Capítulo 16: Valor da Amnésia
Capítulo 16: Valor da Amnésia
Will se assustou um pouco, mas não chegou a se sobressaltar. Também não era como se não esperasse algo assim vindo de Danny. Apenas se surpreendeu ao ver concretizado aquilo que havia imaginado.
Danny descruzou as pernas e depois voltou a cruzá-las, numa atitude claramente despretensiosa. Em seguida, serviu-se de mais um pouco da bebida e, diante do silêncio do garoto sem memórias, continuou a falar:
—Esse mundo é movido a base de valor—Ele então balançou o copo e olhou para Will através do líquido—Há coisas que têm valor maior e coisas que tem um valor menor.
—…
—Sejam as Irmandades, as Cinco Grandes Famílias, a Sacra Igreja de Guad ou a Ordem dos Mercenários, todas essas “organizações” que compõe a nossa sociedade funcionam a base disso.
Danny desviou o olhar por alguns instantes, mas logo voltou a atenção para o garoto e sorveu mais um gole. Will permaneceu em silêncio, esperando que ele continuasse:
—O seu valor é o que te define aqui. E você será julgado de diversas formas e por motivos diferentes dependendo de onde você se encontre.
—…
—Para mim em específico, o seu valor se restringe somente a sua utilidade para a Leões de Aço, ao que você pode trazer aqui—O homem então colocou o copo sobre a mesa—Mas isso não se restringe somente as organizações, mas também as pessoas; para a Liz você talvez tenha algum valor distinto.
—Eu acho que entendi o que você quis dizer.
—Nossa, ainda bem—O líder ajeitou o cabelo—Eu não sei se conseguiria fazer esse esforço para pensar e explicar tudo de novo.
—Mas eu quero entender porque você considera o meu valor tão baixo assim?
—Eu julgo naquilo que você pode trazer de palpável para a minha Irmandade—Ele então abriu um sorriso que fedia a ganância—Ou seja, a moeda. Mas também coisas que não são tão palpáveis assim, como prestígio.
—E por que a moeda é tão importante como você diz?
—Por que é ela que define o valor.
—E por que o valor é importante também, então?
—Olha garoto, não era para você já estar nesse nível não—Danny passou a mão no rosto descontente com a ingenuidade de Will.
O garoto, por sua vez, tinha dificuldade para compreender aquelas coisas que Danny lhe dizia. Afinal, nada daquilo fazia sentido. O conceito de valor soava extremamente impreciso em sua mente, e não conseguia entender por que alguém criaria algo assim, a não ser para estabelecer diferenças entre as condições das pessoas.
Só que Will ainda não compreendia aquele mundo como deveria. Havia despertado fazia apenas alguns dias e, por isso, vira pouco, conhecera pouco e, principalmente, tivera pouco contato com as pessoas.
—O uso do valor é uma coisa que independe de mim, não sou eu que defino o porquê de existir esse conceito, eu só apenas estou aqui e vivo aqui, inserido nessa realidade—Danny bufou em desistência diante da insistência de Will.
—Se é assim seria bom se as pessoas deixassem de lado essa questão do tal do valor das coisas—Will ergueu os olhos e desviou o olhar para a luz da lua que entrava naquele cômodo—Ao que me parece isso cria mais problemas do que ajuda, até mesmo para você, e isso em relação a mim.
—Mas aí eu não ia conseguir medir o quanto você me deve pela ajuda que eu te dei.
Danny sorriu, claramente brincando com Will. Por algum motivo, porém, o garoto permaneceu sério, refletindo sobre o que acabara de ouvir:
—Era muito simples, era só eu não te dever nada—Ele sugeriu e então sorriu—Se cada um de nós fizesse aquilo que…
—Mas não é assim que as coisas funcionam, não é?—Danny revirou os olhos para o idealismo de Will—Eu quero ganhar algo, quero ter uma recompensa em te ajudar e todos por aí pensariam da mesma forma que eu.
—Todos…?
—O da amnésia, eu sei que você tá meio aturdido ainda e não sei quem você era antes de vir para cá—O homem fazia círculos na mesa, sobre a umidade da bebida enquanto falava—Mas agora o que importa é isso. Foi como eu disse, moeda na mente para pensar à frente.
—…
—O seu valor não é muito alto nesse momento e você está aqui porque me deve, então vou colocá-lo onde você é apropriado com o valor que tem.
Aquela era, ou poderia ser, a principal razão pela qual Danny havia atribuído ao jovem Will uma função que classificara como a de entregador. E, fosse lá o que ele tivesse de entregar, talvez não fosse algo de muito prestígio, a julgar pela postura de Hilda.
Por alguns instantes, o garoto também parou para refletir sobre os próprios pensamentos e a conversa que tivera com Danny pouco antes. Ficara claro que ele e o líder da Irmandade não compartilhavam opiniões semelhantes. Mas não eram as diferenças entre eles, nem mesmo as questões de “valor” e “moeda”, que mais instigavam sua mente. Era outra coisa: o motivo.
Por um instante, Will pensou que sua opinião sobre o erro de atribuir valor às coisas pudesse estar ligada a quem ele havia sido no passado. Só essa possibilidade, por menor que fosse, já trouxe um pouco de esperança à sua perspectiva. No entanto, a impossibilidade de confirmar aquela hipótese logo o fez desanimar em meio às próprias divagações.
Percebendo que talvez não conseguisse nada ao manter aquele tipo de conversa com Danny e considerando o temperamento volátil do homem, foi o próprio garoto quem decidiu mudar de assunto:
—E quanto à Hilda?
—Ahn?… O que tem ela?
—Você também decidiu que ela não tinha muito valor sobre essa questão do tal assassino que vocês estão perseguindo.
Era uma pergunta óbvia e, ao mesmo tempo, uma boa maneira de tentar entender a situação. Ainda assim, ela não era suficiente para mudar completamente o rumo da conversa. A própria insistência de Will no uso da palavra “valor” deixava isso evidente.
Danny suspirou, descontente. Não esperava que o garoto fosse indagar sobre aquilo e, mais uma vez, remexeu os bolsos do casacão à procura de um cigarro. Dessa vez, porém, não encontrou nenhum:
—Droga! Tenho que arranjar mais deles—Ele praguejou mais para si mesmo.
—Acabaram?—O garoto indagou lançando o olhar para onde Danny passava as mãos.
—Você por acaso não teria um cigarro com você não, né?
—Eu acho que isso não faz bem não—Will olhou de esguelha, sugestivamente em direção ao Danny—Você fumou três só nesse momento em que nós estávamos conversando aqui.
—Ih! Você não viu nada—O homem balançou as mãos, se entregando e deu um sorriso maroto àquilo.
O garoto apenas imaginou o que Markus diria se soubesse daquilo. Provavelmente, faria algum comentário para contrariar o jeito de Danny, que tentaria se justificar ou demonstrar responsabilidade.
Ao pensar nisso, Will acabou sorrindo sem perceber. Não chegou, porém, a refletir sobre o significado daquele gesto. Tampouco lhe ocorreu que imaginar como Danny ou Markus reagiriam era um sinal de que, inconscientemente, estava começando a se aproximar dos Leões de Aço.
Ao mesmo tempo, percebeu que estava permitindo que Danny fugisse do assunto mais uma vez. Não que o homem fizesse isso por malícia, mas parecia ser uma tendência de seu jeito ansioso e brincalhão de lidar com as palavras:
—Acho que o que eu não quero ver é o resultado que vai sair disso daí—Ele apontou para o isqueiro que o outro girava nervosamente nas mãos—Agora, sem a gente fugir do assunto, você ia me dizer sobre Hilda.
—Você fala do porquê eu ter tirado ela da missão?
—É, eu não entendi, ela por um acaso é fraca ou essas coisas?
—…?
Danny olhou com curiosidade para a insinuação de Will sobre a outra garota. O rapaz, porém, pareceu não perceber a reação do líder, pois a lembrança que lhe veio à mente o fez pensar em outra coisa.
Will pretendia completar a pergunta, indagando se Danny tinha medo de que Hilda morresse, mas desistiu quando a imagem daquela visão estranha voltou à sua mente. Decidiu que pensaria naquilo mais tarde, pois sua hesitação já começava a chamar a atenção do outro homem:
—Você disse que a força da Liz era maior do que a dela, ou que ela seria mais útil, acho que foi algo assim não?—O garoto perguntou inocentemente.
—Tsc, tsc, tsc…
Danny estalou a língua três vezes enquanto encarava o garoto com sua expressão descontraída de sempre:
—Você não brinca mesmo em o da amnésia. Se eu der mole você arranca informação de mim e ainda rouba meu posto de líder da Irmandade.
—Eu? Não, não não!—Will se sobressaltou, não queria dar motivos para Danny se enfurecer—Eu jamais faria isso com você, eu só fico curioso e acho que isso faz parte da minha ambição.
—Ambição? Achei curioso agora—O líder coçou o cavanhaque—Não Imaginei que você usaria uma palavra como essa.
—Olha, eu ainda tô descobrindo palavras novas a todo momento—Ele disse de forma descontraída. Essa era uma das facilidades que Will notava que começava a ter—Mas acho que isso tem haver com aquele seu papo de moeda na mesa.
O garoto não era tão emburrecido quanto Danny dizia. A questão era que as coisas lhe pareciam muito mais estranhas do que seriam normalmente.
Ora, bastava pensar no que significava desconhecer por completo um mundo, uma sociedade e todo o seu funcionamento. Qualquer pessoa ficaria perdida em tais circunstâncias. Ainda assim, Will começava a compreender as coisas rapidamente, como demonstrava sua compreensão da ideia de moeda apresentada por Danny.
O mesmo acontecia com as opiniões que começava a formar. No que dizia respeito às relações sociais, talvez ainda lhe faltasse um pouco de malícia para lidar com as pessoas. Porém, William era alguém, sim, e seus pensamentos começavam a se ajustar à realidade daquele mundo.
Ele era alguém e pensava, sentia e tinha seus próprios valores. Com o tempo, poderia demonstrá-los e construir algo a partir deles.
Ele era alguém e logo criaria seus laços, viveria sua vida e almejaria suas ambições.
Ele era alguém e amaria e odiaria, gostaria e desgostaria, teria gostos, teria opiniões contrárias e favoráveis.
Will era apenas mais uma pessoa. Ele era alguém:
—Olha, eu tô começando a gostar daquilo que a gente pode construir o da amnésia—Danny sorriu com aquele brilho amarelo faiscando nos olhos—Tá certo que você fica fora de si as vezes, faz cara de abobado e fica aí panguando com umas atitudes meio emburrecidas.
—…?!
O garoto ficou boquiaberto diante das barbaridades que saíam com tanta naturalidade da boca de Danny:
—Mas você diz umas coisas produtivas às vezes, não é de se perder tudo.
—Da forma que você falou até parece que eu sou um inútil—Will comentou simulando desânimo.
—Mas esse que é o ponto, você é—E sem escrúpulos, Danny não negou.
—A gente tá se perdendo de novo—O garoto ignorou Danny—Você ia falar da Hilda.
—Mania feia de vocês em?—O líder balançou a mão de uma maneira meio mórbida, sugerindo indignação—Tá aprendendo com a Liz ou com o Markus a ficar me criticando? Ei sempre chego no ponto afinal eu tenho um timing perfeito.
—Sei.
Danny revirou os olhos e então os semicerrou diante daquele comentário sarcástico de Will. No entanto, ele próprio sabia que tinha aquela tendência. Por isso, decidiu deixar de lado qualquer possibilidade de retrucar e voltar ao assunto que realmente importava:
—Você falou sobre a sua ambição, não é? Bem, acho que a Hilda pode te ajudar com isso, porque ô garotinha ambiciosa tá?
—Eu não acho que ela vai aceitar isso muito bem—Will cruzou os braços, fechou os olhos e balançou a cabeça em negativa—Afinal segundo ela, eu meio que estraguei qualquer chance ou qualquer coisa em relação a honra dela.
—Não precisa se sentir culpado desse jeito. Eu te perdoo.
Will não se sentia culpado e tampouco queria o perdão de Danny.
—Acho que vocês vão se dar bem, vocês têm coisas em comum.
Danny falou com uma trivialidade quase absoluta, como se aquilo fosse perfeitamente natural. Para o garoto sem memórias, porém, a ideia estava longe de parecer tão simples.
Hilda era calada, impulsiva e parecia até mesmo um tanto reativa. Não era o tipo de pessoa com quem Will gostaria de lidar, e ele próprio não se considerava alguém assim. Aquela impressão, porém, não passava de uma espécie de preconceito de sua parte. O garoto ainda não conhecia aquele conceito, muito menos compreendia a força que ele poderia exercer:
—…?
—Que foi?—Danny esfregou os dedos nas sobrancelhas—Viu? É disso que eu tô falando, essas pequenas atitudes te deixam emburrecido, fazem você parecer abobado. Acho que é melhor você falar comigo do que ficar pensando. Mas tudo bem, deixa que eu te explico.
—…
—Acho que as experiências de vocês dois são valorosas um para o outro, afinal ela compartilha a mesma condição que você.
—A mesma… Condição?
—Ah não ó, eu vou desistir.
—…
—As memórias dela, elas são tão turbulentas quanto as suas.