Capítulo 3: Decisões e Expectativas Refletidas na Face da Água
Capítulo 3: Decisões e Expectativas Refletidas na Face da Água
A visão travou e William reconheceu o significado de beleza enquanto procurava a palavra anjo para designar aquela pessoa, pois era uma pessoa que via à sua frente.
A beleza dela reluzia com a pele à luz do sol. As costas, com seus ombros finos e bem definidos, irradiavam úmidas e rebrilhavam com a pele branca e maculada.
A garota, pois William sabia que algo ela tinha de diferente dele, estava praticamente nua e boa parte do seu corpo jazia enfiado debaixo da água.
Os cabelos loiros escorriam, amarrados em rabo de cavalo, pelas costas, e as mãos despretensiosas dela moviam as massas de água no intuito de se banhar.
A reação desconcertante em William era óbvia, e ele não poderia esperar outra coisa. Suas bochechas morenadas, da cor da terra rubra iluminada ao sol, se enrubesceram e ele sentiu um calor estranho subir-lhe pelo corpo.
Parecia que, mesmo que contasse aquela parte do seu cérebro que ainda desconhecia, aquela sensação era completamente nova.
Era algo desprovido de um desejo puro, tinha um quê de admiração que perpassava toda a extensão do seu ser; era como alguém quando contempla uma obra de arte indescritível.
E, assim como a obra de arte, o que o garoto não foi capaz de explicar foi a aparente forma como reagiu aquele seu penduricalho no meio de ambas as pernas.
A vista estonteante diante dos olhos o fez se desequilibrar mesmo sobre duas pernas, e o susto por encontrar outra pessoa foi tanto que, além do seu coração palpitante, o que palpitou foi seu corpo, que, logo vindo abaixo, fez um som de “Splash!” na água.
Os olhos ficaram inutilizados por um tempo, mas, quando o garoto se recompôs, a figura que via de costas estava lá, encarando-o agora bem de frente.
A beleza que vira antes, ele compreendeu que não se tratava nem da metade, e agora aquela pessoa o lembrou, com um exemplo prático, daquela definição que era a tal da beleza.
Os olhos dela eram como os dele, mas não tinham um quê de despertar pena. O verde deles irradiava com uma pureza angélica, e realmente só a extensão da palavra anjo poderia de fato descrever.
O queixo tinha um formato meio triangular, de compleição fina, e os olhos eram bastante vivos e redondos, entremeados por um nariz esparso, com narinas finas e delicadas. A boca era uma linha tensa e quase imperceptível, pontilhada de um tom rosa que quase se disfarçava na alvura da pele.
Os ombros finos eram contrastados pelos seios volumosos, com bicos rosados avantajados, e o corpo ia se delineando com muitas curvas por uma cintura escultural que desaparecia dentro da água. Por fim, o cabelo daquela pessoa formava uma franja dividida que escorria para os dois lados.
Ali, William descobriu duas coisas. A primeira era que aquela garota era realmente diferente dele e, para comprovar isso, ele se viu apertando os próprios peitos para saber o porquê de serem diferentes. A segunda era que ele tinha a vaga sensação de que não deveria estar olhando para ela do jeito que estava:
— Aqui, deixa eu te perguntar uma coisa. Por acaso você seria um daqueles tarados?
A pergunta o atingiu com naturalidade, embora a ficha demorasse a cair sobre o que era um “tarado”. No entanto, o que era realmente mais ainda de se estranhar era a forma como aquela garota agia naturalmente ainda nua diante dele:
— Eu não entendi direito. Um tarado?
— Isso. Por que não acho que seja uma conduta de gente decente ficar olhando para as partes alheias dos outros num lago.
A voz dela era tão encantadora quanto a aparência. Fina e requintada, ela imprimia um quê de uma fofura inexplicável no tom com que se comunicava. Aquilo ensinou uma nova palavra ao rapaz desajeitado que, caído na água, ainda tentava processar com lentidão as informações.
Embora a palavra “encantadora” tivesse ganhado um novo significado diante daquela jovem, a palavra “decente” parecia ser já uma velha conhecida do garoto por algum motivo e, quando ouviu aquilo, ele logo ficou roxo de vergonha:
— Ah… Me desculpe… Eu… Eu não queria atrapalhar e nem me passar por um estranho, ou um… Esquisito.
Essa última palavra chegou espantosamente rápido ao vocabulário dele, e quanto mais a mente trabalhava, mais as coisas novas iam se adequando ao seu pensamento e mais ele ia conhecendo.
Diante da perspectiva, ele fez menção de se levantar e, ainda envergonhado, virou-se de costas, pronto a deixar aquela parte do lago, ou talvez toda a extensão do lago para a garota:
— Me desculpa de novo, sério, me desculpa. Eu vou te deixar em paz.
Ele fez menção de dar um passo, mas logo uma mão de pele macia e dedos finos agarrou seu pulso e o impediu de seguir seu caminho.
Ao mesmo tempo que suas bochechas coraram com aquela perspectiva e a sensação da pele macia o fazia quase tremer, a perspectiva do que aquele gesto poderia significar o assustava:
— Você sabe para onde tá indo?
— …
— Você parece meio perdido, meio aéreo.
— Ahn…? Como… Pera aí, você por acaso… Me conhece?
William foi logo assaltado por uma perspectiva assombrosa. E se aquela garota fosse alguma conhecida? Poderia saber a causa de ele estar naquela floresta, e a solução para saber quem ele era também poderia ser simples.
Ela pareceu pensar por um instante, embora o próprio garoto não tenha se virado para ver isso, mas respondeu de uma forma que foi decepcionante até demais:
— Não, é a primeira vez que vejo um tarado como você.
Ela sorriu de forma meiga enquanto falava isso. Não parecia tratar a palavra tarado com o devido respeito e cuidado que ela merecia. E William, por outro lado, estava começando a achar exagerado aquele uso para o descrever:
— Tá, então como deduziu tão rápido que eu tô perdido aqui e talvez até mesmo sem memórias?
— Ah, então quer dizer que você também não se lembra de quem você é, senhor tarado?
— Aí você já pegou um pouco pesado, não é? Me apelidar com essa palavra não pega bem.
— A primeira impressão é a que fica, não? Então seria completamente normal eu te chamar assim como apelido e forma de compensação.
A garota levantou o dedo e, ao mesmo tempo, assumiu um tom professoral enquanto falava com o garoto. William, por outro lado, assumiu um tom mais sarcástico, lembrando-se de como era usar isso às vezes para conversar e, com um suspiro de “arf”, logo retomou a conversa:
— Já que é assim, eu acho melhor eu te dar um nome, não é? Eu me chamo William.
— William…
Ela meneou a cabeça na direção dele. Ignorando completamente a afirmação que confirmava o nome do garoto com veemência, a jovem do lago esperava um complemento para aquele primeiro nome, e ele logo percebeu a intenção:
— William Rassad.
Ele completou, inventando uma completa mentira para o seu sobrenome, que não existia. Apenas uniu as primeiras sílabas da sua cabeça e deixou escapar nos lábios a primeira combinação que fez sentido:
— Então, como mandam as regras de conduta, eu me apresentarei. Sou Liz Meyer, Secretária de Manejo de Pessoal da Irmandade dos Leões de Aço.
— …
— Agora acho esse seu nome meio complicado, William. É muito grande, trava na língua para sair.
Ela botou a língua numa expressão zombeteira de uma situação que o próprio garoto não conseguia entender nada:
— Acho que é melhor te chamar de Will, só Will, assim fica melhor e mais fácil de dizer.
A situação toda, daquela forma que se desenrolou, parecia bastante estranha aos olhos do garoto e, junto com isso, nesse mesmo efeito, se apresentava a sucessão de eventos em que tudo aquilo estava se dando e acontecendo.
Conhecera aquela garota pelada na água de um lago no meio de uma floresta estranha após despertar sem memórias, ela o chamara de tarado, vira em seu rosto a expressão miserável de alguém perdido e agora estava o apelidando.
Ele piscou duas vezes, pois ainda estava meio aéreo diante daquilo tudo que acontecia, quando a voz da própria garota o despertou do seu devaneio:
— Acho melhor nós nos vestirmos, você parece estar ficando mais animado do que deveria.
Ela apontou com os dedos para baixo, na direção da água, e Will olhou entre suas pernas e percebeu uma movimentação estranha de algo ondulando e querendo subir. Ele não entendeu muito bem aquilo e qual era o significado e, diante da expressão meio abobada e desentendida do garoto, Liz cerrou os olhos.
— • —
Haviam agora saído às margens do lago. Cada um fora para um lado e retornara até o ponto em que se encontraram primeiramente, agora totalmente e devidamente vestidos.
Liz tinha uma roupa bastante diferente do que se poderia imaginar e muito requintada se fosse comparar com o que vestia o garoto.
Ela usava uma espécie de robe ou sobretudo que cobria toda a extensão do corpo, com abas largas que se abriam nas pernas e rodeavam aquela extensão. Ali, elas se bipartiam duplamente e, nas bordas, havia bordados de um contorno roxo entremeando o tecido, e da mesma cor era o suspensório que descia dos ombros dela, cruzando a extensão preta de toda a roupa.
As calças eram as únicas coisas que pareciam fugir daquela paleta escura, pois eram bem mais claras e alvas, quase brancas. As botas eram pretas e possuíam cano alto.
Usava uma pequena ombreira de ferro meio azulado que vinha gravada com a face de um leão prestes a rugir. Usava um brinco que era como lágrimas azuis na orelha direita e, no flanco esquerdo, ela trazia duas espadas embainhadas e um cristal roxo pendurado a um fio de contas.
As espadas logo indicaram que ela era uma espécie de guerreiro e, se Will bem se lembrava, ela disse que fazia parte de uma tal Irmandade, embora não fizesse ideia do que isso quisesse dizer, por mais que pensasse muito a respeito.
Porém, ignorando tudo aquilo, ele logo retomou a conversa que estavam tendo no lago:
— Você não me disse como descobriu que eu estava perdido.
— Eu não descobri isso, foi você que me contou e ainda acrescentou o fato de não se lembrar de nada.
— Foi você que deduziu isso.
— Foi você que me contou depois que eu o induzi a isso.
Ela deu uma risada leve, colocando a mão na frente da boca e olhando para ele de forma provocadora. Will não entendeu o que isso queria dizer ou o que havia de tão engraçado naquilo, mas, mesmo não podendo ler os pensamentos dele, a garota logo soltou um comentário:
— Eu poderia tentar tirar alguma vantagem de você depois disso.
Ele arregalou os olhos, preocupado diante do que ela dizia, e o próprio olhar dela parecia avaliá-lo de cima a baixo, procurando algo que tivesse alguma espécie de valor:
— Você não faria isso… Faria?
— Talvez sim, talvez não. Depende do dia, depende do meu humor e também se o Danny anda pagando em dia.
— Danny?
A única expressão dele diante do nome que não havia visto antes foi questionar, afinal Liz parecia incorporar informações com tamanha velocidade dentro da conversa deles:
— É o meu chefe, talvez você conheça ele. Ainda não me decidi.
— Ainda… — Ele então se empertigou. As palavras dela não faziam o mínimo de sentido. — Eu não estou entendendo nada, você fala uma coisa estranha, faz tudo que eu digo parecer estranho e solta uns nomes estranhos. Será que você poderia me explicar alguma coisa?!
Ele ficou por um momento visivelmente agitado e alterado. Suas palavras saíram rápido, mas seus olhos, com aquele ar inocente, não davam a devida força para as palavras que ele tinha para dizer, e assim ele pegou a garota dando uma risada meio disfarçada acerca do que ele disse:
— Tem muita coisa estranha acontecendo de fato, como você disse, mas, para mim, a mais estranha de todas é você despertando do nada e também no meio de lugar nenhum, não acha?
Liz assumiu uma postura séria e, da mesma forma, sua expressão mudou um pouco. Aquele seu sorriso se tornou mais pesado, carregado com algum sentimento misterioso e que despertou certo receio no garoto.
Mesmo assim, ele não engoliu as palavras, embora a saliva tivesse descido de uma forma meio estranha pela sua garganta naquele instante:
— Pois é, também não acha estranho o fato de uma garota estar sozinha tomando banho numa floresta?
— Você é muito bobo, Will, levou muito a sério a minha expressão e meu comentário.
De uma vez só, o tom de leveza retornou ao rosto de Liz, mas não era como se Will a tivesse desmascarado de cara. De alguma forma, ela não parecia pretender esconder nada dele.
Desde que se encontrara com a garota, todas as ações pareciam ser calculadas para esse fim, o de o tirar dos eixos e ainda assim o deixar meio desnorteado e meio confuso. Cara essa que ele demonstrava agora:
— Pois bem, chega de brincar e de tentar te assustar. Ei, acredito nessa sua história de estar perdido e sem memórias, confesso que é algo meio extraordinário o seu caso, mas eu não pretendia tirar proveito disso desde o começo. Ainda foi bom que eu te encontrei antes de alguma fera.
— Fera? Pera aí… Eu não entendi nada, como assim.
— Acho que é melhor explicar depois, você provavelmente e eventualmente vai acabar vendo alguma.
— …
— A minha missão por aqui terminou e eu estava só me preparando para voltar à cidade, já que aquele chato do Danny gosta de racionar a água que podemos usar.
A garota fez um biquinho de leve para o garoto à sua frente, indignada pela postura e também pela atitude daquele outro homem que ela já havia mencionado antes:
— Agora, o que me diz? Você aceitaria vir comigo, retornar à Capital Real?
Will não tinha uma decisão muito bem formada ainda. Por alguns instantes, arrependera-se de ter se aproximado de Liz naquele lago e, embora a situação estranha que vivenciara com ela havia poucos minutos não passasse dela tentando brincar com ele, agora o jovem parecia mais receoso em relação à postura e à atitude de Liz.
Por outro lado, ela possuía um argumento bastante convincente no que dizia respeito a convencê-lo de que possivelmente havia as tais feras ali, coisas que ele não poderia precisar certamente o que eram.
Ele olhou para trás, para a direção de onde viera, e, ainda iluminada pelo sol, a floresta parecia demasiadamente assustadora. Agora ele mesmo não conseguia acreditar na extensão que havia percorrido. Sentiu um frio na barriga com a perspectiva de ver aquela garota indo embora e então o abandonado ali e mais uma vez encarou o rosto dela. Os olhos pareciam carregar uma pureza de espírito e então ele disse:
— Tudo bem, acho que posso confiar em você.
— E eu acho que você fez uma ótima escolha.
— Mas eu tenho que dizer, você me deu medo com aquela sua expressão.
— Se não fosse você do jeito que você é, acho que realmente era para se ter ficado com medo.
Ela falou isso com um sorriso no rosto e então, quase que ao mesmo tempo, deu uma risada. Will não entendeu muito sobre o que ela falava, mas acompanhou a garota naquele gesto.
A nuvem de preocupação e pesar havia desaparecido de sobre sua cabeça e ele começou a sentir que poderia se dar bem com a tal garota.
Naquele mesmo instante, aquele cristal arroxeado que ela trazia preso a um cordão de contas no seu flanco começou a brilhar e tremeluzir com um brilho vivaz e arroxeado:
— Ah, o cristal de comunicação, deve ser o Danny. Will, eu preciso atender ou ele vai ficar muuuuuito irritado.
— Tudo bem, eu te espero aqui… Acho que não tenho muito para onde ir.
Com um sorriso, Liz se afastou dele e seguiu indo até um canto para atender quem quer que fosse aquele homem a que ela sempre se referia de forma problemática.
Will aproveitou aqueles breves momentos para refletir acerca daquela situação em que ele se encontrava no momento e talvez, pela primeira vez no dia, parou para se perguntar por que estava sem memórias.
Quer dizer, lembrava-se de coisas básicas, é claro. Passou a assimilar cada vez mais palavras com existências daquele mundo em que estava e, embora não se lembrasse das estruturas e não tivesse memórias de uma “Capital Real” como a mencionada por Liz, ainda podia assimilar coisas mais básicas, como árvore, pedras, lago… Tudo isso.
Embora as feras fossem preocupantes e também a questão de não se lembrar delas, aqueles assuntos não eram o foco primordial de sua atenção.
As memórias perdidas que pareciam faltar mais veementemente eram as do seu passado, de quem ele era e de quem poderia ter sido.
Enquanto pensava nisso e pensava no fato de ter encontrado Liz, seu coração se apertou, pois gostaria de saber quem eram as pessoas que fizeram parte do seu círculo, quem foram seus pais, seus amigos, se tivera irmãos.
Como era sua infância? Quais os seus brinquedos favoritos? A comida que mais gostava que sua mãe fizesse. As mães cozinhavam para os filhos, não é mesmo?
Uma lágrima tênue escorreu de seus olhos, que se marejaram enquanto ele pensava naquelas coisas, e assim ele piscou, na tentativa de limpá-la antes que Liz voltasse, e sentiu um leve aperto no seu coração.
Quando abriu os olhos, não viu o lago à sua frente que até há pouco ele encarava. Sentiu apenas a respiração ofegante, olhou para frente e encarou uma pedra peculiar que se assemelhava a um chifre e logo notou uma sensação estranha que estava na sua mão. Algo úmido, algo molhado.
Antes que ele voltasse seus olhos para qualquer coisa, no entanto, viu à frente, no que deveria se assemelhar a alguma espécie de estrada, alguém caído em meio a uma poça daquele líquido viscoso e avermelhado que ele bem conhecia o nome.
Pela quantidade de sangue, já havia morrido. Não tinha como estar vivo, mas o que fez o garoto arregalar os olhos foram as roupas pretas e arroxeadas, assim como os cabelos loiros.
Era Liz Meyer quem tinha morrido na sua frente.