Capítulo 13: Aquela Palavra “Ninguém”
Capítulo 13: Aquela Palavra “Ninguém”
Naquele lugar onde os Leões de Aço conversavam e o jovem Will tentava acompanhar o ritmo das divagações acerca de um Assassino de Mercenários, o luar escapava por entre as frestas de uma janela, mesclando sua luz às exíguas chamas que iluminavam o ambiente.
Hilda parou de rir junto com Danny, que até então parecia se divertir com a ingenuidade de Will. O chefe, por sua vez, mal deu atenção àquilo e logo fez menção de continuar o assunto:
—Bem, sendo assim…
—Como assim Danny?—Hilda, vendo que sua expressão não chamou atenção, levantou a voz—Não tô entendendo. Você quer que eu vá para as entregas?
—Sim.
O líder respondeu simplesmente, dando de ombros e olhando, com certa curiosidade, para a garota que demonstrava tamanha objeção.
Na cabeça de Danny, as coisas pareciam fluir de maneira muito mais simples do que para os outros. Ele resolvia as questões relacionadas à guilda, e as demais pessoas simplesmente seguiam suas ordens. Não era nem de longe uma tarefa difícil, mas aquele pequeno mundinho em que o homem vivia, dentro de sua mente excêntrica, não era compartilhado pelas outras pessoas:
—De jeito nenhum—Hilda negou categoricamente—Eu estava cotada para o Assassino de Mercenários, não para entrar numa missão de entrega e nem para me dedicar ao pessoal novo da Irmandade.
Ela protestou com indignação. Sua fala, normalmente séria e reservada, elevou-se, carregada de fúria. Era como se chamas fossem cuspidas de sua boca:
—Você disse tudo, mas eu decidi que pretendo te remanejar para cuidar do garoto.
—Ei… Eu não acho que eu precise tratado dessa forma, como uma criança.
Will interveio, indignado. Não gostava da maneira como os membros dos Leões de Aço enxergavam sua posição naquele mundo:
—Você tem certeza disso?—O líder apenas olhou de esguelha para ele.
—Eu sei que eu preciso de suporte e talvez eu não seja mesmo muito esperto—Ele admitiu, olhando para baixo—Mas se você quer colocar alguém, por que não a Liz?
Ao dizer o nome daquela garota, sua língua estalou com uma sensação estranha, cálida, mas confortável. O estômago também parecia se encher de borboletas. O garoto, porém, tentou ignorar aquela sensação:
—Isso é injusto Danny—Hilda falou com o olhar afiado—Eu tava me empenhando no caso do Assassino de Mercenários e você sabe que eu tenho treinamento para lidar com isso.
—Danny, por que você não me põe para ficar com a Liz, eu conheço mais ela.
Embora dissesse aquilo, Will não podia afirmar que conhecia tão bem assim a garota de olhos esverdeados. Havia trocado apenas algumas palavras breves com ela na floresta, onde também fora protegido das feras:
—Danny, até o garoto quer outra pessoa—Hilda protestou—Eu sou uma mercenária, uma pistoleira, meu trabalho é ser uma lutadora, não uma babá.
—Aí você exagerou—Will olhou para aquela garota—Eu não sou criança para precisar de uma babá.
—Então por que que eu tenho que fazer esse papel?—O tom de voz dela estava ácido—Eu não sou uma babá, mas se você não tivesse aparecido as coisas teriam ficado como estavam. Devia ter ficado em seja lá de onde você saiu.
—E você queria que eu tivesse morrido lá?! Vocês são realmente assim tão sem consideração desse jeito?!
—Quando é em relação as coisas dizerem respeito a mim, a minha reputação, sim.
Hilda ignorou os sentimentos de Will como se não fossem nada. Pior do que isso, ignorou a própria vida dele como se não tivesse importância alguma. O garoto mal conseguia acreditar no que ouvia.
A verdade era que, a cada instante, sua opinião sobre aquele mundo passava de ruim a pior. Danny e Hilda pareciam pessoas detestáveis demais para se conviver. Todos só se preocupavam com os próprios interesses.
Diante disso, Will afastou a cadeira com extrema violência e se levantou, batendo a mão contra o tampo da mesa. Uma fúria irracional começava a se apossar dele:
—Vocês todos são muito egoístas, isso sim, sem exceção!
Ele olhou de Danny para Hilda e, em seguida, voltou-se para o líder antes de retomar as palavras:
—A primeira coisa com as quais se preocupam é dinheiro e também reputação, isso é tão mais importante do que a vida alheia assim?!—Ele então olhou para Hilda—Me diz Hilda, é isso que importa mesmo para você?
—É.
A garota respondeu categoricamente, sem sequer hesitar entre a pergunta e a resposta. Will sabia pouco. Quase nada sobre aquele mundo, sobre as pessoas e sobre si mesmo. Tomar consciência disso naquele momento era justamente o que mais o incomodava.
Não era hora de uma pergunta tão árdua lhe vir à mente.
Ele refletiu sobre aquela conduta, aquela postura que tinha uma palavra… Uma palavra… Egoísta. O termo logo lhe veio à mente, embora não parecesse muito adequado.
Havia apenas um detalhe: o próprio Will não conhecia o mundo. Não sabia como funcionavam sua organização e sua sociedade e, por isso, havia um equívoco em sua maneira de pensar. Estava errado ao acreditar que as pessoas lhe deviam alguma coisa, assim como estava errado ao achar que os outros tinham a obrigação de ser benevolentes. Afinal, ele não era ninguém:
—Vocês são todos pessoas ruins!—Ele declarou categoricamente.
—O que você sabe sobre mim? Até onde eu sei eu não havia visto você até agora há pouco, então, me diga, apenas me diga de forma clara—A garota rangeu os dentes que triscavam um no outro—O que você sabe sobre mim para falar isso?
—Eu…
A resposta de Will não veio. Logo, sua visão ficou turva e começou a se embaralhar, enquanto sentia o rosto se umedecer. Havia algo líquido ao redor de sua face e a água — pois ele se lembrava claramente do gosto — começava a entrar por sua boca e por seu nariz.
Toda aquela massa líquida era forçada contra ele e descia com tanta violência que chegava a queimar e arranhar sua garganta, suas narinas, a traqueia e os pulmões. Will sentia vontade de tossir e começou a se debater, ainda de pé. As mãos coçavam enquanto ele tentava arrancar aquela massa repentina de água do rosto. A cada instante, sufocava mais, com os pulmões ardendo, até que tudo parou repentinamente.
Ele quase caiu, mas conseguiu apoiar as mãos sobre o tampo da mesa. Olhou para a madeira trabalhada e envernizada sem compreender totalmente o que estava acontecendo.
Pela segunda vez naquele mesmo dia, seu corpo havia sido submetido a tamanha violência.
Os cabelos úmidos caíam sobre seus olhos. Quando os ergueu, viu uma massa de água flutuar, ondear à luz do luar e voltar a cair dentro de uma jarra num canto da sala.
Dessa vez, era Markus quem remexia as mãos freneticamente diante do corpo, e não Danny.
Os pensamentos de Will bombardearam sua mente de várias maneiras diferentes. Embora a dor não fosse física, aquilo lhe causava tontura.
Novamente, um dos líderes da Irmandade o havia atacado. Por isso, voltou os olhos para Hilda, que permanecia incólume e intocada. Por que aquele ataque era direcionado somente a ele?
Markus exalava uma aura tranquila. Nem de longe parecia ter tido a mesma intenção de Danny. Assim, Will rapidamente tornou a se sentar, enquanto o homem falava com voz calma:
—Creio que tenha ficado mais calmo, não é? Tudo que precisava era lavar a sua alma.
—…?
—Imagino que o silêncio seja sua forma de compreensão a isso que eu falei, pois bem, acho que devo mais uma vez explicar a sua situação conosco, não é?
O homem falava com calma, sem demonstrar qualquer hostilidade. Aquela situação sequer parecia ter acontecido. Will ainda o encarava, atônito:
—Nós não o conhecemos, não sabemos quem você é—Ele começou perfurando Will com aqueles olhos afiados—Seja lá qual relação você tenha com Liz, para mim ou para Danny você não é ninguém.
Aquela palavra, “ninguém”, ressoou na mente de Will. Dita daquela forma, daquele jeito, parecia uma adaga de lâmina fria que deslizava pela escuridão, mirando seu coração.
A palavra “ninguém” definia toda a existência do garoto. Afinal, ele não era nada. Estava vazio e sozinho naquele lugar.
A palavra “ninguém” também definia o modo como as pessoas ao seu redor o enxergavam. Afinal, nem Markus, nem Danny, nem Hilda e nem mesmo Liz tinham qualquer obrigação para com ele. Não deviam nada ao garoto com amnésia, que era como uma criança naquele mundo. Alguém que não passava de um brinquedo.
Ele era aquela palavra: “ninguém”.
Will se resignou ao silêncio. No fundo de sua alma, algo parecia gritar, espernear e querer fugir, sair dali. Mas ele sabia que não podia. Sabia que havia coisas que não controlávamos, forças pelas quais éramos tragados.
Queria poder mudar aquilo, mesmo que apenas um pouco, ao menos no que dizia respeito a si mesmo. Porém, ao olhar ao redor e perceber aqueles dois homens de olhos iguais encarando-o, teve uma vaga noção de que não possuía força para tanto.
Por ora, deixou os pensamentos irrequietos no fundo da mente e ouviu enquanto o próprio líder dos Leões de Aço voltava a falar, ignorando tudo o que havia acontecido momentos antes:
—Esse Assassino sádico tem nos dado muito trabalho, e eu gostaria de que esse trabalho não aumentasse—Danny foi quem comentou.
—Eu sei o quanto de trabalho estamos tendo, Danny, eu estou envolvida nisso—Hilda falou de forma tranquila, deixando que só agora no fim sua voz adquirisse um tom de protesto—Mas não é justo me remanejar dessa forma.
—Você disse isso e eu entendi da primeira vez que você falou, Hilda, não precisava repetir.
Danny foi sucinto ao interrompê-la, fazendo isso em meio às falas da garota:
—A questão é que eu quero que você tome conta dele, seja isso justo ou não—Ele apertou os pequenos olhos e adicionou em tom frio—É para isso que te pago, não? Para desempenhar os papéis da nossa Irmandade.
—Mas são entregas Danny, eu já passei dessa fase—Ela cerrava os punhos da mão que estava sobre a mesa—Como fica a minha honra como pistoleira? Eu não sou, eu não sou uma entregadora.
—Pouco me importa essa questão de honra
Ao dizer aquilo, Danny pareceu dar por encerrado o assunto que pretendia tratar com eles.
Will não protestou novamente, pois entendeu que não estava em posição de fazê-lo. Não podia, afinal, como Markus e Danny haviam dito, ele era ninguém. Ainda assim, aquelas mesmas palavras continuavam reverberando em sua mente.
—Para te responder—Acabando com a expectativas, o líder levantou a cabeça e encarou Will—Mesmo que você não esteja merecendo algo como uma explicação. Liz é inteligente, analítica e consegue se adaptar bem as situações. Além de poder lutar sozinha—Ele moveu os olhos e encarou Hilda—Preciso do foco máximo dela no caso do Assassino.
O garoto não pretendia retrucar, muito menos debater com Danny. Afinal, ele próprio sabia que não podia mudar a opinião do líder, um homem no mínimo problemático quando precisava lidar com qualquer coisa que fugisse de suas próprias convicções.
Mesmo assim, não foi necessário que Will dissesse nada, pois Hilda tomou uma atitude, ainda que não pronunciasse uma palavra. Ela se levantou com estrépito, empurrando a cadeira com o quadril. Sem sequer olhar nos olhos de Markus, Danny ou Will, retirou-se da sala, reticente e sem dizer mais nada.
Danny não comentou a atitude da garota, mas recebeu um olhar de reprovação de Markus. Este, ao se levantar, foi atrás de Hilda, que deixava o salão às pressas.