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Capítulo 7: Aroma de Nostalgia Misturado à Incerteza

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Capítulo 7: Aroma de Nostalgia Misturado à Incerteza

Quem era aquela garota?

Naquele meio caminho que percorrera da floresta até aquele lago e, mais tarde, até aqueles monstros, ele conhecera um anjo — agora a palavra vinha aos lábios — em forma de mulher. Sabia quase que instintivamente que podia confiar nela. Era como uma tênue nostalgia.

Mas quem era aquela garota?

A visão de Will estava meio turva, e ele não conseguia distinguir muito bem as coisas que havia à sua frente. A imensidão parecia recebê-lo com uma brisa suave que, com um toque macio, acariciava seu próprio rosto.

A mesma imensidão se precipitava abaixo, mas ele não conseguia distinguir até onde ela ia. Só via, no além do ocidente, o sol se pondo em um ocaso alaranjado, mas ali, do seu lado, havia uma garota.

Embora não sentisse seu corpo físico ali, Will fazia parte daquilo. Era como se ele mesmo fizesse parte daquela garota e experimentasse as mesmas coisas que ela.

Ouviu um coaxar distante que assustou aos dois. Tanto ele quanto a garota se viraram para trás, na direção de onde aquilo vinha, e viram quando um sapo com pintas alaranjadas pontilhando sua pele verde-musgo se precipitou das árvores atrás deles.

Aquela jovem de cabelos brancos tinha um olhar meio triste e perdido. Os olhos castanhos, meio repuxados, eram bonitos, mas aquela forma com que ela olhava as coisas evocava uma ideia de tristeza.

Will gostaria de saber quem era aquela menina ao seu lado, ou melhor, em seu exterior. Gostaria de conhecê-la e entender o porquê de estar ali.

Aquelas memórias não pareciam dele.

A garota estranha, mesmo olhando para o animal que coaxava após sair daquela floresta, apertava os nós dos dedos contra o chão. As unhas prensavam a terra dura, sujando-se no processo, mas, ainda assim, ela segurava uma flor estranha, vermelha, semelhante a um lótus, na mão.

Com o vento sutil que balançava as copas das árvores atrás deles, veio também um cheiro. Mesmo naquela sensação estranha de torpor em que se encontrava, ele sentia o cheiro daquela flor.

Era um perfume sucinto, mas que ardia no fundo das narinas. Tinha algo de doce e algo de suave, mas, quando invadia os pulmões, parecia ardente, adquiria uma aspereza e fazia o garoto querer espirrar.

Naquele momento, deu-se conta de que não tinha nariz, mas o cheiro continuava e continuava penetrante, além dos sentidos, no âmago do ser.

Ele penetrava… Penetrava… Continuava… Continuava.

— • —

O aroma estranho permaneceu em suas narinas. Foi a primeira sensação estranha que teve, antes mesmo que seus olhos se abrissem e a luz os invadisse.

Fungou levemente, remexeu-se e trocou de lado. Quase inconsciente, ainda esfregou o nariz nervosamente. Os detalhes de onde estava passavam como flashes diante de seus olhos, mas ele não se importava com isso.

Aos poucos, aquela sensação de torpor e também de estar imerso em uma imensidão de escuridão, como era o sono, foi se dissolvendo. Tão rápido quanto isso aconteceu, o garoto também abriu os olhos.

Resfolegou e então piscou algumas vezes. Tentou assimilar a primeira coisa que via, mas sua mente estava aturdida e jazia mergulhada em uma dor de cabeça excruciante.

Fechou os olhos, franzindo a testa, e seu corpo se retesou. Era uma sensação estranha, algo que ele não se lembrava de ter experimentado antes. Em alguns pontos, a dor de cabeça parecia com fogo, como se alguém tivesse aberto seu crânio à força, enfiado carvão em brasas no interior e novamente tornado a fechá-lo.

Era uma sensação horrorosa. Encolhido na cama, Will rangia os dentes enquanto esfregava a mão esquerda na glabela. Fechou os olhos e tentou ficar quieto. Mesmo que os pensamentos o perturbassem, tentou desligá-los, e assim a dor foi ficando mais branda até desaparecer.

Naquele meio-tempo, voltou a sentir um cheiro que era uma sensação frequente em seu sonho, talvez a sensação que sua mente mais tivesse guardado de imediato. Estranhou o quanto aquilo parecia real.

Novamente, ergueu os olhos, saiu daquela posição encolhida e pôde, uma vez mais, se perder olhando para cima.

—Eu nunca vi esse teto — comentou, com o cotovelo direito sobre a testa.

Na verdade, ele nunca havia visto teto nenhum, e aquela era apenas a segunda vez que alguém como ele despertara. Se antes havia sido recebido pelas copas frondosas das perobas na Rota das Castanheiras, agora era saudado por vigas de madeira entrelaçadas que sustentavam telhas de barro dispostas de forma decrescente, como se fossem uma aresta de um triângulo.

As vigas eram irregulares, algumas tortas ou recurvadas, mas pareciam seguras. Eram cortadas, encaixadas como peças de quebra-cabeça e amarradas com cânhamo.

Tudo aquilo se assemelhava a uma casa interiorana, embora Will ainda desconhecesse o que poderia ser uma dessas casas.

Olhou ao redor para compreender a extensão do quarto.

Primeiro, viu-se envolto em lençóis brancos e um cobertor pesado de pele e pelos amarronzados. Notou que algum infeliz havia retirado sua roupa e logo se lembrou de Liz, que o chamara de tarado no lago.

—Tarado — repetiu, indignado. —Se eu sou tarado por vê-la por acidente, imagina quem fez isso aqui comigo. Não quero nem encontrar os adjetivos que possam descrevê-lo melhor.

Puxou o cobertor e olhou a extensão de seu corpo, de pele bronzeada. Uma das pernas estava coberta de faixas e, ao mexê-la, sentiu uma leve pontada, embora aquilo não se comparasse à sensação lancinante que se lembrava de ter sentido antes.

Deslizou os dedos pelos peitos magros e desnudos que possuía. Sentiu uma sensação estranha e indescritível ao tocar seu corpo pela primeira vez com mais atenção do que naquele momento do lago, quando só queria se livrar da poeira.

Ao levar o dedo até o pescoço, sentiu uma aspereza. Eram as bandagens colocadas ali. O garoto curvou a mão e formou um bojo com a palma, pousando-a sobre a região.

Lembrou-se de como havia conseguido aquelas cicatrizes de forma praticamente instantânea. A floresta, a chuva vertiginosa e então…

—Liz!

Saltou de repente da cama, colocou os pés descalços no chão e sentiu um frio percorrer o corpo. Logo à frente havia uma sacada que dava para uma noite fria, sob um céu azul-escuro e enevoado. De onde estava, Will via nuvens e muitos casarões altos, com os telhados recortados por telhas de barro.

A razão daquele frio era a passagem para o exterior, e o garoto logo se dirigiu a ela, meio exasperado com quem quer que estivesse cuidando dos seus ferimentos.

Fechou um dos lados daquela janela e se virou para o resto do quarto, ainda preocupado com a garota que lutara para salvá-lo.

As reflexões acerca das visões o atingiram em cheio, e ele novamente foi tomado pelo misto de certeza e insegurança.

Os olhos atravessaram a extensão daquele recinto de forma nervosa. Questionava-se onde estava. A visão do exterior era de uma cidade, mas o interior parecia um quarto que pertencia a uma casa e, por sua vez, a alguém.

Havia outra cama atrás de um biombo de ripas de bambu, ao lado da janela. Próxima à cama em que estivera deitado, havia algumas estantes com vasos de plantas feitos de barro. De frente para elas, um armário baixo com uma porta e duas gavetas. Entre tudo isso, um espelho e uma banqueta com algumas roupas em cima. Do outro lado, a porta.

A porta de madeira parecia bastante simples, com algumas tábuas desenhando um Z. Parecia ter sido escovada e então envernizada, mas nem de longe isso era importante. O que afligia a mente de Will era onde ela o levaria.

Os olhos verde-azeitonados fixaram-se curiosos por alguns segundos naquela possível passagem para o desconhecido.

Deu um passo para sair dali, quando notou o que poderia impedi-lo. Quem quer que fosse seu anfitrião havia tido uma falta de senso gigantesca. Onde já se viu receber alguém e deixar aquela pessoa nua?

O significado da nudez ainda não era compreendido por Will. Ele realmente não sabia o que causava tanta vergonha nisso. Só sabia que não era bom aparecer nu na frente de ninguém.

—Ai, que droga!

Praguejou irritado:

—Droga! Droga! Droga!

Não sabia por que usavam aquela expressão para algo que dava errado, mas aquilo parecia calhar com o momento.

Reclamar, porém, não iria adiantar. Se ficasse ali parado, não descobriria nada do que precisava saber. É claro que alguém poderia aparecer, mas, dadas as circunstâncias de suas últimas memórias, ele não queria arriscar.

Considerava qualquer coisa, até o tipo de loucura mais absurda que se pudesse imaginar, e acredito eu que você faria o mesmo na situação em que aquele garoto se encontrava.

Pense: numa floresta, você é abordado por aquele tipo estranho de criatura. Elas andam sobre duas patas e se comportam suficientemente bem como homens — embora ainda tenham instintos bestiais.

Will não conhecia aquele mundo. Sabia da existência de Liz Meyer, e isso era tudo. O que garantia a ele que não houvesse outras espécies dominantes ou que a espécie humana não fosse uma coisa ínfima?

Não tinha memórias do mundo, e essa era a única realidade que conhecia. Não podia imaginar um mundo tomado por aqueles bichos que vira na floresta ou infestado por outras coisas. Pouco importava serem mais parecidas ou não com a humanidade.

Um tremor percorreu seu corpo ao cogitar onde poderia estar.

Liz havia falado com ele sobre Ether e bênçãos, e isso o tranquilizara de forma natural, pois a possibilidade insana de uma extinção de seres como ele parecia absurda. A garota também citara as Irmandades. Porém, nada disso impedia que civilizações como as daqueles monstros pudessem existir.

Ele pensou em tudo isso enquanto permanecia diante da porta. Não gostaria de descobrir as coisas em uma posição desconfortável, na qual não pudesse reagir.

Não queria a passividade da relação entre ele e o mundo.

Decidiu que, se precisasse, sairia pelado para fora dali e descobriria qualquer coisa, talvez até fugisse dessa forma. Mas tentaria não precisar de decisões extremas.

Deu alguns passos pelo quarto e se postou diante do espelho. Viu que aquela coisa estranha mostrava o que havia aceitado como sendo ele. Os pensamentos regressaram para o lago e, erguendo a mão, tentou tocar uma superfície na qual esperava que ela afundasse.

A surpresa foi grande quando os dedos se retesaram diante daquele objeto. Percebendo que podia se ver por inteiro, virou-se e observou os calcanhares e as pernas magras, mas bem cuidadas até demais para alguém que não se lembrava de nada.

Avaliou as costas e notou que eram meio estranhas, diferentes do resto do corpo. Havia cicatrizes que pareciam círculos, perfeitas como se tivessem sido colocadas ali: duas quase na altura da nuca e duas na altura dos pulmões. A pele chegava a ser mais clara naquela região.

No centro entre todas aquelas cicatrizes havia uma tatuagem escura, totalmente preta, de um tom tão profundo que somente a cor já ameaçava engolir o garoto.

Era semelhante a fachos concêntricos que se distribuíam com a intenção de formar uma espiral, mas não chegavam a terminá-la.

Will deduziu que aquilo, de alguma forma, tivesse a ver com seu eu, mas sinceramente não queria descobrir do que se tratava.

Assim sendo, virou-se novamente e baixou os olhos para a banqueta, onde viu roupas estranhas dobradas com um pedaço de papel creme dobrado ao meio.

Levou as mãos até o papel e o desdobrou sob a luz das lamparinas penduradas nas vigas de madeira. As letras que se desenhavam como curvas semelhantes a gavinhas eram coisas que, surpreendentemente, conseguia entender.

Claro que essa percepção não foi a coisa mais fácil do mundo. De imediato, e nem mesmo naquela hora, o garoto conseguiu perceber isso, pois, de tão natural, nem lhe passava pela mente que poderiam escrever em caracteres desconhecidos.

As letras recurvas da carta diziam o seguinte:

Will, espero que desperte logo desse seu somo de bela adormecida.

Aqui é a Liz, e acredito que não estarei aí quando você acordar, me recuperei mais rápido do que você e como o Danny odeia que tiremos folgas, tive logo que voltar ao trabalho.

Esses dias andam pesados, pois terei que resolver coisas por mim mesma também, além das minhas obrigações com a Irmandade.

Espero de coração que não se assuste de não me encontrar, mas quero que entenda que eu estou bem.

Quando eu voltar nós poderemos conversar.

Se acordar, procure Danny, ele deve estar ansioso e impaciente para te conhecer.

P. S: Deixei umas roupas novas para você, as outras estavam sujas de sangue e a calça já não tinha jeito.

P. S. S: Você dormiu por dois dias, é realmente uma bela adormecida.

Will leu a carta e então encarou as roupas deixadas para ele sobre a banqueta. O último trecho o fez imaginar perfeitamente o rosto daquela garota quando a escrevera.

— • —

Sinceramente, ele gostaria de descobrir uma habilidade de Liz. A garota afirmara não ser boa no combate e também não parecia ter muito bom gosto para escolher roupas.

Pensou nisso enquanto terminava de amarrar o lenço amarelo que ela havia deixado ali.

Ao se olhar no espelho, o garoto se sentiu quase como um perfeito palhaço. Fora a blusa social preta e as calças cinzentas, a garota havia comprado todo o resto em verde ou amarelo berrante.

—Olha, desse jeito eu vou acabar achando que a Liz trabalha no circo.

Ela havia deixado para ele uma capa verde-clara, semelhante às folhas das árvores em um dia ensolarado, com o interior em amarelo-claro, um tom meio de maionese que ele não sabia se era brilhante ou fosco.

O modelo do vestuário se juntava na gola abaixo do pescoço e depois escorria para o abdômen, formando volume sobre o peito. Naquela altura, era mais largo e ocupava uma boa proporção do espaço.

Will imaginou que, naquele mundo, as capas talvez ganhassem mais espaço que as camisas comuns como as que usava. Até entendia o estilo e o senso estético por trás daquilo, mas era inegável o mau gosto de Liz.

—Por que que até o lenço parece um borrão de mostarda, hein? —o garoto reclamou, praguejando.

Bem, pelo menos uma coisa não havia dado errado. Não seria surpreendido por uma civilização inteira de formas bestiais como aquela que encontrara na floresta. Mas, sendo assim, como teria sobrevivido?

Olhando para a porta, pensou que talvez não fosse preciso se perguntar por tanto tempo. Poderia obter a resposta tão breve quanto quisesse.

Agora mais propriamente apresentável, o garoto fez menção de andar e, tão logo atravessou aquela porta, seguiu em direção ao desconhecido.

Saiu em um corredor amplo, mas escuro, cuja única iluminação eram arandelas cilíndricas de vidro onde rebrilhavam cristais vermelhos.

Encarou a passagem lúgubre e deu um passo para dentro daquela escuridão amena, fechando a porta do quarto atrás de si.

Andou até chegar a uma escada, que desceu sem hesitar. Passou por um lance que dava em um corredor com luzes meio azuladas e desceu mais um para outro com luzes meio alaranjadas.

Analisando bem, o garoto estava no ponto mais alto do que quer que fosse aquele lugar, visto que, onde seu corredor dava para a escada, não havia nenhum lance subindo.

Chegou, por fim, ao sopé daqueles degraus. Não contou quantos havia descido, mas sabia que não eram muitos. Ali embaixo, deu de cara com um hall amplo e retangular, ocupado por pouca mobília.

Havia dois sofás de estofado azul, um de cada lado, posicionados ao lado de duas janelas por onde a frígida luz da lua penetrava. Do lado oposto ao da escada, havia um quadro amplo, retangular e cheio de papéis apregoados.

Aos pés daquele quadro, várias caixas estavam empilhadas, de variados tamanhos e formas, mas todas da cor de papel-pardo.

A iluminação era como a do corredor de onde Will acabara de vir, fornecida por duas arandelas centralizadas à esquerda e à direita do teto, revestido por uma espécie de massa calcária branca.

Havia ainda uma luminosidade menos bruxuleante que escapava de um cômodo ao lado, incidindo com um tom amarelo.

A curiosidade de Will falou mais alto, e ele deu um passo para investigar o local.

Então, um homem surgiu repentinamente.

Antes que o garoto pudesse assimilar qualquer informação sobre ele, ou até mesmo terminar de processar sua imagem na mente, ouviu a voz do cara:

—Até que enfim, hein, ô da Amnésia! —O homem sorriu voraz. —Pensei que você não fosse acordar.