Capítulo 18: Sob a Lua e o Vento Frios, Um Calor
Capítulo 18: Sob a Lua e o Vento Frios, Um Calor
Os dedos foram a primeira parte da mão a tocar as costas do garoto. Era um contato macio, gentil e suave, algo que fez uma espécie de calor subir pela espinha de Will.
Aquela sensação cálida se misturou ao vento frio que soprava do exterior, e a combinação das duas coisas fez com que os pelos dos braços do garoto se eriçassem.
Aquilo durou apenas um segundo. Foi um instante fugaz, mas os pensamentos e o tempo são coisas diferentes, por mais que insistam em dizer o contrário. Um único instante pode vir recheado de inúmeros pensamentos.
Antes que Will pudesse se virar, no entanto, uma voz aveludada, meio provocativa, mas de timbre angelical, soou no quarto, despertando as lembranças entorpecidas do garoto:
—Nossa, você é mesmo dos esquisitões em?—Disse a voz sem tropeçar nas palavras—Além de gostar de ver mulheres tomando banho totalmente peladas você fala sozinho.
Se o tom, o som ou a forma daquela voz ainda deixavam alguma dúvida, a natureza, a forma e o sentido daquelas palavras não deixavam nenhuma. Só havia uma pessoa que falava daquela maneira, com uma voz tão característica e uma casualidade tão peculiar.
Will não perdeu tempo em se virar. Estendeu o braço e agarrou a mão que repousava em suas costas, sentindo a pele macia e os dedos finos contra a palma da própria mão.
Quando a luz quente e alaranjada das velas tremeluzentes iluminou, ainda que vacilante, o rosto da garota, ele próprio sorriu.
Enquanto olhava intensamente para ela, encarando aqueles olhos verdes como os seus, mas que carregavam muito mais vida, Will a puxou para um abraço:
—Ei, calm…
—Ah, que bom, fico feliz que esteja bem. Agora eu posso agradecê-la. Eu realmente queria ver você com os meus olhos, estava muito preocupado em como você estava.
—O Danny, também. Ele não te falou como eu estava? Eu pedi pra ele te falar.
—Ele disse sim—Will não soltou o abraço—Mas eu queria ver eu mesmo você aqui, comigo, na minha frente.
O garoto apertou o abraço. Queria sentir Liz, pois, por três vezes, havia pensado que a perdera.
A garota talvez não fosse nada dele. Havia conhecido Will e conversado com ele por apenas algumas horas, mas, ainda assim, estendera a mão para ajudá-lo. As palavras dela e a determinação que demonstrara durante a luta contra as feras continuavam vivas em sua memória. Will não era ninguém para ela e, mesmo assim, Liz Meyer decidira lutar por ele.
Ele a apertou contra si, sentindo o corpo dela, o contorno das costas e a pele macia. Sentiu os seios fartos da garota contra o próprio peito, mas não se importou com aquilo. Não teve nenhum pensamento libidinoso naquele momento. Seu rosto permaneceu sereno, impassível.
Liz, por outro lado, encarava a janela à sua frente. As bochechas estavam ruborizadas, enquanto seu olhar se perdia na luz frígida e escura daquela noite sonolenta. Suas mãos tremiam, tomadas por uma espécie de êxtase e receio.
Então, subitamente, ela se acalmou, suspirou e retribuiu o abraço:
—Que bom que você está bem, Will.
— • —
—Você não parece ter ficado ferida nenhum pouco em Liz?
O garoto começou a conversa com aquela observação trivial, enquanto olhava para o pescoço de Liz. Os dois estavam sentados na cama do quarto, e Will fizera o comentário porque ele próprio ainda estava com uma perna e o pescoço enfaixados.
Liz não havia saído ilesa da batalha contra as feras na floresta. Uma boa quantidade de sangue havia espirrado para todos os lados a partir do pescoço dela, mas a garota sequer tinha bandagens naquele local.
Will também sentia curiosidade em descobrir como haviam chegado até ali, visto que Danny não se dera ao trabalho de explicar nada. Ainda assim, acreditava que teria tempo para fazer aquelas perguntas. Gostaria de ter essa oportunidade e, acima de tudo, de poder conversar um pouco com Liz.
Diferentemente das outras pessoas que conhecera naquele mundo, Liz o tratara de maneira positiva desde o começo. Isso despertava o interesse do garoto por ela, afinal, quaisquer laços que tivesse tido antes já não existiam mais.
Naquela situação, ele queria, sim, ser alguém. Para isso, um dos requisitos era começar a construir laços com outras pessoas. Danny era complicado. Hilda parecia ter uma personalidade instável. Markus, por sua vez, ainda era alguém difícil de definir.
No entanto, mais do que simplesmente se tornar alguém, havia algo em Liz que a tornava diferente, e Will queria conhecer melhor aquela garota:
—Hmm?—Ela colocou o dedo na boca e desviou os olhos para cima—Talvez porque eu seja melhor do que regenerar do que você, em?
—Não vem com essa não—O garoto logo retrucou—Ninguém se cura tão rápido desse jeito.
—Pode ser que essa seja a minha benção—Ela deu de ombros e então tracejou um sorriso maroto—Afinal, eu mesma nunca te disse mais do que o meu nome né?
Liz o provocava, como sempre parecia gostar de fazer, e seus olhos verdes dançavam de divertimento diante daquilo. Will, por sua vez, não achava muita graça, visto que era sempre o alvo das brincadeiras.
Aquela provocação, em particular, servia para mostrar que o que a garota dizia era a mais pura verdade: ele sabia muito pouco sobre ela.
—É sacanagem isso daí—Ele protestou—Afinal eu já te contei tudo sobre mim.
—Não tem muito o que contar, não é?
—Isso não é desculpa, eu realmente contei. Só não é culpa minha se é pouco.
Dessa vez, foi Will quem abriu um sorriso maroto, sem se importar com o fato de o assunto ser justamente sua falta de memórias:
—Tá, eu vou te dar um desconto dessa vez—Liz levou a mão até a boca para soltar sua risada—Bem, não tem nada haver com uma benção. Eu realmente só me curei mais rápido do que você, até porque seria impossível ser uma benção, já que eu, não tenho nenhuma.
—Eu sei que eu não entendo muito essa parte ainda, mas Isso não me parece algo muito positivo não é?
—Ah, eu sei do que você entende.
A garota desviou os olhos para baixo, mais especificamente em direção à virilha dele, e deu um sorriso:
—…?
—… você entende bem do lance de ser um tarado.
—Por favor, isso de novo não—Ele esfregou a testa e então voltou a falar—Mas eu gostaria de não nos perder no assunto que estávamos falando… Era sobre… Sobre você não ter benção e também sobre isso, a gente não conseguiu conversar direito da última vez sobre por causa de tudo que aconteceu.
—Bem, tem certeza que é disso que você quer seriamente falar?
—…
—A gente tem um tempo meio contado, até porque a lua tá alta e já vai declinando—Ela apontou para a janela—Sabe como é as coisas né? Não temos nunca muito tempo.
Will não sabia ao certo o que Liz queria dizer com aquilo, mas compreendeu que ela não poderia ficar ali por muito tempo. Enquanto coçava a cabeça, lembrou-se de duas coisas que queria comentar com ela. A primeira era:
—Eu queria só entender como a gente veio parar aqui—Ele fez um gesto e também olhou o quarto—Eu fiquei muito assustado e várias coisas se passaram pela minha cabeça.
Agora, o próprio garoto se sentia patético ao recordar o que havia pensado antes: que fora capturado e que aquele mundo era uma civilização formada por aquelas feras.
—Acho que deve ter sido no mínimo curioso o que quer que tenha se passado pela sua mente em—Liz deu mais uma risada, talvez ela imaginasse o tipo de coisa que era, mas não comentou—Era para o Danny ter te explicado essa coisas. Ele não te disse nada?
—Não, ele não falou nada, embora ele abrisse a boca com bastante frequência.
—Francamente, esse Danny não tem jeito—A garota esfregou a mão no rosto novamente—Eu não posso contar com ele para nada.
—…
—Ele acabou nos salvando aquele dia.
Diante daquela revelação, um choque percorreu o corpo do garoto. Era a sensação de quem começava a assimilar uma informação inesperada. Danny os havia salvado?
—Pera aí… Então isso significa que… A minha dívida com ele tá maior do que eu pensava.
—Dívida? Como assim Will? Que dívida é essa?!
—Ele falou que você já tava sabendo… ?
Liz assumiu rapidamente uma postura irritada diante daquilo. Levou a mão à franja e massageou o couro cabeludo, tentando compreender a situação:
—E você aceitou ele falar de dívida com você? Eu pedi para ele não fazer esse tipo de coisa.
—…
—Ó, os homens não tem jeito mesmo—Ela esfregou a mão no rosto.
—Ei, desse jeito você vai acabar me ofendendo—Protestou Will ao arregalar os olhos.
—Isso não inclui você—Ela levantou a mão, com o intuito de pegar no braço dele, mas logo parou—Você chega até mesmo a ser fofinho.
O garoto corou levemente diante daquele comentário. Não sabia dizer se Liz o elogiava ou se estava apenas provocando, mas acabou aceitando o apelido, pois, no fundo, gostara dele:
—O Liz, mas eu ainda não entendi direito, como que o Danny salvou a gente?
—Will, calma aí—Ela protestou inquisitiva—Antes eu quero entender o que foi que aquele fanfarrão fez.
Pelo visto, Liz não nutria muito carinho por Danny, o que, considerando toda a situação, não era algo difícil de compreender.
O homem tinha uma personalidade complicada, atropelava as palavras e os assuntos e, acima de tudo, era irreverente na hora de tomar decisões. Nesse aspecto, nem mesmo Will gostava muito dele.
—Eu pensei que a gente estivesse com o tempo curto para continuar falando sobre coisas desnecessárias?
—Dá para abrir uma exceção—Ela falou tentando esconder uma risada.
Ao perceber que a falta de tempo havia sido apenas uma desculpa inventada por Liz para conduzir a conversa da maneira que desejava, Will não conseguiu deixar de se indignar. Ainda assim, evitou dizer qualquer outra coisa, pois tinha uma segunda pergunta a fazer:
—Tá, se você vai abrir uma exceção para mim, eu vou explicar o que ele disse.
Will fez uma expressão de exasperação, incomodado tanto com a postura provocativa de Liz — que, no fundo, ele apreciava — quanto com a descoberta de que havia sido enganado pelo astuto líder da Irmandade.
A garota sorriu diante da reação dele. Will, por sua vez, resignou-se a manter os pensamentos na própria mente, sem transformá-los em palavras:
—Ele falou umas coisas sobre a moeda e o que era devido para a Irmandade—Começou o garoto—Falou sobre o meu nome, umas coisas de nome de família e questionou como meu corpo não servia como pagamento…
—O quê?!
—…?
—O que aquele cretino estava pensando em?
—Mas eu não entendi qual é o problema nisso.
—Você, que é um tarado, Will, não entendeu?—Ela então apontou para a virilha dele.
—Eu sinto que eu devia ficar envergonhado, mas eu realmente não sei o porquê.
A amnésia começava a revelar suas desvantagens quando se tratava de lidar com o garoto. Afinal, algumas faculdades da mente ainda não haviam retornado por completo.
Naquele caso específico, envolvendo uma questão estritamente sexual, os conhecimentos que Will poderia ter sobre o assunto haviam voltado apenas em parte. Ele ainda era capaz de sentir vergonha, mas até mesmo essa reação parecia ter retornado de maneira pouco natural.
—Como eu disse, o nosso tempo é bastante curto—Liz sacudiu a cabeça—Não vai dar para ficar falando disso e te explicando tudo.
—Mas você mesmo acabou me abrindo uma exceção.
—Você ainda é muito novo para entender os caprichos femininos Will.
O garoto começava a se incomodar com a sucessão dos acontecimentos. Liz não era como Danny, que conduzia as conversas da maneira que bem entendia, a seu bel-prazer. Ainda assim, o incômodo de Will não se dirigia necessariamente à garota em si, mas às afirmações que ela fazia.
Quanto mais conversava com as pessoas, mais evidente ficava a falta que suas memórias lhe faziam. Aos poucos, aquilo começava a incomodá-lo de verdade.
Queria compreender o que Liz dizia, descobrir o motivo daquele olhar enviesado em direção à sua virilha e entender o significado daquilo. Queria compreender os caprichos femininos, pois ele e Liz não deveriam ter uma diferença de idade tão grande. Portanto, imaginava que deveria conhecer pelo menos alguma coisa sobre o assunto.
Eram coisas pequenas, detalhes que rodopiavam na mente do garoto. No entanto, tudo aquilo apontava para uma mesma questão: Will não era ninguém. E o fato de não ser alguém o incomodava.
—Então você devia me explicar eles, Liz!
O garoto avançou na direção dela, precipitando-se até ficar com o rosto quase encostado ao seu, tão perto que os dois praticamente sentiam a respiração um do outro. Ao mesmo tempo, segurou a mão magra de dedos finos que ela mantinha sobre a cama.
Por um breve momento, os dois se encararam profundamente. Seus olhos, de cores idênticas e distintas ao mesmo tempo, pareciam perfurar um ao outro, carregados de sentimentos estranhos e diversos.
Os olhos de Liz se arregalaram diante da surpresa daquela atitude. Ao mesmo tempo, os minúsculos pelos de suas pernas se eriçaram sob o robe preto que usava.
Um vento frio soprou e, então, veio o calor.
Os olhos cor de oliva do garoto, por outro lado, assumiram um aspecto diferente. Pareciam revoltos, como óleo em chamas. Até mesmo sua expressão adquiriu um ar ameaçador naquele momento:
—Eu quero entender Liz—Will repetiu, não as palavras, mas os sentimentos—Eu não quero ser isso.
—Isso? Will… Eu não estou entendendo, nós estávamos…
—Você ia dizer que estávamos falando sobre Danny, não é?—Ele parecia sério. E isso era estranho—Eu não quero mais falar sobre ele, eu tive que aguentar ele durante essa noite toda, aquele jeito fanfarrão dele de ser.
—De fato—A garota assentiu e balançou a cabeça.
—Eu não acho que Danny possa me ajudar com isso, até porque ele quase me matou—A expressão dele se mantinha a mesma, mesmo que da sua boca saíssem absurdos—Mas eu não sei, eu sinto por algum motivo que você pode.
Naquele momento, Will não era movido pela razão. Não havia como justificar racionalmente, em lugar algum ou em qualquer tempo, uma atitude como aquela.
Tudo o que pensava, dizia e desejava era fruto de uma impressão pessoal. Uma impressão que poderia estar equivocada, mas que se apoiava naquilo que acreditava existir entre ele e Liz.
E que relação seria essa? Ora, qual outra poderia ser a relação de um garoto que esperava a ajuda e o comprometimento de uma garota? A de uma amizade sincera.
—Você tá falando bem sério, né Will?—Ela começou devolvendo o mesmo tom, mas logo esboçou seu sorriso maroto—Isso é incomum vindo de um tarado.
—…
—Eu estou aqui com você, tudo bem? Eu não sei como é perder as memórias e nem sei que tipo de coisa está passando pela sua cabeça.
—…
—Quero conversar sobre essa história do Danny tentar te “matar”, porque vindo dele, nada pode ser um absurdo completo.
—…
—Mas agora, eu vou te ajudar, seja lá com o que você precisar, mas antes, eu queria te perguntar algo.
—Tudo bem, pode falar.
Depois de toda aquela seriedade, Will engoliu em seco. Não sabia o que poderia vir a seguir. Desconhecia as possibilidades, e era precisamente isso que o incomodava em sua condição de amnésico.
Havia também outra dúvida em sua mente, mas ele não queria ser um Danny da vida:
—Por que eu?
—…?!
—Sei que conhece poucas pessoas, mas, por que escolheu a mim para confiar assim desde cara? Eu não sei o que quer falar, mas sua expressão me diz que é algo sério, algo importante para você, então, por que eu?
A mão esquerda de Liz estava sob a mão direita de Will. A outra, porém, agarrava o lençol com força, como se estivesse tomada pela expectativa. E tremia:
—Você foi legal comigo.
A resposta do garoto foi simples, sem revelar mais do que aquilo.
Um vento frio soprou e, então, veio a gelidez:
—… Mais do que isso na verdade—O garoto desviou o olhar, envergonhado—Você não tinha que me proteger, mas me protegeu, não tinha que me trazer aqui, mas me trouxe, não tinha que cuidar de mim, mas cuidou.
—…
—Eu acho que isso é o que chamam de…
—Fam–…
—Amigo.
O garoto declarou a palavra sem ouvir aquela que Liz deixara pela metade nos lábios. Um pouco perplexa, ela permaneceu em silêncio por alguns instantes, refletindo sobre aquilo, até que abriu um sorriso para ele:
—Você é realmente bem fofinho não é?
—Eu ainda não sei se isso é você tirando uma comigo, ou uma espécie de elogio.
—Considere um pouco dos dois—A garota então mostrou a língua.
Aquele gesto arrancou de Will uma risada genuína e um sorriso:
—Agora, já que somos… Amigos, você poderia falar comigo aquilo que quer me dizer?
Com essa pergunta, o garoto se preparou para começar a falar.
Naquele quarto, sob a luz da lua e ao sopro do vento frio, duas histórias começavam a ser escritas ao mesmo tempo. Entrelaçadas, mas também paralelas.