Capítulo 66 — Minério Bruto
Capítulo 66 — Minério Bruto
— Você gosta de Eneias? — perguntou Richard. 1
Phillips pensou por um instante.
— Dizer que gosto desse ancestral dos romanos é um pouco superficial demais.
Ele virou o livro para uma página mais adiante.
— No final do décimo segundo livro, Eneias mata Turno.
— Turno já estava caído no chão, implorando por misericórdia, com a mão estendida em busca de perdão. Eneias hesitou por um instante… Virgílio deixou isso muito claro: ele hesitou.
— Mas, no fim, ainda assim cravou a espada nele.
Phillips fechou o livro.
— Essa é a última cena de toda a epopeia. Virgílio a encerrou exatamente ali.
— Não há gritos de vitória, nem a glória da fundação de uma cidade, muito menos o ato de “perdoar os subjugados”. A última imagem é a de um herói consumido pela ira, enterrando a espada no peito de um homem ajoelhado que implorava por sua vida.
Ele proferiu, com um tom muito tranquilo, um julgamento que não tinha nada de tranquilo:
— Virgílio provavelmente achava que esse é o verdadeiro ser humano.
Phillips colocou o livro debaixo do braço, pegou a xícara de chá do parapeito e terminou a bebida.
— Você passou o dia inteiro copiando coisas.
— E, pelo quanto está suando e pela poeira de lápis nos seus punhos, provavelmente ficou aqui desde a abertura até agora.
— Mais ou menos — respondeu Richard casualmente.
Phillips lançou-lhe um olhar.
— Você é como Eneias no livro, remando em meio à tempestade e avançando desesperadamente em direção ao destino.
Ele soltou uma risada autodepreciativa.
— Eu me pareço mais com Dido, sentado na cidade, tomando chá e apreciando a paisagem enquanto espero para ver quem vai aparecer à deriva no mar.
Um jovem aristocrata de origem privilegiada e futuro promissor comparando-se a uma rainha que caminhou rumo à destruição por ter amado o homem errado.
Se fosse apenas uma piada, ele não teria usado aquele tom.
Se fosse uma análise sincera de si mesmo, não a teria dito sorrindo.
— Phillips, você disse que é fácil descer, mas difícil subir.
Richard tirou a mão do bolso da calça.
— Mas deixou uma questão de fora.
Phillips ergueu uma sobrancelha.
— Qual?
— Se você não descer, consegue subir?
Lá fora, os dois velhos que jogavam xadrez fizeram uma jogada exatamente naquele momento.
— Sibila disse que os portões do mundo dos mortos permanecem abertos dia e noite — disse Richard. — Mas ela nunca disse que, se você não descer, poderá permanecer onde está.
Não descer não significava estar seguro.
Significava apenas entregar o direito de escolha a outra pessoa.
Entregá-lo ao tempo, ao destino, àquelas tubulações invisíveis que continuavam funcionando sem parar.
— Há dois tipos de pessoas que não conseguem subir.
— Um tipo é formado por aqueles que avançam para as profundezas sem se preparar. Eles são engolidos, e não podem culpar ninguém.
— Mas, na verdade, o segundo tipo é muito mais numeroso.
— Qual?
— Aqueles que ficam andando de um lado para o outro na entrada, querendo entrar e, ao mesmo tempo, não querendo.
Richard tocou o caderno que carregava junto ao peito.
— Quando finalmente decidir ir embora, você olha para trás e descobre que também não há mais caminho por onde voltar.
— À frente está o abismo, atrás está o precipício, e aquele pequeno pedaço de terra onde você está, continua rachando.
— Quando esse momento chegar, você nem sequer terá mais o direito de escolher.
Phillips franziu a testa e não disse mais nada. Virou-se e começou a descer a escada.
— Williams.
— Hm?
— Se você realmente pretende descer até lá, desejo-lhe boa sorte.
A voz dele veio do patamar da escada, carregada pelo eco, soando muito mais distante do que realmente estava.
Richard permaneceu no corredor do segundo andar, observando as costas de Phillips desaparecerem na curva da escada. Pela breve conversa de hoje, aquele sujeito era até interessante. Pelo menos muito mais interessante do que Montague.
Ele ficou algum tempo junto ao corrimão do corredor, fazendo mentalmente um resumo de tudo o que havia obtido naquele dia.
O caderno estava dois terços cheio, com dezenas de páginas cobertas por uma caligrafia compacta.
Sua mente ainda armazenava alguns registros de memória, que poderiam ser recuperados a qualquer momento por meio de âncoras de palavras-chave e números de página.
Todas as informações estavam armazenadas em estado criptografado no caderno e em sua mente, esperando que ele retornasse a Bristol para, pouco a pouco, começar a destrinchá-las.
As pistas já eram numerosas o bastante. O que faltava era tempo — muito tempo.
Ele desceu do segundo andar e devolveu a autorização na saída.
A senhora guardou o documento sem sequer levantar a cabeça.
— Rapaz, você vai voltar outra hora?
— Claro.
— Hm… Então desejo-lhe sucesso nos estudos.
— Obrigado.
Ao sair da biblioteca, Richard deu um tapinha no caderno volumoso e o enfiou na mochila.
Lá dentro havia apenas material bruto ainda não decifrado.
Para ele, era como transportar uma carroça cheia de minério bruto extraído de uma mina. Se aquilo tinha valor, só saberia depois de voltar para casa e refiná-lo.
Mas a localização do veio já estava marcada no mapa. Na próxima vez que viesse, traria ferramentas mais adequadas.
O ônibus da volta estava bem mais cheio do que pela manhã.
Richard encontrou um lugar num canto, abraçou a mochila contra o peito e fechou os olhos, apoiado na janela.
Respirar funcionava automaticamente, fazendo seu corpo entrar num estado que combinava cultivo e descanso.
Sua mente organizava e arquivava as informações obtidas naquele dia.
Depois de retornar a Bristol, a primeira coisa a fazer seria usar o prêmio da Taça Cícero para comprar a lamparina de óleo de esfinge na Loja de Antiguidades Clement.
A segunda seria usar o método de desmontagem que aprendera naquele dia para tentar abrir o selo da lamparina.
A terceira seria absorver por completo o éter residual armazenado dentro da lamparina, acumulando pontos suficientes para acender Andar e desbloquear Espírito.
Quanto ao que exatamente estava escondido dentro de Espírito, ele ainda não conseguia sequer imaginar. Mas, pela lógica, Espírito estava bloqueado atrás da condição “As quatro habilidades do Corpo estarem ativas”. Sua importância era evidente.
Quando o ônibus passou pelo marco que delimitava a área administrativa da Capital Imperial, os olmos do lado de fora já haviam sido tingidos de laranja pela luz dos lampiões a gás.
Ele abriu os olhos para olhar a paisagem urbana e tornou a fechá-los.
O caderno pressionava seu peito através da mochila, pesado contra o corpo.
Naquela noite, ao retornar à mansão Ashford, o mordomo o aguardava na entrada.
— Jovem senhor Richard, o jantar já está servido. Sua família está esperando na sala de jantar.
— Obrigado.
Richard tirou o casaco e o entregou ao mordomo, seguindo pelo corredor em direção à sala de jantar.
Ao passar pela sala de estar, Vincent saltou do sofá.
— Ei, onde você foi hoje? Fiquei esperando você o dia inteiro\!
— Biblioteca.
— Biblioteca?
A expressão de Vincent naquele momento era praticamente a de uma criança que acabara de descobrir que o presente de aniversário era uma coleção de exercícios.
— Você veio à Capital Imperial… e foi à biblioteca?
— A biblioteca da Universidade Imperial tem um acervo excelente.
— Por melhor que seja o acervo da biblioteca da universidade, pode ser melhor que uma churrascaria?
— Abriram uma nova na Rua Grosvenor. Costeletas de cordeiro com alecrim e sal marinho, grelhadas até ficarem crocantes por fora e macias por dentro…
Vincent começou a gesticular para indicar o tamanho das costeletas, exagerando cada vez mais.
— Da próxima vez — disse Richard, dando um tapinha no ombro do primo. — Na próxima vez que eu vier à Capital Imperial, você paga. Quero comer até não aguentar mais.
— Você que está dizendo?
— Eu que estou dizendo.
— Então é melhor você entrar logo na Universidade Imperial. Senão, quando vier da próxima vez, aquela churrascaria talvez já tenha falido.
— … A possibilidade de falência não está entre as coisas que considero.
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- Meu nome é Enéas, cof… cof ↩