Capítulo 3 — O Tabuleiro de Invocação
Capítulo 3 — O Tabuleiro de Invocação
— Percebi que você ficou fazendo anotações o tempo todo — disse o professor Hutton. — Diga-me o que anotou.
O antigo Richard jamais tomava a iniciativa de falar durante as aulas. Era o tipo de aluno tão discreto que o professor precisava consultar a lista de chamada para se lembrar de seu nome.
Mas o Richard de agora era diferente.
Ele abaixou os olhos para o caderno.
— Eu estava pensando naquele relatório.
Levantou-se.
— A frase “recomendamos que novas investigações sejam interrompidas” é, por si só, uma contradição.
O professor Hutton ergueu ligeiramente as sobrancelhas.
— Continue.
— Se a conclusão da investigação fosse “não existem anomalias”, a formulação normal seria algo como: “investigação concluída; nenhum fenômeno digno de atenção foi encontrado”.
— Mas não foi isso que escreveram. Eles escreveram “interromper a investigação”.
Richard fez uma pausa.
— Essa frase pressupõe que existe alguma coisa que merece ser investigada, mas que eles decidiram não continuar investigando.
A sala ficou em silêncio por um instante.
— Muito bem analisado, Richard. Pode se sentar.
Quando Richard voltou à cadeira, sentiu vários olhares sobre si.
Warren, no fundo da sala, era quem parecia mais surpreso.
Desde quando aquele doente calado ficou tão bom de conversa?
O refeitório de Greenwood era um salão de teto alto. Dutos de ventilação atravessavam o teto, supostamente para dissipar o calor, embora sua eficiência sempre deixasse a desejar.
Retratos dos membros do conselho escolar e dos patrocinadores estavam pendurados nas paredes. Os cavalheiros das pinturas pareciam observar os alunos de cima, como se estivessem prontos para julgar a qualquer momento suas maneiras à mesa.
Richard avançava lentamente na fila com a bandeja nas mãos.
Ao seu lado estava Hugh Fenton, seu colega de turma e um dos poucos amigos que tinha na escola.
O cabelo do garoto nunca ficava penteado direito. Naquele momento, ele empurrou a franja para o lado com a mão, mas dois segundos depois ela já havia voltado ao lugar.
A situação de Hugh na escola era parecida com a de Richard. Seu pai trabalhava como despachante nos correios, enquanto sua mãe lecionava no ensino médio.
A família também precisava fazer um grande esforço para pagar as mensalidades de Greenwood e, naquele refeitório, permanecia sempre na área que lhe cabia.
— Hoje tem sopa de rabo de boi com tomate — Hugh se aproximou e disse baixinho. — Senti o cheiro. Deve ser de hoje, não de ontem.
— Hmm.
Richard avançou mais um passo.
— Quanto custa uma tigela?
— Cinco centavos.
Richard enfiou a mão no bolso e contou as moedas de cobre. Não disse nada.
Empurrou a bandeja para frente, agradeceu à funcionária no balcão e saiu de lado com uma xícara de chá quente gratuito.
O chá quente era ilimitado, o que podia ser considerado uma das poucas demonstrações de generosidade que ainda restavam em Greenwood.
Hugh veio atrás dele e deu um sorriso constrangido. Também não gastou dinheiro com a sopa.
Os dois encontraram uma pequena mesa junto à janela e se sentaram.
Já havia alguém sentado ali. Seu nome era Barrett, outro colega de turma dos dois, que naquele momento mastigava lentamente.
Seu pão praticamente não tinha nada dentro ou por cima, apenas uma fina camada de manteiga de amendoim.
Quando viu Richard e Hugh se aproximarem, Barrett se moveu um pouco para o lado, sem dizer nada.
Os três se reuniram ao redor da pequena mesa e cuidaram cada um do próprio almoço.
O barulho do refeitório era dividido em camadas.
A região central era a mais movimentada, ocupada pelos alunos de famílias importantes.
Bristol, afinal, era uma cidade pequena. Não havia muitos aristocratas de verdade; a maioria era composta por filhos e netos de comerciantes ricos ou membros de famílias influentes.
Em geral, os avós haviam construído a fortuna, enquanto os pais ingressaram em escritórios de advocacia ou no Parlamento.
Aquela geração, por sua vez, crescera com a sensação natural de que havia uma parede separando-os daqueles pobres-diabos de roupas encardidas.
Enquanto tomava seu chá quente, o olhar de Richard percorreu casualmente o salão.
Em um canto junto à janela, uma garota estava sentada sozinha.
Lillian Hayward.
Richard recuperou o nome de suas memórias. Era uma das garotas mais bonitas e inteligentes da turma.
Seus traços eram delicados, com sobrancelhas suaves e um nariz fino e reto. Todo o seu rosto parecia ter sido cuidadosamente desenhado a lápis.
A refeição diante dela era praticamente igual à de Richard: uma sopa rala, pão e nenhuma carne.
Talvez percebendo que alguém a observava, a garota levantou a cabeça.
Quando notou que Richard tinha praticamente a mesma comida em seu prato, seus olhos vacilaram por um instante.
— Ei, mano, para de olhar.
Uma mão bateu com força em seu ombro. Evelyn havia aparecido sabe-se lá quando.
Ela segurava um pequeno embrulho de papel.
— Toma. Fiz esses biscoitos amanteigados na aula de Economia Doméstica. Estou tentando emagrecer, então me ajuda a acabar com eles.
Enfiou o embrulho nas mãos de Richard e, sem esperar resposta, saiu correndo sem sequer olhar para trás.
Richard abriu o pacote. Os biscoitos estavam dourados, com as bordas levemente queimadas.
Ele olhou para as costas da irmã, que se afastava com seus passos leves.
Emagrecer? Magra daquele jeito, parecendo um graveto, e ainda quer emagrecer?
Richard partiu um biscoito e entregou metade a cada um dos dois colegas ao seu redor antes de colocar um pedaço na própria boca.
Crocante, doce e salgado. A manteiga derreteu sobre sua língua.
Hugh segurou a metade do biscoito entre os dedos e murmurou:
— Sua irmã é muito fofa.
— Isso nem precisava dizer.
Richard tomou um gole de chá.
Quando o sinal da última aula tocou, Richard permaneceu em seu lugar arrumando a mochila.
Alguns garotos se empurravam enquanto disputavam espaço na porta, e suas risadas e brincadeiras se espalhavam pela sala como água.
— Richard.
Um garoto alto e robusto parou ao lado de sua carteira, acompanhado por um rapaz e uma garota.
O rapaz era Mason, que sempre entrava na onda dos outros.
A garota era Gray, quieta e de boa família, razão pela qual também fazia parte daquele pequeno círculo.
— Aquilo que você falou hoje — disse Warren, apoiando uma mão na ponta da carteira. — Para ser sincero, foi um pouco inesperado.
— Só falei o que pensei.
Richard enfiou o caderno na mochila.
— Não foi simplesmente o que você pensou — Warren corrigiu. — Aquele velho Hutton não costuma elogiar ninguém em sala.
— E daí?
— Daí que talvez você se interesse pelo que vou lhe mostrar.
O tom de Warren era educado, mas carregava aquela confiança de quem já esperava que o outro aceitasse.
— O quê?
Richard levantou a mochila e virou-se para ele.
Warren tirou um saco de pano do bolso do casaco e o balançou na mão.
Abriu um sorriso misterioso.
— Um tabuleiro de invocação. Consegui com um velho que compra e vende antiguidades. Dizem que veio do Continente Oriental. É autêntico.
Mason se intrometeu, soltando uma risadinha:
— É aquela brincadeira em que a mesa se mexe, sabe? Fingir que está invocando espíritos para se divertir.
Richard olhou para o saco de pano.
Em sua vida passada, aquele objeto tinha um nome correspondente: Tabuleiro Ouija. Seu funcionamento era atribuído ao chamado “efeito ideomotor”.
Os participantes aplicavam inconscientemente força na mesma direção, fazendo o objeto se mover pela força combinada.
Como não percebiam que eram eles próprios que o estavam movimentando, acreditavam que uma força externa estava agindo sobre o objeto e se convenciam de que haviam entrado em contato com algum fenômeno misterioso.
Ciência. Razão. Uma explicação perfeitamente plausível.
Essa era a versão dos livros didáticos.
Mas então Richard se lembrou das palavras que o professor Hutton havia dito naquela manhã:
O verdadeiro perigo são as coisas que aparecem dentro desses chapéus.
Pensando nisso, Richard já começava a dizer:
— Eu hoje não…
No meio da frase, porém, sentiu algo estranho no painel.
O saco de pano estava a cerca de meio braço de distância dele, enquanto Warren o balançava despreocupadamente.
E, naquela distância, o número na periferia de sua consciência se moveu.
【Pontos disponíveis: 0,1】