Capítulo 2 — Interromper a Investigação
Capítulo 2 — Interromper a Investigação
A manhã em Bristol estava cinzenta e enevoada. O ar era úmido e frio, carregando o cheiro de fumaça de carvão e o odor desagradável do rio que corria não muito longe dali. Na era industrial, os rios das cidades eram, na prática, grandes esgotos a céu aberto, e o fedor era insuportável.
Em uma esquina, uma senhora enrolada em um cachecol vendia tortas quentes por um centavo cada. O aroma atiçou o apetite de Richard, que não havia conseguido comer o suficiente naquela manhã.
O ônibus escolar chegou pontualmente às 7h45. Richard apertou o casaco contra o corpo e entrou na fila ao lado da irmã.
Evelyn já havia encontrado duas garotas e conversava baixinho com elas junto a um poste de iluminação. Richard não foi até lá. Assim que entrou no ônibus, escolheu um lugar junto à janela.
Enquanto observava a paisagem da era industrial passar diante dos olhos, Richard fez um balanço da própria situação.
Primeiro: seu corpo era fraco e ele precisava fazer o possível para fortalecê-lo. Respirar já estava melhorando sua condição, mas não podia esperar que a evolução de uma habilidade substituísse os cuidados necessários para recuperar a saúde. Talvez conseguisse encontrar alguma maneira de melhorar a alimentação.
Segundo: as finanças da família estavam apertadas, e seus pais estavam se esforçando para manter as aparências. Richard não sabia quão grande era a mobilidade social naquele mundo, mas, pelo menos naquela família, a ideia de “subir na vida” parecia estar gravada até nos ossos.
Terceiro: suas notas eram ruins. Quanto ruins, exatamente, ele descobriria assim que chegasse à escola.
Quarto…
Richard lançou um olhar para o painel transparente.
Em Corpo, apenas Respirar estava ativada; as outras três opções permaneciam apagadas. Em Intelecto, as três estavam cinzentas, enquanto Espírito continuava bloqueado.
A única coisa que podia afirmar com certeza era que Respirar continuava aumentando passivamente. Ele não precisava fazer nada de propósito. Enquanto estivesse vivo, pudesse se mover e continuasse comendo, bebendo e fazendo suas necessidades, a habilidade avançaria um pouquinho de cada vez.
Quando o ônibus chegou ao destino, Richard desceu junto com o restante dos alunos.
Depois de entrar na escola, todos precisavam primeiro ir à capela.
A oração matinal começava pontualmente às oito horas todos os dias, e a presença de todos os alunos era obrigatória.
As colunas de pedra da capela sustentavam arcos ogivais, enquanto os vitrais retratavam São Jorge matando o dragão.
Mas os vitrais já estavam velhos. A tinta do dragão havia descascado, e metade da lança de São Jorge também desaparecera.
Visto de longe, aquilo parecia apenas um velho cavaleiro cinzento encarando um lagarto igualmente velho.
Os alunos se sentavam de acordo com série e turma, meninos à esquerda e meninas à direita, separados como água e óleo.
O diretor permanecia imóvel no centro da primeira fileira, parecendo uma estátua de cera dentro de uma vitrine.
O pastor subiu ao púlpito, abriu o livro de orações e começou a conduzir a recitação:
— Senhor, ensinai-nos a estudar com diligência, para que possamos nos tornar instrumentos de Vossa vontade…
Richard permaneceu em sua fila, abaixando a cabeça e apenas movendo os lábios.
“Que tédio.”
O pastor continuou a recitar, e sua voz ecoava pelas paredes de pedra.
Quando a última palavra, “Amém”, finalmente caiu sobre a capela, todos a repetiram.
As vozes eram desiguais: alguns falavam com devoção, outros por obrigação e alguns sequer abriram a boca.
Quando a oração terminou, os alunos se dispersaram. Richard acompanhou os colegas até o prédio principal.
O brasão da escola estava gravado acima da entrada: um livro aberto, uma lamparina sobre suas páginas e, abaixo, uma inscrição em latim:
“Lux Rationis Semper Vincit.” (A Luz da Razão Sempre Triunfa.)
O irônico era que a primeira aula daquela manhã tratava justamente de algo que não parecia muito racional.
O professor Hutton tinha pouco mais de cinquenta anos, um corpo magro e as costas ligeiramente curvadas.
— Senhores — disse ele, colocando o giz no sulco da mesa —, hoje vamos estudar o processo de racionalização do ocultismo.
Alguém no fundo da sala soltou um suspiro baixo.
O professor Hutton não deu atenção e continuou:
— Quero começar fazendo uma pergunta.
— O que significa “equívoco”?
Por alguns instantes, reinou o silêncio. Todos esperavam que outra pessoa falasse primeiro. Ninguém queria chamar atenção para si naquele momento.
— Warren.
O professor Hutton apontou para o garoto no fundo da sala, cujo cabelo estava penteado com uma quantidade impressionante de brilhantina.
— Diga-nos.
Warren levantou-se preguiçosamente e respondeu sem pensar muito:
— Um equívoco é… entender alguma coisa errado?
— Por exemplo, os trovões. Antigamente, as pessoas diziam que eram causados por um deus furioso. Hoje sabemos que são descargas elétricas na atmosfera. Isso seria um equívoco?
— Muito bem — Hutton assentiu. — Então responda: entre “milagre” e “descarga elétrica atmosférica”, qual dessas duas explicações é mais verdadeira?
Warren franziu a testa.
— É claro que a eletricidade. Podemos medi-la, mas não podemos medir um deus. Os professores da Sociedade Real já deixaram isso bem claro.
— Muito bem colocado.
Hutton deu dois passos pela frente da sala.
— Quando você diz “verdadeira”, está se referindo àquilo que pode ser medido. Então, se existe algo capaz de ser percebido e produzir efeitos, mas que não pode ser medido por nenhum instrumento… isso é real?
Warren hesitou.
— Então… então provavelmente não existe. Nossa percepção pode estar errada. Instrumentos não mentem.
— “Instrumentos não mentem.”
Hutton repetiu a frase, saboreando-a por um instante.
— Muito bem. Vamos guardar essa afirmação. Ela será útil hoje.
Richard estava sentado na terceira fileira, junto à janela, com o livro aberto no capítulo correspondente.
O livro apresentava a narrativa convencional: o ocultismo seria produto das limitações cognitivas dos povos antigos e, conforme a ciência avançara, aqueles fenômenos teriam recebido explicações racionais.
Mas Hutton estava ensinando uma história diferente.
Ele falava sobre a casta sacerdotal da bacia do Rio da Terra Negra e sobre como aqueles sacerdotes haviam entrelaçado calendários astronômicos e sistemas de profecia até tornar as duas coisas inseparáveis.
Aqueles sacerdotes não eram os feiticeiros ou charlatães que as pessoas costumavam imaginar. Muito pelo contrário: eram algumas das pessoas mais instruídas de sua época.
— Não foi a superstição que obscureceu a ciência — explicou Hutton. — Essas pessoas compreendiam muito melhor o que estavam fazendo do que normalmente imaginamos.
Então passou aos templos do Mar Egeu 1 , lugares que haviam servido tanto como centros religiosos quanto como algumas das primeiras redes de troca de informações.
Peregrinos traziam notícias, e os sacerdotes eram responsáveis por organizá-las e interpretá-las. Eles dominavam sistemas de classificação que estranhos não conseguiam compreender e transformavam informações aparentemente desconexas em previsões úteis.
— O Oráculo de Delfos era extremamente preciso — disse Hutton. — Mas talvez não houvesse deus algum falando através dele. Talvez as pessoas de lá simplesmente estivessem ouvindo coisas que ninguém mais conseguia ouvir.
— Falando nisso, talvez alguns de vocês já tenham ouvido falar que, nos salões da Capital Imperial, a atividade social mais popular do momento já não é mais o whist.
Alguns alunos levantaram a cabeça.
— De duquesas a advogados licenciados, todos estão obcecados em fechar as cortinas das salas de estar, acender velas e convidar médiuns para conversar com os mortos.
Um murmúrio percorreu as últimas fileiras.
Hutton não se deixou interromper e continuou a aula.
Em seguida, passou aos registros das expedições coloniais no Novo Mundo.
Apresentou vários casos específicos. Eram incidentes descritos de maneira deliberadamente ambígua nos jornais, mas Hutton abriu os detalhes diante da classe.
Antes do desaparecimento de uma determinada expedição, três sobreviventes descreveram, separadamente, exatamente o mesmo som.
Depois que os militares destruíram um local ritual de uma população nativa, uma série de fenômenos anômalos ocorreu naquela região.
E havia ainda um relatório governamental que jamais fora divulgado. A conclusão havia sido completamente coberta de tinta.
Restara apenas uma última frase.
Hutton a pronunciou lentamente, em albionês:
— Recomendamos que novas investigações sejam interrompidas.
Ele largou o giz e virou-se para o quadro.
— Podem tirar suas próprias conclusões sobre o que essa frase significa.
Richard circulou a frase “ Interromper a investigação ” em seu caderno e colocou um ponto de interrogação ao lado.
Foi então que Hutton começou a escrever outra coisa no quadro.
De costas para os alunos, disse:
— É claro que o verdadeiro perigo nunca foram aqueles camponeses que colocavam chapéus nas encruzilhadas e ofereciam sacrifícios ao “deus das estradas”.
O giz raspou contra o quadro. Hutton terminou de escrever uma linha e então prosseguiu:
— O verdadeiro perigo são as coisas que aparecem dentro desses chapéus.
Alguém no fundo da sala soltou uma risadinha.
Warren, novamente.
— Professor Hutton, o senhor está contando histórias de fantasmas?
— Estou contando história.
Hutton sorriu gentilmente.
— Tudo o que aconteceu no passado é história. Inclusive aquilo que nunca foi registrado nos livros didáticos.
Então se virou.
Seu olhar pousou na terceira fileira, junto à janela.
— Richard.
Richard endireitou-se imediatamente em sua cadeira.
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- O Mar Egeu é um braço do mar Mediterrâneo situado entre a Grécia e a Turquia, famoso por abrigar milhares de ilhas e ser o berço de antigas civilizações. ↩