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Capítulo 17: Objetivo Secundário

As Memórias Perdidas De William Rassad — illusia.com.br · All chapters

Capítulo 17: Objetivo Secundário

O vento fresco da noite batia em seu rosto, e os pelos dos braços apoiados na janela se eriçaram com o frio que subitamente invadiu a brisa e também aquele quarto.

Abaixo de onde estava, Will podia ver as ruas do que agora sabia ser a Capital Real do Reino de Losdrich. Desconhecia as horas, pois ainda não havia aprendido a medi-las segundo os métodos mais convencionais. Seu conhecimento daquele mundo, porém, permitia concluir que já era tarde. Já era noite.

Era tempo de lua cheia, e ela brilhava altiva por entre um céu negro mesclado a um tom cerúleo que preenchia quase toda a extensão acima da cabeça do jovem, salvo pelos fiapos esfarrapados de nuvens que se dissolviam naquela imensidão escura.

Como capital de um reino tão grande quanto Losdrich e uma das três grandes cidades, aquele lugar não parava por completo nem mesmo à noite. Embora o movimento fosse mais esparso, a ampla avenida, com seus ladrilhos que reluziam opacamente em cinza e branco, era percorrida de vez em quando por uma carruagem.

Will observava aqueles veículos, tão diversos entre si. Alguns tinham rodas maiores, outros, menores. Havia carruagens suntuosas, cheias de detalhes e adornadas com desenhos em ouro e pinturas em arabescos. Outras eram simples, abertas ao relento da noite, carregavam jarros e até mesmo feno e eram feitas de madeira sem pintura ou ornamentos.

O garoto achava curiosa aquela distinção, aquela diferença entre os veículos que percorriam as ruas durante aquelas horas da noite. Acreditava que as disparidades entre eles talvez fossem semelhantes às que existiam entre ele e Liz ou entre ele e Danny. Mal sabia que aquelas diferenças tinham muito a ver com a noção de valor discutida mais cedo com o líder.

Seus olhos, no entanto, não se fixavam em uma única coisa. Vez ou outra, ele se pegava encarando as luzes amareladas que brilhavam nas lamparinas instaladas nos postes da cidade.

Era uma cidade iluminada, repleta de luzes. Uma existência única, certamente diferente de tudo o que o garoto vira até então. Aquele mundo, muitas vezes, revelava traços de uma beleza surreal.

Mas, por mais que admirasse e se deslumbrasse com aquelas coisas, não foi isso que ocupou a maior parte de seus pensamentos enquanto observava a cidade.

Sua mente estava voltada, essencialmente, para as coisas que Danny dissera durante o encontro que se estendera por um tempo anormalmente longo no salão principal da Irmandade.

— • —

—Danny, o que você quer dizer com isso?!—Will se empertigou e com certa apreensão pós as mãos sobre a mesa, os dedos, rijos.

—Ué, somente o que eu disse—O líder deu de ombros—Nada que seja diferente disso. E dessa vez eu tentei ser objetivo com as minhas palavras.

O mundo era mais rápido que os pensamentos.

Aquilo parecia uma tolice, e tampouco era um mero achismo. O jovem garoto sem memórias estava experimentando aquela realidade muito mais intensamente do que gostaria.

A sucessão dos acontecimentos naquela floresta se dera de maneira muito rápida. Will se levantara, vagara por aquele lugar, tivera a estranha sensação de estar sendo perseguido e, por fim, encontrara Liz.

Daquele ponto em diante, porém, as coisas saíram um pouco do controle, primeiro com o ataque daquelas feras e, mais tarde, com o encontro agitado e repleto de informações com o homem que estava diante dele.

Tudo aquilo demonstrava que o mundo era mais rápido que os pensamentos. Até então, Will não tivera tempo para responder a duas perguntas cruciais: quem ele era e por que havia perdido as memórias.

—Se você disse que as memórias da Hilda são tão turbulentas quanto às minhas, você não tá insinuando…

Will parecia bastante assustado com aquela possibilidade que se apresentava diante dele:

—É simples o da amnésia, a Hilda não tem as memórias dela, ela é uma pessoa sem memórias—O homem estendeu a mão a frente, indicando a sugestão—Acho que isso te soa familiar, não?

—É sério que você vai brincar até com isso?—O jovem parecia indignado.

—Não entendi. Eu não estou brincando com nada.

Will tentou ignorar aqueles comentários descabidos de Danny. Afinal, a garota que saíra dali enfurecida talvez pudesse ajudá-lo a responder às duas perguntas que haviam ficado sem resposta até então e que voltavam agora à sua mente com as declarações do líder.

Havia apenas um problema: a dita cuja provavelmente não estaria disposta a conversar com o garoto.

—Então quer dizer que… Mas, como ela se adaptou tão rápido?

O garoto levou a mão ao queixo enquanto divagava sobre aquelas coisas:

—Ela também parecia mais forte do que eu… E mais convicta também—Ele então levantou a cabeça para Danny para apenas ver o líder o observando—Você tem certeza que ela é realmente alguém com amnésia igual a mim?

—Vai duvidar agora, o da amnésia? Quando que eu já menti para você?

Will arregalou os olhos e revirou os lábios na direção do homem. Danny nunca havia mentido para ele, mas tinha aquele jeitão de quem costumava fazer justamente isso.

—Eu vou ignorar essa cara que cê tá fazendo e vou ser legal com você—O homem deu um leve sorriso e coçou o cavanhaque—Você tá aí pensando e murmurando, nesse seu jeito meio amalucado de ser né? É óbvio que a Hilda sabe mais do que você, ela tá com a gente faz alguns anos ao menos.

—…?

—E não vai se achando não. Esse lance de amnésia é mais comum do que parece.

—…!?

—Vira e mexe aparece uma pessoa aqui e uma pessoa ali que não tem algo da memória.

Danny deu de ombros mais uma vez, erguendo os braços e deixando as palmas das mãos viradas para cima:

—Esse negócio de amnésia sabe, é meio comum por essas bandas.

—O quê?!

Aquilo explicava por que ninguém havia estranhado o fato de o garoto vagar pela floresta até ser encontrado. Também explicava por que o haviam aceitado tão facilmente, tratando sua situação como uma dívida comum para com a Irmandade.

Se fosse apenas isso, ainda dava para perdoar Danny. Havia, porém, algo que o deixava indignado. Foi com esse sentimento que lançou a próxima pergunta:

—E vocês não acham isso estranho não! Já parou para pensar que pode ser uma doença?! O começo de uma praga global?!

—Você tá levando isso muito a sério.

Danny deu um tapa no ar, como se aquela fosse uma questão trivial. Will, porém, sabia que não era. Afinal, sua própria existência dependia de levar aquela questão a sério.

—As pessoas esquecem umas coisinhas de vez em quando. Eu mesmo não me lembro do meu almoço de hoje cedo.

—Isso vindo de você, pra mim não me surpreende, e eu não acho isso estranho—O garoto comentou com obviedade—Mas então deixa eu ver se eu entendi, é por isso que você quer juntar eu e Hilda né? Vai colocar os dois da amnésia juntos ver no que dá.

—Tenho que admitir que você tem um raciocínio bem cômico em? E eu devo parabenizar quem foi que teve a ideia de juntar duas pessoas sem memórias.

Will revirou os olhos diante daquele sarcasmo descarado:

—Mas não. Não tem nada haver com ser uma piada—E então Danny ficou sério de repente, porém, não de uma forma ruim—Esse foi um pedido do Markus para mim. Ele quer que eu tire a Hilda da investigação do Assassino de Mercenários.

—Pera, isso é estranho, não faz sentido nenhum. Markus nem me conhece, porque ele acharia que eu vou proteger a Hilda? E ainda porque tirar ela? Ela ficou revoltada.

—Ué? E você não protegeria uma dama como ela?

—Você precisa parar de responder perguntas com outras perguntas.

O garoto revirou os olhos ao dizer aquilo, um hábito que começava a adquirir aos poucos. Mas posso assegurar que seria inevitável aprender a fazer o mesmo, mesmo que a noção de olhos e pálpebras não existisse, caso você estivesse na presença de Danny.

—E tem mais, ela não parece muito o tipo de uma dama que precisa de proteção.

—Nesse sentido você tem razão—Danny se viu obrigado a concordar e logo em seguida no um gesto súbito, ergueu dois dedos como que para indicar quantidade —E eu vou te dizer mais duas coisas para que nós possamos ir dormir, afinal, amanhã eu quero você aqui às nove para o quadro de tarefas.

—…?

Então, sem dar muitas explicações, Danny continuou:

—Você foi uma coincidência, uma coisa boa, uma oportunidade de tirar ela, afinal ele já tava me dando nos nervos—Danny quase repuxou as pálpebras inferiores para tornar física a sua exasperação—E o Markus, bem… Acho que isso eu posso dizer, não? Ele foi quem trouxe a Hilda para cá, e desde então ele tem agido como um pai para ela. Acho que se ela cometesse um crime, ele certamente ficaria do lado dela. Então nesse caso do assassino é mais uma questão de não querer arriscar.

— • —

A distração provocada pelos pensamentos que preenchiam sua mente fez com que o garoto praticamente ignorasse o vento frio que soprava vindo da rua.

Will conseguia entender o que Markus pensava sobre Hilda, embora seu interesse naquela questão envolvendo os Leões de Aço fosse outro.

Depois de fazer aquelas revelações, o próprio líder se retirou do salão e orientou Will a fazer o mesmo. A última coisa que o garoto viu de Danny foi o homem atravessando a porta da sede em direção à rua. Provavelmente, iria buscar mais cigarros.

Will não tentou adivinhar onde ele iria procurá-los e seguiu para o que acreditava ser seu quarto. Ao chegar, encontrou a outra cama vazia e as colchas brancas da sua própria cama desgrenhadas e desarrumadas.

Ignorou aquilo e atravessou o quarto até a janela, deixando que os pensamentos rodopiassem em sua mente.

Agora, de maneira mais serena, as coisas começavam a se ajeitar em sua cabeça. Acreditava que, sem Danny falando daquela forma, conseguiria organizar as ideias que acumulara desde que despertara.

E o silêncio ajudava muito nisso.

Will queria saber quem era. Nada relacionado ao seu passado ou à maneira como fora parar naquela floresta vinha à sua mente. Queria entender como chegara àquela situação e por que estava daquele jeito. Será que havia batido a cabeça com muita força?

As respostas não surgiriam de maneira tão simples. E, embora quisesse descobrir tudo aquilo, já havia contraído uma dívida com Danny logo em seus primeiros dias naquele mundo.

Maldita falta de memórias, que não o deixava entender as coisas. Talvez, porém, os Leões de Aço pudessem ajudá-lo a cumprir seu propósito naquela situação.

—É… Não tem porque eu culpar a mim por isso.

Ao dizer aquilo para si mesmo, afinal não havia mais ninguém no quarto, Will bagunçou os cabelos:

—Eu preciso começar de algum lugar né? E para onde eu iria também?

As palavras do garoto contradiziam o que acabara de afirmar. Afinal, sem a dívida com Danny e sua Irmandade, talvez acabasse abandonado naquele mundo, vagando sem rumo.

Ele queria compreender sua situação atual, mas, antes de descobrir quem havia sido, precisava se tornar alguém naquele mundo que se estendia diante dele.

A falta de memórias, tanto as suas quanto as de Hilda, era algo que o incomodava. Se aquilo fosse comum, então não havia nada de tão especial nele. Isso significava que precisaria descobrir de que maneira poderia ser útil.

—Mas o Danny disse que… Eles não sabem a causa… Então, então é isso que eu tenho que descobrir.

O garoto se lembrava das palavras despretensiosas de Danny e sabia que o líder tratava o assunto daquela maneira porque, para ele, aquela questão não representava um problema pessoal. Will, porém, enxergava as coisas de outra forma. Assim, havia decidido o que queria descobrir primeiro:

—É isso!

Afirmou para si mesmo, tentando reunir coragem. O efeito, contudo, foi quase o oposto: sua determinação começou a se esvair. Praticamente ao mesmo tempo, sentiu uma mão tocar suas costas, e o choque daquele contato atingiu rapidamente sua mente.