Capítulo 10: Uma Questão de Utilidade
Capítulo 10: Uma Questão de Utilidade
Will se sobressaltou. Afinal, os olhos castanhos amendoados rapidamente adquiriram um tom ligeiramente taciturno, e os sorrisos e a expressão do líder da Irmandade dos Leões de Aço cessaram.
Danny olhava com uma expressão dura. Seus lábios formavam uma linha tensa, e sua postura havia ficado mais ereta enquanto ele se encostava naquele tampo de madeira da mesa ampla no salão.
O rapaz amnésico certamente se surpreendeu de fato foi com a pronúncia de seu nome, dito com todas as letras. Eram treze no total, e ali o homem não havia usado a alcunha que lhe dera, “o da amnésia”, nem mesmo o apelido de Liz.
O Reino de Losdrich era certamente uma nação diferente.
Como Reino, rapidamente se entenderia que ali havia nobres famílias que mandavam pelo reino e tinham suas propriedades. E isso era uma verdade, porém apenas em partes:
—Eu não sei se eu consegui entender direito—Will protestou.
Mesmo que houvesse insegurança e até mesmo desconfiança ao se tratar da forma que Danny agira, o garoto não considerava nem justa nem séria a atitude daquele homem:
—Will, nesse sentido eu vou ter que dar razão ao Danny—Markus falou com aquela sua forma lógica e característica de agir—O dinheiro é a essência o cerne da nossa Irmandade, assim como de todas as Irmandades de Losdrich e as próprias Irmandades são os ossos do Reino.
—Eu gostei da analogia—Danny sorriu sarcasticamente para seu amigo—As famílias nobres são o coração do Reino, mas nem eles conseguiram dar a volta por cima na Grande Crise de duzentos anos atrás, então estamos aí e agora estamos aqui, com você agindo de forma insolente diante de nós.
Will começava a tomar consciência da situação degradante em que havia se metido. Ele não tinha conhecimento nem destreza no saber das Irmandades, mas esperava que pessoas como os Leões de Aço prestassem serviços de forma altruísta.
Aquele ali havia sido seu grande e maior engano ao se tratar daquela questão, pois a perspectiva do líder pendia para as questões das moedas desde o começo.
Markus certamente não era diferente, afinal, fazia parte da chefia da Irmandade. Ele só tendia a ter uma noção menos enviesada de tudo:
—Acredito que com essa explicação as coisas estejam ficando claras e eu agora não estou mais tão confuso.
—Eu estou agora começando a gostar mais do jeito que você tá falando—Danny deu um breve sorriso e entremeou os dedos embaixo do queixo.
—O problema inicial era que eu havia tomado para mim a questão do valor que uma vida teria e me equivoquei sobre a questão de como as Irmandades atuam—O garoto chegou a uma conclusão de que não gostava nenhum pouco—Vocês são mercenários no sentido mais amplo da palavra.
—Vejo que está começando mesmo a entender.
—…
—As Irmandades são a base econômica do serviço do Reino, logo é esperado uma compensação pelos nossos serviços. A Leões de Aço assim como os Falcões Dourados são instituições especializadas na formação de guerreiros para prestarem serviços individuais. O Sol Carmesim é uma Irmandade especializada em segurança pessoal, assim como a Confraria do Cristal Azul se dedica aos estudos do Ether.
Com aquela explicação professoral, Markus parecia gostar da utilidade de seus conhecimentos à mesa, enquanto Danny fazia uma expressão entediada. Assim sendo, o Sub-líder concluiu com um “no mais” e logo seguiu dizendo:
—É mais ou menos assim que funciona o nosso Reino de Losdrich e um serviço como o que fizemos a você, certamente iria requerer uma remuneração boa.
—Obrigado Markus, acredito que sua explicação poderia ter se focado em fazer o da amnésia nos pagar—Danny falou com tédio.
—Você sempre tenta desvalorizar meus conhecimentos de mundo, Danny.
—Sei, Sei, aqueles papos de quando você era um andarilho.
Mais uma vez, a conversa unilateral prosseguiu entre os dois homens, e o jovem que não tinha memórias apenas observava aquela interação.
Enquanto fazia isso, percebeu que precisava pensar em uma forma rápida de resolver a sua situação. Entendia agora que a base das Irmandades eram as moedas, e não o altruísmo ou então o valor de uma vida.
Ele se perguntou se Liz pensava dessa forma quando o resgatou na floresta e assim fez uma anotação mental para que perguntasse a ela mais tarde. Da mesma forma, se lembraria de perguntar a Danny ou Markus — muito provavelmente a esse último — sobre o paradeiro dela.
Por ora, bastava saber que ela estava bem.
Agora devia resolver aquela questão mais complicada que se interpunha na sua frente. Como poderia pagar Danny se tudo o que tinha era aquele corpo?
—Não tem só haver com eu ser um andarilho não—Markus pestanejou.
A discussão aparentemente seguia seu rumo ainda a todo vapor, e o líder entediado quase bocejava diante dos protestos do outro:
—Se não fosse por mim, você certamente teria investido cem moedas de ouro naqueles conjuntos falsos de botas de couro da Pluma Dourada.
—Ordinários de merda—O líder protestou—Aquele Vesler que vá tomar no cu, eu ia matar aquele canalha.
—Ainda bem que eu não deixei—Respondeu o homem com uma expressão afetada—A Leões poderia nem existir hoje se você tivesse feito isso.
—Agora, cá entre nós, não precisava me desmoralizar na frente do da amnésia né?
—O quê? Achei engraçado esse fato—Will brincou com um sorriso no rosto—Afinal você me parece um pouco intocável.
—Por que parece que seus elogios vêm carregados de tentativas de me ofender?
—Eu tento sabe?
Will deu de ombros, indiferente de propósito. Danny, por outro lado, deu um sorriso de esguelha enquanto desviava o olhar da direção do garoto.
O clima havia ficado leve, mas isso durou só um instante:
—Nós demos voltas, voltas e voltas—Disse Danny balançando os dedos—Até acho que se isso fosse um livro nós teríamos ocupado o quê? Uns três capítulos?
—…
—Mas tudo para nos fazer voltar para o lugar onde nós começamos—O homem ajeitou levemente a coluna e estalou os músculos do pescoço—Você não tem memórias, não sabe de onde veio e provavelmente sua família inteira está morta… Isso é, se você for um Rassad. Eu então quero saber como pretende nos pagar.
Danny voltou para o cerne da conversa que movia toda aquela questão. Desde que sentaram naquela mesa, tudo fora voltado para como Will iria pagar por sua dívida.
Uma coisa boa que sucedera disso era que o garoto agora conseguia ter um pouco mais de noção do que era aquele mundo no qual estava se inserindo aos poucos.
Will fechou os olhos e arfou, respirando de forma leviana diante do líder que trazia para si uma questão séria. Não havia muito como fugir daquilo. Ele teria que oferecer qualquer coisa que pudesse:
—Nesse caso eu não tenho como pagar você por qualquer coisa que você tenha me oferecido Danny, não sei muito desse mundo e também estou como você mesmo disse… Pobre—O garoto falou cadenciado com o homem—Mas eu tenho meu corpo e eu posso oferecê-lo a você.
Diante das falas precipitadas de Will, as reações na sala foram ainda mais estranhas.
Markus arregalou os olhos e levou a mão à boca, ao mesmo tempo que seus ombros tensionaram. Ele pareceu abobalhado diante daquela perspectiva.
Danny, por outro lado, contorceu a sua expressão de um modo exagerado que só ele sabia fazer. Sua boca assumiu um contorno estranho e seu nariz foi repuxado. O olho esquerdo se arregalou mais do que o direito.
Em resumo, a proposta de Will não foi recusada, mas não era esperada pelos líderes da Irmandade.
O garoto ficou sem entender o porquê de todas aquelas expressões dos dois homens. Em sua cabeça, não havia nada de errado. Ele estava pagando o que era devido:
—Ué, eu falei algo de estranho?
—Você ainda tem a coragem de perguntar?—Danny quase subiu na mesa de tanta surpresa.
—Mas eu não entendi, vocês falaram que eu tenho que pagar, estou pensando nisso—O garoto declarou sem pestanejar.
—Ah não, eu realmente vou ter que lidar com coisas desse tipo?—Danny se virou perguntando para Markus.
O homem ignorou a pergunta do líder, como ficou claro que fazia com bastante frequência, e assim sendo cruzou os dedos, um pouco recuperado do choque, e falou de maneira calma com Will:
—Acho que você não entendeu o que significa pagar com o corpo, não?
—Não seria vocês usarem a mim?
—…!
—Olha, eu realmente não tenho memórias de nada do que aconteceu, não tenho um propósito embora eu realmente gostaria de saber o que sou eu—Ele disse mais para si mesmo do que para os outros—Eu não me importo que usem a mim se eu não posso pagar de outra maneira, acho que não seria boa coisa começar essa espécie de “nova vida” cheio de dívidas.
O próprio garoto não entendia o que significava aquela questão toda de usar e tudo mais. A expressão que aquele mundo interpretava como usar uma pessoa era simplesmente divergente de Will.
Ele acreditava que usar algo era dar utilidade para aquilo ou tirar vantagem, e não que tivesse o cunho que Danny e Markus imaginaram:
—Quando nós usamos outra pessoa, a gente se aproveita de algum tipo de qualidade dela—Danny falou fazendo o desenho de um violão com as duas mãos—E acredito que você não tenha essas qualidades.
O homem fez um gesto obsceno para o garoto, mas que não foi necessariamente direcionado a ele. Will certamente não entendeu, mas Danny ignorou isso adicionando:
—Pelo menos eu não curto as que você oferece.
—Deixando isso de lado—Markus interveio ignorando a expressão de desentendimento no rosto de Will—Garoto, não saia por aí oferecendo-se para ser usado pelas pessoas, isso não pega bem, me entende?
—Mas…
—Me entende?!
Will iria questionar, mas Markus foi mais veemente ainda em sua implicação, não deixando brechas para perguntas que eram estritamente desnecessárias:
—Tudo bem—Disse Will desistindo de lutar—Mas eu ainda não entendo isso.
—Não faz mal.
—…
—Agora, eu tive uma ideia, pelo menos você me deu uma ideia de como pode nos ajudar a resolver a questão da dívida.
—Como exatamente, Markus?—Quem quis saber foi um Danny que não parecia conhecer os detalhes.
—Ele pode se juntar a nós e trabalhar para os Leões de Aço.
A solução do Sub-líder era simples e fácil e também resolvia uma questão complicada de forma fácil. Porém, para Danny, as coisas não eram assim:
—Não, não e não—Ele falou enfático, quase batendo a mão sobre a mesa—Isso não vai trazer benefício, o que precisamos é de ouro, da moeda da coroa, e não de gente Markus. De bocas para alimentar.
De forma veemente e quase inconsciente, o líder negou todos os direitos de Will, assim como seus requisitos e sua posição como uma pessoa de fato.
O garoto ainda não entendia com toda a destreza social da qual precisava para saber como aquela situação implicava na sua vida, mas algo, quase instintivo, ardia dentro dele para que protestasse naquele momento.
Markus olhou de esguelha para ele, e foi por esse motivo que Will não falou nada. O Sub-líder tinha alguma espécie de plano, com certeza:
—Se você me der outra solução eu aceito de bom grado.
—Devíamos fazer então como se faz com quem deve algo, linchamento—Danny propôs com uma radical seriedade.
—…!
—Para começo de conversa Danny, nós não somos a Sexta Voz—Markus comentou com ênfase enquanto colocava um dedo sobre a mesa—Se você acha normal esse tipo de coisa, então certamente não é muito diferente daquela mulher.
—Markus, não ouse….
A tensão no ar ao redor daquela sala aumentou de uma forma considerável enquanto os dois homens que compartilhavam os mesmos olhos continuavam a se encarar.
Markus se manteve impassível, enquanto Will sentiu uma pressão nos arredores, como se a gravidade do lugar quisesse comprimi-lo.
O Sub-líder ergueu a mão com a palma aberta e, assim, com um olhar tranquilo, balançou a cabeça de um lado para o outro:
—Não o estou comparando, afinal você não fez nada disso, mas eu não sou a favor de morte e linchamento por dinheiro—Sua voz era calma, mas dava para ver que tinha sentimentos intensos—Se decidir por fazer isso, eu me retiro da Irmandade.
Danny ofegou, então logo se jogou de volta sobre a cadeira, o rosto emburrado, fechado como um dia chuvoso, e os braços cruzados em descontentamento:
—Se eu soubesse disso, não teria me preocupado tanto assim com você o da amnésia—Ele bufou—A Liz vai ter que ouvir algumas repreensões.
—…
—Pagamento com trabalho, bem, essa é a função do nosso mundo, mas eu não queria contratar agora—Ele pôs um dedo sobre o queixo e parou para refletir—Fora que, os unguentos, roupas e até mesmo as faixas, tudo isso é mais caro do que o salário que eu pagaria a você.
—Se isso é tão questionável assim para você—Will se levantou da mesa bastante indignado—Eu posso ir embora. Devolvo tudo. A sua capa. O seu unguento, seja lá o que for e também essas ataduras.
—Sujeitinho emburrecido você, o da amnésia.
Danny era poucas ideias e talvez até mesmo a misericórdia de Markus tivesse deixado de existir, pois ele mesmo parara de falar e apenas observava quieto como tudo sucedia.
Will fez menção de tirar a capa, ao que o líder esfregou a mão enluvada no rosto e depois a ergueu com os dedos contraídos na direção dele.
O garoto sentiu um leve abalo e também o tremelique que atravessou todo o seu corpo. Ao mesmo tempo, sentiu um choque que percorria suas pernas, parecendo agarrar e arranhar, além de romper os músculos delas. Era como se esmigalhassem os pedaços de carne, mas eles se mantivessem intactos e, junto disso, amarrassem um disco de pedra no calcanhar do garoto:
—Você não vai embora!—Declarou o homem com força.
A intenção sinistra de Danny se propagou, e o próprio Will sentiu aquela sensação atravessar fisicamente a sua pele. Perguntava-se o porquê de parecer que os músculos estavam se contraindo a níveis que não deviam e também o porquê de sua pele não parecer ser sua.
Não havia comido nada, mas a sensação de ter os órgãos internos comprimidos lhe causou náuseas e fez a bílis fervilhar no fundo do estômago, ameaçando assim subir por toda a garganta:
—Precisa entender de que formas as coisas funcionam—Danny tensionou ainda mais os dedos—Da forma que você age, não passa de uma criança que não consegue andar com as próprias pernas.
Will escutava as palavras, mas muito fracamente, pois um zumbido ecoava ao redor do seu ouvido, açoitando com extrema força e violência seus tímpanos.
As pernas bambeavam, e ele parecia que iria cair. Não conseguia nem mexer a cabeça para ver o chão, e a compreensão quase se esvaiu da mente:
—Já chega Danny!
A voz suntuosa de Markus reverberou pelo salão e, naquele momento, os dois que tinham os olhos quase iguais se encararam mutuamente. O líder com desconfiança. O Sub-líder meio irritadiço:
—Matar não é uma coisa certa—Markus disse parecendo moralista—E isso ainda é crime. Por maior a insolência que seja configurada.
Seu olhar atravessou Will, que rapidamente se recompôs após aquela pressão desaparecer de todo o seu corpo. Os olhos castanhos meio repuxados do outro homem não eram amigáveis, mas pareciam mais tranquilos que os de Danny:
—Sua situação, Will, é das mais complexas no que diz respeito as questões das Irmandades.
—…
—Dívidas, dinheiro, tudo isso tem seu valor de importância no nosso mundo—Markus falava em tom de sugestão, colocando uma mãos à frente na mesa—Falar trivialmente disso como fez há pouco, cuspir numa cortesia como a que tivemos com você, isso não é visto com bons olhos, w uma vida assim pode muito bem ser uma vida sem valor.
—Mas…
—Dito isso—Markus ignorou o garoto que estava prestes a protestar—Acredito que entenderá o quanto nos deve, e isso é o valor da sua vida e também a oportunidade de viver.
A mente do garoto fervilhava ao ponto de produzir fumaça. Eram como se faíscas botassem dos topos da sua cabeça.
Era meio injusto e totalmente irremediável que eles tivessem aquele tipo de conduta. Não fazia sentido salvarem uma pessoa só para obterem o dinheiro ou a compreensão em troca. Não deviam ajudar porque era o certo?
A verdade, na verdade, seria mais dolorosa e difícil de aceitar, e talvez Will precisasse de um tempo para atingir uma compreensão que chegasse a ela.
Danny, que estava em silêncio, suspirou com veemência. Ele não havia se pronunciado na breve conversa de Will e Markus e assim apenas falou:
—Me lembra de não escutar mais a Liz e ajudar qualquer um que possa não ter tostão, nome de família e nem os atributos certos para pagar com o corpo—Ao dizer esse último o homem olhou para o garoto brevemente.
—Bem, se podemos dar isso por encerrado, Danny, ainda precisamos falar sobre o Assassino de Mercenários—Markus já ignorava Will completamente—E acho que o garoto pode ser útil para nós.
—Ele?
Os dois homens começaram a conversar casualmente e, desde que fora posto naquela situação estranha que estava ligada ao Danny, Will não teve poder de escolha sobre sua situação. Não perguntaram sobre sua opinião, sequer sobre sua participação na Irmandade.
Ele olhou para uma janela que havia às costas de Markus, uma por onde a luz azulada da lua começava a entrar, e então piscou os olhos e resfolegou, um pouco insatisfeito diante da sua impotência.
Gostaria de ter protestado, gostaria que o tratassem melhor, não só como mais um adorno. Enquanto mantinha os olhos fechados, tudo que via era uma escuridão. Ainda ouvia as vozes dos dois discutindo sobre a utilidade dele e sobre outras coisas.
Queria somente poder ter escolha naquilo, e isso o deixou indignado. Queria ser tratado como uma pessoa, mesmo que fosse fraco e, como Danny mesmo disse… Pobre. Porém, como ser alguém se ele não sabia nem quem ele era?
Ele abriu os olhos e suspirou. Já não ouvia mais as vozes de Danny e Markus. Estava decidido a aceitar os Leões de Aço, afinal, não tinha forças para resistir àquilo. O mundo era aquilo que levava sua vida.
Porém, quando olhou, a luz frígida de uma lua etérea fora trocada pelo cálido laranja refletido numa parede branca.