Capítulo 14: Divagações Sob a Fumaça de Tabaco
Capítulo 14: Divagações Sob a Fumaça de Tabaco
Will observou aquela cena um tanto abasbacado, afinal, não esperava a postura que Hilda havia assumido. Era verdade, porém, que a garota parecia insatisfeita com o desfecho daquela conversa.
O motivo inicial que levara a jovem até ali escapava à compreensão do rapaz sem memórias, mas nem mesmo isso havia sido esclarecido diante daquela sucessão de eventos, no mínimo, exagerados — para não dizer excruciantes.
Era claro que até mesmo o garoto tinha suas ressalvas quanto à integridade dos membros dos Leões de Aço, e a persistência da palavra “ninguém”, que Markus havia pronunciado anteriormente, continuava latejando em sua mente.
Hilda, porém, havia falado de honra diante das declarações do próprio líder. Embora o significado daquela palavra lhe fosse familiar e até previsível, o garoto reconhecia que era sua própria falta de contexto e conhecimento que o impedia de compreender aquela atitude temerária.
Ele suspirou, pois não havia muito o que fazer. Pensar naquilo realmente não traria soluções, isto é, caso elas fossem realmente importantes.
O que mais importava e, consequentemente, ocupava a maior parte de seus pensamentos naquele momento era o próprio futuro ao lado daquelas pessoas, além da questão envolvendo a garota que o havia levado até ali.
Liz representava, em essência, muito do seu primeiro contato com aquele mundo, e Will julgava que era por isso que sentia uma conexão maior com ela. Onde aquela garota estaria naquele momento?
A mania de se perder em pensamentos começava a se tornar habitual, e até mesmo Will estava se deixando distrair por essas divagações. Talvez fosse algo natural, considerando que ele era uma existência quase sem existência.
Assim, esqueceu-se de que ainda estava sentado à mesa com o líder da Irmandade dos Leões de Aço.
Danny mais uma vez tirou um cigarro de dentro do casacão e o acendeu rapidamente com o isqueiro que havia retirado do bolso. Já era o segundo naquele dia, e até mesmo o garoto, que não conhecia muito bem aquelas coisas, parecia saber que aquilo não poderia fazer bem.
O líder da Irmandade puxou uma tragada e, em seguida, soltou a fumaça, que carregava o perfume um tanto nauseante do tabaco.
Will observou toda aquela cena com curiosidade, lembrando-se da presença de Danny enquanto refletia sobre tudo o que acabara de acontecer:
—Pode falar, o da amnésia.
Danny assim inferiu, levando novamente o cigarro à boca, numa expressão que fez Will ficar empertigado, não pelo gesto de fumar, mas pela pergunta e fala repentinas de Danny:
—Você por acaso quer um cigarro também?
—…!?
—Ó, mas vai sabendo que eu vou ter que cobrar em—Danny fez menção de revirar os bolsos à procura do cigarro—Esse tabaco bom só vem dos territórios de Ecdomamcy, e é muito caro, não é como aquela erva barata que aquela mulher vende.
Ignorando os comentários de Danny, que pareciam carregados de opiniões pessoais, Will balançou a mão direita e a cabeça, recusando a oferta:
—Eu agradeço pela oferta—Disse o garoto—Mas tenho a impressão de que esse troço aí pode matar. Acho que até você devia tomar cuidado.
—O quê?! Até você? Já não basta o Markus puxando a minha orelha—Danny forçou uma exasperação falsa e deu mais um trago despretensioso—Ah, enfim isso não tem problema mesmo, afinal é como dizem por aí né, a gente tem que morrer feliz.
—Morrer…? Feliz…?
O garoto demonstrou visível confusão diante daquele ditado popular que o líder da Irmandade acabara de inventar. No entanto, sua reação não tinha nada a ver com o desconhecimento das palavras em si.
—Ah não, não vai me dizer que não sabe o que é “morrer” e nem o que é “feliz”—O líder deduziu e então acrescentou—É mesmo meio emburrecido né?
—Ahn? Não é nada disso!
—Não? Então porque às vezes me parece que você fica meio perdido no que eu falo?—Danny gesticulou com as mãos formando espirais ao mesmo tempo em que balançava o cigarro fumegante—Eu disse para o Markus, você parece meio tantan.
Ele bateu duas vezes com o indicador direito na têmpora, indicando a que aquela expressão se referia.
Na verdade, nada daquilo correspondia à questão que levou Will a refletir sobre as palavras de Danny. O que o havia feito pensar era o uso das duas palavras naquela conjuntura.
O garoto estivera à beira da morte naquela floresta e, além disso, havia presenciado a morte literalmente umas três vezes, pelo menos. Nas duas primeiras ocasiões, a expressão de Liz não havia se revelado a ele, mas, na última, aqueles olhos castanho-amarelados não deixavam dúvidas de que a morte não era algo feliz:
—É só que…—O garoto começou a falar, mas hesitou e assim logo mudou o foco do assunto—Quer saber, você bem que podia me dar um desconto em?
—Desconto?—A expressão do homem adquiriu um tom meio sombrio—Essa palavra não é muito bem vista aqui.
Will se assustou com a postura de Danny. Afinal, naquele momento, seu olhar era o de alguém genuinamente sinistro, e a última coisa que o garoto queria era ver aquele tipo de aura emanando do homem:
—Na verdade, deixa esse lance todo de desconto e essas coisas para lá vai.
—Ué? Desistiu de tentar negociar?
—Não, na verdade, eu não tava pensando em negociar não—O garoto falou um pouco sobressaltado—Eu só queria… Ah, quer saber, deixa para lá.
O jeito de Danny era exatamente assim: deixava qualquer um sem reação. Conviver com o líder da Irmandade era uma tarefa exaustiva, algo que Will começava a sentir na própria pele.
Dito isso, ele se levantou, pronto para deixar o salão onde havia conversado sobre o futuro e visto e vivido tantas coisas naquele seu ínfimo tempo de vida:
—Já vai se levantar?—O homem indagou isso ao dar mais um trago e então cruzou as pernas, se reclinando numa postura despretensiosa—Eu pensei que tivesse mais coisas que quisesse dizer ou perguntar, por isso eu mesmo fiquei por aqui.
—Acredito que se eu perguntar alguma coisa você deve me chamar de emburrecido de novo.
—Certamente.
—E também, é difícil conversar com você quando fica distraindo minha atenção o tempo todo, puxando assunto sobre coisas sem sentido.
—É mesmo?—Danny semicerrou o olhar e então bateu com o cigarro em cinzeiro de metal.
—…
—Isso é uma coisa essencial para esse tipo de conversa que nós estamos tendo—Ele deu um breve sorriso—Embora que o Markus faça o mesmo tipo de comentário acertado sobre a minha personalidade.
—Acredito que deva ser difícil para ele ter que lidar com você por tanto tempo assim.
—De fato eu acre… Eu pera aí? Você tava querendo que eu assentisse né?!
—Não foi a minha intenção—Will se defendeu com amenidades—Mas até você se acha um cara complicado.
Will chegou àquela conclusão graças às falas do líder, mas tinha a impressão de que Danny pensava algo além daquilo sobre si mesmo.
Em resposta ao comentário do garoto, o chefe dos Leões de Aço fechou os olhos e assumiu uma postura séria enquanto tragava o cigarro. Passando a mão pela testa de vez em quando, esperou um longo tempo antes de voltar a falar:
—Você é mesmo um garoto difícil de se lidar em?—Danny comentou voltando a abrir os olhos na direção do jovem.
—Isso parece meio fora de lugar, especialmente vindo de você.
—Vejo que ter tido contato com a Liz te ensinou alguns truques de sarcasmo em?—Danny sorriu, dessa vez genuinamente.
Talvez fosse porque Liz havia sido a primeira pessoa com quem Will conversara naquele mundo. Talvez fosse algum pequeno resquício de sua memória que ainda resistia.
Seja lá o que fosse esse tal sarcasmo ao qual Danny se referia, Will realmente achava que havia algo de parecido entre seu jeito de falar e o de Liz. Já havia percebido isso antes. A diferença era que ela conseguia ser muito mais provocativa com ele:
—Sarcasmo?
—Ah não!—Danny quase deu um tapa no próprio rosto—Eu não vou parar para te explicar isso.
—…
—Você não parece ter ficado intimidado por mim, e isso honestamente não estava nos meus planos iniciais.
Danny ignorou por completo a dúvida do garoto sobre o significado de sarcasmo. É claro que Will acabaria conhecendo aquela palavra em algum momento, mas nem mesmo o líder deu importância a esse fato.
O que importava era que Danny agora assumia uma postura menos pragmática do que aquela que vinha mantendo até então. Não que o homem não continuasse parecendo confuso e atropelando os assuntos. Não, aquilo era praticamente impossível de mudar.
A questão era que seu tom havia se tornado mais… amigável, embora nem mesmo essa palavra fosse a mais apropriada para descrever a situação:
—Eu fiquei com medo sim—Protestou o garoto—Seja lá o que você tenha feito comigo, aquilo me assustou e eu pensei que fosse morrer.
—Eu não disse que você não tinha ficado assustado—Respondeu o líder com um sorriso maroto—Mas eu digo intimidado.
—Tem diferença?
Danny apenas riu diante daquele comentário inocente, mas nem sequer se dignou a explicar a diferença:
—Você tá aqui conversando casualmente comigo, acho que se estivesse intimidado estaria até mesmo polindo seu vocabulário—Ele então deu mais um trago no cigarro—Fazer o que, eu acho que tô perdendo o jeito com os novatos.
A fumaça do tabaco, exalada a cada tragada, começava a preencher o ambiente. O cheiro perfumado da planta também chegava às narinas do garoto, provocando-lhe um forte enjoo.
Will tossiu duas vezes e respirou fundo antes de se recompor para falar:
—Eu realmente espero que você perca esse seu jeito com os novatos mesmo.
—…
—Eu não acho que seja uma boa experiência passar por Isso sempre que alguém vier até aqui e quiser entrar na Irmandade.
—E você queria entrar?—Danny provocou sorrindo de novo.
—Isso não vem ao caso do que estamos conversando aqui—Will negou categoricamente a resposta ao líder.
Se pensasse seriamente sobre o assunto, Will diria que não queria entrar na Irmandade. Danny, definitivamente, não ajudava a mudar essa impressão com aquele jeito de ser.
Por outro lado, se refletisse ainda mais, o garoto admitiria que queria entrar na Irmandade. Afinal, não conhecia nada daquele mundo e tampouco sabia por que havia despertado na floresta. Liz contribuía para essa possibilidade, pois a garota despertava a curiosidade do jovem sem memórias:
—Bem, se você não acha uma boa experiência, devia ter se comportado melhor—Danny argumentou seriamente.
—Mas vocês não me explicaram nada, não falavam nada e me deixaram sem saber como interpretar toda aquela situação.
—O da amnésia, convenhamos, você não é mais nenhuma criancinha para que os adultos fiquem pegando na mão.
—…Ou Talvez eu seja…
—Não, não, definitivamente não—Danny ignorou o tom reflexivo que o jovem assumiu de repente—Não se esqueça que eu te vi sem roupas, certamente sei que você não é mais criança.
O rosto de Will corou levemente. Ele tinha quase certeza de que aquele comentário de Danny se referia àquela coisa pendurada que balançava no meio de suas pernas:
—Eu nunca vou perdoar a Liz por ter deixado isso acontecer.
O jovem balançou a cabeça enquanto levava a mão à testa, visivelmente constrangido.
Danny soltou uma risada enfática e estrondosa diante daquela reação, divertindo-se com o efeito que ele próprio havia provocado. Assim, alcançou seu propósito:
—Aliás, já que nós mencionamos ela—O homem parou de rir e então jogou os restos do cigarro no cinzeiro—Qual a sua relação com a Liz Meyer, o da amnésia?