Capítulo 11: Aqueles Olhos…
Capítulo 11: Aqueles Olhos…
A luz alaranjada do sol refletia em uma parede branca. Ao redor do jovem, erguiam-se paredes das mais variadas cores: cinza, amarelo e azul, todas com aquela luz brilhando em suas superfícies.
Os pés de Will pisavam ladrilhos esbranquiçados e, pelas paredes coloridas ao redor, ele percebeu que estava em alguma espécie de beco.
Não sabia ao certo o que era aquilo, que lugar era aquele ou por que estava ali.
Havia pouquíssimo tempo, estivera na sede da Irmandade dos Leões de Aço. O que havia acontecido? O que tinha mudado para que estivesse ali agora?
Ele sentia o calor, a brisa fresca que perpassava o beco e atingia sua nuca, balançando seus cabelos. Da mesma forma, sentia o movimento da capa, o chão duro sob suas botas e o suor escorrendo pelas têmporas.
Aquilo definitivamente não era uma ilusão. Era realidade.
Havia sentido algo parecido anteriormente, uma sensação repentina na mente e na visão. Acontecera exatamente daquela mesma forma: fechara os olhos e os abrira em outro lugar.
Da vez anterior, havia visto Liz morta e, depois, uma cena diferente, mas com o mesmo resultado. Ele ainda não entendia o que era aquilo tudo que acontecia ao seu redor, nem os detalhes por trás daquela ou da outra visão misteriosa.
A sensação era real, não parecia uma ilusão, assim como da outra vez. A experiência fora tão vívida que pudera sentir seus órgãos sendo postos para fora e uma sensação horrenda nas costas.
Agora, por outro lado, estava bem, mas não sabia por que estava ali nem o que aquilo significava.
Todos esses pensamentos duraram um segundo. Em meio àquela tentativa de compreender o que acontecia, Will se esqueceu por completo de Danny, de Markus e da sucessão de eventos na Irmandade.
Até então, o garoto apenas havia vislumbrado as casas altas, o sol e os ladrilhos que revestiam a rua, mas, ao erguer os olhos, viu algo mais.
Na sua frente havia um cadáver. Isso era bem claro, pois o crânio estava aberto. O cérebro estava exposto e parecia ter sido remexido e cutucado com alguma lâmina. Havia fragmentos de ossos e carne repartida, tudo envolto numa massa sanguinolenta meio rosada.
Os olhos pareciam abertos e vidrados, com uma sombra perpassando por eles. O sorriso do homem — pois era um homem — assumia uma expressão neutra, sem demonstrar dor ou satisfação.
Embora todo o corpo, vestido com um paletó simples e preto sobre uma camisa branca, estivesse coberto de manchas avermelhadas, todos os ferimentos e cortes se concentravam na região da cabeça.
Will arregalou os olhos e engoliu em seco diante daquilo que via. Porém, não houve tempo para que a bílis subisse pelo estômago e depois fugisse do esôfago até a garganta.
Uma jovem que provavelmente estava ao lado do garoto deu alguns passos em direção ao cadáver jogado no chão, como se não fosse nada. Uma sensação estranha revirou a barriga de Will, algo próximo da repugnância.
Ele estava mais distante, embora conseguisse sentir dali mesmo o cheiro de ferro e outro odor nauseabundo que sabia ser o da morte.
Não conseguia distinguir bem as feições da garota, mas os cabelos castanhos, divididos em uma mecha amarrada na nuca e o restante solto, indicavam que não era Liz.
Aquela estranha tentou se aproximar do cadáver, porém, quando isso aconteceu, uma sombra passou diante dela. Desceu tão rápido que Will só pôde ver o momento em que encobriu o sol alaranjado refletido nas casas daquele beco.
A figura estava vestida com um manto preto e um capuz. O rosto e as feições estavam cobertos, deixando à mostra somente os olhos castanhos.
A figura pousou no chão, agachada, e, antes mesmo que pudesse se levantar, a outra garota caiu de joelhos, com sangue jorrando do peito aberto.
O vulto sacou uma espada torta diante daquela que devia estar ali com Will. Diante daquela cena, daquele sangue derramado que embebia os ladrilhos, o rapaz tremia incessantemente, sem conseguir fazer nada. Mas o que poderia fazer alguém tão fraco?
A lâmina atravessou o ar fresco do fim de tarde, que havia se transformado numa espécie de calor incômodo, e acertou o pescoço da garota. Não o cortou de imediato, embora o golpe a matasse. O estranho assassino atacou novamente e fez sua vítima pender para o lado antes de cair no chão.
O corpo produziu um som seco, e a cabeça se entortou com o impacto, ficando virada para trás e presa ao corpo por um filete de carne membranoso.
Os olhos castanhos, de tonalidade meio amarelada, ainda demonstravam agonia, mas seu brilho já estava opaco, praticamente inexistente.
Will recuou dois passos, temeroso, enquanto a figura estranha o observava.
— • —
Piscou e resfolegou várias vezes. A testa estava empapada de um suor nojento e pegajoso, e a mente titubeava entre uma agonia insana e o simples estado de sanidade.
Aquela luz azulada da lua batia em seu rosto, e era quase um alívio ver aquela existência frígida iluminando os limites de sua visão.
Olhou ao redor com aqueles olhos mortos. As coisas estavam todas ali: a mesa, as cadeiras, os móveis, os armários, o soalho amarelo muito feio que devia ser escolha de Danny e também os dois homens conversando à mesa.
O estômago de Will se revirou. Era uma sensação regurgitante, uma queimação incômoda que se alastrava por todo o seu corpo.
As visões infindas de morte, horror e sangue, e também aqueles olhos mórbidos, castanhos, encarando-o… O que era aquilo?
Quem era aquela pessoa?
O que ele vira?
Por que vira?
Não fazia sentido, não fazia sentido, não fazia sentido. O que era aquilo? O que era aquele horror?
A bílis subiu pelo esôfago e chegou à boca, fazendo uma sensação de queimação se alastrar pela úvula e pela língua.
Levou as mãos à boca e sentiu a consciência se diluir numa escuridão infinda.
O que era aquela visão de um horror nojento?
— • —
O som daquele baque foi o de um estalido e, logo depois, o garoto sentiu a bochecha queimar quando algo se chocou contra ela. A pele ardeu violentamente, e a consciência diluída pareceu retornar ao seu corpo.
Na posição em que estava, Will observou um borrão escuro iluminado pela incidência de uma luz fria e azulada, conforme sua consciência retornava.
O corpo magro era sacudido violentamente, e palavras informes chegavam aos seus ouvidos, porém sem cumprir seu objetivo principal: transmitir informações.
O estômago ainda estava sensível diante de tantas sensações estranhas, mas, dessa vez, ele conseguiu conter os ímpetos do órgão de pôr para fora todo o seu conteúdo inexistente. Até que:
—O da amnésia… O da amnésia… —Danny olhava diretamente nos olhos dele e então se virou para trás, com as mãos ainda na gola do garoto—Eu falei para você que ele era meio emburrecido.
—…Ahn? Arf…
O garoto resfolegou. Seu rosto estava péssimo. A boca havia se distorcido de um modo que parecia que ele acabara de acordar, e um filete de baba escorreu pelo lábio:
—Ah, Credo, ele tá babando—Danny protestou quase dando um salto para trás.
—Dá um tempo para ele Danny, a gente ainda não sabe o que aconteceu—A voz conciliadora era claramente de Markus.
A visão do garoto foi voltando aos poucos, até focalizar as feições do líder da guilda, que o encarava com curiosidade por trás dos olhos castanhos meio repuxados.
Danny remexia a boca e meneava a cabeça como se procurasse algo. Esse algo certamente era a sanidade de Will.
O garoto se ajeitou na cadeira e sacudiu a cabeça para poder voltar a si. Perguntou-se sobre aquilo que tinha visto havia pouco. Estava ficando maluco? Não, aquilo era outra coisa que ainda desconhecia.
Virando o olhar, reconheceu e assimilou cada canto daquela sala, conseguindo deduzir como estava. Sua cadeira havia sido virada e já não estava de frente para a mesa. Danny estava tão colado nele que quase podia sentir sua respiração. Markus era quase um mero espectador. Assim, depois de assimilar tudo aquilo:
—O que aconteceu?
A pergunta veio repentinamente, e sua voz ainda estava meio abalada, pois a mente não tivera o devido tempo para filtrar as informações:
—O que aconteceu?—Danny repetiu, mas em um tom retórico—Isso é você que tem me responder. Você praticamente caiu morto enquanto nós conversávamos. Não vá me dizer que você tem algum problema mental logo depois que eu te contratei.
O garoto tinha dificuldades para assimilar suas memórias e aqueles lapsos, mas a agilidade de Danny e sua habilidade em sobrepor palavra por palavra não lhe davam a chance de pensar.
Era estranho que o líder se preocupasse mais com a condição mental e a contratação de Will do que com seu bem-estar. Ou talvez não, mas o garoto simplesmente desistiu de compreender aquilo.
Também não se resignaria a explicar algo que nem mesmo ele compreendia ao certo. Assim, novamente usou uma arma suja, mas útil: a mentira.
—Eu não sei bem o que houve… Er… Eu senti uma tontura, uma dor de cabeça e tudo ficou escuro—Havia verdades, mas ele ocultou a parte em que estava vendo o assassinato no beco, não eram de todo mentiras—Depois você estava aqui me sacudindo.
—Ó, isso daí é foda, viu?—Danny se queixou e então virou para Markus—Espero que você não tenha feito mal negócio tá?
—Na outra hipótese você teria matado ele, então acho que fiz sim a melhor escolha—Markus deu um sorriso de conciliação.
—O da amnésia, espero que realmente não tenha problemas mentais em.
Will ignorou o comentário de Danny. Ainda não havia superado os acontecimentos de minutos atrás, mas, sendo sincero, as últimas coisas que tinham acontecido eram mais chocantes e preocupantes:
—Fica tranquilo sobre os problemas mentais—O garoto devolveu a resposta para Danny—Acho que vou conseguir garantir aquilo que você quer e espera de mim.
—…?
—Afinal, o que quer é dedicação, e serviço não é?—Will falou coisas que sabia que Danny queria ouvir, honestamente, ele estava logo querendo ter paz do chefe da Irmandade—Moeda na mente, certo?
Danny sorriu de forma maliciosa, puxando o canto dos lábios para o canto da boca. Era a expressão de alguém que estava satisfeito:
—No seu caso é moeda na mesa.
—…
—Mas talvez estejamos começando a nos dar bem—Ele então se ajeitou na postura e mexeu no cabelo—Peço desculpas pelas minhas atitudes de antes, mas acredito que vá entender, com o tempo ao menos.
—Espero que sim—Disse Will meio desconfiado—Mas então vocês estavam falando algo em que eu poderia ser útil.
Quem fez menção de responder foi Markus, que deu um passo à frente e inflou o peito. Seus pulmões se encheram de ar, mas, antes que pudesse dizer algo, uma outra voz o interrompeu:
—Chefe, eu vim trazer aquele relatório que o senhor pediu.
Todos se viraram de uma vez só para o arco de madeira que servia de entrada para o salão.
Danny e Markus reagiram com surpresa, mas nada demais. O outro garoto, no entanto, encarou a garota com bastante estranheza. Não porque houvesse algo estranho nela, mas por causa daqueles olhos.
Era um olhar castanho-amarelado, mas que agora transbordava vitalidade.