Capítulo 4: Sonho e Realidade
Capítulo 4: Sonho e Realidade
Os olhos do garoto se estreitaram, pois não era possível e não era verdade aquilo que acontecia à sua frente.
A poça de sangue se avolumava e o cadáver jazia inerte em seu centro. A bílis começou a subir e regurgitar dentro do estômago dele, e o cheiro de ferro que subia da poça onde a garota estava era pungente e causava náuseas.
O garoto tentou dar um passo, mas, diante desse movimento, a consciência que estava entorpecida com a visão chocante de agora há pouco se recusou a seguir, e então ele sentiu um calor subir pelo seu corpo através do abdômen.
Esse calor foi se avolumando e logo se transformou numa espécie de dor excruciante que reverberava por todo o seu corpo a partir do abdômen.
Num ímpeto, Will levou a mão até aquela região, mas não sentiu sua pele, sua blusa ou sua barriga como conhecera desde o princípio em que acordara naquela floresta. Ele puxou o braço e olhou para as palmas encobertas de sangue.
Era uma cor vermelha, um vermelho vívido que era diferente de qualquer outra cor que pudesse existir. Assim, o rosto dele se contorceu, sua expressão se transformou em algo assustado diante daquela perspectiva, e a pele ao redor dos olhos se transformou em rugas expressivas de puro horror.
Tão breve quanto aquela sensação excruciante e o choque que o impedia de gritar diante de um acontecimento tão estranho, o rapaz olhou na direção do lugar onde a dor se concentrava.
O que viu ali o faria vomitar, isso é, se o seu estômago não estivesse pendurado em meio àquela massa vertiginosa e nojenta de sangue e carne. Parecia um balão rosa a estar pendurado no corpo do garoto.
Os intestinos já estavam praticamente todos para fora e eram pedaços disformes de uma massa carmesim sanguinolenta que, repartidos, faziam uma dor semelhante a uma pontada e uma sensação que era como a de um espaço vazio, um dente faltando, a abalar a sua barriga.
Ele arregalou os olhos diante daquilo e tentou levar as mãos desesperadamente para juntar os intestinos. Queria gritar, mas simplesmente o som não saía da garganta. E foi então que sentiu algo raspar nas costas com uma força avassaladora.
De uma vez só, ele caiu no chão, sentiu que as costas ardiam e que algo pegajoso escorria por elas. A voz não saía, mesmo que ele tentasse gritar. Ele sabia: estava morrendo e não sabia o que havia acontecido. A massa de lama que se acumulava sob seu rosto começou a se misturar ao sangue e a entrar na sua boca.
Nos últimos instantes daquilo, ele ergueu os olhos e então encarou a garota caída, a garota que estava morta à sua frente. Ele não conseguia entender.
— • —
De súbito, seus ouvidos, que até então escutavam a chuva e o som ruminante da terra, voltaram a escutar um som sereno de água caindo aos poucos.
A brisa do fim de tarde bateu no seu rosto apático e nos olhos arregalados dele, que ainda pareciam meio perdidos. O mesmo vento veio carregando o cheiro das folhas e, tão rápido quanto se deu conta de que estava de volta ao normal, logo levou a mão até a barriga.
A sua roupa continuava branca e imaculada, todos os botões fechadinhos, os intestinos e o estômago ainda pareciam estar no lugar e, quando se lembrou da cena e também da dor excruciante, ele logo caiu engasgando.
Vomitou com força, pondo para fora pela segunda vez quase seguida uma massa de bílis e suco gástrico. Mas, enquanto fazia aquilo, sua mente começou a se perguntar o que seria aquilo que ele teria visto.
Engasgou, socando o chão, e então tossiu. Uma massa de saliva foi expelida. Rapidamente, Liz, que havia se distanciado, voltou sua atenção para o garoto e veio correndo:
—Will, Will. Fala comigo.
Ela praticamente se debruçou sobre ele e esfregou as suas costas, dando tapinhas, e depois várias sacudidelas no seu ombro. Os olhos verdes da garota se arregalaram, pareciam extremamente preocupados:
—Will! Will!
—…
—O que aconteceu? Fala comigo.
—Calma, eu tô… Eu tô bem.
Ele limpou a boca e então deu uma cuspidela no chão. A garota se afastou dois passos, e ele então se levantou, encarando aquele rosto bonito, afligido de preocupação.
Deixou os seus olhos descerem por toda a extensão e avaliou o corpo dela à procura de um ferimento ou de algo que pudesse criar uma poça de sangue. O rosto estava normal e a barriga também, e então o garoto transformou seu sentimento em palavras:
—Ah, urf, que alívio, você não tá morta.
—Morta? Que papo é esse, Will?
Ela deixou o seu rosto se distorcer com uma leveza angelical que era digna dos seus traços, mas era inegável que as declarações do rapaz soavam muito estranhas:
—Você não viu aquilo, você…
“Morreu.” Essa era a palavra que ele procurava, mas ela não chegou a sair dos seus lábios, pois, antes disso, uma fraqueza o assolou e então fez seu corpo pender e cair no chão, debatendo-se com violência.
Liz se precipitou mais uma vez, sem entender nada do que estava acontecendo naquele momento, e então tentou segurar o garoto que estava à beira de perder a consciência:
—Will, calma, calma, deixa eu te ajudar.
—…
—Você não pode deixar o fluxo de Ether do seu corpo saltar dessa forma.
—…
—Se ficar se debatendo, eu não vou conseguir ajudar.
O garoto, no entanto, não parava, não conseguia respirar e era como se algo no seu peito, entre os pulmões e o coração, estivesse sendo prensado. Ele tentou puxar o oxigênio para ver se resolveria o problema, mas isso não ajudou. Mesmo que se parecesse com uma falta de ar, aquela sensação não poderia ser resolvida somente arfando.
Liz então tentou ajudar o garoto a se recompor e, mesmo ele se debatendo e com toda a dificuldade de controlar o seu corpo, a garota segurou o seu ombro violentamente e então se interpôs acima dele, passando a virilha por cima do corpo dele.
Will estava com os olhos arregalados e a boca parecia quase espumar naquele momento. Liz olhou para aquilo com um rosto contorcido, mas os seus olhos avaliavam a situação. Tão rápido, ela pôs a mão sobre o pescoço dele, concentrou-se sobre aquele ponto e então deixou a respiração fluir.
Como se aquilo fosse mágica, o garoto rapidamente se aquietou e os membros caíram inertes ao lado do seu corpo. Os olhos cor de azeite voltaram a encarar o rosto emoldurado por belos cabelos loiros, e ele percebeu que ela estava preocupada:
—Você não pode me assustar desse jeito.
—…
—Se você tivesse morrido. O que que eu ia fazer? Eu me propus a te ajudar, e eu nunca fracassei numa missão, você não pode querer me fazer fracassar.
—Des… Desculpa.
O ar ainda parecia entrar com dificuldade, embora ele duvidasse que aquilo que havia sentido até agora pouco fosse falta de ar. Devia ser precisamente outra coisa, mas, independentemente, o impedia de falar direito:
—Desculpa, é só isso que você tem para me dizer? Eu fiquei preocupada, oras.
O olhar enérgico dela se amainou suavemente e a fina linha que delineava sua boca ficou meio trêmula. Will não sabia quem era Liz e, embora as primeiras interações dela o tivessem deixado meio receoso diante das intenções dela, agora ele conseguia ter a certeza de que naqueles peitos fartos batia um coração gigante.
Vendo aquela situação e também a preocupação dela, ele ergueu a mão de leve e, meio sem jeito, acariciou o braço dela que estava sobre o seu peito e então disse as seguintes palavras:
—Obrigado e me desculpe.
— • —
—Pera ai, eu ainda não entendi o que aconteceu comigo naquela hora.
Assim o garoto falou, meio enérgico, mas ainda resignado com a situação que acontecera repentinamente nas margens daquele lago.
Ainda não encontrava as respostas que queria e talvez gostasse menos ainda se as achasse, mas, em apenas uma tarde, havia coisas demais para que ele pudesse pensar:
—Eu já te expliquei, você não pode liberar o Ether do seu corpo de uma vez só. Aliás, você nem havia me falado que tinha uma Benção.
—Isso você já falou, mas pera aí, você fica colocando palavras novas toda hora nessa conversa.
—…
—Não adianta me explicar algo se eu não sei o conceito, não entendo de Ether. E tampouco consigo imaginar algo sendo abençoado num contexto daqueles. Pelo menos eu não fui.
—Ah é? E você ainda consegue fazer piada com isso? Eu fiquei preocupada, sabia?
—…
—Era minha missão te salvar e você iria me causar um graaaaande problemão se morresse ali.
—Um “graaaaande” problemão não é uma coisa meio redundante?
A garota havia parado a caminhada que eles faziam morro acima para pegar uma estrada numa rota que os tiraria da floresta e olhou para Will com um olhar que certamente visava a repreendê-lo.
O rapaz, por sua vez, estava começando a conseguir lidar com o jeito meio brincalhão, meio zombeteiro e meio superprotetor, às vezes, daquela garota. Parecia que havia feito isso a vida toda, e assim ele apenas deu de ombros com um sorriso descontraído:
—Mas eu já te pedi desculpas, tudo bem. Eu só não entendi muito bem o que aconteceu e continuo sem entender o que aconteceu. Você, por outro lado, só fala de Ether, Ether e Ether.
—Mas foi isso que aconteceu, eu já te disse, o Ether saiu do seu corpo e a Válvula entrou em exaustão.
—Ainda bem que você não é minha professora.
Will colocou a mão no rosto enquanto falava, claramente deixando explícito que a garota não servia para ensinar alguém. Do mesmo modo, ele olhou de volta para ela com os olhos cintilando numa expressão irritadiça. O garoto desviou o olhar:
—Eu vou tentar ser mais objetiva então. Nossa, você me disse que não se lembra de muita coisa de antes de acordar, acho que é impossível pensar que você não se esqueceu de como respira.
—Se eu tivesse me esquecido disso, a gente não teria se encontrado naquele lago.
—…
—O que foi?
A garota fazia uma expressão estranha e novamente encarou ele com aqueles olhos e a boca sérios. Ela não parecia gostar quando ele brincava com a vida dele, e isso era uma atitude admirável e uma qualidade inegável no cerne de uma pessoa: a preocupação com a vida alheia.
—Independente disso e de você ficar fazendo brincadeiras de mal gosto, acho que tive uma ideia de como te explicar isso de modo fácil.
—…
—O Ether é uma coisa que existe quase como o oxigênio que você respira e a sua Válvula é como o seu pulmão, só que para sua alma, entendeu?
—Tá, acho que assim tá melhor, eu tô começando a pegar a ideia.
—Aquilo ali foi como se você tivesse prendido a respiração, mas depois não conseguisse voltar a respirar, só que você conseguia, quem não fazia isso era a sua alma, me entende?
A garota olhou bem para ele e, enquanto explicava, levantou um dedo e logo após o colocou sobre o peito de Will, como se indicasse o lugar em que a alma dele deveria estar:
—Tá, eu entendi essas coisas de Ether, Válvula e todo esse lance de respirar com a alma, tudo isso parece saído de uma história de fantasia, tipo uns contos infantis, mas isso não explica porque eu fiquei desse jeito e também…
A mente do garoto balançou diante da perspectiva daquela lembrança e, por uma fração de segundos, ele encarou o abdômen. Foi uma coisa tão rápida que ele nem deixou que a outra notasse aquilo.
Aquela visão, aquele sonho ou seja lá o que quer que fosse aquilo parecera muito real diante dos olhos dele, e não era só isso: a dor que ele sentira, a sensação de ter os intestinos revirados, o estômago posto à força para fora. Aquela dor, tudo aquilo fora muito real.
A bílis ameaçava subir só de as memórias das sensações virem à sua cabeça, mas, engolindo a saliva, Will fez ela retornar para o fundo da garganta. Ele queria saber o que aquele sonho significava, não propriamente o que vira, mas o motivo de ter visto e também por que aquela sensação se apoderara dele logo depois.
Diante das suas pausas ininterruptas e também da torrente de pensamentos incessantes em sua cabeça, a garota, que esperava em silêncio, começou a falar com um olhar preocupado:
—…E também…? Will? Você estava dizendo…?
—Ah… Eu só estava meio… Perdido, é… É isso mesmo.
O garoto coçou a parte de trás da cabeça e esfregou os cabelos bagunçados ao dizer aquilo. Liz, por sua vez, só ficou ainda mais confusa, não parecia muito convencida com a resposta dele:
—Perdido você diz? Bem, isso você está desde que eu te conheci. Tome cuidado para não se perder demais e não conseguir se encontrar.
—Você é meio assustadora quando quer ser, sabia?
—Eu? Mas eu sou uma coisa tão fofa, ou tão bonita, ou então as duas coisas.
—É… Eu até concordo, mas você devia se lembrar disso quando for falar esse tipo de coisa.
—Então você não devia esconder as coisas de mim de forma deliberada.
—…
—Ou pelo menos aprender a mentir melhor.
Ele disse isso com um sorriso tracejando seus lábios enquanto parava para encarar a garota. Will, por sua vez, não estava escondendo nada dela de propósito, não havia um motivo deliberadamente bom para isso e, embora a garota gostasse de mostrar os dentes de vez em quando, ele parecia estranhamente confiar nela.
Talvez isso fosse instinto, talvez fosse como acontece com os bebês. Eles olham para a primeira pessoa que veem e então passam a confiar nela, talvez fossem as memórias de Will que não o deixavam se lembrar de mais ninguém e, por isso, Liz fosse a primeira de todas:
—Então tá bom, eu ainda não sei mentir muito bem, mas eu vou descobrir um jeito.
—…
—Até lá eu te conto o que se passa na minha cabeça.
Liz misturou um olhar de descontentamento com um de alívio diante da sequência de informações que o garoto lhe falou. Quanto a ele, estava tão concentrado que nem sequer percebeu essas alterações:
—Você falou do tal do Ether, eu realmente entendi a questão, mas eu não consigo sentir ele…
—Você também não sente o oxigênio de forma sempre consciente, não é?
—Sim, isso é verdade, mas o oxigênio eu sei quando entra e quando sai do meu corpo, sei o que ele faz. Eu estava pensando sobre o que pode ter causado aquela minha convulsão repentina.
—…
—Digo, em palavras melhores, por que eu fiquei daquele jeito?
—O Ether é como o oxigênio, somente nós podemos expeli-lo, mas como tal ele não sai perfeitamente igual ao que entrou. Ele pode se manifestar como uma benção, ou em…
—Ou em?
—Miasma.
Liz se ressentiu ao pronunciar aquelas palavras, parecia que ela estava para dizer um xingamento ou então tratar Will da pior forma. A expectativa, no entanto, foi diferente de tudo que podiam imaginar, pois nada do que ela dizia o garoto entendia e, em consequência, ele se mostrava sempre com uma curiosa cara de paisagem.
Enquanto caminhavam, a dupla não percebeu onde havia chegado e o quanto já se distanciava daquele lago. Também entretidos na conversa, não notaram as nuvens escuras e cinzentas se adensando sobre as suas cabeças, bem acima das copas das árvores de Peroba, até que um raio cortou os céus.
Liz levantou o olhar na direção das nuvens, e Will deu um sobressalto com a luz e depois com o clarão que viera depois. Já havia se lembrado dos raios naquele momento em que uma torrente de informações afluíra para sua mente, mas a sensação real de ver e também de ouvir um deles era diferente.
Os primeiros pingos da chuva começavam a escapar vertiginosos dos céus e depois despencavam com preguiça pelas folhas esverdeadas.
Aquela perspectiva da chuva assustou o garoto mais do que o normal em uma situação daquelas. Quando uma gota então caiu sobre a sua testa e começou a escorrer devagar pelo pescoço, ele se lembrou da sensação do chão e da terra molhada. Uma sensação tão recente diante das coisas que haviam acontecido que o fazia se assustar:
—Will, é melhor nós irmos.
Liz aproveitou a deixa da chuva que começava a cair para poder abandonar o assunto que até então estivera relutante em iniciar:
—Oi?
—Vamos achar um lugar para nos esconder, a gente precisa ficar seguros.
Um raio cortou os céus e depois mais um passou chicoteando a uma distância que eles conseguiram ver dali, no meio das copas das árvores. Dois estrondos seguiram rapidamente, sucessivos um ao outro:
—Tudo bem, vamos logo.
Em disparada, a dupla apertou o passo enquanto as gotas de chuva ficavam mais proeminentes, mais fortes e aumentavam a quantidade em que caíam. O solo já estava úmido e praticamente encharcava com a água que aumentou rapidamente.
A dupla então se pôs a correr debaixo das nuvens escuras, copas de árvores úmidas e rajadas de raios que tingiam o céu de roxo e cujos estrondos reverberavam a toda.
Na pequena trilha da floresta que eles seguiam desde antes, eles viraram uma curva, onde um amontoado de pedras apareceu saído do nada.
Para a surpresa, ou nem tanto assim, do rapaz, havia ali uma pedra que ele já conhecera antes, uma coisa estranha, semelhante ao formato de um chifre na estrada.
Ele estacou, perturbado pelo que se insinuava à frente, mas Liz, sem vê-lo, continuou a toda correndo. As visões passaram todas de uma vez só diante dos olhos do garoto, porque ele já conhecia a cena, ele parecia já saber o resultado daquilo e era estranho ver algo tão terrível como aquilo, algo que ainda não havia conhecido, mas que era tão familiar, como memórias fluindo do amanhã.
As costas da garota se projetavam à sua frente, e ele não sabia o que fazer, pois aquelas mesmas costas ele vira sobre uma poça de sangue que encharcava a estrada e a trilha de terra à sua frente.