Capítulo 2: No Caminho da Capital Real eu Encontrei um Anjo
Capítulo 2: No Caminho da Capital Real eu Encontrei um Anjo
O som se propagou com uma tensão súbita que fez o coração de William disparar no peito.
Sua mente ainda estava confusa, mas o instinto falou mais alto, impulsionado por um arrepio que percorreu seus membros e fez suas pernas tremerem: ele precisava se esconder.
O sibilar distante ecoou mais uma vez entre o farfalhar das folhas, acompanhado por um novo ruído. Hesitou por um segundo, paralisado pelo medo, até perceber que o som mudara — não era apenas o vento, mas estalos secos e ritmados.
Passos. Alguém ou algo se aproximava.
Vencendo a hesitação, William moveu-se com cautela sob o céu claro da tarde e grudou as costas contra a superfície rígida da grande pedra, prendendo a respiração.
Não sabia ao certo por que o corpo reagira daquela forma. Sabia que existiam outras pessoas no mundo, mas, sem memórias para confiar, o medo do desconhecido falou mais alto que a vontade de ser encontrado.
O som dos passos ficou mais alto, aproximando-se pelo mesmo caminho de árvores que ele acabara de percorrer.
A pedra em que se escondia ficava um pouco afastada da beira do precipício. Se fosse necessário fugir, aquele trecho estreito poderia ser uma vantagem — mas, apesar do coração acelerado, a curiosidade de William falou mais alto.
Com as costas coladas ao granito aquecido, a boca seca e o suor escorrendo pela testa sob o sol forte, ele se arriscou a espiar pela fresta da rocha.
Apoiou as mãos na pedra ressecada e esticou o olhar em direção ao limite do penhasco. Não viu ninguém. A beirada estava completamente vazia, estendendo-se até onde a vista alcançava. Seria uma ilusão de seus sentidos ou algo que ele simplesmente não conhecia?
Tinha certeza do que ouvira, mas a estranha presença desaparecera tão rápido quanto surgira.
Logo, o incômodo do calor e a sede escaldante voltaram a fustigar sua garganta. Limpou o suor do rosto e retomou o trajeto que avistara antes, ladeando o penhasco.
Manteve-se o mais próximo possível da linha das perobas, cujas folhas sussurravam ao vento. A altura impressionante do precipício lhe causava vertigem, turvando-lhe a visão sempre que arriscava olhar para baixo.
O declive era uma depressão escarpada na rocha, repleta de pedras salientes que poderiam servir de apoio para a descida.
William encarou a encosta abaixo e sentiu a visão tremer. Engoliu em seco, tentando controlar o tremor nas mãos. Hesitou entre avançar ou recuar, mas o receio da estranha presença na mata e a sede intolerável o forçaram a tomar uma atitude.
Sentou-se na beirada e apoiou os pés na primeira rocha terrosa. O chão pareceu bambo de início, mas ele prosseguiu com cuidado, usando raízes e pedras firmes para descer pela encosta.
Conforme se aproximava da metade do caminho, a falsa sensação de segurança fez com que abandonasse a cautela. Arriscou um salto para uma rocha mais abaixo, mas o pé deslizou no cascalho solto.
Perdeu o equilíbrio e despencou.
William desceu escorregando em alta velocidade pela face do penhasco, enquanto o coração disparava no peito. Cotovelos e mãos ralaram na terra seca, misturando sangue e poeira vermelha, até que ele atingiu a base de forma abrupta.
Ficou imóvel por alguns segundos, arfando, coberto de poeira e sentindo a pele arder. Deixou o ar entrar nos pulmões para se acalmar e, finalmente, soltou um praguejo contra o penhasco:
— Ora, mas que droga…
Sua voz soou pela primeira vez no ar — rouca, neutra, reverberando entre as rochas. Escutar a própria voz lhe provocou uma estranha sensação de realidade.
Resignado com os arranhões e a queda, levantou-se e limpou a terra das roupas para seguir em frente.
— • —
A linha de árvores ali era esparsa, suavemente inclinada até dar lugar a uma estreita faixa de areia clara entre a grama e a água do lago.
A lagoa não era grande. Suas águas eram tão puras e cristalinas que permitiam enxergar o fundo raso de pedra e areia. Ao fundo, o rumor distante de uma pequena cachoeira somava-se ao suave marulhar da margem.
William apressou os passos e ajoelhou-se à beira-d’água. Bebeu em sorvos rápidos e famintos, sentindo o líquido fresco aliviar a garganta e dissipar instantaneamente o gosto amargo de sua boca. Respirou fundo, preenchendo os pulmões com o aroma de terra e areia molhada.
Ao inclinar-se sobre a superfície plácida daquele espelho d’água em meio à Floresta das Castanheiras, William encarou o próprio rosto.
Assustou-se com a visão. O maxilar era fino, culminando em um queixo suavemente arredondado. Os olhos, grandes e expressivos, exibiam um tom verde-azeite marcante, quase arregalados pela surpresa do momento. O nariz era estreito na ponte, e a pele bronzeada aparecia emoldurada por cabelos negros e ondulados, cortados em um estilo repicado.
Usava uma blusa branca, calças escuras e sapatos desgastados, agora completamente impregnados de terra e poeira vermelha da queda. Seus cotovelos, ralados pelo impacto no penhasco, ainda ardiam e sangravam.
Vendo o estado em que se encontrava, decidiu usar as águas limpas do lago para se lavar.
— • —
O garoto tirou toda a roupa e lavou-a nas águas cristalinas, estendendo as peças ao sol da margem para secar. Ao olhar mais uma vez para o reflexo, percebeu a própria constituição física: era magro, sem músculos muito proeminentes, mas longe de parecer esquálido. Parecia bem nutrido e até bem cuidado para alguém sem memórias. Além das roupas, percebeu que carregava algo preso ao pescoço que não retirara ao tirar as peças: um cordão preto com uma pequena presa esculpida em pedra na ponta.
William entrou na água e se afastou da margem até que ela encobrisse por completo sua virilha e aquilo que ele descobriu estar pendurado nela — algo cuja utilidade ele ainda não conseguia compreender.
Naquele ponto, abaixou o corpo lentamente, hesitante diante da água fria — um detalhe que achou curioso. Após um minuto ou dois molhando aos poucos o abdômen, o peitoral e o pescoço, afundou a cabeça, emergindo rapidamente com a água invadindo seu nariz.
Sem saber que precisava prender a respiração, levantou-se meio zonzo, espirrando e esfregando as narinas enquanto dava passadas rápidas na água até recuperar o fôlego.
Quando o zumbido nos ouvidos cessou, percebeu um som diferente, vindo de além de suas próprias braçadas. Era o farfalhar contínuo de água se movendo do outro lado do lago.
No centro do oásis erguia-se um pedregulho gigante que dividia o lago em duas partes. Impulsionado pela curiosidade, William começou a caminhar naquela direção. Seu coração palpitava e os olhos, com os cílios úmidos, brilhavam sob a luz da tarde.
Uma mistura de esperança e receio tomou conta de seu peito. Diferente do medo que o fizera se esconder da presença no penhasco, agora seu instinto o impelia a avançar.
Contornou a imensa rocha pela água e viu a origem do barulho.
Seus pensamentos buscaram no fundo da mente uma palavra capaz de definir a visão à sua frente. A verdade é que ele não conseguiu encontrar termo algum no próprio repertório — pois, para ele, aquela palavra ainda não existia:
Anjo.