Capítulo 48 – A espada.
Capítulo 48 – A espada.
O grande espinho só arranhou e fez cortes superficiais no braço e parte do torso de Tsukuyomi que segurava firme a cabeça de Kenshi, aplicando cada vez mais força.
Amaterasu finalmente apareceu no campo de visão. Em alta velocidade a mulher correu até o companheiro. Seus olhos derramavam lágrimas como uma cachoeira.
“Faz alguma coisa Amaterasu!!!”
— Kenji, precisamos de você!!! — a voz de Satoshi ecoou no imenso vazio.
…
Abri os olhos lentamente e com a visão turva pude ver Amaterasu. Seus cabelos transformados em labaredas dançavam junto das chamas que subiam dos olhos incandescentes. As lágrimas que antes escorriam evaporavam conforme o calor do corpo se intensificava.
A mulher estava agachada segurando Kenshi nos braços ao lado de Sora e Kafka estirados no solo, gravemente feridos. Ela encarava Tsukuyomi furiosa.
“Que milagre me salvou…?” Me questionei.
Fitei o meio-deus que encarava a sua irmã de cima, com culpa e pesar, porém uma determinação e ímpeto imparáveis. Tsukuyomi pareceu fraquejar, mas se manteve firme. Seu corpo estava coberto de marcas de queimadura e a areia ao redor ainda queimava um pouco.
Eu estava longe, estirado na areia e com uma fadiga tão grande que mal podia me mover. Com grande esforço pude mover a minha mão direita e agarrar um punhado de areia.
“Onde está Satoshi…?” Questionei, preocupado.
Com o peso nas pálpebras fechei os olhos novamente e adentrei no meu espaço mental, mergulhando nas profundezas da minha mente para encontrar meu amigo.
— Sato onde está você?! — a voz ecoou no espaço fragmentado, escuro e confuso.
Olhei os arresores e no fundo do vazio quebrado havia uma silhueta baixa. Me aproximei devagar e avistei Satoshi no chão, estava ajoelhado e com as mãos no solo, olhando para baixo.
— Você tá bem?— perguntei, confuso e preocupado.
O loiro ergueu a cabeça e lançou um olhar melancólico que atravessou minha alma. Seus cabelos longos cobriam parte do seu rosto mas ainda era possível notar as lágrimas que desciam as suas bochechas.
— Sora e Kafka… Nós perdemos. Não conseguimos parar Tsukuyomi. Você quase desapareceu e é um milagre estar vivo, mas agora Amaterasu está sozinha contra ele, eu não fui capaz…
Satoshi abaixou a cabeça e caiu em lágrimas, desesperado e prestes a perder tudo o que considerava importante.
— Eu não consigo ficar de pé! Eu não consigo te encarar sem sentir culpa… Você quase se vai por uma ideia minha, por meu poder.
“Por que abandonar o amigo que sempre esteve comigo?” Pensei.
Aquelas palavras tocaram meu coração e meus joelhos estremeceram ao ouvi-las. Me inclinei para frente e estendi a mão para Satoshi.
— Se ainda estamos vivos, podemos mudar isso. Enquanto houver vida, ainda não perdemos… Por Sora, Kafka, Amaterasu, Kenshi e minha mãe, não podemos desistir aqui, não agora.
— Eu não consigo! Seu corpo já não suporta mais nenhum poder! — Satoshi exclamou em resposta.
— Vamos tentar — decidi.
Retornando à visão do mundo real, pude ver Amaterasu gritar com Tsukuyomi que permanecia imóvel encarando a mulher.
— Você se tornou um monstro… Um monstro assim como nosso pai, ou até mesmo pior! Nós apenas tentamos te ajudar e você tenta nos matar… Você os matou!!! — Amaterasu grita em completa angústia, levando a mão ao peito com firmeza, agarrando as vestes com força.
A mulher largou Kenshi incosciente na areia ao lado de Sora e Kafka. Seu corpo inteiro parecia esfumaçar e se tornar avermelhado a cada segundo. Os cabelos flamejantes dançavam ainda mais e as chamas que se projetavam do corpo se tornavam mais violentas.
— Como eu fui idiota em tentar…em esperar algo bom de você, seu maldito! — Amaterasu cuspiu as palavras com peso no coração.
— Nunca vi ela assim… — Satoshi comentou, surpreso.
A meio-deus se levantou e cerrou os punhos com firmeza. Ela caminhou lentamente até Tsukuyomi encarando o fundo dos seus olhos.
Tsukuyomi expirou com peso e tensionou o maxilar. Ele também cerrou os punhos e encarou a sua irmã no fundo dos olhos. Os cabelos brancos esvoaçaram e permaneceram flutuando, o olhar brilhou mais intenso.
Com esforço virei o corpo e me apoiei sobre meus braços, ficando de joelhos na areia e novamente voltando o olhar para o conflito que ainda se desenrolava.
“Preciso encontrar uma forma de ajudar Amaterasu, se não todos nós vamos morrer aqui…” Pensei.
Ao longe avistei uma silhueta desconhecida que surgiu subitamente. Era alta e caminhava até nós sem pressa, parecia empunhar algo longo.
Quanto mais se aproximava mais eu podia notar os detalhes: um homem alto com longos cabelos encaracolados e uma barba e bigode negros, vestia um haori branco e por baixo roupas azul-escuro, também parecia guardar uma espada longa e levemente curvada dentro de uma bainha azul, o olhar era afiado como o trovão.
— Eu não conheço esse homem. — Satoshi afirmou.
O homem caminhou e quando chegou à uma distância suficiente para ver nitidamente todo o cenário passou a andar com mais pressa até nos alcançar e diminuir os passos novamentes. Em passos lentos o homem entrou na situação e olhou aos arredores, sua feição parecia de preocupação.
“Quem é esse cara…? Nunca o vi antes. Seria ajuda ou algum aliado de Tsukuyomi?” As dúvidas desesperadas brotaram.
— O que foi que você fez garoto…? — o homem proferiu as palavras enquanto encarava Tsukuyomi prestes a atacar Amaterasu que também ameaçava avançar.
Ambos meio-deuses voltaram os olhares instantaneamente para o homem desconhecido que havia recém chego. Tsukuyomi e Amaterasu encararam ele, surpresos e trêmulos.
Com as pernas e braços trêmulos consegui engatinhar até os principados desacordados sobre a areia. Kenshi ainda respirava nitidamente, porém Sora e Kafka estavam com cortes profundos no torso e braços.
— Por favor estejam vivos…por favor. — Satoshi suplicou aos céus.
Nervoso e preocupado me inclinei sobre o peito de Sora e tentei ouvir seus batimentos até escutá-los, fracos e baixos, porém ainda ali. Levei a mão até o rosto de Kafka e senti sua fraca e baixa respiração.
— Eles estão vivos… — suspirei.
— Graças a deus! Algum deus que tenha me ouvido… — Satoshi agradeceu.
Voltei a atenção rapidamente para os três que se encaravam atrás de nós. Tsukuyomi e Amaterasu ainda olhavam para o homem desconhecido com surpresa no olhar. O homem olhava ao redor com peso no semblante, assustado com o estado de ambos meio-deuses e de nós.
— Susanoo?! — Amaterasu e Tsukuyomi disseram em uníssono.