LNCrawler

Capítulo 19 — Old Money

Ativei O Painel De Ocultismo — illusia.com.br · All chapters

Capítulo 19 — Old Money

Então ela terminou os estudos e saiu, depois ficou meia hora lendo sob o poste na entrada da escola, esperando?

Richard não apontou isso.

— Sua casa não fica no Distrito Sul? Não é fora do meu caminho?

— Não faz mal dar uma volta. Afinal, estou de carro. — Gray virou-se e abriu a porta. — Entre. É perigoso voltar a pé tão tarde.

No banco do motorista estava um homem de meia-idade uniformizado, com as têmporas completamente brancas. As duas mãos repousavam firmes sobre o volante.

— Este é McLeod, o motorista da minha família — apresentou Gray.

O homem lançou um olhar a Richard pelo retrovisor, mas não disse nada.

Trabalhava como motorista particular da família de Gray havia vinte anos, desde quando ela ainda era um bebê que cabia no colo.

A senhorita nunca esperava ninguém na entrada da escola. Era a primeira vez.

Mas, quando se é um velho criado, há certas coisas que, depois de vistas, devem ser tratadas como se não tivessem sido vistas. Era uma das regras básicas da profissão.

Richard entrou no carro.

Assim que a porta se fechou, o vento e o barulho da rua foram imediatamente abafados.

O interior tinha bancos de couro legítimo, acabamento em madeira de nogueira e um cinzeiro de cobre embutido no apoio de braço.

O couro dos bancos era macio até demais; assim que Richard se sentou, afundou cerca de meio centímetro.

Provavelmente, todo o mobiliário da sala de estar de sua casa não valia tanto quanto o interior daquele carro.

Gray sentou-se ao lado dele, separados por pouco mais de um braço de distância.

A garota fechou o livro e voltou os olhos para Richard.

Nos últimos dias, Richard Williams vinha mudando.

Ela se lembrava muito bem de como ele era um mês atrás.

O olhar daquele rapaz doente sempre pendia para baixo, humilde como uma erva daninha à beira da estrada.

Mas o rapaz diante dela agora era quase ofuscante.

Gray sabia que a mãe de Richard vinha da família Ashford.

Entre os membros das famílias tradicionais da Capital Imperial, era raro encontrar alguém de aparência desagradável. Margaret, em particular, tinha traços muito bonitos, e isso havia sido claramente transmitido ao filho.

A linha do nariz, a curva do arco das sobrancelhas, o leve estreitamento do maxilar… Sua estrutura óssea era excelente; antes, porém, a doença e a magreza escondiam tudo isso.

Com a melhora de sua saúde, aqueles traços começaram a aparecer.

Além disso, quando uma pessoa está confiante e tranquila, o próprio rosto muda junto.

Agora, em meio à multidão, Richard já podia ser considerado um belo rapaz.

— O que você estava lendo na biblioteca? — a garota perguntou, procurando deliberadamente um assunto.

— Livros variados. Estou me preparando para a Taça Cícero.

— Até às sete?

— Fiquei tão concentrado que não percebi a hora.

Gray lançou-lhe um olhar pensativo.

— Richard, você acredita nessas coisas?

A pergunta surgiu de repente, aparentemente sem relação com o assunto.

— Em quais coisas?

— Naquele dia do tabuleiro de invocação, você nos explicou o efeito ideomotor, falou sobre a concentração de oxigênio em espaços fechados… Ciência, razão, tudo tinha uma explicação lógica.

Os olhos azuis da garota se fixaram nele.

— Mas você ficou segurando aquela sacola de pano por tempo demais.

Richard permaneceu impassível, esperando que ela continuasse.

— Alguém que acredita puramente em explicações científicas não ficaria segurando por tanto tempo algo cuja procedência desconhece.

Do lado de fora, as silhuetas de fileiras de casas passavam pela janela, enquanto as chaminés se erguiam como linhas negras contra a noite.

— Não sei o que você está fazendo.

Gray percebeu que estava sendo um pouco agressiva e suavizou o tom:

— Mas tenho certeza de que a vela só se apagou depois que você terminou. Eu me lembro muito bem disso.

Depois de alguns segundos de silêncio, Richard perguntou:

— Gray, você se interessa por essas coisas?

— Desde pequena. — Ela respondeu com a mesma naturalidade de quem dissesse que gostava de comer morangos desde criança. — O escritório da minha família tem uma parede inteira coberta de livros antigos. A maioria foi deixada pelo meu avô materno.

Ela fez uma pausa.

— Quando eu era pequena, folheava aqueles livros e achava as ilustrações muito bonitas. Só mais tarde consegui entender o que elas representavam.

E parou por aí.

Richard não insistiu.

Os dois haviam sentido no outro o cheiro de alguém do mesmo tipo, mas nenhum dos dois tornou isso explícito.

O carro virou duas esquinas, e Gray pediu ao motorista que parasse em um cruzamento não muito distante da casa de Richard.

— Chegamos.

— Obrigado por hoje, Gray. — Richard abriu a porta, e o ar frio invadiu o veículo.

— Não foi nada.

A garota hesitou por um instante, então tirou do bolso um embrulho de papel e o estendeu a ele.

— Preparei estes scones para minha mãe. Pode experimentar e me dizer o que acha do sabor?

Richard pegou o embrulho.

O papel ainda estava levemente morno; ele havia permanecido no bolso da garota até aquele momento.

— O cheiro está ótimo. Vou saboreá-los com atenção.

Ele não recusou.

— Certo. Então até amanhã.

Gray claramente pareceu aliviada.

A porta se fechou. O carro partiu sob o poste, e as lanternas traseiras vermelhas desapareceram ao virar a esquina.

Richard ficou sob a luz do poste, segurando a mochila e olhando para o embrulho em suas mãos.

O aroma doce dos scones escapava pelas frestas do papel.

Depois de passar dez minutos no banco traseiro daquele carro, ele confirmou uma coisa: a situação financeira da família de Gray era, no mínimo, tão boa quanto a de Warren.

Warren era rico, mas o dinheiro de Warren tinha cheiro de novo-rico. Pedia o bife mais caro, falava mais alto que todo mundo e, quando gastava dinheiro, fazia questão de que todos percebessem que estava gastando.

Gray era diferente.

Aquele carro, aquele motorista, o sobretudo de lã em que quase não se conseguia encontrar sequer um ponto de costura… Tudo era de excelente qualidade, mas nada ostentava sua riqueza.

Old money — dinheiro antigo.

A expressão surgiu na mente de Richard, encaixando-se perfeitamente na estrutura de classes da Era Industrial.

A família de Warren havia enriquecido com minas de carvão e tinha, no máximo, três gerações de riqueza; a família de Gray acumulava patrimônio havia pelo menos cinco gerações, com discrição, estabilidade e tradição.

Naquele pequeno grupo de três pessoas, Warren era a fachada, Mason era o acompanhante que completava o número, e Gray era o verdadeiro núcleo.

Richard guardou o embrulho de papel e seguiu em direção à porta de casa.

Ainda faltavam alguns passos quando ele viu a luz atravessando a janela da sala de estar.

Antes mesmo que chegasse à escada, a porta da frente foi aberta por dentro.

Evelyn estava parada na entrada, de braços cruzados.

Seu olhar passou por cima do ombro de Richard e pousou na rua atrás dele.

Era evidente que alguém junto à janela havia testemunhado tudo.

— Mano.

— Hm.

— Você desceu de um carro.

— Hm.

— Um carro muito caro.

— Uma colega me trouxe para casa.

As sobrancelhas de Evelyn se franziram. Sua boca abriu e fechou, fechou e abriu novamente.

— Que colega? Homem ou mulher?

— Mulher.

Richard respondeu rápido demais, e a expressão de Evelyn desmoronou na mesma hora.

— Mu… mulher? Uma colega mulher? Que anda num carro daqueles?

— O motorista da família dela me trouxe para casa.

— Vo-você conhece uma garota cuja família tem um carro daqueles?

Na sala de estar, a cabeça do pai apareceu por cima da borda do jornal.

A mãe colocou metade do corpo para fora da porta da cozinha, ainda segurando um pano de prato.

— O que aconteceu?

— Nada. — Richard entrou em casa. — Fiquei até tarde na biblioteca, então uma colega que vinha para este lado me trouxe.

— Aquele carro que trouxe você… — Evelyn continuou atrás dele, sem parar de falar. — Aquilo é um Alvis, mano! Em todo Bristol, dá para contar nos dedos das duas mãos as famílias que têm um carro daqueles!

— Você também reconhece marcas de carro?

— Meu colega de classe trabalha numa concessionária!

Imagem de um Alvis da época:

3a5a93531aade362fd4ee14396b4fa0a.jpg