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Capítulo 1 — Respirar

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Capítulo 1 — Respirar

Richard sentiu que havia caído em um lago de águas mortas. Ele nadou desesperadamente para cima até finalmente abrir os olhos.

Ficou encarando o teto, com a mente completamente vazia, como uma velha televisão tomada por estática, na qual fragmentos de imagens apareciam e desapareciam de tempos em tempos.

Uma parte daquelas memórias pertencia à Terra.

Ele costumava voltar para casa de bicicleta, mas havia uma determinada subida que era íngreme demais para ele. Sempre precisava descer e empurrar a bicicleta para conseguir atravessá-la.

O médico dizia que ele tinha uma constituição fraca. Seus colegas de quarto o chamavam de “tuberculoso”, e até quando postava vídeos curtos acabavam chamando-o de “cachorro magro”.

Depois do trabalho, ele também gostava de passar horas em fóruns — fóruns dedicados ao folclore e à literatura popular — e adorava principalmente as publicações mais estranhas e bizarras.

Quando alguém perguntava sobre tradições de feitiçaria, rituais populares de comunicação com espíritos ou cultura xamânica, ele tinha sempre uma resposta pronta e falava como um verdadeiro especialista.

Também havia escrito alguns artigos de pesquisa histórica meio amadores, e as pessoas daquele círculo frequentemente o elogiavam.

A outra parte das memórias pertencia a este mundo.

Eram as lembranças da infância e juventude de Richard Williams: os invernos, as ruas de pedra e os anéis de fumaça que seu pai soltava enquanto se sentava no escritório.

A mudança havia acontecido dez dias antes.

A família de sua mãe organizara uma reunião na Capital Imperial e, durante o encontro, seu primo lhe dera uma antiga relíquia.

— Isto é uma raridade que os comerciantes trouxeram do Continente Oriental. É para você.

Era um pequeno pingente de cobre, do tamanho de um polegar. Richard gostara bastante dele, pois os símbolos incompreensíveis gravados em sua superfície pareciam se assemelhar ao seu próprio nome.

Foi a partir daquele dia que o corpo de Richard começou a piorar cada vez mais. Primeiro veio a sonolência excessiva, depois as mãos e os pés frios, seguidos de tosse e febre.

Mesmo quando o médico apareceu, não conseguiu encontrar nada de anormal. Disse apenas que era uma gripe comum acompanhada de febre e receitou alguns medicamentos.

Depois de tomar os remédios naquele mesmo dia, Richard nunca mais acordou.

As memórias dos dois colidiram e se fundiram, sem que fosse mais possível distinguir uma da outra, até que finalmente se tornaram uma única pessoa.

Richard, agora carregando a alma de alguém do século XXI, aceitou rapidamente aquela realidade.

Mexeu as mãos e os pés e tocou a própria testa.

Conseguia se mover. Não estava com febre.

— Então isso significa que eu… transmigrei para outro mundo?

— Primeiro preciso descobrir o que está acontecendo.

Richard virou-se, saiu da cama e olhou pela janela.

Do outro lado da rua havia uma infinidade de casas espalhadas umas sobre as outras, enquanto colunas de fumaça negra subiam em direção ao céu.

Aquele lugar era Bristol, uma cidade manufatureira do distrito industrial do Império de Albion, no Continente Ocidental. Sua população passava facilmente dos duzentos mil habitantes.

— Idade Média? Não. A tecnologia provavelmente está em algum ponto da era moderna! Mas este mundo tem algumas coisas a mais que a minha vida passada… coisas com um certo toque mitológico.

Assim que terminou de falar, uma barra de informações flutuante apareceu repentinamente na periferia de sua visão.

【Corpo】

Respirar nível——

Dormir nível——

Andar nível——

Comer nível——

【Intelecto】

Conhecimento nível——

Raciocínio nível——

Percepção nível——

【Espírito】 (bloqueado)

Com certeza, ele tinha um cheat! Richard começou a explorá-lo, empolgado.

Ele conseguia enxergar claramente os diferentes ramos das duas grandes categorias, Corpo e Intelecto, mas, assim que tocava em qualquer um deles, a interface recuava imediatamente. Provavelmente ainda não estavam ativados.

Quanto ao Espírito, havia apenas um símbolo borrado em forma de cadeado.

Richard tentou tocar o cadeado com sua consciência, mas nada aconteceu. Quando tentou novamente, uma linha de texto ainda menor apareceu abaixo dele:

【Abra as quatro portas do Corpo antes de tentar novamente】

— Ah… então preciso atingir o nível necessário antes de desbloqueá-lo.

— Deixa para lá. Penso nisso depois.

【Pontos disponíveis: 0】

Richard suspirou. Não tinha absolutamente nada, e aquilo era um pouco frustrante.

Seu olhar percorreu a mesa de cabeceira, onde estava o pingente. Provavelmente sua mãe o havia retirado enquanto cuidava dele durante a febre e deixado ali.

Richard estendeu a mão e pegou o objeto, planejando guardá-lo por enquanto e encontrar algum lugar para jogá-lo fora depois.

Porém, no instante em que a ponta de seus dedos tocou a superfície de cobre, o painel se alterou.

【Pontos disponíveis: 0,1】

Richard parou.

O número… havia mudado!

Ele rapidamente ergueu o pingente, e os números começaram a subir novamente.

0,45… 0,63… 0,71… 0,91…

Por fim, o último fio de energia vazou da superfície de cobre, tão tênue que quase não podia ser sentido.

【Pontos disponíveis: 1】

O número parou.

Richard esfregou vigorosamente o azinhavre 1 do pingente e esperou mais um pouco. Quando percebeu que o número não aumentaria mais, finalmente devolveu o objeto à mesa de cabeceira.

— Será que meu primo sabia que essa coisa tinha algum problema?

Richard guardou aquela questão na memória e voltou os olhos para o painel.

【Pontos disponíveis: 1】

Isso significava que poderia investir aquele ponto nos ramos de Corpo ou Intelecto.

Todos podiam receber pontos, mas ele só tinha um.

Qual escolher?

O lado de Intelecto tinha três opções: Conhecimento, Raciocínio e Percepção. Qualquer uma delas seria útil, mas todas exigiam ação para acumular experiência.

Ler aumentava o Conhecimento. Pensar aumentava o Raciocínio. Observar aumentava a Percepção.

Em outras palavras, ele precisaria tomar a iniciativa e fazer alguma coisa para “ganhar experiência”.

A eficiência dependeria de quanta energia ele investisse, e sua energia, por sua vez, era limitada pelas condições de seu corpo.

Aquele corpo, no estado atual, era, para dizer o mínimo, um completo desastre.

Primeiro conserto o recipiente. Depois coloco alguma coisa dentro dele.

Então, melhor olhar para Corpo.

Dormir?

Passar o dia inteiro dormindo sem fazer absolutamente nada? Não dava.

Andar?

A condição daquele corpo era péssima demais.

Comer?

Se comer terra desse experiência, talvez ele pudesse considerar.

Então…

Respirar?

Essa era a opção mais adequada. A menos que estivesse morto, quem poderia deixar de respirar?

Richard respirou profundamente e concentrou sua atenção na palavra Respirar. Então, com sua consciência, empurrou-as suavemente.

Uma linha de texto surgiu:

【Confirmar?】

— Confirmar!

【Respirar nível 1】 Progresso: 0%

Foi como se uma corrente de ar refrescante invadisse sua traqueia. Seus pulmões pareciam gelo derretendo, e aquela sensação lentamente se espalhou, nutrindo todo o seu corpo.

Richard respirou profundamente, completamente embriagado pela sensação.

Na era industrial, os odores de ácido nítrico, ácido sulfúrico, ferrugem e fuligem presentes no ar deveriam ter invadido suas narinas, mas pareciam ter sido filtrados. Tudo o que restou foi a doçura do néctar das flores e a fragrância da grama fresca.

Richard não conseguiu conter o sorriso.

Escolhi certo!

Por causa da poluição do ar, as pessoas daquele lugar eram atormentadas por doenças respiratórias. Ele sequer sabia que uma respiração normal podia ser uma coisa tão maravilhosa.

Seu olhar passou rapidamente pelo número:

【Respirar nível 1】 Progresso: 0,01%

— Não faço ideia do que vai acontecer quando eu atingir a experiência máxima.

Ele umedeceu com a língua os lábios ressecados e rachados, vestiu-se e passou a examinar atentamente seu reflexo no espelho sobre o guarda-roupa.

Cabelos secos e quebradiços, maçãs do rosto protuberantes, braços e pernas finos. Era realmente um “cachorro magro”.

— Se eu ativar todos os ramos de Corpo, será que vou acabar virando um brutamontes?

Pensando nisso, abriu a porta e desceu as escadas. A sala de jantar seguia o clássico estilo europeu.

Seu pai, Roger Williams, estava sentado na cabeceira, segurando um jornal.

— Já levantou? — perguntou enquanto virava uma página. — Sua garganta ainda dói?

— Não mais.

— Tome cuidado na escola hoje. Não fique exposto ao vento.

— Pode deixar.

A voz de sua mãe veio da cozinha:

— Richard, quantas fatias de pão você consegue comer hoje?

— Duas são suficientes.

— Duas não são nada. Olhe só para você, está magro demais.

Ela resmungou enquanto continuava trabalhando:

— Vou colocar um ovo para você.

Quando sua mãe, Margaret, saiu da cozinha carregando um prato, Richard olhou para ela.

Ela tinha traços delicados e pele pálida. Caminhava com passos leves e lentos e, de vez em quando, levava a mão ao peito sem sequer perceber.

Era evidente que a poluição do ar havia lhe causado uma doença respiratória.

Richard esforçou-se para recuperar as lembranças fragmentadas.

Sua mãe vinha da família Ashford, da Capital Imperial. Era uma família poderosa, mas Margaret aparentemente não era muito próxima deles. Sempre que mencionava a família de seu pai, seu tom permanecia indiferente.

Sua irmã mais nova, Evelyn, foi a última a descer.

Seu cabelo cobria parcialmente o rosto, e o laço estava preso apenas de um lado, com a outra metade pendendo solta.

Evelyn era um ano mais nova que Richard e tinha os mesmos cabelos castanhos e olhos cinzentos. Ela herdara a beleza da mãe, mas a sua era completamente diferente: cheia de vida, vigor e juventude.

Se Evelyn havia herdado todas as qualidades da mãe, Richard parecia ter herdado todas as suas deficiências — como aquele corpo frágil, incapaz de suportar sequer uma rajada de vento.

Evelyn olhou para Richard, um pouco confusa. Havia percebido que o irmão estava diferente naquele dia.

Margaret trouxe os pratos e os colocou sobre a mesa: pão torrado com manteiga, um pequeno prato de geleia de laranja, duas xícaras de chá e o ovo extra que havia preparado para Richard.

Richard olhou para o ovo que somente ele recebera.

A situação financeira da família também não era das melhores, e ele percebeu que precisava encontrar uma maneira de ganhar dinheiro. Caso contrário, mesmo que desbloqueasse outras opções no ramo de Corpo, não teria dinheiro para melhorar suas habilidades.

Seu pai abaixou o jornal.

— A mensalidade de Greenwood aumentou vinte por cento este ano em comparação ao ano passado.

Dessa vez, Richard não abaixou a cabeça fingindo não ter escutado como fazia antigamente.

— Estive pensando em arrumar um emprego de meio período.

Até Evelyn levantou a cabeça para olhá-lo.

— Que tipo de emprego?

— Ainda estou procurando — respondeu Richard. — Talvez haja uma vaga de assistente na biblioteca. Ou eu poderia ajudar alguém a copiar documentos. Não deve atrapalhar minhas aulas.

Seu pai franziu a testa.

— Primeiro melhore suas notas. Depois pensamos sobre o emprego.

Evelyn mexeu a colher em seu chá e murmurou:

— Eu também posso…

— Você se concentre nos estudos.

A garota encolheu os ombros, baixou novamente o rosto e voltou sua atenção para a fatia de pão.

❧

  1. Azinhavre (ou zinabre) é uma camada de cor verde que se forma na superfície de objetos de cobre, latão ou bronze. Ela surge devido à corrosão do metal quando fica exposto ao ar úmido, oxigênio, água e gás carbônico ↩