LNCrawler

Capítulo 9: Uma Questão de Nome

As Memórias Perdidas De William Rassad — illusia.com.br · All chapters

Capítulo 9: Uma Questão de Nome

—…!

—Você não entendeu nada de novo, não é?

Danny fez uma expressão entediada para o garoto, que olhava desconfiado para o que ele havia acabado de dizer:

—Não, eu entendi sim. Você até pode me chamar de emburrecido, mas essa palavra não me é estranha.

—Ótimo, então agora a gente vai começar a falar da língua que eu gosto—Danny sorriu enérgico e com genuína paixão, pelo dinheiro é claro.

Markus mais uma vez colocou a mão no rosto, indignado. E isso era uma coisa comum quando estava com Danny, por isso evitava o contato.

Coisa que estava sendo anormalmente difícil naqueles últimos dias:

—Se é assim vamos aos detalhes do acerto.

Danny se levantou ainda com o cigarro em mãos e depois disso foi até um móvel no fundo daquele salão amplo onde estava a mesa.

Will, de onde estava, só viu o homem se abaixar para pegar alguma coisa, e Markus olhou curioso naquela direção, embora provavelmente já tivesse visto aquela cena várias vezes.

O líder da Leões de Aço voltou ajeitando as costas e dando uma tragada no seu cigarro. Logo após, sentou-se e colocou um ábaco sobre a mesa.

O garoto comprimiu os olhos e balançou a cabeça para a esquerda e depois para a direita. O outro, naquela situação, só ignorou qualquer comentário e baforou mais uma nuvem de fumaça:

—Então vamos lá o da amnésia—Ele ajustou as contas de madeira do objeto—Você foi salvo pela Liz no meio da floresta—Ele moveu uma conta—Ela arriscou a própria vida para repelir os Desferi e ficou ferida. Isso vai ter um acréscimo de dano ao funcionário da Irmandade—Ele moveu duas contas—Hmm… Teve o tratamento também. Faixas, gaze, ervas… Epa! Gastamos bastante com você, mas a Liz insistiu e disse que você pagaria, então eu não vou reclamar—Ele moveu quatro contas do ábaco de uma vez só—E eu não posso esquecer a roupa que você tá usando—O homem então mexeu em mais três de uma vez só.

Will só acompanhou os movimentos ágeis das mãos de Danny e também a habilidade que ele tinha na língua e na memória para falar e se lembrar das coisas que havia feito pelo garoto.

Ao todo, ele havia movido dez contas do ábaco, e o jovem sem memórias não imaginava o que aquilo poderia significar até que o próprio Danny falou:

—Você tá devendo umas cem moedas pra gente, isso é certeza.

—E isso é muito?

O olhar de Danny, que escancarava sua presunção, revelava muitas coisas.

O garoto então tentou buscar ajuda em Markus, que parecia mais sensato que o outro, mas, daquela vez, não a obteve:

—Tá mais você já viu que eu tô duro, sem dinheiro nenhum, e até de pobre já me chamou.

—É isso pode até ser—Danny colocou o ábaco de lado—Mas certamente você tem alguém, uma família que vai querer te ter de volta. O da amnésia, não é possível que você não tenha sei lá um nome de família.

—Desse jeito ele vai entender errado, Danny, vai achar que a família precisa ser importante para isso.—Markus se interpôs naquela conversa.

—Se fosse um nome importante não teríamos problemas em conseguir uma compensação até maior.

Quando o garoto encarou os olhos do líder da Irmandade, viu que eles faiscavam em um tom de amarelo meio ganancioso.

Pouco a pouco, começava a entender as personalidades e as funcionalidades daquelas pessoas. Só gostaria de saber por que tinha que pagá-los e gostaria que Liz estivesse ali para poder apoiá-lo.

Ele certamente imaginava que a garota faria isso por ele. Não sabia bem o motivo, mas confiava nela mais do que o normal.

Com a questão do nome de família, ele sabia o que Danny queria dizer, mas aquilo era uma coisa que não possuía. Não tinha um sobrenome para dar. “Rassad” fora algo que inventara para não ficar sem respostas diante de Liz.

Maldita beleza, ele já estava começando a dar mentiras e inventar coisas para impressionar uma garota. Não que um sobrenome tivesse esse efeito — ou será que poderia ter?

Agora, o próprio Will não queria desmentir aquela questão. Não queria parecer um fanfarrão ou um mentiroso. As palavras de Liz sobre primeiras impressões ainda estavam com ele na mente:

—Cem moedas de ouro não é brincadeira não o da amnésia—Danny deu um último trago no seu cigarro—Então acho que para começar, a gente podia falar um pouco de quem pode ser a sua família, certamente eles vão nos recompensar.

Danny não perdeu tempo enquanto falava aquelas coisas. Foi mais do que direto ao ponto. Ele pressionava as respostas:

—É… Bem… Hmm

—…?

—Ah, sim, você disse cem moedas de ouro, não foi Danny?

—Eu disse sim, mas qual a importância disso?

O líder da Irmandade meneou a cabeça, balançando de leve para a direita. Will, que tinha intenções de desconversar toda aquela ideia de grana, de família e de possivelmente ser um mentiroso, coçou o queixo:

—Bem, qual a garantia que eu tenho de que tudo isso realmente são serviços equivalentes a cem moedas de ouro—O garoto ergueu a mão em sugestão.

—…!

—Não quero que me leve a mal, e eu realmente não conheço muitos desse lugar para dizer, mas me parece que uma moeda de ouro já é algo valioso.

O homem, ao escutar esses dizeres, contorceu o rosto e a expressão, e talvez o entendimento demorasse a cair sobre sua mente. Era incomum que questionassem suas contas em relação ao dinheiro:

—Eu não estou entendendo muito bem—Danny apoiou o cotovelo sobre a mesa—Nós te salvamos e você tá pensando em reclamar?

A tensão foi o sentimento que pairou no ar naquele momento. A voz de Danny não se elevou nem se modificou, e o tom tampouco era diferente. Porém, havia algo e uma insinuação bem no fundo das palavras dele que sugeriam indignação.

O rapaz sem memórias, vendo aquilo, deu uma leve recuada no argumento em relação a Danny, pois preferia evitar criar ou causar desconforto como uma das primeiras impressões.

Com esse fim, absteve-se de reclamar, mesmo que soubesse veementemente que se tratava de uma perspectiva correta aquela que tinha.

A hostilidade implícita no fundo da voz de Danny revelava isso:

—…

—Já chega Danny—Markus interveio com um sorriso brincalhão no rosto.

Até o momento, aquele homem estivera só observando, e sua interação na conversa havia sido mínima. Aquilo fazia Will se perguntar por que ele estava ali:

—Tirar proveito não faz parte da ideologia dos Leões de Aço e você sabe bem disso.

—Eu não estava tirando proveito—Protestou o líder.

—Então quer dizer que você realmente estava aumentando na quantidade de valor que queria me cobrar!

O garoto ficou indignado e, ao mesmo tempo, admirado com sua capacidade de perceber aquela questão, mas realmente não esperava aquilo tão repentinamente.

Aquele mundo em que acordara parecia bastante hostil, até demais pelo que conseguia identificar, e, assim sendo, voltou um olhar desconfiado para Danny:

—Eu estava testando a perspicácia do garoto—Danny deu essa desculpa esfarrapada.

—Não se faz de desentendido não—Will falou inquisitivo—Eu já te disse que eu não tenho um tostão no meu bolso.

—Pobre.

Danny deu de ombros mais uma vez diante da declaração enfática de um Will revoltado por tentarem se aproveitar dele:

—Bem, então acho melhor nós resolvermos isso logo, Will—Quem assim disse foi Markus, ajeitando o manto que vestia—Eu tenho assuntos mais sérios para tratar com Danny, então eu gostaria de até dar prioridade para eles, mas se tratando de dinheiro, essa possibilidade fica difícil quando envolve o meu amigo aqui.

—Da forma que você fala, parece que eu sou um desalmado ganancioso.

—…!

—…?

Tanto o garoto quanto o outro homem trocaram olhares inquietos, que não passaram despercebidos pelo líder da Irmandade, mas este último preferiu não fazer nenhum comentário:

—A minha curiosidade até me faz querer saber quais são esses assuntos, mas sei dos limites de estar aqui com vocês.

Will declarou aquilo com toda a consciência da audácia de suas palavras. Markus não o repreendeu, e os olhos de Danny, que eram semelhantes aos de seu amigo, também não se direcionavam para o garoto.

O conhecimento daquele mundo era uma coisa que Will queria obter, pois, até então, havia apenas visto a floresta, o lago, Liz sem roupas, ela mesma com roupas, a fera estranha para a qual Danny dera um nome estranho e a sede dos Leões de Aço.

As informações da Irmandade certamente poderiam ajudá-lo a começar a montar as peças do quebra-cabeça que ajudariam a responder quem ele era de fato. No entanto, a pressão de Danny por pagamento e a meticulosidade de Markus em manter o sigilo do assunto complicavam a questão:

—Danny pode ter exagerado no valor, mas eu concordo com a compensação—Markus cruzou os dedos sobre a mesa—Uma moeda de ouro, equivalente a cem moedas de prata seria o justo, afinal tivemos gastos significativos com você.

—Ou seja, você queria que eu ficasse com uma dívida eterna—O garoto sugeriu se virando para o homem que alisava o cavanhaque.

A compreensão do que eram cem moedas de ouro veio de maneira bem rápida à mente dele. Markus afirmava que os gastos haviam sido significativos, e, se uma moeda de ouro já era significativa, assustava-lhe o quanto poderia ser cem vezes o significativo:

—Bem, eu não vou te extorquir, então acho que nós podemos voltar para o nosso ponto de partida de tudo isso: qual é a sua família.

—…

—Bem, essa é uma questão meio complicada…

—Não é. É só nos dizer seu sobrenome—Cortou Danny, seco.

—…!

—Se tá tentando preservar algo ou querendo dar uma de espertinho, nós podemos te devolver onde eu te achei.

—Rassad—Will disse quase atropelando as palavras de Danny—Esse é o meu nome de família.

A cara que os dois fizeram, torcendo o nariz e arregalando os olhos, somente mostrava a estranheza daquele nome dado pelo garoto.

Ele, por outro lado, sabia que aquela estranheza era óbvia. Afinal, inventara aquele nome e muito se surpreenderia se ele de fato existisse naquele mundo que estava conhecendo aos poucos.

Não queria usar a mentira, embora aquela fosse a primeira arma que erguera, empunhando com a língua de forma inocente naquela floresta. Agora a usava mais uma vez para poder tentar acabar com a pressão de Danny.

Will, muito provavelmente, descobriria o quão pesada poderia ser aquele adágio.

Carregando aquelas expectativas que foram postas em uma questão tão simples quanto um nome, mas que, na mente do garoto, pareciam coisas mais complexas, Danny apenas coçou o cavanhaque como costumava fazer:

—Você por acaso já ouviu esse nome antes?—Danny falou após um segundo.

—Ele não me é estranho, eu diria que até familiar—Markus respondeu desviando o olhar para o teto.

—…!?

—Está praticamente na ponta da língua, não é possível que eu não vá me lembrar.

O Sub-líder colocou a língua para fora e logo em sequência estalou ela, como se manifestasse num gesto a sua fala.

O rapaz sem memórias, por sua vez, arregalou os olhos e ficou um pouco exasperado com o que ouvia à sua frente. Ou Danny havia descoberto a mentira, ou realmente o nome que havia inventado existia.

A confusão se abateu, pois o próprio Will não sabia se aquilo fora uma ideia repentina, uma união de letras para inventar uma desculpa, ou se poderia se tratar de uma memória. Assim sendo, não conseguia atestar acerca do seu suposto sobrenome: Rassad.

—Ah, lembrei—Markus estalou os dedos—Os Rassad eram uma família subordinada ao Visconde de Voncasher.

—Ah, então acho que nós podíamos repensar a questão de serem cem moedas de Ouro—Danny alargou seu sorriso quenera carregado com ganância—Você podia ter falado que tinha uma família abastada o da amnésia.

—Olha Danny, não é por nada não, mas a Liz por acaso te falou que eu não me lembro de muita coisa.

—Ela disse algo do tipo sim—Danny falou olhando para o nada—Mas eu confesso que estava mais preocupado com a questão do dinheiro.

—Quê?!—O descontentamento de Will não poderia ser pior—Olha, eu achava que a Liz era mercenária com a reputação, mas você é mercenário nas atitudes.

—Ah, obrigado, esse foi um elogio que eu não esperava de alguém como você o da amnésia.

—…?

Danny sorriu e Will ficou com uma expressão sem entender nada de como a sua tentativa de ofender o homem havia resultado naquilo.

Markus sorriu de forma divertida, mas se resignou a ficar na sua. Afinal, aquela questão era para ser resolvida entre Will e Danny. O objetivo do Sub-líder ali era outro:

—Sou um mercenário sim, Danny Valkys líder da Leões de Aço ao seu dispor.

—…?

—Eu acho que você tá deixando ele confuso, Danny.

—O da amnésia, por favor né, até mesmo ser um sujeito emburrecido tem limite.

Sem se dar conta e também sem criar motivo, mais uma vez Will acabou sendo alvo das ofensas despretensiosas de Danny.

Da mesma forma, o líder da Irmandade foi ridicularizado por não entender o contexto da palavra mercenário ali, mas tampouco percebeu essa reação:

—Vou tentar ser mais direto do que o Danny, porque não acho que nos dispúnhamos de muito tempo—Markus ajeitou o manto em suas costas—Se você é um integrante ou não da família Rassad, isso não poderia ser comprovado só com a sua palavra. Você tem traços deles, assim como também não tem, se bem que…

—…

—…!

—Assim como os Voncasher, todos os servos deles foram mortos há muito tempo, então fica muito difícil comprovar a tese de que você seria um deles.

—Mortos?—Indagou o garoto erguendo um dos olhos—Mas da forma que você fala, e também esse nome que eles parecem carregar, certamente devem ser importantes.

—Os Voncasher são uma das cinco grandes famílias que governam Losdrich—Markus inflou o peito orgulhoso enquanto falava.

—Você quis dizer que eram, né?—Danny deu de ombros descontraído.

—…

—O que me preocupa agora não são os Voncasher e nem mesmo os Rassad—O líder ergueu os olhos e então dessa vez seu tom de voz era sério—O que me incomoda é como você, William Rassad vai pagar pelos nossos serviços para com a sua vida. Você certamente nos deve isso.