Capítulo 15: A Razão de Estar Aqui
Capítulo 15: A Razão de Estar Aqui
—A minha… Relação… Com a Liz.
O garoto ficou pensativo diante da pergunta de Danny, e mais uma vez seus pensamentos trabalhavam arduamente no interior de sua cabeça.
“Relacionamento.” A palavra reverberou levemente na mente de Will e, por algum motivo, assumiu um dos significados que certamente não gostaria de considerar naquela situação: o de um relacionamento amoroso.
Os pensamentos de uma pessoa podiam traí-la com uma facilidade surpreendente quando queriam. Era como quando nos lembrávamos de uma situação vergonhosa na qual acreditávamos estar certos, apenas para perceber, mais tarde, o quanto estávamos enganados.
No caso do jovem sem memórias, a lembrança o levou de volta ao primeiro encontro no lago com aquela garota. Àquele corpo dotado de volúpia, às curvas fartas, aos seios que ele havia visto claramente, rebrilhando úmidos à luz do sol, e também aos lábios finos e rosados que falavam com ele de maneira provocativa.
Aquilo incitava a Luxúria dentro de seu corpo, mas Will não entendia por que um calor percorria todo o seu corpo para então se concentrar na região da virilha. Ao mesmo tempo, um rubor começava a se espalhar por seu rosto:
—Já vi que você ta pensando em coisas a mais do que devia numa situação como essa.
—Ahn, não é nada… Pera aí, você por acaso consegue ler mentes.
—Não—Danny comentou rindo—Mas digo que seria uma habilidade muito útil. Porém, é a sua reação que me deixa intrigado, você ficou todo ruborizado quando eu falei da Liz. Isso me leva novamente para a pergunta que eu te fiz: Qual é a sua relação com a Liz?
—Eu… Eu…
As mesmas imagens voltaram à sua mente. Os lábios, os seios balançando à luz do sol no lago, o olhar inquieto da garota. Tudo isso retornava à sua memória. Porém, também vieram as palavras de Liz e a postura que ela havia assumido para defendê-lo naquela floresta. Assim, antes que Danny tivesse mais uma oportunidade de dizer alguma de suas asneiras, o garoto rapidamente transformou seus pensamentos em palavras:
—Eu tenho gratidão pela Liz.
—…?
O sentimento foi expresso em palavras, e então o coração do jovem palpitou, titubeante. Ele realmente sentia uma imensa gratidão pelo que Liz havia feito por ele, mas havia algo além disso. Por ter sido a primeira pessoa que vira naquele mundo, ela também havia sido seu primeiro contato com tudo aquilo que ainda desconhecia.
Will sorriu por dentro, e aquele sorriso transbordou a ponto de alcançar seus lábios. Ele nutria um carinho cujo tamanho nem mesmo conhecia e o direcionava àquela garota:
—Se eu te disser que eu conheço ela de longa data ou que ela é uma conhecida minha, eu vou estar com certeza sentindo.
—…
—Eu nunca vi e nem ouvi a voz da Liz… Não me lembro de nada e tudo nesse mundo é novo para mim, mas no meu caso eu posso dizer que a Liz me deu um amanhã, e por isso eu sou muito grato.
Ele fechou os olhos e levou a mão ao peito. Seu coração batia forte. Liz Meyer poderia se tornar uma inspiração, até mesmo um ideal a ser cultivado na mente do garoto, pois aquela postura que ela assumia, sua maneira de falar e o modo como agia sempre retornavam aos pensamentos dele.
Talvez essa fosse a razão de achar tão estranha a postura de pessoas como Danny, Markus ou Hilda. Afinal, seu primeiro ideal, sua primeira referência do que significava ser alguém, havia sido uma pessoa de cerne nobre, cujas atitudes refletiam essa mesma nobreza:
—Mas por que me perguntou isso—Ao sair dos seus pensamentos, Will indagou—Por acaso isso tem alguma valia para você também?
—Não, de forma alguma—Danny comentou ao se levantar da cadeira—Na verdade eu estou aqui apenas ocupando seu tempo e jogando bastante conversa fora.
—Pensei que estivesse preocupado com a questão da moeda, do tal Assassino de Mercenários.
—Eu estou—Danny se dirigiu para um aparador e buscou um copo e uma licoreira.
—Não parece, ainda mais depois de ter tentado me matar daquela forma porque eu não estava trazendo lucro e nem ajudando.
—Você não ia morrer—O líder comentou de forma descontraída—Mas talvez eu devesse ter pego menos pesado se você sentiu dessa forma.
O homem voltou à mesa e tornou a se sentar no mesmo lugar. Colocou a licoreira sobre o tampo e retirou a tampa de madeira incrustada que protegia o líquido alaranjado em seu interior.
Danny possuía hábitos que poderiam facilmente ser considerados vícios, fossem o cigarro ou a bebida. Naquele mesmo dia, já havia fumado dois cigarros, e ninguém poderia saber quanto ainda pretendia beber.
—Talvez você devesse parar de fazer esse tipo de coisa.
—Até da bebida você vai reclamar—Protestou o líder fingindo exasperação—Não basta só o cigarro.
—Não é disso que eu tô falando—A expressão do garoto era de genuína exasperação—Você também é bastante emburrecido né.
—Tô vendo que eu vou ter que repreender a Liz por te ensinar o sarcasmo antes de qualquer coisa.
Danny tomou um gole revigorante da bebida e deixou o copo sobre a mesa antes de cruzar as pernas. Em seguida, soltou um suspiro prolongado e permitiu que o garoto voltasse a falar:
—Eu estou dizendo que você não deveria sair atacando seus novo recrutas desse jeito.
—Eu não te considerava um novo recruta.
Diante daquela resposta seca e objetiva de Danny, Will engoliu em seco. Uma grossa massa de saliva desceu por sua garganta ressequida, arranhando-a pelo caminho.
O líder da Irmandade tratava assuntos sérios com uma postura extremamente leviana, o que chegava a ser bastante incômodo, sobretudo quando se levavam em conta as experiências que o próprio garoto havia vivido na pele naquela ocasião:
—…?!
—Ué? Por que essa cara? Isso você já sabia, não precisa ficar surpreso.
O homem fez um gesto com as mãos, abanando-as numa expressão que parecia dizer “xô, xô”. É claro que não estava tentando afastar o garoto, mas apenas reproduzia aquele gesto de maneira despreocupada:
—Se você tá buscando uma forma de arrependimento garoto, saiba que isso eu não vou te dar—Danny coçou a cabeça—Eu queria que você entendesse rápido como as coisas funcionam por aqui, queria te ensinar as leis imutáveis desse mundo.
—Eu tenho que admitir que minha postura não ia a meu favor—O garoto comentou fechando os olhos e depois abrindo-os para encarar Danny—Mas tenho que dizer que você é um péssimo professor então. Não acha que a única coisa que me sobraria seria ressentimento de você?
—E foi mesmo só isso que sobrou?
Danny era, com cem por cento de certeza, um dos piores professores que alguém poderia ter. Na verdade, o homem não levaria jeito algum para esse tipo de coisa, e Will havia percebido isso muito cedo.
Se por acaso Danny entrasse em uma sala de aula, passaria mais tempo no fundo dela do que diante do quadro. Certamente, trocaria provocações com os alunos e mudaria de assunto diversas vezes durante uma única aula.
Apesar de toda aquela conversa sobre professores e ressentimento, Will sentia que não havia sido apenas isso que lhe restara. Ainda assim, nem mesmo ele sabia ao certo o que sentia em relação aos Leões de Aço.
Ele tinha receio, sim. Quando pensava nisso, os acontecimentos voltavam à sua mente: o ataque de Danny e também o de Markus. Mas havia, sobretudo, incerteza. Muita incerteza sobre o que sentia, não apenas em relação àquilo, mas também a tudo naquele mundo:
—Eu não sei dizer bem…
—Ah não! Mais uma dessas respostas emburrecidas—Danny pegou o copo e o levou rapidamente a boca, sorvendo um bom gole—O da amnésia, você precisa ter umas sacadas mais inteligentes, você não acha?
—Você nem sequer deixou eu terminar de falar.
Os olhos do garoto brilharam com um fulgor exíguo, uma chama que ardia com determinação no fundo de suas íris verdes.
Diante daquela expressão, o próprio líder da Irmandade dos Leões de Aço semicerrou os olhos, aguardando o que viria a seguir:
—Eu realmente não sei dizer o que eu penso de você, de Markus ou da sua Irmandade—Ele olhou na direção da janela que brilhava em azul do luar—Como Markus disse, eu sou um ninguém para vocês, mas também acho que vocês são um ninguém para mim e isso se deve ao fato de que não construímos nada juntos ainda, assim acabamos nos enxergando dessa forma, então pelo menos por agora, eu não posso dizer que sei o que sobrou das suas atitudes, Danny.
—…
—Eu sei que não gostaria que algo daquilo acontecesse de novo, e eu realmente tenho medo do pode ser a nossa relação daqui para frente. Se ela será somente utilidade, ou se terá algo a mais.
Com os olhos ainda semicerrados, o líder da Irmandade acariciou o próprio cavanhaque e fixou aquele olhar castanho no garoto, como se procurasse perfurar o cerne de seu ser.
Will havia se concentrado muito para dizer tudo aquilo. Quando percebeu que estava sendo observado daquela maneira, por um olhar que parecia perscrutar até o fundo de sua alma, sobressaltou-se:
—Eu vou corrigir uma impressão errada que você teve sobre a nossa relação—Danny cruzou os dedos sobre o tampo da mesa.
Diante da postura séria do outro homem, o garoto engoliu em seco mais uma vez. A única outra ocasião em que vira o líder assumir aquela expressão havia sido quando sugerira ir embora e devolver tudo o que recebera dos Leões de Aço:
—Não temos o intuito de ultrapassar a linha da utilidade se tratando de você.