Capítulo 8: Moeda na Mente, Chefe na Mesa
Capítulo 8: Moeda na Mente, Chefe na Mesa
—Vamos discutir sobre negócios—O homem chamado Danny falou com os olhos brilhando.
As coisas haviam acontecido tão rápido que Will parecia meio perdido em meio a tudo aquilo.
Aquele homem que aparecera do nada quando o garoto pretendia investigar aquele salão com uma luz proeminente era a pessoa a quem Liz havia se referido ainda na floresta.
Danny era um cara bem mais alto que Will e, com energia, parecia fazer chover uma torrente de palavras sobre o garoto. Da mesma forma, também não parecia usar seu nome, referindo-se sempre a ele como: “o da amnésia”.
Com lábios suficientes, o homem que falava depressa rapidamente levou Will até a situação em que estavam agora, sentados em uma mesa ampla no fundo da sede da Irmandade dos Leões de Aço. Isso o garoto sabia porque Danny havia lhe informado de antemão, quando perguntado sobre aquilo.
O dito líder da Irmandade parecia um tipo excêntrico e estranho, e isso Will pudera avaliar desde que o conhecera. Ele era meio semelhante àqueles caçadores de recompensas que geralmente aparecem em histórias de fantasia, embora algo estivesse faltando.
Como eu disse, ele era mais alto que o garoto. Tinha pelo menos um metro e oitenta de altura, se não mais um pouco. A pele era branca, quase pálida, mas adquiria um tom vítreo o suficiente para não ser considerada esquálida.
Usava roupas diferentes daquelas que Will vira em Liz e também das que ele próprio recebera no quarto. O fraque era um termo com viés de sobretudo cinzento que ia dos ombros até a borda dos sapatos afivelados e muito bem lustrados. Por toda a extensão, estava cheio de bolsos diferentes e, em alguns pontos, algumas correntes se metiam pelas abas.
Um manto preto encobria a região dos ombros e também do peito, unindo-se próximo à gola levantada de seu sobretudo por um broche com o desenho de um leão. Seus olhos eram castanhos e amendoados, conferindo uma expressão sardônica aos seus sorrisos.
O visual do estranho líder da Irmandade estava completo quando se observava o cabelo loiro meio repicado, comprido e amarrado em um rabo de cavalo desgrenhado, além do cavanhaque que ele gostava de alisar com uma das mãos, geralmente a que estava enluvada de preto. Havia ainda o brinco semelhante a uma gota azul-clara que ele usava.
Will encarou o homem, que começou a falar de negócios:
—Pera aí, você tinha me dito que ia explicar como eu cheguei aqui primeiro—Disse o garoto indignado—E também onde está a Liz.
—Eu sei que eu disse isso sim, mas a gente precisa sempre fazer uma oferta, não?—Danny piscou um olho e mostrou um sorriso maroto.
—Uma… Oferta?
—Isso, uma oferta!—Ele falou enérgico e deu ênfase no A do final da frase.
—…
—Eu precisava que você viesse comigo para a gente poder conversar melhor, o Hall de entrada não é lugar para papo sério —Ele deu de ombros enquanto argumentava—E antes de eu te explicar tudo timtim por timtim, temos que falar sobre preço, câmbio e moeda.
—…
Danny tinha um jeito meio único de pôr as palavras que queria na mesa e também sabia conduzir as coisas da forma que precisava que elas seguissem.
Will, por sua vez, piscava sem reação e não conseguia nem mesmo assimilar o que o homem dizia, quem dirá responder:
—Calma aí, você tá falando tudo isso muito rápido—Will balançou a cabeça para se recompor e as mãos para indicar uma negativa—Não da para entender. E também, o que eu tenho haver com preço, câmbio e essa outra coisa, sei lá.
—Já sei, já sei—O homem balançou a mão no ar duas vezes—Você deve estar meio emburrecido não é, o da amnésia?
—…
—A Liz me deu uma adiantada na sua situação, ela também me pediu para cuidar de você—O homem ergueu a mão com a palma virada para cima, aquela ali não tinha uma luva—Eu perguntei sobre o pagamento, mas ela disse que resolveríamos quando você acordasse. Bem, aqui estamos.
As palavras do líder, quanto mais eram ditas, menos sentido pareciam fazer. Soavam, muitas vezes, como delírios ou coisas ditas a esmo, pois ele mesmo não fazia questão de contextualizá-las.
Ele dissera que a garota havia falado de sua situação e, pela forma que Danny se referia ao garoto como o da amnésia, sabia-se que suas memórias e sua vivência de mundo não eram das melhores:
—Dá para falar devagar?—Will praguejou enquanto fazia esse pedido—Você falou de pagamento, mas eu não entendi a necessidade disso.
A palavra o garoto conhecia. O que lhe faltava era a questão do contexto. Ali, o problema não era a amnésia, mas a personalidade do outro:
—Nossa! Vejo que você realmente é alguém emburrecido em?
—Nossa! Não precisava ofender dessa forma.
—Você me ofendeu primeiro—Danny ergueu o dedo e apontou na direção dele.
O garoto preferiu não discutir com o outro. Afinal, a linha da ofensa era meio tênue, e ele não conhecia a de Danny, embora não pudesse reconhecer nenhuma de suas palavras como algo desse tipo:
—Tá bom, até agora já me chamaram de tarado e também de emburrecido, qual vai ser a próxima ofensa?
—Pobre seria uma boa—Danny novamente deu de ombros.
—O quê?! Pobre? Por que isso?
—Ué, você não tem um tostão sequer, então é pobre.
—Tá, isso é verdade, mas como pobre seria uma ofensa—Will franziu o cenho curioso—Pera aí? Como sabe que eu não tenho um tostão sequer?
—Vasculhei as roupas rasgadas que a Liz tirou de você—Danny ergueu ambas as mãos para o alto como se aquilo não fosse nada.
Will arregalou os olhos com a audácia daquele homem que devia ser o líder da Irmandade. Até onde bem se lembrava, geralmente os líderes eram pessoas respeitáveis, decentes e compassivas.
Danny, no entanto, era impulsivo, atropelava as palavras de qualquer um que pudesse começar a falar, era meio intrometido e metade das coisas que saíam de sua boca eram de uma incompreensão sem igual:
—Pera aí? Então foi você o tarado quem me deixou pelado?!—Will pôs ambas as mãos na mesa e se precipitou para cima dela.
—Me tira fora dessa acusação—Danny virou o rosto e balançou o braço negando aquilo com veemência—E não, eu não te deixei pelado, Liz quem fez isso, eu estava do seu lado somente naquele momento.
Will corou rapidamente diante daquilo. A perspectiva de ter sido aquele homem a tê-lo deixado naquele estado era terrível, para dizer o mínimo, mas, no fundo e com sinceridade, ele não se importava. A perspectiva de Liz, porém, mudava o jogo.
Ele sabia que aquilo era motivo de vergonha, como pensara quando despertou, mas tomar conhecimento de que Liz estivera envolvida mudava muito as coisas:
—Ah não, não, não precisa fazer essa cara de cachorro molhado—Danny sorriu de forma obscena e isso combinava com ele—Eu dei uma espiada meu parceiro, e você estava na média.
Will preferia evitar perguntar o que significava estar na média para aquele homem. E também não queria descobrir ao que ele se referia.
Imaginou por alguns momentos quais eram as dores de cabeça e também o cansaço com os quais Liz possivelmente tinha de lidar com frequência ao estar quase sempre em contato com aquela personalidade meio problemática.
Talvez bastante fosse um termo mais adequado:
—Se você deixar, o Danny ainda te faz de gato e sapato garoto.
Uma outra voz se projetou no recinto, fazendo a atenção de Will se voltar na direção de onde ela vinha. Danny, por outro lado, colocou as duas mãos atrás da cabeça, cruzou as pernas e fez uma cara de alguém insatisfeito.
O homem que chegara se vestia de forma elegante, embora não fosse tão pomposo quanto Danny em seu gosto por roupas.
Usava um colete de cor verde chamativa que deixava os braços de pele escura e bem torneados à mostra. Os detalhes que pareciam trabalhados na superfície do tecido eram de gavinhas em um tom de mostarda.
Assim como o líder, ele usava um manto preto, mas este parecia ter sido modificado para ocupar despretensiosamente apenas as costas dele. A calça seguia o mesmo tom do manto, embora deixasse os tornozelos à mostra. Os sapatos, que não eram como os de Danny e de certo modo pareciam mais despojados, como sandálias, eram da mesma cor do colete.
Sobre a face de tez escura do homem, brilhavam olhos quase iguais aos do líder da Irmandade, meio repuxados e amendoados. A única diferença era que os daquele homem eram mais mal-encarados, embora, se alguém visse qualquer um dos dois apenas pelos olhos, não acharia diferença.
Os cabelos eram de um preto profundo e ondeavam curtos sobre a cabeça. O nariz era um pouco avantajado, mas pontudo, e os lábios eram bastante finos. Como Danny e Liz, ele também usava um brinco em forma de lágrima azul e trazia o símbolo de um leão em algo.
No caso daquele homem, o leão estava gravado na própria carne, desenhado como uma tatuagem no ombro esquerdo, que ficava à mostra.
A existência daquela tatuagem deixou o rapaz sem memórias um pouco aturdido, pois se lembrou de que ele próprio também tinha algo semelhante nas costas. Seus lábios se afrouxaram com a surpresa:
—Ah, Markus, do jeito que você fica falando as coisas assim, vão interpretar tudo errado de mim.
—O que eu posso fazer se às vezes é você que se passa demais, Danny—Markus puxou uma cadeira para se sentar.
Will olhou aquela interação sem entender nada e, mais uma vez, em sua mente parecia que ele era apenas o objeto de todas as interações até então.
Danny, enquanto falava, sacou um bastãozinho branco e uma caixinha metálica. Ignorando as palavras do homem que havia chegado, colocou o pequeno bastão na boca e usou a caixinha para acendê-lo:
—Aceita um cigarro?—Ele ofereceu, falando de um jeito meio diferente.
—Não, obrigado—Will balançou a cabeça e passou a mão de um lado para o outro de modo enfático.
Markus fez o mesmo sinal quando Danny lhe ofereceu o cigarro:
—Tá bom—O garoto disse do nada tentando se situar—Ele foi inútil em me explicar tudo que ele falou até aqui, será que você pode me ajudar?
—Nossa garoto! No meu tempo falar isso com o chefe na mesa da uma demissão das bravas viu—Danny deu uma tragada e soltou a fumaça pelo nariz—E isso era justa causa, certeza.
—Danny, você devia ser mais objetivo quanto as coisas que se tratam da Irmandade—Apontou Markus de forma crítica.
—Dessa forma as coisas ficam chatas, eu não posso dar um susto nos novatos.
—Se você assustar eles demais, daqui uns dias você vai ser o único sentado nessa mesa.
—Até você vai me deixar numa situação assim?—O líder balançou a cabeça exasperado—Não Imaginei que pudesse ser tão traíra assim comigo.
Will observava aquela situação com aparente confusão. A chegada do outro homem, ao invés de melhorar seu entendimento, teve o efeito contrário.
Os olhos arregalados do garoto se alternavam entre um e outro homem, e ele avaliou de forma correta que os dois não eram lá muito bons em propaganda.
Embora o tal Markus parecesse melhor nesse quesito e também mais fácil de compreender do que Danny:
—Seguinte garoto, eu vou tentar explicar o básico—A voz estava meio entorpecida pelo cigarro—Aqui em Losdrich, nós temos que ter a moeda sempre na mente.
Ele levou o dedo e deu dois tapas no lado direito da têmpora:
—…?
—Essa sua cara diz muito sobre a sua personalidade—Danny entortou o lábio meio desanimado.
Will, por outro lado, exibia aquela expressão que talvez se tornasse sua característica mais marcante. Olhos arregalados e os lábios meio soltos, como se distraídos:
—Danny, você estava indo bem até agora —Markus não deixou de comentar.
—Não me interrompa Markus, eu estou no meu momento.
O outro homem pôs a mão na testa, como em descontentamento com a cerimônia que Danny tinha para falar.
A curiosidade do garoto também havia praticamente desaparecido graças à enrolação do líder em revelar coisas aparentemente simples:
—Nós, a Leões de Aço te salvamos, então isso significa que você precisa agora nos pagar.