Capítulo 12: O Estranho Caso da Capital Real
Capítulo 12: O Estranho Caso da Capital Real
Hilda Riegel… Esse era o nome daquela garota. Pelo menos, fora assim que Markus a recepcionara quando ela chegou.
Will não conseguia tirar os olhos dela e, assim, alternava o olhar entre a garota, o luar vacilante que entrava pela janela e os outros homens que estavam no local.
Era um tique estranho, e logo faria Danny atribuir a ele, além dos adjetivos de emburrecido e pobre, o de estranho ou, pior, o de maluco.
A garota era como Will a vira naquela visão, alucinação ou sonho. Ele ainda não decidira como chamar aquilo, embora mal conseguisse compreender o que era. Porém, agora, sem o sangue que saía dela, com a cabeça ainda presa ao pescoço e sem a náusea regurgitante em seu estômago ausente, podia observar melhor os detalhes.
Os cabelos eram castanhos e estavam mesmo amarrados como no penteado que vira: uma mecha presa para trás, na nuca, e o restante solto. No entanto, o lado esquerdo era raspado até certa altura — algo incomum, ou pelo menos Will julgou assim.
A roupa era uma espécie de sobretudo, ou melhor, um casacão cinzento, meio cor de grafite, que se assemelhava a um fraque. Algo que um caçador usaria. Por baixo da vestimenta de couro, ela portava uma bandoleira — mais um elemento incomum — cheia de cilindros dourados presos em anéis de couro marrom. Usava uma calça cinza, uma camisa branca e botas pretas fechadas.
Além dos olhos castanho-amarelados que chamavam muito a atenção de Will, ela tinha um nariz fino, um queixo adunco e uma expressão séria que faria qualquer um hesitar em dirigir-lhe a palavra.
Além desses detalhes, havia outro que o garoto quase não percebera: Hilda portava pistolas presas em coldres no lado direito do quadril. Havia uma também enfiada na parte mais baixa da bandoleira, conferindo a ela a aura perigosa de uma atiradora experiente.
O garoto a encarava com frequência, tentando disfarçar várias vezes aqueles olhares escusos direcionados à garota:
—O que foi?—Ela perguntou olhando para ele—Por acaso deixou algo aqui.
Era sarcasmo, mas o tom de voz sério não dava margem ou brecha para que se percebesse isso.
Certamente, era uma falha completa de Hilda se o que ela queria era ser sarcástica, mas funcionava para afastar os olhares que ela própria não queria. Com Will, não foi diferente.
— • —
A garota atravessou rapidamente o arco de madeira, sem dar atenção a Will, que, sentado na cadeira e ainda atônito, olhava para ela de um jeito diferente.
O garoto se perguntou o que seria aquilo que vira, e a aparição daquela moça acentuou ainda mais suas dúvidas.
Na floresta, mais cedo, ele vira Liz morrer na sua frente por duas vezes. As formas eram diferentes, mas os resultados, iguais. Agora, vira aquela jovem que chegava ali ter o mesmo destino, embora de uma maneira diferente.
E também havia uma figura estranha com aqueles olhos castanhos meio repuxados.
Ele balançou a cabeça rapidamente para afugentar os pensamentos. O que era aquilo que estava pensando? Não fazia sentido deixar uma alucinação — aquilo, sabe-se lá o que era — ditar os rumos das coisas.
E, como que confirmando aquele pensamento do garoto, a mulher que chegara ali parou diante dele, mas nem se dignou a voltar os olhos castanho-amarelados em sua direção. Suas palavras, intenções e olhares se alternavam entre Danny e Markus. Foi esse último quem falou:
—Hilda, fiquei preocupado com você—Ele parecia genuinamente falar a verdade.
—Você é muito extremo, Markus, ela foi só fazer um relatório.
—Você às vezes não vê limites para esse seu jeito insensível né Danny—Retrucou o homem—Com todo esse caos na Capital, eu ando preocupado, com Hilda e como todos os nossos afiliados.
—Isso não é um problema muito complexo—O homem deu de ombros—Certamente, há mercenários que poderiam fazer um ótimo trabalho para a gente.
Danny sugeria que a vida das pessoas, dos seus afiliados ali na Leões de Aço, poderia ser facilmente substituída, sem grandes problemas. Aquilo serviu, no mínimo, para fazer o queixo do outro cair levemente.
No entanto, rapidamente, a interação entre os dois se estendeu à garota que havia chegado:
—Eu agradeço essa consideração chefe—Ela tentou ser sarcástica, mas o tom que era sério até demais não ajudava—Mas acho que esse tipo de amenidades pode ser deixada de lado. Precisamos discutir coisas de forma mais rápida, e acho que ficar aqui não ajuda.
—…
—Markus, você pode relaxar viu?—Ela parecia mais amigável na forma de falar, embora até nisso aquele tom de seriedade não sumisse—Eu estava fazendo um relatório e não indo atrás do próprio assassino.
—Eu preciso me preocupar, Hilda, afinal, se eu deixar tudo sob o comando do Danny, a Irmandade vai a falência.
—Como assim?!—Danny pareceu indignado—Estamos faturando como nunca.
—E é disso que eu tenho medo—Afirmou o Sub-líder.
Hilda, com aqueles olhos resolutos e os lábios que pareciam estar sempre tensos, desviou a atenção dos dois e a direcionou para o garoto, que permanecia em silêncio, apenas observando tudo aquilo.
Até então, ele não perguntara nada. Afinal, desde que chegara aos Leões de Aço, era mais fácil observar as coisas. Além disso, sentia falta de Liz, que havia sido — à sua maneira — atenciosa com ele na floresta.
As observações de Will naquele momento se restringiam a achar Danny incompreensível, Markus imprevisível e a garota nova um enigma. Porém, foi justamente ela quem o trouxe para a conversa:
—Aí chefe, quem é o garoto?
—Ah, ele?—Danny sorriu com malícia tracejando os lábios—O da amnésia, se apresenta aí vai.
Will resfolegou, despertando dos próprios pensamentos acerca de tudo aquilo:
—O da amnésia, poxa, vai cara, coopera, não dá né, emburrecido, pobre e agora até surdo, além da maluquices—Danny estalou a língua em indignação várias vezes enquanto ofendia sem precedentes o garoto—Deixa eu te ensinar viu. Aqui é comum nós nos apresentarmos, falar nome, sobrenome e título, viu? Isso é feito por qualquer pessoa quando se conhecem ou em duelo. Todas as três nações seguem isso.
Will balançou a cabeça. Havia ouvido aquilo da primeira vez, mas ainda estava despertando daquele estado de mente atrofiada. Assim, ignorou as críticas de Danny e falou:
—Muito prazer, meu nome é William… Rassad, eu sou um garoto qualquer e não sei nada do meu passado, aparentemente as minhas memórias estão meio… Perdidas sabe?
O garoto estendeu a mão para cumprimentar Hilda, mas ela se limitou a avaliá-lo com aqueles olhos sérios que possuía e que tinham o dom de deixar qualquer um desconfortável. Assim, ignorando tudo, ela somente falou:
—Sem… Memórias.
Finalmente, Will entendeu o apelido de Danny.
— • —
A garota, Hilda Riegel, não trocou quaisquer outras palavras com Will desde então. Todos apenas se resignaram a ocupar seus lugares à mesa.
Danny voltou para a ponta, Markus ficou à esquerda, Will à direita e Hilda ao lado do Sub-líder.
Como dito anteriormente, o próprio garoto encarava a garota de forma irreverente, e seu olhar vacilava entre ela e a possibilidade de disfarçar aquilo. Até que ela mesma voltou a falar, fazendo-lhe a pergunta derradeira:
—O que foi? Por acaso deixou algo aqui?
Will balançou a cabeça de um lado para o outro, negando aquilo. Antes mesmo que qualquer um deles pudesse dizer algo, Danny começou a reunião:
—Bem, vamos aos assuntos então—Disse o líder após bater palmas—Foi até bom que tivesse vindo mesmo, Riegel.
—…?
—A questão de hoje é sobre o assassino de mercenários, mas não necessariamente sobre o caso em si.
Will e Hilda fizeram expressões de surpresa, mas certamente por motivos diferentes. O que estranhou o garoto foi a primeira parte da declaração, acerca de um assassino. Ele sabia o que era aquilo, mas desconhecia o caso que Danny apresentava. Já Hilda ficou apreensiva com a segunda parte, mas não teve chance de falar devido a uma interrupção pontual de Markus:
—Danny, não se esqueça que temos o Will conosco, não é bom que saia falando como se todos estivessem inteirados.
—Por favor, não se preocupe senhor Markus—Will mesmo quem disse, balançando a mão em negação—Não quero ser um atraso da reunião de vocês.
—Oh não, Markus está certo—Danny assentiu com a declaração do Sub-líder para a estranheza de todos—Eu não posso agir como se tudo já fosse premeditado.
—Com licença chefe, mas eu acho que temos um pouco de urgência—Quem assim interrompeu foi Hilda—Não seria uma boa ficar perdendo tempo em explicações.
—Se acalme Riegel, já já chega a sua parte.
Danny, com um sorriso maroto, fez sinal para que Hilda abaixasse a bola, balançando a mão repetidamente na direção do tampo da mesa:
—Vou tentar resumir para você o da amnésia—Danny se virou na direção do garoto—Nós temos ultimamente passado por um estranho caso aqui na Capital real. Já fazem duas noites que cadáveres são encontrados, sempre de mercenários, ou seja, de pessoas ligadas as Irmandades, todos esses cadáveres sempre parecem vir assinados com uma característica peculiar.
A voz de Danny ia ganhando um tom diferente quanto mais ele falava sobre aquilo. O líder parecia um velho contador de histórias, emocionado ao falar sobre cada detalhe.
—Fala logo para ele—Hilda foi quem se meteu no meio para falar isso.
—Assim não dá viu—Danny mais uma vez se distraiu—Nem por mim se tem respeito aqui.
—Você tá se desviando do assunto de novo—Markus falou com seriedade.
Will apenas observava toda aquela reação dos três em silêncio. Não conseguia entender direito o que estava acontecendo, mas, por algum motivo, sentia-se deslocado ali entre aquelas pessoas. Talvez isso explicasse por que ele mesmo não falava muito.
Era como… Era como se não devesse estar ali. Pelo menos, era assim que pensava enquanto via aquelas pessoas se entendendo.
Claro que todos os detalhes e motivos por trás daquilo que o movia até aquele momento, assim como as intenções que o levaram a despertar naquela floresta, conhecer Liz e passar por todo o resto que viera depois, não eram coisas que ele próprio entendia muito bem. Mesmo assim, preferia observar.
Enquanto os pensamentos o levavam em meio à troca desorganizada de falas e às vezes em que Danny se perdia e esquecia o assunto sobre o qual estava falando, a voz do líder voltou a se dirigir a ele:
—Bem, agora não tem nem mais graça te explicar isso o da amnésia—Ele coçou a nuca—Esses dois aqui ficam estragando a minha panca de contador de histórias, por isso que essa habilidade não vai para frente.
—…?
—Eu não vou nem comentar nada para não atrapalhar—Markus deu de ombros.
—Falar desse jeito leviano, já é falar, Markus—Mais uma vez, Danny se distraiu.
—Você realmente não é bom para esse serviço—Quem assim declarou subitamente foi Will.
—Viu?—Markus arqueou as sobrancelhas.
—Viu?—Hilda suspirou entediada.
O líder, inconformado com aquela situação, revirou os olhos e deu um longo suspiro. Não tinha jeito mesmo. Os membros daquela Irmandade não eram pessoas que queriam ser levadas a sério. Como poderiam estar envolvidas em algo que soava tão sério quanto o caso do assassino de mercenários?
Talvez o fato de serem os Leões de Aço que estavam resolvendo aquela situação fosse precisamente o que os levava à possibilidade de um impasse. Pois era isso. Justamente isso: um impasse. Era o que tudo aquilo parecia indicar.
—Nós estamos tendo problemas de pessoal—Danny falou alarmado—O tal assassino parece trabalhar o dobro do que vocês e realmente eu gostaria de alguém com a dedicação dele aqui—Danny tentou descontrair—Mas os hábitos dele de abrir a cabeça e arrancar o cérebro para fora é nojento.
—Arrancar… O cérebro?
Onde é que Will já tinha visto aquilo?
Ah!
As visões subitamente voltaram à sua mente. O lugar em que estivera era aquele onde jazia um cadáver caído de lado, e uma das principais características daquele corpo era justamente o cérebro arrancado.
—Não vai me dizer que não sabe o que é um cérebro.
—Não é nada disso—Will balançou a cabeça para reforçar a ideia—É justamente por saber que isso me deixa abalado.
Ele mentiu. Não tinha por que falar sobre aquelas visões que mal compreendia.
—Então deixa eu ver se entendi—Will voltou a dizer, retomando desse jeito a fala que havia deixado pela metade—Você quer a minha ajuda para resolver esse caso do Assassino de Mercenários?
Danny fez uma expressão engraçada. Parecia que as palavras chegavam ao seu ouvido e então o faziam demonstrar surpresa. Logo em seguida, um sorriso se formou, e veio uma risada meio debochada.
Hilda não deixou de acompanhá-lo, e Markus sorriu, divertido com a ingenuidade do garoto. Will, por outro lado, não entendeu muito bem o motivo daquelas atitudes, mas toda a sucessão de eventos e as reações exageradas dos outros estavam começando a irritá-lo:
—Ah, mas é claro que não, imagine um novato fazendo esse trabalho—Danny zombou—Seu cérbero ia para a calçada amanhã.
Will curvou o lábio e fechou a cara, numa tentativa de protestar contra a atitude de Danny:
—Eu quero você para fazer as entregas, assim eu posso desafogar pessoal—O líder declarou simplesmente—Claro que alguém vai te ajudar, e é por isso que eu chamei a Hilda.
Nesse momento, a garota parou de rir junto ao líder, e seus olhos assumiram uma expressão ferina. Ela semicerrou as pálpebras, e o castanho-amarelado brilhou com uma chama exígua e silenciosa.
Markus apenas se resignou a recostar-se na cadeira e demonstrar um olhar de preocupação, enquanto bufava em silêncio com os braços cruzados.