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Capítulo 23 — Linhagem Vampírica

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Capítulo 23 — Linhagem Vampírica

Na última semana do mês, algo estranho aconteceu em Greenwood.

Havia um funcionário da escola chamado Perkins, responsável por limpar o corredor subterrâneo todas as manhãs. Sua tarefa diária era descer pela escadaria leste com um balde e um esfregão e seguir limpando até a saída oeste. Fazia aquilo havia vários anos; poderia percorrer o caminho de olhos fechados.

Na manhã de terça-feira, porém, quando os outros funcionários chegaram para trabalhar, encontraram Perkins encolhido nos degraus da escadaria. O esfregão estava caído a três passos de distância, o balde havia virado e a água suja escorria pelos degraus.

Perkins tremia dos pés à cabeça. A camisa estava encharcada de suor frio e grudada nas costas.

Alguém o ajudou a se levantar e lhe deu um gole de chá quente.

Ele só repetia a mesma frase:

— Tem alguma coisa respirando lá embaixo.

Quando perguntaram o que era, ele não soube explicar.

Quando perguntaram o que tinha visto, balançou a cabeça e disse que não tinha visto absolutamente nada.

O diagnóstico do médico da escola foi uma reação de estresse causada por tensão psicológica. Recomendou que Perkins voltasse para casa e descansasse por duas semanas.

Ele foi levado para casa ainda tremendo e continuou assim até sair pelos portões da escola.

Os alunos viram o que aconteceu e, na hora do almoço, metade do refeitório já estava discutindo o caso de Perkins.

Richard tinha acabado de beber todo o caldo de rabo de boi quando Warren se aproximou pela diagonal.

Ele segurava uma folha amarelada, dobrada várias vezes, com as bordas já desgastadas.

— Escutem… vocês sabem o que está enterrado sob o campo de esportes de Greenwood?

Ele bateu o papel sobre a mesa.

— Lá vem ele de novo — disse Mason, mastigando pão, aparentemente já acostumado com os boatos de Warren.

— Não, desta vez é de verdade. — Warren tocou o papel com a ponta do dedo. — Meu primo encontrou isto nos arquivos antigos da Biblioteca Municipal. É uma reprodução do jornal original.

Gray largou os talheres e lançou um olhar para a folha.

Hugh ergueu o rosto do prato, e alguns alunos que estavam comendo por perto, ao ouvirem a movimentação, também se aproximaram.

Mason dizia não estar interessado, mas não teve coragem de sair do lugar.

Warren abriu a reprodução sobre a mesa.

A impressão tipográfica havia ficado bastante borrada com a reprodução, mas a grande manchete ainda podia ser lida:

Jornal Noturno de Bristol, edição de novembro de 1862 do Novo Calendário.

— Há cerca de cinquenta anos. — Ele apontou para o trecho circulado em vermelho. — A área a leste de Greenwood, onde hoje ficam o campo de esportes e o novo ginásio, antigamente era uma fábrica têxtil.

— Certa noite, durante o turno noturno, uma operária chamada Beth parou de respirar repentinamente na seção de fiação.

— O jeito como ela morreu foi muito estranho. Havia dois buracos no pescoço.

Warren pegou o garfo do prato e fez dois movimentos junto ao próprio pescoço:

— Como se tivessem enfiado dois pregos e depois os arrancado. Eram redondos e profundos, mas não havia sangue.

Ele largou o garfo.

— Vocês já viram carne seca ao vento depois de passar um verão inteiro exposta? O efeito era aquele. Uma operária saudável, viva e forte, transformada em um cadáver ressecado com menos da metade do peso normal.

Gray franziu ligeiramente a testa.

Mason esqueceu de mastigar o pão que tinha na boca.

— A polícia classificou o caso na época como “morte por causa desconhecida”. — Warren virou a página do recorte. — O corpo foi levado de volta para casa para o enterro. Naquela época, famílias pobres não iam a funerárias; o caixão simplesmente ficava no cômodo principal da própria casa.

— Mas, na terceira noite…

Ele bateu o garfo com força sobre a mesa.

— O cadáver de Beth saiu rastejando do caixão.

O entorno ficou silencioso de repente. Todos prestavam atenção.

— A tampa do caixão foi empurrada de dentro para fora. O barulho de algo arranhando a madeira, rangendo sem parar, acordou as pessoas que dormiam na casa ao lado. A mãe de Beth ouviu o barulho, saiu para ver o que estava acontecendo e encontrou a filha em pé ao lado do caixão.

Warren interrompeu a imitação do arranhar sobre a mesa.

— Mas aquilo já não era mais a filha dela.

— Primeiro, matou a própria mãe.

Alguém à mesa puxou o ar entre os dentes.

— O método de matar era igual ao que havia causado a morte dela. Dois buracos no pescoço, e a pessoa era drenada até secar. Depois de sugar toda a família, ela saiu de casa e voltou até a fábrica têxtil, onde o turno noturno ainda estava acontecendo.

— Naquela noite, as operárias tentaram resistir. Algumas bateram na cabeça dela com lançadeiras de ferro, outras enfiaram grandes tesouras de cortar tecido nas costas dela… mas nada funcionou.

— As lâminas atingiam o corpo dela como se estivessem golpeando um bloco de ferro. Não saía sangue, nem a pele se rompia.

O ruído de fundo do refeitório pareceu subitamente muito mais estridente.

A concha da funcionária que servia a comida bateu no balde de metal com um clang , fazendo uma garota dos anos iniciais ao lado encolher a cabeça de susto.

— E depois? — alguém perguntou.

— Depois, as autoridades mandaram algumas pessoas para lá. — Warren virou o recorte para o verso. — O jornal os chamou de “Comitê Especial de Inspeção Sanitária”. Um nome bem estranho. Quando chegaram, lacraram a fábrica, mas dois inspetores morreram durante a operação.

— E como mataram aquela coisa? — Mason finalmente engoliu o pão que estava na boca.

— Não mataram.

Warren virou a reprodução para que todos pudessem ver o trecho, escrito em letras menores, no verso.

— O final do jornal só diz uma coisa: “A situação foi devidamente resolvida”.

— Mas a fábrica foi demolida e a fundação foi lacrada. A versão oficial era “risco sanitário”.

Ele apontou com a ponta do dedo para uma anotação manuscrita e rabiscada na última linha da reprodução:

— Há muito tempo circula um boato de que aquela coisa não foi destruída. Ela foi selada nas profundezas da fundação, junto com as…

Warren segurou a palavra “almas injustiçadas” na língua por um instante antes de finalmente soltá-la.

— Depois, o terreno passou pelas mãos de vários proprietários, até que Greenwood o comprou para expandir a escola. O campo de esportes e o ginásio foram construídos exatamente sobre o antigo local.

— Então o campo onde a gente corre nas aulas de Educação Física… — Warren apontou para o chão com o garfo. — Pode ter aquela coisa selada logo abaixo.

A mesa ficou em silêncio por vários segundos.

A garota dos anos iniciais que havia se assustado levantou-se às pressas, pegou a bandeja e começou a repetir:

— Não quero mais ouvir isso, não quero mais ouvir isso…

Então saiu apressada.

Warren quis rir, mas não conseguiu. Parecia bastante satisfeito com o efeito que sua história havia causado.

— Acreditem ou não, é problema de vocês. Mas, com as coisas que têm acontecido recentemente no subsolo…

Ele ergueu o queixo na direção do lado de fora.

— O velho Perkins ficou daquele jeito de tanto medo. E ouvi dizer que até alguns equipamentos fazem fila sozinhos no meio da noite… Vocês acham que é coincidência?

Richard segurou a xícara de chá e bebeu o último gole.

Ele separou mentalmente algumas palavras-chave da história de Warren:

Dois buracos no pescoço, corpo drenado até secar, cadáver que volta a se mover, força descomunal, lâminas que não provocam sangramento nem conseguem ferir a pele.

No Apêndice C daquele livro, além de uma descrição geral do que existia por trás do Véu, também havia menções a algumas criaturas malignas comuns.

Entre elas estava um trecho sobre as Linhagens Vampíricas.

Não eram espécies nativas do outro lado do Véu, mas mutações produzidas após uma contaminação profunda por éter.

As Linhagens Vampíricas alimentavam-se de força vital. Seu método de alimentação normalmente consistia em perfurar a vítima com os dentes e extrair simultaneamente o éter e o sangue de seu corpo.

As pessoas mortas por uma Linhagem Vampírica carregavam dentro de si resíduos da contaminação etérica deixada durante a alimentação.

Na esmagadora maioria dos casos, esses resíduos desapareciam junto com a força vital após a morte do hospedeiro.

Porém, em uma parcela ínfima dos casos, se o hospedeiro possuísse uma afinidade com o Éter que ainda não tivesse sido ativada, os resíduos contaminantes reagiriam com o cadáver.

Aquilo não podia ser considerado uma ressurreição. O cadáver não recuperava a vida.

A contaminação etérica ocupava o corpo já vazio e o fazia se mover, alimentar-se e caçar.

O termo usado no texto para esse tipo de criatura era Carniçal.