LNCrawler

Capítulo 5: Chuva Gravada com Vermelho Sangue

As Memórias Perdidas De William Rassad — illusia.com.br · All chapters

Capítulo 5: Chuva Gravada com Vermelho Sangue

As costas da garota se insinuavam à frente, pontilhadas de gotas de chuva. Elas cada vez mais se distanciavam no meio da trilha, e cada passo de Liz era um pensamento vacilante de Will.

Sua mente titubeava, e os próprios passos do seu cérebro não sabiam divisar o sonho da realidade. Aquela reminiscência era tão, tão vívida que, para o jovem, era como se uma sensação de déjà vu o estivesse envolvendo.

Os olhos de Will se desviaram na direção daquela pedra em formato de chifre, e sua compreensão pareceu abalada novamente pelo cenário. Ele deu um passo, os olhos brilhando devido à água que se adensava e a mente procurando à volta qualquer coisa em que pudesse se agarrar.

O rapaz inconscientemente parecia preso entre a expectativa do que era realidade e o que era sonho, e tudo, no entanto, não parecia passar de um sonho inocente. Mas as circunstâncias e a realidade, tão idênticas àquilo que vira e experienciara, o faziam ficar em dúvida.

Seriam memórias retornando de um passado, fragmentos daquelas coisas que haviam em sua consciência e que ele não conseguia se lembrar? Não, ele sabia que não era. Afinal, Liz estivera viva no lago e ainda estava. Suas memórias não eram só ferimentos; ele sabia inconscientemente que ela estava morta.

O medo que começava a sentir diante disso crescia dentro dele como uma erva daninha. Ele não queria perder a garota, e se aquilo não fosse um mero sonho?

Não esperou a expectativa virar realidade, não esperou uma confirmação e fez o que qualquer homem decente faria naquela situação, mesmo que todas as atitudes parecessem delirantes.

Will venceu a distância que o separava de Liz naquele caminho. Sabia que não havia muitas coisas que conhecia e desconhecia muito daquele mundo, mas conhecia mais aquela garota do que qualquer coisa que pudesse se recordar.

As memórias poderiam ser falsas, mas ele não deixaria que elas se realizassem, mesmo que não entendesse muito bem a natureza das coisas que o afligiam. Assim sendo, precipitou-se e agarrou o braço da garota:

—Liz, não há um outro caminho que a gente possa seguir?

—Ahn…?

—…

—Ah, sim, existir até existe, mas a chuva…

Um raio atravessou os céus naquele instante, iluminando o bosque que caía no breu do ocaso taciturno:

—Eu preferia não seguir por essa trilha.

—Will, a chuva vai aumentar e nós vamos ficar ensopados, pior que isso, se acontecer um deslizamento, se um raio cair e iniciar um incêndio, vamos estar com problemas que são grandes demais para se lidar.

—Eu não estou com um bom pressentimento, Liz, por favor, vamos mudar nosso caminho.

—Você poderia me dizer o porquê disso?

—Acreditaria em mim se eu disser que foi intuição?

—Não.

A garota negou com veemência e com um olhar duro e severo que não combinava com seu rosto fino e o cabelo que estava ficando encharcado.

O rapaz, por sua vez, deu um suspiro e esfregou os olhos, nos quais a água ia se acumulando incessantemente agora que a chuva começava a cair de verdade. Logo após piscar, decidiu que não faria mal dizer a ela o que estava havendo:

—Eu tô preocupado com esse caminho porque eu vi…

Como antes, Will sentiu uma vertigem, algo que parecia invadir… Ou melhor, deixar o seu corpo. Ele se interrompeu no momento em que essa sensação começou a se manifestar.

Quase que no mesmo instante, Liz o agarrou e saltou na direção de onde antes estavam na estrada, retrocedendo pelo caminho que deviam seguir. O garoto, por sua vez, não teve tempo de sentir a mesma sensação de falta de ar que sabia acompanhar a vertigem, pois tudo aquilo fora interrompido.

Liz estava ali, parada à sua frente, de joelhos. Will havia caído no chão e estava todo sujo e enlameado. Com os olhos, viu um rasgo no tecido preto da roupa da garota e, ao mesmo tempo, notou as manchas vermelhas que saltavam pegajosas dos ferimentos em formato de garra nas costas dela.

Ele lutou para se recuperar do choque, e o Ether que havia escapado parcialmente de seu corpo ainda não estava todo de volta ao lugar. Sua visão ficou nublada por causa das gotas de chuva que caíam aos montes no seu rosto, e o cabelo encharcado também tapava os olhos.

O garoto passou a mão na testa e tirou os fios escuros, liberando assim sua visão. Olhou para onde Liz dirigia o próprio olhar veementemente, e o que viu fez seu coração quase saltar pela boca.

Havia algo disforme entre a estrada e a pedra em formato de chifre. Era disforme, pois era difícil criar um adjetivo cujas conjunturas se adequassem perfeitamente àquela imagem.

A pele parecia descolada, arroxeada e, em alguns pontos, salteada de vergões vermelhos que rebrilhavam na água que escorria dos céus.

Era meio humanoide e, por toda a sua extensão, havia um apêndice membranoso preto envolvendo seu corpo. Possuía braços e pernas que eram mais esticados que o normal, e sua postura encurvada frequentemente o fazia comprimir as regiões dos joelhos.

Nas pontas dos braços recurvados e nodosos que brotavam de uma corcunda maior e mais saliente nas costas daquela criatura, havia garras, lâminas ou hastes que se assemelhavam a ossos, projetando-se de forma trifurcada e dando o aspecto de terem sido costuradas lá.

Will ergueu a cabeça por cima do ombro da outra garota para ver aquilo, e uma massa de saliva desceu raspando sua garganta quando a tal criatura, desconhecida e advinda das profundezas de um pesadelo, virou o que deveria ser uma cabeça na direção dele e mirou as cavidades fundas e vazias de escuridão do que supostamente deviam ser seus olhos para o garoto.

A cabeça misturava algo de meio humanoide e meio caprino àquela feição. Era puro osso, mas com um líquido vermelho espesso pingando de sua extensão e pedaços soltos e membranosos de pele que pareciam antinaturais e queimados:

—Liz, o que… O que é aquilo?

—Não sei como, Will, mas seu pressentimento parecia bem certo.

—Honestamente, eu não ligo muito para isso, eu preferia não estar.

—E eu concordo com você no que diz respeito a isso.

O garoto, que ainda estava às costas dela, virou-se na direção do ferimento e encarou aquelas marcas de garra com certa preocupação.

Se Liz não os tivesse feito esquivar daquilo, agarrando-o e então saltando, provavelmente ela teria sido atingida em cheio no tórax e ele na região do abdômen:

—Esses machucados… Você está bem?

—Eu consigo nos proteger.

—…

—Will, eu não sou uma pessoa muito forte em termos de lutar, então eu quero que aproveite a primeira oportunidade para poder fugir.

Liz colocou uma das mãos próxima à região do flanco, na cintura, onde estava sua espada, e com a outra apontou para uma direção aleatória em meio à floresta:

—Seguindo naquela direção você vai chegar até a Capital.

—Eu não posso te deixar aqui, Liz, você tem que vir comigo, eu tenho… Tenho que te ajudar.

—Então, me diga o que você pode fazer? Você consegue lutar? Consegue machucar ele? Eu acredito que não.

—Isso é me subestimar…

—Não é hora para brincadeira.

A garota cortou a fala dele de forma veemente e, com um olhar ameaçador e totalmente afiado, levantou-se e sacou a espada que trazia na cintura:

—Você é importante para mim, não vou deixar você morrer.

—Ainda continua com aquilo? Querendo me salvar para concluir sua missão. Por que você me prometeu isso.

—Exatamente, Will, tudo isso é pela minha reputação, como vão acreditar num mercenário que não cumpre a sua própria palavra.

Ela deu uma risada, abriu um sorriso mais para si mesma do que para o outro, e seu olhar se manteve impassível na criatura que parecia se recuperar. Assim, com um suspiro de contentamento, ela disse:

—Tudo isso que eu faço é pensando em mim.

A criatura voltou seus olhos vazios de escuridão na direção dos dois e então fez um gesto que devia ser semelhante a uma bufada ou baforada, e assim avançou.

Como numa vertigem, Will viu algo diferente à sua frente, e sua visão se tingiu em vermelho-sangue. Na sua frente estava o monstro, aquela existência horrenda. Havia acabado de saltar, acabado de sair do lugar em que estava, mas Liz ali na sua frente jazia inerte, com sangue vertendo e de joelhos.

Tão súbito quanto aquilo veio, foi embora, e o monstro avançando ainda estava ali, saindo do próprio lugar.

O garoto não hesitou como antes. Ainda não sabia o que eram aquelas visões, mas saltou com todo o seu ímpeto sobre Liz, caindo sobre o chão úmido e duro com ela nos braços.

Ao mesmo tempo que um relâmpago cruzou os céus, o garoto ergueu os olhos na direção da própria perna e percebeu que, em boa parte, ela estava dilacerada, com sangue vivo vertendo.

Uma sensação de queimação invadiu seu corpo, irrompendo dos nervos rompidos na perna direita, e então um urro assustador.