Capítulo 21 — Cercado por Belas Garotas
Capítulo 21 — Cercado por Belas Garotas
— Não é um bilhete. São materiais de estudo — corrigiu Richard.
— Material de estudo? — Mason colocou um pedaço de batata na boca. — Quantas palavras ela já falou com você? No total?
— Antes de hoje… menos de dez, provavelmente.
— Menos de dez palavras e ela já está copiando material de estudo à mão para você?
— Isso significa que ela gosta de ajudar os outros.
Mason revirou os olhos e olhou para Warren.
— Você acredita nisso?
Warren cortou o bife em pequenos pedaços e respondeu calmamente:
— Eu escolho acreditar no Richard.
— Você acredita numa…
— Mas também acredito que alguma garota possa estar interessada nele — Warren enfiou um pedaço de carne na boca. — As duas coisas não são contraditórias.
Gray comia em silêncio ao lado, até que o garfo raspou levemente no prato.
— Sobre o que vocês estão conversando? — perguntou ela, com um tom que não diferia em nada do habitual.
— Sobre a vida dolorosa do Richard, cercado por belas garotas — Mason riu.
— Ah.
A resposta de Gray foi fria, e ela passou a cortar o bife com um pouco mais de força.
Hugh estava sentado do outro lado de Richard e não havia participado da conversa em momento algum. Enfiou o pão na boca, tirou algumas migalhas da roupa e murmurou:
— Richard, você é mesmo uma aberração.
— O que foi?
— Há um mês você era o ninguém da turma. Agora é o centro dos rumores. Não acha que o roteiro pulou alguns capítulos?
— Você deveria ficar feliz. Eu fiquei famoso, então você também está se beneficiando.
— Me beneficiando de quê? Nenhuma bela garota me passou um bilhete.
— Vai acontecer.
— Não precisa me consolar.
Hugh tomou de uma vez o chá quente que restava na xícara, com a resignação heroica de quem já havia decidido jogar tudo para o alto.
Na outra extremidade do refeitório, Lillian estava sentada no lugar de sempre, junto à janela. À sua frente continuavam o prato habitual de sopa rala e pão. Ela comia de cabeça baixa, sem sequer olhar para a região central do salão.
Mas seus ouvidos estavam atentos.
A frase de Mason sobre estar “cercado por belas garotas” não havia sido dita exatamente em voz baixa.
Lillian pousou a colher na borda da tigela, apertando os lábios.
O papel que entregara a Richard era material de estudo. Sua intenção tinha sido absolutamente simples.
O conselho do Sr. West naquele dia da apresentação estava correto. Por acaso, ela encontrara um trecho de referência correspondente e simplesmente pensara em entregá-lo a um colega.
Afinal, Richard participaria da Taça Cícero. Era natural que ela oferecesse ajuda.
Só isso.
Só isso mesmo.
Ela mexeu vigorosamente a sopa dentro da tigela. Dessa vez, ela ainda estava quente.
Os dias avançaram um após o outro.
Durante o dia, aulas e orientação no almoço; à tarde, sempre que tinha tempo, Richard passava um período na biblioteca.
À noite, voltava para casa para fazer os deveres e decifrar os novos livros e, antes de dormir, praticava a técnica de respiração por quinze minutos.
Os números do painel eram a barra de progresso mais fiel que existia.
【 Respirar nível 2 】 Progresso: 12%
【 Conhecimento nível 1 】 Progresso: 98%
Respirar avançava de maneira constante graças ao bônus proporcionado pelo cultivo, enquanto o Conhecimento também estava prestes a atingir seu limite.
Na aula de geografia da manhã de sexta-feira, Richard estava sentado na sala ouvindo o professor explicar a distribuição das correntes marítimas na costa leste do Império de Albion.
Seu cérebro já conseguia operar confortavelmente em duas linhas de processamento simultâneas.
Uma acompanhava a explicação do professor, associando automaticamente os nomes e os sentidos das correntes marítimas ao mapa costeiro que ele havia memorizado anteriormente.
A outra, em segundo plano, digeria silenciosamente o conteúdo que ele havia decifrado na noite anterior a partir de outro texto cifrado.
O livro tratava da classificação de meios minerais e não tinha relação direta com a técnica de respiração, mas ajudava a compreender os mecanismos de selamento de objetos sobrenaturais.
O círculo dentro do triângulo na base daquela lamparina de óleo de esfinge, assim como as pequenas linhas que se estendiam pelas laterais do triângulo, correspondiam quase perfeitamente a um símbolo de selamento padrão descrito no livro.
Os conhecimentos começavam a construir pontes uns com os outros, e essas pontes se tornavam cada vez mais largas.
O painel mudou.
【 Conhecimento nível 2 】 Progresso: 0%
A mudança foi ainda mais silenciosa que a evolução de Respirar.
Não houve fluxo de calor nem vibração no peito.
Mas, quando o Conhecimento chegou ao nível 2, Richard sentiu como se alguém tivesse ajustado o contraste de seu cérebro.
Os nomes das correntes marítimas escritos pelo professor no quadro ficaram mais nítidos, e a velocidade de processamento das informações aumentou.
Um conceito entrava, os conhecimentos antigos relacionados surgiam automaticamente em fila, e as conexões entre o novo e o antigo pareciam destacadas.
Se o nível 1 havia sido como trocar uma conexão discada por banda larga, o nível 2 era como trocar a banda larga por fibra óptica.
Sua velocidade de assimilação dos conhecimentos básicos de vários idiomas e campos acadêmicos havia aumentado novamente.
Também houve uma melhora na profundidade. Embora ainda não chegasse aos efeitos da capacidade de Raciocínio, pelo menos ele não bateria contra uma parede tão rapidamente ao lidar com assuntos difíceis.
O benefício mais direto era simples: a velocidade de decifração de textos cifrados aumentaria novamente.
O que antes exigia três dias de trabalho agora poderia ser concluído em uma única noite.
Quando o sinal tocou, Richard fechou o livro e já tinha o plano para aquela noite na cabeça.
Naquela noite, depois que toda a família adormeceu, Richard acendeu o abajur e começou a trabalhar.
Como de costume, deixou a janela aberta apenas por uma fresta. O vento frio entrou por ela e fez as pontas das folhas sobre a mesa se levantarem ligeiramente.
À sua frente estava outro livro retirado das estantes do terceiro andar.
Era o terceiro candidato que havia selecionado, mas, anteriormente, não tivera tempo suficiente para examiná-lo com atenção.
Com o livro Do Templo ao Púlpito que o Sr. Holland lhe dera servindo como obra de referência, somado à experiência acumulada nas duas decifrações anteriores e ao auxílio do Conhecimento nível 2, dessa vez o progresso foi muito mais rápido.
Ele já havia se familiarizado com os padrões de substituição dos termos religiosos, e o caminho para rastrear suas origens etimológicas estava cada vez mais curto.
Antes, precisava passar um bom tempo consultando o manual de etimologia para descobrir raízes pouco comuns. Agora, elas simplesmente surgiam em sua mente.
Duas horas depois, todos os trechos cifrados do apêndice do novo livro haviam sido restaurados.
O conteúdo era uma explicação complementar sobre técnicas de respiração, incluindo respostas para algumas perguntas frequentes e precauções para práticas mais avançadas.
Uma delas chamou sua atenção:
“Quando o praticante conseguir perceber de forma estável o calor no peito durante a retenção da respiração, e esse calor persistir por mais tempo que a própria retenção — isto é, continuar presente durante a expiração —, significa que a retenção de éter começou a formar um microciclo estável. Este é o primeiro marco da técnica de Respiração Introdutória.”
Richard relembrou as sensações que tivera durante os últimos dias de prática.
O calor no peito realmente havia se tornado mais perceptível a cada sessão, mas ainda não persistia até a fase da expiração.
Ainda havia alguma distância até o primeiro marco, mas a direção estava correta.
Richard dobrou a tradução e a trancou na gaveta antes de apagar o abajur.
Permaneceu deitado por algum tempo e realizou a última sessão de prática da técnica de respiração.
Na manhã de sábado, Richard saiu sozinho.
O motivo era o mesmo da última vez: caminhar um pouco, dar uma volta.
Dessa vez, Evelyn não o acompanhou. Ela precisava ficar em casa para ajudar a mãe com as tarefas domésticas.
Antes de sair, porém, ela fez questão de adverti-lo no pé da escada:
— Não fique mexendo naquela lamparina velha dos outros!
— Eu sei.
— E também não volte a andar no carro dos outros!
— … Eu sei.
Na viela da esquina da Rua Grafton, a placa de madeira de “Antiguidades Clement” continuava pendurada no mesmo lugar.
Havia uma nova mancha de fezes de pássaro sobre o desenho da chaleira de cobre, provavelmente deixada por algum pombo das redondezas.
Quando entrou, o sino de cobre tocou.
O velho levantou a cabeça atrás do balcão.
Ao ver Richard, soltou um “oh” e voltou a abaixá-la.
— A lamparina ainda está aqui.
— Eu sei. Só vim dar uma olhada.
— Pode olhar. Só não fique mexendo.
Richard foi direto até a lamparina de óleo de esfinge.
Ela continuava na estante, exatamente no mesmo lugar, e a camada de verdete na superfície também não havia mudado.
Ele estendeu a mão, pegou a lamparina e sentou-se na cadeira ao lado.
O painel mudou.
【 Pontos disponíveis: 0,11 】
Ele começou a envolver o corpo da lamparina com as duas mãos, esperando o número aumentar.
0,12… 0,13…
A velocidade era ainda menor que da última vez.
Anteriormente, o valor havia aumentado cerca de 0,01 por minuto. Agora, três minutos haviam se passado e só então subira 0,01.
Richard mudou de posição, apoiou o corpo da lamparina sobre os joelhos e cobriu com as palmas das mãos a região das asas, justamente onde o verdete vermelho-escuro estava mais concentrado.
0,14…
Mais uma longa espera.
Cinco minutos se passaram até que o número chegasse a 0,15.
Nesse ritmo, mesmo que passasse o dia inteiro sentado ali, não conseguiria absorver nem 0,5.
E havia um problema ainda mais importante: aquela loja de antiguidades não era sua sala de estar.
O velho tornou a aparecer por trás do balcão.
Ele olhou para Richard sentado no canto, abraçando a lamparina e cobrindo-a firmemente com as duas mãos, como se estivesse fazendo ressuscitação cardiopulmonar em um gato de cobre.
— Rapaz.
— Hm?
— O que você está fazendo?
— Sentindo as inscrições — respondeu Richard, inventando a maior bobagem com a maior naturalidade.
— Não precisa usar as mãos para sentir as inscrições.
O velho já começava a demonstrar impaciência.
— Suas palmas vão suar. O suor em contato com o cobre acelera a corrosão, e a cor das asas dessa lamparina já está instável.
— Desculpe-me.
Richard colocou a lamparina de volta na estante.
0,15.
Só havia absorvido 0,15.
Ele fez as contas mentalmente.
Para absorver completamente o que havia dentro da lamparina , mantendo a velocidade atual, precisaria voltar à loja mais de uma dezena de vezes e permanecer ali várias horas em cada visita.
… Se continuasse esfregando aquela coisa desse jeito, até o cobre ganharia uma bela pátina 1 .
Sem mencionar se o velho acabaria expulsando-o, só o tempo investido já tornava aquilo pouco vantajoso.
Richard decidiu mudar de estratégia.
— Sr. Clement, há outras coisas antigas na loja?
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- A pátina é uma camada ou alteração de cor que se forma na superfície de metais (como cobre e bronze) devido à oxidação natural ou química. ↩