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Capítulo 6 — A Taça Cícero

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Capítulo 6 — A Taça Cícero

Hoje era sexta-feira. No ônibus escolar a caminho da escola, Evelyn estava sentada uma fileira atrás dele, espremida junto de duas colegas.

Ela cutucou as costas de Richard:

— Mano, você realmente voltou andando para casa ontem?

— Uhum.

— Cansou?

— Mais ou menos.

— Mentiroso. — Evelyn revirou os olhos. — A mãe disse que, quando você chegou, dava para torcer sua camisa e tirar água dela.

Richard não respondeu, mas a garota ao lado não conseguiu conter uma risadinha.

Evelyn lançou um olhar irritado para ela.

As aulas da manhã estavam lotadas: duas aulas seguidas de História e Geografia.

Sentado na sala, Richard descobriu pela primeira vez que assistir às aulas não precisava ser tão sofrido.

Antes, ouvir uma aula era como estar separado por uma camada de água: as palavras do professor chegavam aos ouvidos e começavam a ecoar, tornando impossível distinguir os pontos principais.

Agora era diferente. A mudança trazida pelo despertar de Conhecimento fazia seu cérebro classificar as informações automaticamente.

Quando o professor apresentava um conceito, ele conseguia rapidamente conectá-lo a algo que já conhecia.

Quando falava sobre a distribuição das colônias no Novo Mundo, a costa que haviam desenhado na aula de Geografia do dia anterior surgia automaticamente em sua mente; quando falava sobre a evolução da máquina a vapor, aqueles anos e nomes deixavam de ser números amontoados à força.

Eles se organizavam automaticamente em uma linha do tempo, e as relações de causa e efeito ficavam claras de imediato.

【Conhecimento nível 1】— Progresso: 5%

As duas aulas haviam rendido um bom avanço. A eficiência do aprendizado em sala realmente era maior do que estudar sozinho pelos livros.

Se mantivesse aquele ritmo todos os dias, somado aos estudos por conta própria depois das aulas, alcançar o nível 2 dentro de um mês era algo previsível — talvez até mais rápido.

A terceira aula era Latim. O Latim era a linha divisória entre a “educação dos cavalheiros” e a “educação dos artesãos”.

Os alunos que conseguiam boas notas em Latim tinham a oportunidade de se candidatar à Universidade da Capital Imperial depois da formatura; os que não conseguiam, em geral só podiam ir para as faculdades técnicas locais.

O professor de Latim, Sr. Holland, tinha pouco mais de quarenta anos, um corpo largo e robusto e três queixos empilhados sobre a gola.

Sua voz normalmente era indistinta, e os alunos o chamavam pelas costas de “o gordo com uma noz na boca”.

Mas bastava começar a recitar Latim para ele se transformar num galo cantando: entonação perfeita, ritmo marcado e uma voz poderosa.

— Hoje vamos revisar a primeira Catilinária , de Cícero.

Ele abriu o livro e colocou uma das mãos atrás das costas:

— Warren, recite o terceiro parágrafo.

Warren se levantou e recitou aos tropeços, mas conseguiu chegar ao fim.

Filhos de famílias ricas tinham professores particulares desde pequenos, então pelo menos possuíam uma base.

— Nada mal. Sente-se. — Holland virou-se para o fundo da sala. — Hugh, sua vez.

O rosto de Hugh ficou pálido assim que se levantou.

Ele abriu a boca e começou a recitar, gaguejando:

— Quo usque tandem abutere, Catilina, patientia nostra… (Até quando, ó Catilina, abusarás da nossa paciência…?)

E travou ali.

Holland, sem expressão, deu a deixa:

— Quam diu etiam furor iste tuus nos eludet? (Por quanto tempo ainda essa tua loucura zombará de nós?)

Hugh repetiu a frase com o rosto vermelho, mas travou novamente logo depois.

— Está bom. Sente-se.

Holland continuou chamando os alunos na ordem. Logo atrás de Hugh estava Richard.

— Richard, tente você.

Algumas cabeças curiosas se viraram.

Havia uma ponta de schadenfreude 1 em seus olhares. Aquele garoto doente sempre ficava entre os últimos da turma em Latim.

Richard rapidamente passou os olhos pelo livro e então o fechou, levantando-se.

Em suas memórias, aquele trecho sempre fora um pesadelo.

O Latim já era uma língua difícil de pronunciar, e as frases longas de Cícero tinham estruturas complexas, com orações subordinadas dentro de outras orações.

Para um adolescente debilitado que sofria de dores de cabeça frequentes, era como mastigar um pedaço de couro que jamais amolecia. Mas agora, assim que abriu a boca, as frases em Latim surgiram automaticamente.

Do começo até a quarta frase, a quinta, e assim por diante.

A ligação entre cada frase não exigia hesitação, nem ele precisava acelerar deliberadamente.

Quando terminou de recitar todo o trecho, a expressão de Holland passou de burocrática a avaliadora.

— Richard, você…

— O que foi, professor?

— Sua pronúncia melhorou demais desde a semana passada.

— Principalmente a distinção entre vogais longas e curtas. Você deve ter estudado bastante ultimamente, não?

— Sim, professor. Estou recuperando o atraso nos fundamentos.

Holland soltou um “hum”, não fez mais perguntas e continuou a aula.

Quando Richard se sentou, percebeu pelo canto do olho a expressão de Hugh.

Seu rosto inteiro parecia dizer: “Quando foi que você ficou assim?”

Depois que o sinal tocou, a sala começou a ficar barulhenta.

Os alunos guardaram os livros, e as pernas das cadeiras arrastaram pelo chão com um som estridente.

— Richard, venha aqui um instante.

Um homem de meia-idade e careca estava ao lado da mesa do professor, apoiando uma mão sobre ela enquanto girava um pedaço de giz com a outra.

Os demais alunos saíram em fila. Alguns olharam na direção deles antes de ir embora.

Quando a sala ficou vazia, Holland colocou o giz no suporte e bateu as mãos para tirar o pó.

— Você sabe que existe uma “Taça Cícero” na Capital Imperial todos os anos, no outono?

— … Não muito.

— É uma competição conjunta de discursos em Latim. Greenwood recebe de duas a três vagas todos os anos, normalmente destinadas aos alunos mais velhos.

Ele enfiou as duas mãos nos bolsos.

— Mas este ano a situação é um pouco diferente. Não houve candidatos suficientes entre os alunos mais velhos.

Ao dizer isso, havia nele aquela impotência que só um professor consegue ter.

Os alunos de Greenwood tinham muito medo de participar desse tipo de competição.

Para Holland, deixar uma vaga sem uso equivaleria a desperdiçar gratuitamente o prestígio que havia conquistado na Sociedade de Estudos Clássicos.

Originalmente, ele pretendia mandar Lillian Hayward.

Aquela garota tinha uma base sólida e costumava ficar entre as melhores da escola nas provas escritas.

Mas, no semestre passado, houve uma pequena apresentação dentro da escola. Eram pouco mais de vinte pessoas na plateia, e, assim que Lillian subiu ao palco, sua voz começou a tremer. Ela simplesmente não conseguia falar sem consultar o texto.

Uma competição de discursos normalmente teria algumas centenas de pessoas na plateia. Para ela, seria um desastre.

O desempenho de Richard naquela aula o surpreendera bastante.

Aquele garoto provavelmente havia estudado muito depois das aulas, então decidiu tentar:

— Ainda preciso de um aluno para participar. Você tem interesse?

A primeira reação de Richard foi recusar. Com o sistema, o caminho certo era crescer silenciosamente e acumular forças aos poucos.

— Os três primeiros colocados recebem prêmio em dinheiro. — Holland olhou para os sapatos claramente apertados do garoto. — O primeiro lugar recebe cinquenta libras, o segundo, trinta, e o terceiro, quinze.

A boca de Richard, que estava prestes a recusar, parou.

— Além disso, os alunos que conseguirem uma colocação entram na lista de recomendação da Sociedade de Estudos Clássicos.

Holland acrescentou:

— As famílias ricas da Capital Imperial que contratam tutores particulares olham justamente para essa lista.

— Uma vez nela, o pagamento de uma hora de aula pode equivaler ao salário diário de um trabalhador comum.

Cinquenta libras!

Mesmo se ficasse apenas em terceiro lugar, quinze libras eram o equivalente ao que sua mãe passaria dois meses calculando centavo por centavo, segurando uma faca de manteiga na mão.

E o significado da lista de recomendação era ainda mais importante a longo prazo. Ela poderia se tornar uma fonte contínua de renda.

Richard engoliu a recusa que estava prestes a sair de sua boca.

— Eu participo.

Holland assentiu, sem demonstrar nenhuma emoção desnecessária.

— A competição será daqui a um mês e meio. Tenho as tardes de terça-feira livres. Posso dar aulas particulares para você, sem cobrar.

— Obrigado, professor.

O homem careca apenas acenou com a mão e se virou para apagar o quadro.

Assim que pegou o apagador, Richard se aproximou:

— Professor, eu faço isso.

Holland ficou surpreso, e o apagador já havia sido tomado de sua mão.

Richard passou da esquerda para a direita, de cima para baixo, limpando cada parte que precisava ser apagada. Onde não alcançava, ficava na ponta dos pés.

O pó de giz caiu em uma nuvem. Ele virou o rosto para evitar a poeira e continuou a limpar.

Depois, bateu o apagador para tirar o pó, colocou-o de volta no suporte de giz e se virou para pegar a mochila. Durante todo o processo, não disse mais uma palavra, como se aquilo não fosse algo que merecesse ser usado para causar uma boa impressão.

Holland permaneceu ao lado da mesa, observando suas costas com certa perplexidade.

Em vinte anos ensinando, ele já havia visto muitos alunos se oferecerem para apagar o quadro. Mas a maioria terminava o serviço e então olhava para ele, esperando ganhar alguns pontos na avaliação de comportamento.

Aquele garoto normalmente tão calado simplesmente terminou o trabalho, pegou a mochila e foi embora, como quem passasse por uma lâmpada e a apagasse por puro hábito.

Richard pegou a mochila e caminhou até a porta.

Quando chegou à entrada, ouviu a voz atrás de si:

— Richard, sua base é melhor do que você mesmo imagina. Não a desperdice.

O sorriso no canto da boca de Richard desapareceu, e ele voltou a controlar a expressão até sua aparência habitual.

O aprimoramento proporcionado por Conhecimento já havia sido comprovado, e agora ele também teria aulas particulares.

Um mês e meio era tempo suficiente para elevar Conhecimento ao nível 2 e ainda ter mais meio mês para consolidar o aprendizado. Talvez isso o colocasse no mesmo nível de alguém que tivesse recebido aulas particulares desde a infância.

Quanto a conseguir uma colocação, havia variáveis demais. Era impossível dizer agora.

Mas pelo menos ele tinha um objetivo claro para o curto prazo. O restante era simplesmente preencher o tempo, dia após dia.

No caminho de volta, encontrou Hugh na curva da escadaria.

O garoto estava encostado na parede esperando por ele, e aquela franja teimosa havia caído novamente.

— Por que Holland chamou você?

— Para participar de uma competição.

— Que competição?

— Um concurso de discursos em Latim na Capital Imperial.

A expressão de Hugh passou por três estágios.

Primeiro surpresa, depois confusão e, por fim, um sorriso amargo carregado de admiração.

— Você estava entre os últimos da turma.

— Por isso vou começar a recuperar o atraso.

Hugh queria dizer alguma coisa para incentivá-lo. A frase deu várias voltas dentro de sua boca, mas no fim só conseguiu espremer:

— Se precisar de ajuda… esquece. Meu Latim é ainda pior que o seu.

— Você pode ser meu espectador — disse Richard. — Quando eu praticar, você senta lá embaixo e escuta. Não tem problema se não entender. Só me ajuda a observar minha presença de palco.

— Isso eu consigo fazer.

— Então está resolvido.

❧

  1. Schadenfreude é uma palavra da língua alemã que define o sentimento de alegria, prazer ou satisfação diante do dano, fracasso ou infortúnio sofrido por outra pessoa. O termo junta Schaden (dano, prejuízo) e Freude (alegria, prazer). ↩