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Capítulo 1: Despertar para a Humanidade

As Memórias Perdidas De William Rassad — illusia.com.br · All chapters

Capítulo 1: Despertar para a Humanidade

A cabeça latejou com uma dor insuportável. Parecia que suas memórias haviam sido tragadas por chamas, deixando para trás apenas um vazio absoluto.

Ainda preso a um transe, o jovem se debateu sem consciência. A relva úmida se enredava em seu corpo enquanto seus braços roçavam nas pedras cinzentas e banhadas pelo sol, esfolando a pele sem que ele compreendesse o motivo.

Quem era ele? Onde estava?

Pensamentos dispersos tentaram se formar, mas a névoa mental era densa demais. A mente lutou contra a escuridão, buscando a superfície, mas acabou engolida por um torpor pesado, afundando novamente no esquecimento.

— • —

A luz do sol atravessava as copas das árvores em filetes dourados, banhando a vegetação ao redor. Para o garoto deitado, porém, aquele clarão não passava de um borrão turvo e esbranquiçado no céu.

Ele não enxergava as perobas altas, as samambaias nem a cama de pedra onde jazia. Faltava-lhe a noção do próprio corpo e até a percepção de si mesmo.

Aos poucos, o clarão dissipou-se, iluminando seu rosto moreno. Conforme os sentidos retornavam, a mente diluída lutava para processar as informações que surgiam de forma abrupta.

Compreendeu que aquela luz acima era o sol. Que o tom do emaranhado de folhas balançando ao vento era verde — e que verde era uma cor.

Tomou consciência de seus lábios cheios, ressecados pelo calor que sentia ali entre as pedras — e, no mesmo instante, descobriu o que era o calor.

Moveu os lábios e sentiu o gosto do vento: algo suave e adocicado no fundo daquela sensação, misturado ao cheiro fresco e denso da mata que invadia o nariz.

Sentia algo estranho, uma aspereza seca na garganta que nem mesmo a saliva conseguia suavizar. A sensação era tão incômoda que beirava a agonia — um sentimento de desconforto que ele se via incapaz de solucionar. A compreensão veio logo em seguida: aquilo era sede.

Com um movimento trêmulo, recolheu os braços e forçou as pernas a se moverem. Conseguiu sentar-se sobre a relva e o canteiro de samambaias em meio às pedras.

Antes de pensar em qualquer outra coisa, deu-se conta de que questões óbvias — o sol, as folhas e até a própria sede — haviam sumido de sua consciência. Como podia não saber nomear coisas tão simples?

Correu os olhos pelos arredores e reparou nas imensas estruturas que se erguiam em direção aos feixes de luz, sustentando as copas. A resposta veio rápida: eram árvores, compostas de madeira.

A sede persistia, mas a curiosidade pelos arredores era maior. Seus olhos, de um tom azeite brilhante, percorriam os arredores até pousarem nas próprias mãos. A pele era macia nas palmas e áspera no verso, de um tom moreno que lembrava o açúcar queimado ao fogo ao se transformar em caramelo.

Diante daquela visão, a pergunta inevitável surgiu: quem era ele?

A busca por sua identidade agitou sua mente. E então, junto com a torrente de informações que retornava aos poucos desde o despertar, um nome ressoou em sua cabeça — a forma como era chamado, embora não se lembrasse de quem lhe dera essa alcunha: William.

Junto com o nome que retornava, o garoto sentado com as pernas entrecruzadas em meio às pedras sentiu uma vertigem repentina, acompanhada por uma fisgada de dor de cabeça.

A pontada foi se acentuando rapidamente. Parecia que as lacunas da sua memória estavam sendo preenchidas à força. Fosse pelo despertar de seu “eu” ou pelo fim do torpor, as leis naturais, os conceitos e os nomes de inúmeras coisas irromperam em sua mente de uma só vez, fazendo o mundo girar.

A torrente de informações reverberou com tanta violência em sua cabeça que pareceu prestes a estourar seu crânio.

O estômago de William se revirou — mesmo estando vazio — e, subitamente, ele pôs para fora uma mistura azeda de suco gástrico e bile.

O gosto amargo impregnou sua boca. Deixou que a saliva escorresse até o chão e cuspiu algumas vezes para tentar se livrar daquela sensação terrível, o que reacendeu com força a sede que sentia.

Ele nem teve tempo de assimilar o volume de dados acumulado em sua mente, tampouco percebeu as tantas outras memórias que continuavam ausentes.

No entanto, em meio a essa enxurrada de conhecimentos, veio também a resposta clara para acabar com aquela agonia e com o gosto ocre na boca.

Chegou à conclusão óbvia: ele precisava de água.

— • —

A brisa fresca da floresta batia em seu rosto, balançando seus cabelos negros e repicados. A luz do sol ainda incomodava os olhos, que ardiam pelo torpor recente e pelas circunstâncias em que despertara.

Decidido a encontrar água, William seguiu por um rumo aleatório naquela mata desconhecida.

Troncos rijos de peroba erguiam-se por todos os lados, com copas espessas que filtravam — mas não impediam — a passagem incessante dos raios solares. A cada passo dado com seus sapatos velhos e desgastados, o farfalhar da vegetação e o cheiro poeirento da terra subiam até o seu nariz.

Caminhou enquanto refletia. Quanto mais avançava por aquela floresta aparentemente serena, mais estranha lhe parecia a própria situação. Não lembrava como fora parar naquele círculo de pedras, nem guardava memórias do mundo antes de acordar, salvo os conceitos básicos da realidade.

No entanto, ter um nome era a prova de que possuía uma história — e essa era uma história que lhe interessava descobrir. Mas, naquele instante, a prioridade absoluta era a água.

À sua frente, a linha de árvores começou a rastejar até dar lugar a uma clareira aberta à beira de um precipício. William parou, percebendo que estava em um local extremamente alto.

A vista era impressionante: um vasto mar verde estendia-se até onde os olhos podiam alcançar. Mais abaixo, próximo a um declive na encosta, ele divisou um pequeno lago cristalino.

Levantou a mão para proteger o rosto do sol intenso e contornou uma grande pedra, traçando mentalmente a rota pela borda do penhasco para alcançar o lago.

A boca continuava seca e tomada pelo gosto ocre. Quando deu o primeiro passo para iniciar a descida, um sibilado estranho ecoou às suas costas, acompanhado pelo farfalhar repentino das folhas.