Capítulo 40 – Desperto.
Capítulo 40 – Desperto.
— Você precisa fugir, Kenji! Eles vão te matar!!! — Satoshi exclamou preocupado.
O sangue espirrou do resto da perna de Daichi que tremia e gritava agonizando no chão. Sua voz ficava rouca a cada segundo que permanecia gritando.
— Mata ele!!! Mata ele agora!!! Maldito!!! — Daichi berrou em desespero enquanto segurava sua coxa e olhava para o ferimento, o que restou de sua perna.
Kiryū apertou seus braços ao redor do meu pescoço e a pressão interrompeu a minha respiração. Em alguns segundos a minha visão se tornou turva e lentamente escurecia até que reagi novamente.
— Consumir. — recitei novamente e movi a minha mão até o braço de Kiryū que estava entrelaçado em meu pescoço.
O líquido negro surgiu quando o símbolo brilhou rubro no dorso de minha mão. Ouvi o chiado do ar que se queimou assim que o toquei.
Kiryū rapidamente reagiu e me soltou assim que ouviu a palavra. O homem se desvencilhou de mim e se lançou para trás até ficar distante o suficiente.
Uma pressão recaiu sobre o meu corpo assim que o símbolo e o bréu desapareceram e meus olhos ficaram pesados.
— Acaba com ele agora, Kiryū! — Daichi exclamou e logo em seguida se arrastou até o canto da sala.
Me lancei para frente, na direção de Daichi que se arrastava assustado, com temor estampado em seus olhos que me encaravam e refletiam a minha figura deturpada.
— Kenji, você precisa se controlar, isso vai derrubar você… Se você cair agora eles vão te matar. Eu te entendo, eu sei que é difícil, mas pra destruir ele você precisa sobreviver, você precisa fugir. — Satoshi aconselhou.
Me arrastei até o homem que me tomou tudo porém a cada movimento eu pude sentir meu corpo ficar cada vez mais pesado.
Alguém me agarrou pelos pés e me arrastou antes que eu pudesse alcançar Daichi. Minha visão escureceu e eu desmaiei devido a exaustão que consumiu meu corpo.
…
Ao abrir os olhos devagar pude avistar a silhueta borrada de um homem que atravessou a sala e passou em minha frente.
“Estou vivo? Isso é o céu?” Me questionei, confuso.
— Ken, permaneça quieto… Finja que ainda está inconsciente. — Satoshi me aconselhou.
Lentamente recobrei a consciência e tomei a percepção de que estava em uma sala estranha que nunca havia visto antes.
Discretamente tentei mover as mãos que estavam atrás das minhas costas e rapidamente percebi que estavam acorrentadas.
De costas para mim uma figura masculina mexia em algo acima de uma mesa. Os traços eram familiares, porém eu ainda não conseguia a identificar.
Minhas memórias embaralhadas e confusas surgiam de repente como uma pancada e me faziam arregalar meus olhos antes entreabertos.
— Não! — acidentalmente exclamei e lancei meu torso para frente após avistar a figura de minha mãe naquela cena maldita.
— Droga Ken! — Satoshi reclamou.
A figura desconhecida se virou e caminhou
até mim, ficando em minha frente. Kiryū, o maldito que protegeu Daichi, que defendeu aquele desgraçado!
— Me solta, seu maldito! Eu vou te matar!!! — praguejei e gritei para ele.
— Finalmente você acordou. — Kiryū disse com uma expressão cansada em seu rosto.
— Você deu trabalho hein…
Sua feição era cansada e melancólica. Seus olhos encaravam o meu interior e pareciam até mesmo compreensivos.
— É melhor você me matar! Me mata agora se não eu vou destruir você, vou destruir vocês dois!!! — exclamei e me debati, enfurecido.
— Você não merece morrer… — Kiryū falou em tom melancólico, me olhando de cima.
O homem se agachou e se pôs na mesma altura em que eu estava, abaixo. O encarei furiosamente e apertei os dentes uns aos outros desejando que quebrassem, que tudo se quebrasse.
“A minha mãe… A minha querida… Por que ela…?” Me lamentei no interior.
— Tome cuidado com as palavras dele, Ken… Ele não é nada confiável, mas lembre-se, se tem uma oportunidade deve abraçá-la. Você pode viver, você precisa viver… — Satoshi disse, apontando as possibilidades.
“Eles a mataram! Mataram ela!!! Ela se foi, ela morreu!!!” As lembranças cortavam meu consciente como navalhas.
Meu coração se preenchia e a raiva transbordava junto da angústia que parecia me engolir, com o ódio que apenas me levava a atacar, a inutilmente tentar investir contra o homem agachado diante de mim.
— Eu vou matar você, eu vou destruir vocês!!! — esbravejei novamente, transtornado.
“Eu preciso fugir daqui! Eu preciso matar ele! Como eu vou matar ele? Como eu vou fugir daqui?” Os pensamentos seguiram seu fluxo violento.
— O que sua mãe pensaria se visse você assim? — a voz de Satoshi atingiu meu consciente com mais força que qualquer punho.
As lágrimas borraram a minha visão e escorreram abaixo dos meus olhos. O ar simplesmente parou e a minha garganta deu um nó assim que ouvi as palavras de Satoshi.
“O que ela pensaria…?” A frase ecoou na minha mente e me fez refletir sobre.
A gritaria cessou e apenas permaneci encarando o rosto de Kiryū, porém com a mente em outro lugar, em mim mesmo, na questão que me foi dada.
— Ela ia se preocupar… Ela ia cuidar de mim, me proteger. Ela me diria que esse sentimento iria me matar, que essa coisa iria me transformar em alguém pior do que quem causou isso. Pior que Daichi… — respondi mentalmente, gaguejando.
— E o que essa lembrança te diz? — Satoshi questionou.
— Que eu devo parar, retomar a consciência, me controlar…
— E então?
— Mas eu não consigo!!! — exclamei, ainda com o ódio e angústia fervente que sentia no meu peito.
Kiryū colocou a mão na minha cabeça e encarou o fundo dos meus olhos, então disse:
— Você precisa viver pra destruir tudo. Quantos outros vão sofrer o mesmo se ninguém fizer nada?
— Eu não entendo essa preocupação, eu não consigo entender você depois de tudo. Você permitiu que aquilo acontecesse, você ajudou pra que chegasse naquilo, você é cúmplice! — cuspi as palavras no rosto do homem à minha frente.
— Eu tive meus mot-
— É tão podre quanto!!! — exclamei, furioso.