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Capítulo 6: Dançando com Garras e Espadas

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Capítulo 6: Dançando com Garras e Espadas

Will gritou de dor diante daquela perspectiva. Sua perna estava toda marcada por marcas de garras. Ao todo, eram seis delas que se dispunham ao redor dos músculos das partes de cima e de baixo.

O sangue vertia incessantemente e empapava o solo úmido e as gramíneas verdes, tingindo-as com um tom de carmesim. Os músculos estavam latejando e alguns se projetavam para fora de maneira gritante.

O senso e os sentidos do garoto desligaram de uma vez só. Ele olhava aterrorizado, mas se esquecera por um instante de toda aquela situação que o havia levado até ali. Foi somente quando escutou o som do ranger de algo contra o metal que se lembrou.

As costas de Liz ainda continham as lacerações feitas como as da perna do garoto, mas ela saltara agilmente naqueles instantes diante dos quais a mente do jovem se desligara.

A lâmina dela, escura como azeviche e úmida com a água torrencial que escapava das nuvens acima, se atravancava com as garras daquele monstro, animal ou fera. Ela era toda recurvada em ângulos estranhos, e o corpo metálico parecia feito para permitir que mesmo alguém sem força conseguisse compensar essa fraqueza usando as várias quebras.

A garota deu um chute mirando o flanco do bicho e, no instante em que isso acontecia, Will percebeu o porquê de suas pernas estarem em sangue vivo.

Outro avançou. As garras, parecendo costuras nos braços languidos, rasparam o chão, e ele saltou sobre as quatro patas contra a garota. Liz se defendeu, mas caiu no chão com um estrépito. A melhor opção era esquivar, mas ela tinha que proteger Will.

Com outro chute no flanco, o bicho recuou acuado e então os dois se recompuseram em uma postura baixa, com os braços pendendo nas laterais:

—Dois de vocês. Isso é incomum, não? Afinal, vocês não caçam em grupo.

Uma diferença bem sutil, mas ainda assim perceptível em um dos monstros, era que somente um tinha o rosto parecendo ter sido queimado por alguma coisa. Tirando isso, eram iguais. Mas aquele fato incomodava a garota:

—Por que você pulou, Will?

—Para te salvar. Você viu que aquele outro monstro ia te atacar, e olha o que ele fez comigo.

—Exatamente, olha o que ele fez com você, agora vamos ser obrigados a lutar.

A garota parecia revoltada diante daquilo que acontecia e, pela primeira vez, Will notou que os olhos dela faiscavam com desconfiança. Desconfiança genuína.

Naquele mesmo dia, anteriormente no lago, Liz tentara parecer intimidadora, mas, naquele momento, algo era diferente, e o garoto sinceramente não sabia o quê. Com a lâmina apertada nos punhos e os dentes cerrados, Liz continuou:

—Eu pretendia ganhar tempo enquanto fugia e depois ir no seu encalço, mas não acho que dará para fazer isso agora.

Uma das criaturas avançou, enquanto a outra permaneceu à distância, andando inquieta de um lado para o outro. Ela ergueu as garras e foi recebida por um ataque perfurante em riste da garota, que acertou em cheio a carne da sua axila.

Mesmo sendo magra, Liz mostrou a sua força ao dar um passo e tentar destroçar a carne membranosa da criatura, mas a fera resistiu, usou a outra garra para tentar desferir um golpe e obrigou a garota a sacar sua arma para se defender, suspendendo o golpe dela:

—Como você sabia que ela ia atacar?

—Eu vi.

Will respondeu de forma simples enquanto tentava, em vão, mover a perna machucada e em sangue vivo. A garota girou nos calcanhares e atacou o monstro à sua frente, desferindo ataques em formato de ciclone que alternavam entre esquerda e direita. Porém, a criatura parecia se defender de todos eles:

—Ele saltou do meio das árvores, ou seja, você não teria visto. Vamos, Will, me conte a verdade.

O garoto bem que queria dizer que vira eles atacarem ela, mas de que forma? Ele não entendia isso direito ainda e, até agora, agira por instinto e principalmente por medo… Medo.

O medo fora um sentimento dominante e o invadira mais de uma vez desde que despertara naquele mundo que ele desconhecia. Junto com o medo, havia também a incerteza sobre ele e sobre tudo que parecia acontecer tão repentinamente.

Mais uma vez, aquele odioso sentimento repentino se apossou dele, pois se lembrou do que acontecera quando dissera algo na clareira e assim ele hesitou mais uma vez:

—…

—Você está escondendo as coisas de mim, não é? —A garota disse, segurando a espada com os pulsos firmes. —Eu estou aqui para te ajudar, Will, não te abandonei, mas quero que confie em mim.

Os olhos verdes dela, que entreolhavam de esguelha para o garoto, pareciam suplicar. Ela não parecia temorosa diante da falta de confiança do garoto nela. O que havia refletido ali era pesar.

O garoto sustentou aquele olhar sem saber o que dizer diante da garota, pois sentia que estava dilacerando o coração dela. Viu o que aquele olhar queria dizer e se sentiu um lixo diante daquilo.

Mesmo assim, aqueles dois monstros não pareciam querer deixar a conversa continuar. O outro, que somente caminhava ao fundo, avançou e se juntou àquele que parecia seu parceiro para um ataque em conjunto.

Eles abaixaram os corpos esguios, e as garras ósseas avançaram raspando no chão como era de costume. A garota recuou dois passos, se defendeu de um ataque que veio pela esquerda e se abaixou em sequência para evitar o outro que avançava cortando os ares pela direita.

Os golpes de ambos os monstros quase atingiram um ao outro, mas eles pareciam espertos, espertos ao ponto de… serem quase racionais de uma maneira estranha.

As garras que restavam nas mãos adjacentes se ergueram em direção à garota, que havia se agachado. A espada que usara para se defender não seria mais rápida após se enganchar com as estruturas ósseas, e assim Liz se viu obrigada a sacar sua outra lâmina e segurar dois ataques de uma vez.

Ela foi arremessada para trás, ou melhor, ela mesma era quem havia pulado daquela posição em que estivera antes.

O impacto de metal e osso produziu um tilintar, e as luzes douradas de faíscas beijaram o solo barrento que era batizado pelas chuvas torrenciais do fim daquela tarde. No entanto…

O braço de Liz estava vermelho. A manga direita daquele robe que ela prezava tanto havia sido dilacerada, e uma cascata fluía em um escarlate rubro e vertiginoso.

O cabelo úmido da garota caía sobre seu rosto, e as criaturas pareciam bufar em direção a ela, porém não propriamente enraivecidas:

—Eu quero poder falar tudo para você —A voz de Will ecoou do nada.

—…!

—Eu confio em você, Liz —Ele disse, meio envergonhado pelo silêncio anterior. —Como eu não poderia? Você confiou em mim primeiro, você decidiu lutar por mim e ao meu lado mesmo não sabendo quem eu sou.

Will se agarrou a uma pedra que estava do seu lado e então tentou se colocar de pé. Fracamente, teve êxito, mas a perna ensanguentada ardia e ansiava por descanso. Ele bufou de dor:

—Por favor, vença essa luta.

—…

—Eu quero conhecer esse mundo ao seu lado —Ele forçou um sorriso fora de hora.

—Só um tarado mesmo diria isso para a primeira garota que vê —Ela se virou para frente. —Você deve ser algum safado mesmo, né?

Havia leveza na voz dela e, embora as palavras parecessem ser do tipo ditas para soar ofensivas, Will entendeu instintivamente o que ela queria dizer.

A garota encarou os dois monstros que se comportavam de forma anormal à sua frente e então postou ambas as lâminas úmidas de sangue e chuva, que rebrilhavam em um fulgor negro, ao lado de seu corpo:

—Eu vencerei.

Um dos monstros avançou —aquele mais à esquerda. Varreu o ar com suas garras, e a garota se defendeu levantando a lâmina. A criatura tentou perfurar, rasgando tudo à frente, mas o golpe foi interceptado. Liz girou, desvencilhou espadas e garras e então lançou um corte.

O outro avançou, correu pela distância de terra molhada que os separava e tentou saltar daquela maneira mais animalesca. Diferente daquele com o rosto queimado, este estava agindo mais conforme a espécie mandava.

O ataque de suas garras foi repelido, e o corpo que praticamente flutuava no ar caiu no chão com um baque. Mas, recuperando o equilíbrio que não parecia ter nunca perdido, ele atacou de novo.

Metal se chocou contra osso. Garra contra espada, e os olhos faiscantes da garota se inflamaram quando ela repeliu aquele ataque. Ao mesmo tempo, ela se defendeu do outro lado, mas o movimento de duas garras era inesperado, e uma a atingiu no ombro esquerdo.

O mesmo aconteceu com a fera de postura animalesca que, aproveitando a oportunidade, perfurou a perna direita da garota.

Liz cortou o ar a esmo, cambaleou e cerrou os lábios, mostrando os dentes com força e expressividade.

A criatura avançou novamente. Os punhos dela se enrodilhavam na empunhadura, e os nós dos dedos ficavam brancos e quase a ponto de estourar. Ela se defendeu e cambaleou com o choque que seu ombro recebeu.

Foi atacada de súbito pelo outro lado, num movimento do qual não poderia se defender.

Aquele ataque, aquelas criaturas, todas essas coisas não pareciam só simples coisas. Era estranho que aqueles monstros estivessem lutando juntos e, ainda mais, que atacassem de forma tão comedida… Ou melhor, de forma tão humana.

As garras que sibilavam no ar, porém, não acertaram a pele branca, macia e imaculada da garota. Uma pedra atingiu a tez da criatura, que produziu um horrendo rugido gutural e, abrindo os braços, encarou o garoto com algo que deveria ser semelhante à fúria no fundo daqueles espaços vazios onde deviam estar seus globos oculares.

A fera, de forma desinibida e totalmente bestial, irrompeu pelo solo com um salto, as garras dos apêndices que eram como pernas arrancando pedaços da terra e deixando sulcos profundos na superfície.

Ela se precipitou na direção de Will com as garras erguidas, e o garoto se retesou e saiu se arrastando para tentar sair do caminho, mas as pernas fraquejaram, inúteis devido aos ferimentos, e ele caiu quase se debatendo:

—Não! —Liz gritou com uma fúria que não parecia desse mundo.

Um brilho negro atravessou a trilha da floresta enlameada e saiu cortando as gotas da chuva. Uma espada se cravou nas costas daquela criatura, mas ela, apesar de ter vacilado, tentou mais um passo:

—Você não vai encostar nele, seu desgraçado!

A garota falou com um olhar fuzilante que causava até mesmo medo e arrepios no jovem Will e, com isso, disparou a outra lâmina, que atravessou em cheio o corpo todo do monstro.

Dessa vez, a criatura não havia resistido. Seu corpo inerte e horrendo se precipitou e caiu para frente. Will rastejou pelo chão, usando as pedras como apoio para evitar que aquele cadáver caísse perto dele.

O bicho ainda estava meio ofegante, vivo, e os olhos do rapaz não deixaram de estremecer. Suas pálpebras se contorceram, assim como as narinas se dilataram em horror ao contemplar tão de perto o que era uma aberração e certamente um erro grotesco e feio, se não de mau gosto da natureza.

A expressão de Will se converteu num misto hediondo de tudo que há, e então ele voltou seu olhar para Liz, somente para ver quando outra daquela criatura horrenda se precipitou na direção dela.

A garota se virou, mas, sem tempo, as garras atravessaram o ar, deixando um rastro de sangue junto com um movimento de última hora que ela fizera. Ela se virou e caiu com o rosto voltado na direção de Will.

Ele vira, vira algo parecido com aquilo em sua visão. O sangue jorrando do corpo de Liz. Achou por um momento que havia mudado o resultado das coisas que ele achava que iriam acontecer, mas se deu conta da possibilidade de não saber de nada.

Nada confirmava aquelas suas visões do amanhã, e nada garantia que as podia impedir. Acreditava ter salvado Liz duas vezes até então, mas aquilo poderia tê-lo levado justamente até aquele momento.

— • —

A criatura cujas garras estavam sujas com o sangue de Liz avançou. Ignorou o corpo inerte que jazia no chão e deu um, dois passos, atravessou a distância pisando por sobre o corpo da garota e praticamente o ignorando.

Endireitou a postura, ergueu os braços, aqueles apêndices anormalmente longos, e parecia se portar como um homem se portaria. Era uma fera, mas parecia gente, e aqueles olhos vazios, aquelas cavidades obscuras que deviam ser olhos naquele rosto queimado, encaravam Will como se quisessem algo com ele.

O garoto não conseguia olhar de volta com desafio. Havia ficado absorto e até certo ponto perdido naquilo que acontecia. Apenas conseguia encarar o que devia ser o cadáver inerte de Liz, jogado ao solo, e dali seu olhar vacilava entre aquela cena e a criatura.

Arregalado.

Assustado.

A fera se colocou diante dele, mas não parou nenhum segundo, não fez uma pausa dramática e nem o olhou como um inimigo derrotado. Apenas ergueu os apêndices, os enrolou no pescoço de Will e ergueu o rapaz.

As garras eram ásperas e cortavam o pescoço do jovem em vários pontos. O sangue escorria numa sensação de calor que se confundia em meio ao frio da chuva. Ele começou a sentir uma fraqueza invadir o seu corpo e também a se debater.

Não conseguia sorver o ar… Não… Ele não entrava… Não respirava… Ahh, ele… Não… Ele estava…

Subitamente, ele apenas sentiu um torpor, como se a própria força da gravidade o esmagasse levemente, e logo sua consciência se diluiu num mar negro e infindável de profundo nada.