Capítulo 72 — Tradição
Capítulo 72 — Tradição
Depois da aula, Richard entrou na fila do ponto de ônibus escolar.
Hoje ele não foi estudar na biblioteca, nem deu uma volta pelo mercado de antiguidades.
Tinha assuntos importantes para resolver naquela noite, então precisava poupar energia.
Evelyn abriu caminho entre a multidão até chegar ao lado dele, com uma pequena flor amarela — sabe-se lá de onde a havia colhido — presa à ponta dos cabelos.
— É raro você pegar o ônibus hoje.
— Hum.
— Não vai à biblioteca?
— Hoje não.
— O sol nasceu no oeste.
— O sol sempre se põe no oeste. Isso não é nada de extraordinário.
Evelyn bufou e desistiu de discutir com ele.
O ônibus chegou. Os dois subiram espremidos entre os outros passageiros e se sentaram, um atrás do outro.
Richard encostou-se à janela, observando a paisagem urbana de Bristol recuar do lado de fora.
As chaminés das fábricas soltavam fumaça, enquanto a fuligem do carvão pairava no ar.
Ao chegarem em casa, os dois irmãos foram para seus respectivos quartos trocar o uniforme escolar.
Depois de trocar de roupa, Richard esperou um pouco, tirou da mochila a caixa de doces de Grey e foi até a porta do quarto da irmã. Bateu duas vezes.
A porta se abriu apenas uma fresta, e o rosto de Evelyn apareceu por trás dela.
— O que foi?
— Vou te convidar para um chá da tarde.
Ele entregou a caixa de lata pela abertura.
A validade daqueles doces não era muito longa, especialmente a torta de frutas: se não fosse comida naquele mesmo dia, estragaria.
Evelyn pegou a caixa e abriu a tampa, abaixando a cabeça para examinar a disposição dos doces.
— Quem fez isso?
— Uma colega.
— Qual colega?
— Uma colega que sabe fazer doces.
Evelyn pegou um dos scones de limão e virou-o para examinar a cor da parte de baixo.
— Esse molde foi feito à mão.
Então ergueu um dos biscoitos sob a luz da lâmpada.
— A curvatura das bordas não é uniforme. Uma prensa industrial não deixaria assim.
Richard não esperava que ela tivesse uma visão tão aguçada.
— A base cremosa das tortinhas de frutas usa folhas de gelatina. Comparado ao amido de milho, isso encarece bastante a receita.
Evelyn levou uma tortinha ao nariz e a cheirou.
— A farinha é de boa qualidade, e a manteiga também não é das baratas.
Ela fechou a tampa.
— Essa colega que sabe fazer doces é mulher?
— … Em que você baseou essa conclusão?
— O molde tem formato de coruja. Um garoto provavelmente não cortaria uma coisa dessas.
Evelyn colocou a caixa de lata sobre a escrivaninha e puxou a cadeira para se sentar.
— Ela tem muita habilidade e fez tudo com bastante cuidado.
Ela falou com toda a seriedade, sem um pingo de provocação.
— Se essa pessoa fosse prestar exame para alguma daquelas escolas de confeitaria da Capital Imperial, provavelmente passaria.
— Por que você não diz que também conseguiria passar?
— Passar em quê? Eu nem sequer usei folhas de gelatina. Nossa família não pode comprar uma coisa dessas.
Evelyn escolheu uma tortinha de frutas da caixa e deu uma mordida.
Depois de mastigar algumas vezes, sua expressão mudou de maneira sutil.
— Gostoso.
Ela deu outra mordida e hesitou antes de falar:
— Mano.
— Hum?
— Essa sua colega, vocês…
— Somos apenas colegas.
— Eu ainda não terminei de perguntar.
— Sei o que você quer perguntar. A resposta é a mesma.
Evelyn lançou-lhe um olhar irritado.
— Está bem, está bem. Colega. Para você, tudo é colega.
Depois do jantar, Richard voltou para o quarto, fechou completamente as cortinas e acendeu a luminária.
Ele pegou o caderno e abriu na página onde havia parado na noite anterior.
A última frase escrita no papel ainda estava perfeitamente legível:
“Porque, nesse estágio, não é necessário realizar nenhum ritual.”
O parágrafo seguinte da obra apresentava a resposta sobre o que vinha depois do Praticante.
“Tudo começa a mudar a partir do Adepto Menor.
O Adepto Menor é o primeiro verdadeiro obstáculo em todo o caminho da ascensão.
Se a Assinatura é escrever seu nome na placa de identificação de um objeto extraordinário, então o ritual do Adepto Menor é a primeira vez que você bate à porta do Véu e diz às coisas do outro lado: ‘Eu cheguei.’
Este é o primeiro ritual verdadeiro e também o primeiro momento em que você precisa pagar um preço.“Depois do ritual, tanto aquilo que você ganhar quanto aquilo que perder serão irreversíveis.
A obra prosseguia explicando, de maneira geral, o processo de ascensão de um Praticante a um Adepto Menor:
“O estágio de Praticante é um longo período de acumulação, que pode durar alguns anos, mais de uma década ou até mais.
Durante esse período, o praticante precisa se aprofundar continuamente no caminho que escolheu, até tocar um ponto crítico chamado ‘limen’ (limiar).
O limiar não é um valor específico, mas um estado.
Em algum momento, você perceberá de repente que o conhecimento, as habilidades e a reserva de éter que domina foram bloqueados por uma parede invisível.
Você conhece claramente o método, mas não consegue fazer melhor; consegue enxergar o contorno da resposta, mas não consegue alcançá-la; ainda possui bastante éter, mas ele não é suficientemente vivo.
Essa parede é o limiar. Ela não surgirá por iniciativa própria, assim como não desaparecerá automaticamente. Você só será capaz de senti-la quando estiver preparado. E, no momento em que senti-la, terá de fazer uma escolha: permanecer deste lado da parede ou atravessá-la à força.
Aqueles que escolherem parar passarão o resto da vida no estágio de Praticante. Não há vergonha nisso. Esse é o destino da maioria dos Praticantes e também a escolha mais sensata.
Quem escolher atravessar a parede precisará realizar o ritual do Adepto Menor.”
A obra chamava o ritual do Adepto Menor de ‘ Prima Juratio ‘ (Primeiro Julgamento), fazendo questão de diferenciá-lo da Assinatura.
Assinatura é assinatura; juramento é pacto.
A diferença essencial entre os dois estava no fato de que a Assinatura não perturbava o Véu, enquanto o juramento o perturbava.
“O passo central do ritual do Adepto Menor é apenas um: o praticante coloca o objeto extraordinário em um local onde a infiltração do Véu seja mais intensa e, usando o próprio éter como meio, envia através do objeto uma declaração para o outro lado do Véu.
O conteúdo da declaração varia de pessoa para pessoa, mas seu significado fundamental é o mesmo: ‘Estou preparado para suportar uma observação mais profunda.’
O Véu responderá.
A forma da resposta varia conforme a pessoa, o momento e o lugar. Não existem duas pessoas que vivenciem exatamente o mesmo ritual de Adepto Menor.
Mas há um ponto em comum: no momento em que o Véu responder a você, a estrutura do éter dentro do seu corpo sofrerá uma mudança fundamental.
Essa mudança é irreversível.”
Um trecho aparentemente casual havia condensado anos — ou até décadas — de cultivo, enquanto todo o processo concreto fora reduzido a poucas palavras.
Richard entendia perfeitamente por que o autor escrevera daquela maneira. O autor acreditava que qualquer pessoa lendo aquele manual introdutório ainda estaria muito, muito distante do Adepto Menor.
Pelo que Richard conseguia perceber da intenção pessoal do autor, ele também parecia esperar que os leitores simplesmente parassem no grau de Praticante.
Ainda assim, a obra fornecia uma breve descrição do que acontecia depois de alguém alcançar o Adepto Menor:
“O éter do Adepto Menor deixa de ser apenas uma ferramenta. Ele começa a se tornar uma extensão do corpo.
O Praticante utiliza o éter como um artesão empunha um martelo; o Adepto Menor conduz o éter como uma pessoa movimenta o próprio braço.
A diferença entre os dois é a diferença entre habilidade e instinto.”
Mais acima, na passagem do Adepto Menor para o Adepto Maior, a obra já não tratava de detalhes técnicos. Em vez disso, começava a falar sobre a tradição.
“A partir do grau de Adepto Menor, o praticante deixa de ser um indivíduo isolado. Todo aquele que tentar avançar do Adepto Menor ao Adepto Maior precisará integrar-se a um sistema maior do que ele próprio.
Os praticantes chamam isso de ‘Traditio’ (Tradição).”