, semicerrando os olhos para a luz forte do sol. “Deveríamos procurar um lugar com sombra para descansar? Provavelmente vai estar menos cheio longe do centro.”
Quando comecei a atravessar a ponte sobre o lago, Junna pareceu irritada.
“Você é tão lento para entender as coisas, Shigure...”
“Hã? O quê, você prefere que esteja lotado?”
“Claro que não.”
“Ainda quer caminhar?”
“Não é isso!” Junna apertou o seu Geroppi com força. “H—”
“H?”
“............Telecaster ou Stratocaster, qual você prefere, Shigure?”
“Que pergunta repentina... Hum. Se eu tivesse que escolher, diria Tele—”
“Eu sou uma garota de Les Paul!”
Provavelmente não gostando da minha resposta, Junna me ultrapassou e começou a caminhar bruscamente. O Geroppi de borracha, solto de sua mão, parecia me olhar com reprovação com seus olhos redondos. Suspirei e a segui.
“—Oh.”
Junna parou de caminhar. Vi hortênsias florescendo perto da cerca do lago. “Hortênsias...”, disse Junna, correndo até elas.
“Como são azul-violeta, o solo aqui deve ser de ácido a neutro.”
A cor das hortênsias muda dependendo da acidez do solo. Flores que seriam rosa-avermelhadas tornam-se azuladas em solo ácido e avermelhadas em solo alcalino.
“Sim. O Japão tem muito solo ácido, então as cor-de-rosa são raras, dizem.”
“Quando se pensa em hortênsias, pensa-se em azul-violeta, afinal.”
Fiquei ao lado dela e observamos as flores juntos. Pequenas flores de quatro pétalas reunidas para formar um único aglomerado. O contraste entre o azul das flores e o verde das folhas era lindo.
“...A propósito,” Junna abriu a boca. Ela apontou para as pétalas que eu estava olhando. “As pétalas de uma hortênsia não são essas.”
“Hã, sério? Não importa como você olhe, parecem pétalas...?”
“Estas são o que chamamos de sépalas ou flores ornamentais, partes modificadas que sustentam as pétalas. As pétalas de verdade parecem botões minúsculos e ficam escondidas dentro das ornamentais.”
“Ah... você sabe bastante.” Como esperado de alguém que se autodenomina Yohira (Hortênsia). “Por que você deu o nome de hortênsias para a sua banda, Junna?” perguntei casualmente.
“—Não fui eu quem escolheu o nome.”
“Hã?”
A voz que respondeu ao meu lado estava fria e seca. Mais inexpressiva e inorgânica do que o habitual. Fiquei confuso com a reação inesperada e olhei para ela. Então, perdi o fôlego por um instante.
O olhar de Junna estava fixo nas flores. Em seu perfil, ao contrário do tom de voz, uma emoção forte transparecia. Uma cor complexa que parecia uma mistura de tristeza, solidão e melancolia.
“............”
Com a boca fechada, Junna estendeu a mão. Ela se inclinou para frente, em direção às hortênsias. Como se estivesse procurando a flor real escondida entre as falsas, ela afastou gentilmente as flores azuis com os dedos.
E o que havia ali era um aglomerado modesto de botões azuis densos e flores brancas minúsculas—
E uma única e fofa perereca de verdade.
O sapinho verde-amarelado, empoleirado em uma pétala, olhou para Junna com os mesmos olhos pretos e redondos do Geroppi. No momento seguinte:
“Pyah?!”
O sapo saltou em direção a Junna. Ela recuou com um salto enorme.
“............Ah... Ah...”
Então ela congelou e começou a tremer. Achei que ela estava feliz por ter encontrado seu amado sapo de repente, mas...
“Sh-Shigureee...”
Os olhos de Junna estavam arregalados e seu rosto pálido.
“A-A-Ajuda... eu...”
“Hã?”
“U-Um sapo!” Os olhos dela se encheram de lágrimas. “Eu não aguento eles! Eu amo o Geroppi, mas odeio sapos de verdade... Eu não consigo... Tira ele!”
O que é isso? Pensei, exasperado, mas o medo de Junna era imenso. Enquanto ela se contorcia e balançava as mãos repetindo “Tira ele, tira ele”, não pude conter o riso.
“Shigure!” A voz dela falhou. “N-Não ria, rápido! Tira ele!”
“Tá bom, tá bom. Mas... tirar de onde?”
“De dentro da minha roupa.”
“—Hã?”
Junna olhou para mim, com os olhos transbordando lágrimas. Ela puxou a gola de sua camiseta larga e da regata, como se quisesse abri-la.
“E-Ele desceu pelo meu peito!”
“Haaah?!”
“Tira ele!”
“N-Não seja ridícula!”
Gritei, desviando os olhos do tecido cor de hortênsia que florescia no decote profundo, mas ela imediatamente se moveu para o meu campo de visão. Junna, com lágrimas nos olhos, tinha uma expressão desesperada incomum. Ela não parecia estar brincando.
“V-Você diz para tirar, mas como...”
“Só enfia a mão e procura. Não tem problema se for você, Shigure!”
“Eu é que tenho problema com isso?!”
Não havia como eu colocar a mão ali — mas eu não podia deixar a Junna tão aterrorizada sozinha. Foi nesse momento que, no canto da minha visão, algo verde saltou.
“—Hm?”
A perereca que supostamente tinha pulado na Junna estava aos nossos pés.
“Pyaah!”
Junna, percebendo o sapo um momento depois, pulou para trás. Pela reação, ela realmente achou que o bicho tinha entrado na roupa dela.
“Você é tão medrosa... Não é como se fosse um sapo-flecha.”
[Almeranto: Sapo-flecha é uma espécie que possui um veneno ultrapotente em sua pele. O nome se dá porque povos indígenas raspavam suas flechas na pele do animal para fazer flechas venenosas.]
“P-Pererecas também têm veneno.” A voz dela tremeu enquanto se escondia atrás de mim. “Coisas vivas... são assustadoras...”
☂
“...São 17:00. Um horário meio estranho. O que devemos fazer?”
Perguntei enquanto continuávamos nossa caminhada pelo parque. Paramos em frente a um mapa do local.
“Tem um zoológico, pelo visto.”
“Eu te disse, seres vivos são assustadores.”
“Que tal um pedalinho de cisne?”
“Ouvi dizer que casais que andam neles terminam.”
“Isso não é um problema, é? Nós não estamos namorando—Ai.”
—Ela me deu um chute. Bem forte.
“...Que tal o santuário? Dizem que traz boa sorte com dinheiro e artes.”
“Não sou de confiar em deuses.”
“E para matchmaking (encontrar um par).”
“Vamos.”
Junna, com uma mudança de ideia que surpreenderia até os deuses, começou a caminhar rapidamente. Esfreguei minha bunda chutada e a segui.
“Depois que terminarmos no santuário, devemos jantar? Ou ir para casa?”
“Jantar é a única opção.”
A resposta de Junna foi inabalável. “Entendido”, eu disse com um aceno, e algumas opções me vieram à mente. Esta era a minha região, e eu tinha feito algumas pesquisas antes, então deveria ser capaz de atender aos desejos dela até certo ponto.
“Tem algo que você queira comer? Ou algum lugar onde queira ir?”
“A casa do Shigure.”
“Qualquer coisa, menos isso. Você está sempre tentando ir lá.”
“Ehh...”
Caminhamos lado a lado no pavimento de pedra. Ao retornarmos de uma área arborizada menos cheia, a agitação havia diminuído um pouco e, mesmo sem a sombra das árvores, a luz solar intensa tinha suavizado.
Olhando para cima, vi um céu cinzento e nublado. A previsão deveria ser de sol, mas o tempo parecia sinistro — e justo quando pensei isso, uma gota fria de chuva caiu em minha bochecha.
Uma gota, duas gotas, três, quatro, cinco, seis gotas. A chuva rapidamente ganhou intensidade e se tornou um temporal num piscar de olhos. Comecei a correr.
“...! Junna, por aqui!”
Segurei a mão dela.
“...!?”
Os olhos de Junna se arregalaram de surpresa, mas não dei importância, puxando-a enquanto acelerava o passo. Desviei do caminho principal e entrei em uma trilha lateral. Escondida da trilha principal pelas árvores, havia uma área de descanso coberta que parecia um coreto. Logo, um telhado de madeira quadrado apareceu à frente, e puxei Junna enquanto corríamos para dentro. Não havia mais ninguém lá.
“Um temporal repentino. Está caindo o mundo.”
A chuva intensificou-se para valer depois que nos abrigamos sob o telhado, tornando-se tão pesada que borrava nossa visão. O som e o cheiro do temporal e o ar úmido envolveram nosso pequeno pedaço de mundo.
“Sh-Shigure...”
Junna abriu a boca hesitantemente.
“...Sua mão.”
“Hm? Ah—ah, desculpe.”
Pedi desculpas e soltei a mão dela. Junna fez beicinho.
“...Eu ia dizer ‘não solte’.”
As palavras que ela murmurou em voz baixa dispersaram-se e perderam-se no som do trovão. Junna ficou ali, sem medo dos trovões, e me encarou.
Um pouco intimidado pelo estrondo repentino e pela atitude de Junna, tirei um lenço do bolso de trás da calça.
“Você tem algo para se secar, Junna?”
“Tenho, mas você me seca.”
Junna vasculhou sua bolsa e estendeu o lenço que tirou.
“Vamos nos limpar um ao outro?”
“Limpe-se você mesma. Vai ser estranho se alguém chegar.”
Mas ninguém mais veio e, depois de secar a maior parte do meu cabelo e corpo, guardei o lenço. Não tínhamos nos molhado muito, pois o coreto estava perto, mas a chuva não parecia que pararia tão cedo. Sentei-me em um banco e observei as gotas caindo da borda do telhado como uma cortina.
“...Você não está um pouco longe?”
Junna tinha se sentado em um banco de tora no ponto mais distante de mim e segurava seu lenço com uma cara amuada. Ela me encarou silenciosamente.
“...Você não está um pouco perto?”
Ela se moveu para o meu lado. Tão perto que nossos ombros se tocavam.
“Você é tão egoísta, Shigure...”
“Você mesma é bem egoísta, Junna.”
Voltei meu olhar para fora, como se para escapar de seus olhos semicerrados.
O silêncio caiu. Eventualmente:
“—Ei, Shigure. Você conhece a linguagem das flores para as hortênsias?”
Junna abriu a boca e perguntou.
“É diferente dependendo da cor”, disse ela, com o olhar fixo nos pés.
Quando respondi “...Não?”, Junna, ainda com os olhos baixos, continuou.
“Rosa significa uma mulher alegre, amor forte. Azul-violeta significa frieza, arrogância. E o que é comum a todas as cores é... inconstância, impermanência.”
Não havia emoção em suas palavras. Junna falava de forma desapaixonada.
“A inconstância de todas as coisas. Embora a outra ‘impermanência’, aquela que significa ‘sem sentimento’, também não esteja errada como linguagem das flores para as hortênsias azul-violeta. A origem é que a cor da flor muda constantemente dependendo da estação e do solo. YOHILA... nossa banda, era assim também.”
Nossa , não minha. Na internet, dizem que a membra oficial da YOHILA sempre foi, e ainda é, apenas JUN — mas...
“A YOHILA originalmente tinha quatro membros. Era uma banda de rock de quatro garotas formada no ensino fundamental com quatro meninas que frequentavam a mesma escola. Quatro pessoas, para ‘Yohira’ (quatro pétalas).”
‘Hira’ significa ‘pétala’.
Outrora, a flor de YOHILA tinha quatro pétalas.
“O motivo da banda se chamar ‘Hortênsia’ foi porque era bem na época da estação chuvosa... e todas as integrantes tinham um caractere relacionado à chuva ou água em seus nomes. Uma das integrantes pesquisou sobre hortênsias, descobriu sobre seu outro nome, Yohira, e disse: ‘Somos quatro, então é perfeito!’ Ela disse que era o destino.”
A razão pela qual a voz de Junna soava úmida provavelmente não era por causa da chuva. A mão que apertava o lenço cor de hortênsia tremia levemente.
“...A banda era... muito divertida. No começo, fazíamos covers de bandas como ENDY e depois começamos a fazer originais, e todo mundo melhorou muito rápido. Então, talvez por isso... Nós realmente pensamos que poderíamos nos tornar a melhor banda! Que poderíamos continuar fazendo isso para sempre. Mas…”
Em algum momento, o som da chuva tinha desaparecido. Não que a chuva tivesse parado. Era que eu estava completamente absorto em sua história.
“...não deu certo. Não durou nem um ano. Eu fiquei séria demais e as outras integrantes não conseguiram acompanhar. Uma saiu por causa das nossas abordagens e paixões diferentes pela música, depois outra... Uma estação passou e, quando a segunda estação chuvosa chegou, eu era a única integrante que restava na YOHILA. Foi depois disso…”
Junna olhou para cima, seu olhar fixo no espaço acima. Um rosto inexpressivo, como o de uma boneca. Seus olhos estavam tão escuros e sombrios quanto um céu coberto por grossas nuvens de chuva.
“Que a YOHILA começou a chamar atenção e se tornar popular.”
Imaginei o artigo da Wikipédia.
‘Em 31 de julho de 20XX, iniciaram suas atividades postando um vídeo com letra de “Hortênsias e Fantasmas” em um site de compartilhamento de vídeos.’
A YOHILA que eu, que nós, fãs, conhecemos, começou ali.
“—Eu,”
Junna soltou uma palavra como uma lágrima.
“Se eu pudesse, gostaria que tivesse continuado... para sempre...”
Ela não continuou.
O ar pesado e carregado de água preenchia o espaço. No silêncio, a música da YOHILA “Hortênsias e Fantasmas” tocou em minha mente.
Uma hortênsia molhada com lágrimas de chuva. A cor alterada da flor. Um azul fechado. Um fantasma rindo—
As letras da YOHILA são frequentemente abstratas e difíceis de interpretar. Até agora, eu achava que “Hortênsias e Fantasmas” era uma música sobre desilusão amorosa, mas talvez não fosse. As palavras de Akagi voltaram para mim.
‘Seja o guarda-chuva dela.’
Olhei para o perfil de Junna e gentilmente coloquei minha mão sobre a dela, que apertava o lenço cor de hortênsia.
“...!?”
Os ombros de Junna tremeram, e ela olhou para mim como se tivesse sido atingida. Eu apenas apertei a mão dela. Nosso calor misturou-se e lentamente derreteu-se.
“...! Shigure—”
A voz de Junna engasgou. Os soluços seguintes perderam-se no som da chuva que mais uma vez começara a envolver o mundo.
Permaneci em silêncio. Continuei segurando a mão dela, para que não escapasse. Fiquei assim até que a chuva parasse.
☂
“—Junna.”
Uma luz alaranjada iluminava o mundo molhado. Mesmo depois que a chuva parou, não soltei a mão dela e, enquanto caminhávamos lado a lado, disse-lhe resolutamente:
“Eu posso não ser um membro da sua banda, Junna.”
Senti o olhar dela na lateral do meu rosto. Mantendo meus próprios olhos fixos à frente, continuei:
“Posso não caminhar com você pelo caminho da música que você está trilhando... mas,” apertei a mão dela. “Posso ficar ao seu lado, assim, em um lugar não relacionado à música.”
“ …………Mm… ”
Junna parou de caminhar. Eu parei também e a encarei de frente. Seus olhos límpidos brilhavam e oscilavam, refletindo o crepúsculo.
Uma emoção sombria, como a sombra de um peixe, passou pelas profundezas de seus olhos, que eram como um lago transparente. Encontrei o olhar dela, que era uma mistura de esperança e ansiedade, e cerrei os lábios.
Desde que ouvi a história sobre o passado da YOHILA, eu estive pensando. Junna diz que gosta de estar sozinha, mas será que isso é verdade?
‘—Eu,’ ‘Se eu pudesse, gostaria que tivesse continuado... para sempre...’
As palavras que ela estava prestes a dizer não seriam: ‘Eu queria que estivéssemos nós quatro’? Não sozinha, mas como as quatro integrantes da YOHILA.
Assim como uma hortênsia esconde suas pétalas verdadeiras, os sentimentos ocultos de Junna são um mistério. Mas as canções que ela escreveu revelam sua verdadeira eu.
“Hortênsias e Fantasmas”, que canta o apego persistente e o amor que uma hortênsia nutre pelo fim da estação chuvosa.
“Yellow Frog”, que soletra a tristeza e a solidão de um sapo-flecha que fere a todos que o tocam.
“Rain, Ruin, Rain”, que retrata uma ruína açoitada pela chuva, uma cidade desolada, como uma paisagem mental.
As palavras que brotaram da própria boca de Junna sobrepuseram-se e ressoaram com as palavras tecidas como letras, revelando o contorno de seu coração invisível. Como alguém que ouviu sua música exaustivamente, eu sei.
Não se trata apenas das colegas de banda. Junna deve estar querendo estar com alguém o tempo todo.
“Então, ei—”
“...Sim.”
A luz nos olhos de Junna enquanto ela olhava para mim tornou-se mais brilhante. Ela apertou minha mão com força. Respirei fundo, como se mergulhasse na água.
“Vamos fazer alguns amigos.”
“Sim! …………Huh?”
Junna assentiu vigorosamente às minhas palavras e depois inclinou a cabeça para o lado. Continuei com voz firme:
“Acho que seria bom ter amigos com quem você pudesse passar o tempo em um lugar não relacionado à música. Além de mim.”
“………………”
“Você discutiu com as integrantes da sua banda sobre música e as coisas não deram certo, não foi? Então, se a música não estiver envolvida, talvez as coisas corram bem.”
“...Ah, sim.”
Os olhos arregalados de Junna caíram, tornando-se sonolentos. Sua voz também ficou plana.
“Você tem razão. Talvez sim...”
“Certo? Como um teste, que tal almoçarmos com alguns conhecidos meus na semana que vem? O Yōjirō e a Yamada. Eles já sabem que você frequenta a escola pela enfermaria também.”
“É...”
A resposta dela foi sem entusiasmo, e sua energia parecia notavelmente baixa, mas como esse era o jeito habitual dela, decidi não me importar. Junna resmungou.
“...Não era isso que eu achei que você ia dizer.”
“O que você achou que eu ia dizer?”
“N-Nada!”
Junna virou o rosto com um bufo, soltou minha mão e começou a se afastar a passos largos.
Deixado para trás, cocei secretamente minha bochecha corada. O que a Junna estivesse imaginando talvez fossem as palavras que eu tinha amarelado de dizer.
[Almeranto: Errou na cara do gol.]
☂
“Uau, que felicidade! Pensar que a Amamori-chan me convidaria para almoçar... É assim que a gente se sente nas nuvens! Ahh, que bom que eu estou vivo.”
“Você está animado demais.”
“Você podia era subir logo para o céu e morrer, sabe?”
“...Não fui eu que convidei ele.”
As reações minha, da Yamada e da Junna ao comentário do Yōjirō foram todas diferentes.
Na terça-feira, dois dias depois de eu ter saído com a Junna, convidei o Yōjirō e a Yamada para almoçar pela manhã, e ambos aceitaram prontamente. Apesar da atitude que a Junna tinha mostrado para eles antes—
“Desculpa, Amamori-chan... O nome desse cara é Kuzujirou (Giro-Lixo), mas,” Yamada, sentada de frente para a Junna, desculpou-se e apontou com o pão de melão que segurava para o Yōjirō ao seu lado.
Estávamos na enfermaria, nós quatro — eu, Junna, Yōjirō e Yamada — comendo ao redor de uma mesa. Akagi não estava. Como indicava a placa de “Ausente” na porta, ela tinha dado um jeito de sumir.
“Ele é assim com toda garota.”
“Que rude... Não é ‘toda garota’!” Yōjirō, tendo sido chamado de lixo, indignou-se e balançou os hashis. “Não, não.”
“É só com as garotas bonitas.”
“—Viu? Um lixo, né?”
“Uh, hum, sim.” Junna assentiu hesitante.
Achei que ela estivesse sendo atenciosa com o Yōjirō, que praticamente acabara de conhecer, mas:
“Ele é um lixo. Eu ficaria preocupada se ele tivesse uma má influência sobre o meu Shigure, então, por favor, nunca mais se envolva com ele”, disse ela com o rosto sério, cuspindo um veneno que surpreenderia até um sapo-flecha.
Os olhos de Yōjirō saltaram. “Ehh!?”
“ ‘Meu’ ?! Por acaso vocês dois já estão—”
“Sim. Estamos namorando.”
“...Essa garota conta piadas sem mudar a expressão, então não levem a sério, vocês dois.”
“Não, não foi piada”, Junna negou imediatamente. “Não estamos namorando, mas já ‘chegamos ao final’... é só um ‘final’ diferente.”
“...Isso é uma piada suja?”
“Isto é a prova.” Ignorando minha exasperação, Junna começou a mexer no celular.
O aplicativo que ela abriu foi o gravador de voz. Da longa lista de memorandos de voz, ela selecionou um arquivo chamado “Limpando o ouvido?” e deu o play. Em um instante:
‘...Junna. Certo, estou colocando, tá bom?’
Minha voz levemente tensa saiu pelo alto-falante, seguida por:
‘S-Sim...’
A voz fraca e trêmula da Junna. Eu tive um mau pressentimento.
‘Me avise se doer.’
‘...Mm... Ah... Q-Que bom... É bom, Shigure... Ah, hah... Ah, ahh.’
‘Não faça barulhos estranhos!’
Minha retruca a plenos pulmões tinha sido editada. Não apenas eu, mas Yamada e até Yōjirō ficaram boquiabertos.
“...E essa foi uma cena de depois da escola. Eu e o Shigure já estamos em um ponto onde fazemos coisas assim—”
“F-Foi uma limpeza de ouvido!” Arranquei o celular da mão da Junna e mostrei o nome do arquivo para os outros dois.
“Outro dia, essa garota de repente disse que ia ‘limpar meus ouvidos’... e não foi só eu que tive os meus limpos, mas acabei limpando os dela também...!?”
E assim tentei desesperadamente explicar, mas a situação de limpar os ouvidos de alguém depois da escola era tão bizarra, para começar, que comecei a me perguntar: ‘O que eu estou dizendo?’ enquanto falava.
“Além disso, por que você estava gravando? E com uma edição tão maliciosa!”
“Bem, achei que poderia usar...”
“Para o que você estava planejando usar?!”
“Eu gravo todas as minhas conversas com você, Shigure, de qualquer forma.”
“...Você está brincando, né?” Quando tentei checar a lista de arquivos, Junna pegou o celular de volta. Eu a sacudi pelos ombros. “Você está brincando, né?!”
“............”
Junna foi sacudida para lá e para cá com o rosto sério. Vendo nossa troca, Yamada caiu na gargalhada. “Pfft!” Ela começou a rir, segurando a barriga.
“ Ahahahahahaha! A Amamori-san é hilária. Muito engraçada.”
“Pois é. Quem diria que existiria uma garota capaz de arrancar mais respostas do Shigure do que eu, o melhor amigo dele... Vou ceder minha posição de parceiro de comédia para você, Amamori-chan.” Yōjirō também olhou para o teto dramaticamente e deu um sorriso irônico.
O ambiente relaxou instantaneamente e tornou-se amigável.
“—Céus. Não viemos aqui para mostrar um show de comédia.” Suspirei, mas também estava aliviado. Junna não estava muito animada com a ideia e eu estava preocupado que virasse outro desastre como da última vez, mas...
“Um show de comédia... Um show de marido e mulher? Escreve-se ‘marido e mulher’, mas lê-se show de comédia.” Junna parecia estar bem relaxada, agindo da mesma forma que agia quando estávamos só nós dois.
Ou talvez a Junna fosse exatamente assim, amigável e alegre, quando estava com as colegas de banda no ensino fundamental.
“Enfim. O bento da Amamori-san não é incrível?” — E com isso, os olhos de Yamada caíram sobre o bento que Junna estava comendo. O bento de estilo ocidental, centrado em um hambúrguer com molho de tomate, estava tão colorido e de alto nível hoje como sempre.
(Yōjirō) “Seu almoço também é incrível, Haruka. Pão doce, pão doce, pão doce, pão doce... Você vai engordar assim. Bem, você é um pouco magricela, então talvez engordar um pouco fosse o ideal— Guh! ”
“Cala a boca! Eu costumo comer no refeitório... Só comprei uns pães rápido na lojinha da escola hoje. — Então, Amamori-san.” Yamada, tendo silenciado Yōjirō com uma cotovelada nas costelas, voltou ao assunto. “Isso tudo é caseiro?”
“Sim, é. Eu que fiz.”
Não, não fez.
“Você quer um pouco? É uma marinada de três cores de pimentão, cenoura e cebola.”
Não tente dar para os outros as coisas de que você não gosta — Akagi a teria avisado se estivesse aqui. No entanto:
“Eh, sério?! Amamori-san, você é gentil demais! Ah, mas meus hashis...”
“Aqui. Diga ahh...”
“Eh?! A-Ahh...”
Senti que seria falta de tato interromper. Observei quietamente para ver o que aconteceria.
“ Mmmmmm , deliciofo! O toque de pimenta do reino realmente destaca o sabor... Você é uma gênia, Amamori-san?” Yamada disse, com as mãos nas bochechas de prazer, elogiando o prato que Akagi tinha feito.
“Sim, eu sou uma gênia.”
Observando-a, a expressão séria de Junna, iluminada pela luz do sol forte que entrava pela janela e pelo sorriso da Yamada, pareceu suavizar-se, nem que fosse um pouquinho.
☂
“—...Bem, não foi tão ruim.”
Naquela noite, após terminar o treino de atletismo da tarde e chegar em casa, perguntei novamente à Junna o que ela tinha achado da tarde, e essa foi sua resposta curta.
Como era uma ligação, eu não conseguia ver sua expressão. A voz de Junna, ouvida pelo meu celular, parecia ainda mais fria e seca do que pessoalmente. Por outro lado, suas palavras eram positivas.
“—Aqueles dois eram tão enérgicos que quase me cegaram... mas a Yamada-san foi mais fácil de conversar do que eu pensava, e ela foi legal. Tipo uma gyaru que é gentil com nerds.”
“Mais precisamente, ‘uma gyaru que é gentil com todo mundo, exceto com o Yōjirō’. Ela é basicamente legal com qualquer um.”
“—Pobre Kuzujirou” , murmurou Junna em um tom que não parecia nem um pouco sincero.
Após a interação durante o almoço, parecia que ela tinha se afeiçoado um pouco à Yamada, mas ainda havia um muro alto entre ela e o Yōjirō. O que, honestamente, era o que eu esperava.
“—Quanto a mim, sou uma musicista de desktop sombria e caseira que só age de forma doce com você, Shigure.”
“É, você deveria sair mais.”
“—...Isso significa que você quer ter mais encontros comigo? E você ignorou a primeira parte de propósito? Ei, foi de propósito?”
Ela me pressionou. Sentado na beira da minha cama, mudei de posição e reajustei o celular no ouvido.
“N-Não foi isso que eu quis dizer... Você age de forma doce com outras pessoas também, certo? Como com a Akagi-sensei.”
“—Hmm. Com ela, é menos ‘agir de forma doce’ e mais ‘ser mimada’?”
“Entendo...”
“—O único para quem abri meu coração é você, Shigure.”
Sua voz seca assumiu uma ressonância úmida e pesada. Não pude evitar prender a respiração e ficar em silêncio. Um silêncio como o de ser arrastado para debaixo d'água continuou por alguns segundos.
Do outro lado da linha, Junna soltou um suspiro.
“—...Por enquanto, de qualquer forma,” acrescentou ela, com a voz de volta ao seu tom seco original.
“—Eu tenho que fazer amigos, certo? Achei que estava bem sozinha, que gostava de ficar sozinha... mas depois de te conhecer e conversar com as pessoas como hoje, pensei que não estar sozinha também não é tão ruim. Então—”
Um calor rastejou na voz de Junna. Uma emoção calorosa diferente de antes.
“—Obrigada, Shigure.”
“Junna...”
As palavras dela aqueceram meu coração também. Sorri. “...Sim.”
“—Vou te convidar de novo. Almoço com eles... e passeios só nós dois. Eu serei a pessoa a convidar da próxima vez. Tem um monte de lugares onde eu quero ir.”
PLAYLIST DAS MÚSICAS QUE SÂO MENCIONADAS NA OBRA. (O autor tem um ótimo gosto)
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Youtube
(Crédito para o @Thang por reunir)
Traduzido por Moonlight Valley
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