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Capítulo 39 – Tragédia.

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Capítulo 39 – Tragédia.

Ali estava ela. A minha querida mãe.

Seu corpo deitado sobre a cama, onde descansava e tentava se recuperar da enfermidade que roubava a sua vida lentamente.

Ao menos, foi o que pareceu.

Me joguei de joelhos aos pés da cama e encarei a face vazia de minha mãe. Os olhos que não refletiam luz, o corpo que não esboçava reação.

Nenhum movimento.

“Como assim…?”

— Acorda! — gritei e balancei seu corpo, a chacoalhando na cama.

As lágrimas rapidamente inundaram a minha visão e a dor preencheu o meu peito em apenas um instante.

— Mãe, acorda!!! — gritei o mais alto que pude.

— Mãe!!!

A voz de Satoshi ecoou nos fundos da minha mente, mas nesse momento, nada importava. Eu não dei ouvidos, não compreendia mais nada.

O ar escapou dos meus pulmões e nem gritar mais eu podia, apenas agonizar com a imagem maldita que cravou a minha mente.

Tentei gritar, mas nada saiu, nem eu mesmo fui capaz de me escutar. Me levantei e me joguei sobre seu corpo, ainda com cuidado, na esperança de que ainda existisse uma integridade para proteger.

— Puta merda… Me ouve por favor. Levanta por favor… — implorei em prantos.

Abracei o seu corpo e a minha mente transbordou todo o sofrimento que quebrava qualquer barreira, qualquer corrente.

— Tarde demais. — a voz de Daichi soou baixa.

Meu corpo se moveu sozinho, puro instinto, pura negatividade. Sofrimento. Me lancei na direção de Daichi e apenas pude ver a feição séria de seu guarda-costas se distorcer.

— Parado aí! — Kiryū ordenou e entrou na frente de Daichi no mesmo instante.

Ignorei completamente sua fala e apenas avancei, sedento, louco, destruído. Meu braço se moveu por conta própria e agarrou o pulso de Kiryū que se pôs na frente.

“Tarde demais.”

Senti a força contrária de Kiryū e apenas pude assistir, como um mero espectador, enquanto eu mesmo avançava loucamente.

…

— Tarde demais?! Como assim tarde demais…?! — abracei a mim mesmo e apertei com a maior força que pude.

Meus olhos arregalados apenas assistiam o desenrolar do lado de fora. Meu corpo apenas avançava, minha mente apenas ruía.

— Kenji, me escuta! — Satoshi exclamou com a voz abafada aos fundos.

— Tarde demais… Tarde demais… — me balancei, caído, ainda abraçado a mim mesmo.

— Por favor me escuta, garoto! Me escuta, eu preciso que me escute!!! — Satoshi gritava, porém a sua voz permanecia abafada pelos ruídos que atormentavam a minha cabeça.

…

Kiryū segurava meus braços atrás de mim e os pressionava contra meu corpo, porém eu só era capaz de gritar, completamente consumido.

A feição cínica de Daichi se transformou por um instante, sua expressão se distorceu em algo diferente daquela superioridade. Mas não importava o que ele sentia agora, nunca importou.

Meu corpo se lançava à frente mesmo que o guarda-costas tentasse me segurar. Continuei avançando e apenas a força avassaladora de Kiryū que era capaz de me conter.

Meus olhos penetraram os de Daichi e apertei os dentes uns contra os outros com a maior força que pude.

“Tarde demais.”

Uma força anormal tomou conta do meu corpo e me desvencilhou de forma violenta do homem que me prendia e impedia o meu avanço. Nada mais me impediria.

Nada mais me atrasaria.

Meu corpo se jogou sobre Daichi de forma brutal e meus braços se lançaram na direção de seu rosto com toda a violência, com toda a dor.

Antes de atingir sua face, senti falta do ar quando o braço do guarda-costas se entrelaçou no meu pescoço com brutalidade, me puxou para trás e me tirou de cima do maldito.

Meu corpo se debateu violentamente e golpeeou Kiryū que me segurava por trás. Meus braços e cotovelos atingiram suas costelas e rosto em movimentos totalmente descontrolados.

…

Satoshi me puxou, me colocou sentado à sua frente e me balançou desesperadamente, gritando.

Abraçado aos joelhos, meus olhos arregalados ignoravam a presença de Satoshi e apenas assistiam a cena brutal em minha frente.

— Ken! Acorda porra!!! Isso vai te matar! — Satoshi me chacoalhou desesperadamente.

Meus olhos se moveram freneticamente e observaram ao redor naquele espaço totalmente escuro e disforme da minha mente onde apenas Satoshi residia e tentava instalar as suas raízes que se mostravam ineficazes naquele momento.

…

Em completa frenesi, minhas pernas chutaram Daichi caído no chão enquanto Kiryū me arrastava com força para trás e me afastava de seu chefe.

— Já chega, porra!!! — Kiryū gritou e me puxou com força para trás.

Daichi apenas assistiu a cena, imóvel no chão, com uma feição de medo estampada em seu rosto.

— Mate, apenas mate!!! — Daichi gritou a ordem em desespero para seu guarda-costas.

Meu corpo seguiu se debatendo até conseguir se virar para Kiryū que me encarou com uma feição preocupada. Talvez piedade, mas não importava.

A hesitação foi o suficiente para que meu braço rompesse novamente sua força que me continha e permitisse com que eu me lançasse até Daichi novamente que não conseguiu se mover em resposta.

— Tira ele de cima de mim, caralho!!! — Daichi gritou desesperado, trêmulo de medo.

…

Uma pressão esmagadora pressionou o meu espírito e todo aquele espaço em que eu me encontrava junto de Satoshi.

— Que merda Ken! Você vai destruir tudo!!! — Satoshi me segurou e gritou.

Todos aqueles ruídos, gritos, toda aquela pressão apenas me fazia gritar, cada vez mais, cada vez mais alto.

O espaço negro fendeu e uma grande rachadura atravessou toda a minha mente. Enxerguei o tecido se dobrar e uma luz iluminar de dentro do portão que se abriu.

— Você não vai sobreviver ao portão desse jeito. Ainda não está preparado pra entrar nessa zona! Me escuta!!!

Vi uma figura surgir na luz, uma esfera negra que parecia vibrar, parecia ressoar com todo aquele sofrimento, toda a pressão.

Me vi diante daquela coisa, daquela figura…a chave. Eu conseguia sentir. Isso é capaz de mudar tudo.

O desenho de um arco curvo largo de pontas afiadas com um semi círculo no centro e uma linha que atravessa toda a figura desde o topo.

Trêmulo, toco na esfera com o símbolo e posso sentir algo percorrer todo o meu corpo enquanto a pressão despedaça o meu espírito.

— Ele resistiu… — Satoshi sussurrou incrédulo.

— Se entregue, Ken. Você é digno.

…

— Consumir.

Estendi a mão até o pescoço de Daichi quando Kiryū me puxou ainda mais forte. Meu braço se desviou e a minha palma tocou na perna do maldito.

O símbolo brilhou rubro no dorso de minha mão quando um bréu líquido a cobriu e consumiu da canela até os dedos dos pés de Daichi, destruindo ali mesmo.