Capítulo 10: Semana
Capítulo 10: Semana
— Sua desgraçada — a Marionete gritou, brandindo três braços de uma vez.
Anya defendeu dois deles — o da lança e o do machado — com um bloqueio cruzado que aprendera na oitava centena de mortes, quando finalmente entendeu que tentar defender cada golpe individualmente era matematicamente impossível, e que o objetivo não era bloquear tudo: era escolher o que bloquear. Abaixou-se ao mesmo tempo, esticando a perna para trás para diminuir o perfil, e saltou sobre o terceiro braço no instante em que a lâmina passava. Um fio de cabelo foi o único custo. Pousou na grama e saiu ilesa.
— Só porque aprendeu uns truquezinhos novos não quer dizer que vou te poupar.
Anya recuou dois passos ao pousar, os pés encontrando o gramado no ângulo certo sem que precisasse pensar. O vento ao redor do rosto mudou — uma variação pequena, quase imperceptível, o tipo que a maioria das pessoas não registra conscientemente — e ela moveu o torso na direção contrária antes de processar por completo o porquê.
A adaga passou rasgando o ar onde ela estivera, e o som da lâmina cortando o vento chegou meio segundo depois.
Quatro golpes. Ilesa nos quatro.
Antes que o alívio terminasse de se formar, a Marionete havia sumido do campo visual.
Anya parou de respirar.
Nas últimas duas semanas, ela aprendera a ler a aura da criatura — aquele peso específico no ar que antecedia os ataques mais sérios, um adensamento quase físico que chegava antes do movimento, como pressão antes de tempestade. Não era algo que conseguisse descrever com precisão para quem nunca sentira, mas estava lá, e virara um de seus instrumentos de sobrevivência mais confiáveis.
Agora não havia nada. O ar estava limpo demais.
Ficou mais forte.
A certeza chegou fria e direta, sem dramatismo. Não era intuição — era a ausência de uma informação que sempre estivera presente. E com ela veio o medo, genuíno e imediato, diferente do medo habitual do combate que ela aprendera a usar como combustível. Esse era maior. Era o medo de estar diante de algo que mudara as regras sem avisar.
Os olhos fecharam involuntariamente.
— Eu disse que não iria te poupar.
Foi a última coisa que ouviu antes de tudo ficar escuro.
O frio chegou primeiro, como sempre. Depois a imensidão — aquele espaço sem dimensão clara que existia entre uma morte e um renascimento dentro do Abismo, que ela deixara de tentar entender depois da trecentésima vez e simplesmente aceitara como parte do processo, como aceitar que vai chover quando as nuvens fecham.
A única diferença agora era que estava irritada.
Não assustada. Não abalada. Irritada — consigo mesma, com o deslize, com a fração de segundo em que relaxara um músculo que não deveria.
Quando o calor e o cheiro da grama a atingiram de volta, ela já estava se movendo. A mão acertou o chão com força antes de o corpo estar completamente reorientado, e ela se levantou segurando a própria espada — que reaparecia sempre junto com ela, uma das regras do Abismo que parara de questionar —, varrendo o campo visual em busca da Marionete.
— Deixa eu adivinhar. — A Marionete estava a alguns metros, sentada numa postura que seria casual se tivesse menos de dez braços, o sorrisinho torto bem no lugar. — Você se perdeu na confiança? Achou que tinha conquistado algo e se deixou levar. — Uma pausa apreciativa. — O ego mata tanto quanto minhas armas. Às vezes mais rápido.
Anya ficou parada por um momento. A raiva ainda estava lá — quente, legítima —, mas ela a deixou sair junto com o ar dos pulmões, devagar, até que o que sobrou fosse apenas o reconhecimento do que havia acontecido.
— Sei disso. — Respirou fundo. — Desculpa por ter te tratado com mesquinharia. Não te derrotei ainda e fiquei confiante como se tivesse. — Abaixou a cabeça, o gesto breve e direto, sem cerimônia excessiva. — Espero que continue me ensinando.
A Marionete ficou olhando para ela por um segundo.
Depois soltou uma risada longa — não a risada aguda e perturbadora do combate, mas uma genuinamente divertida, a de quem acabou de ver algo que não esperava.
— Acha que isso é um treino? — Levantou dois braços ao mesmo tempo, o gesto aberto e levemente exasperado. — Estou te batendo faz mais de duas semanas. Duas semanas te matando sem parar, e você está me agradecendo?
Era estúpido demais para não ser engraçado.
A Marionete enfrentara Jones por anos — silencioso, metódico, saindo sempre calado depois de cada derrota, como se o resultado fosse apenas mais um dado a processar. Enfrentara dezenas de outros humanos antes dele, em vidas anteriores ao aprisionamento dentro do Abismo Pessoal, e desenvolvera ao longo de tudo isso uma teoria bastante consolidada sobre o que os humanos faziam quando derrotados repetidamente.
Ficavam com raiva. Ou desistiam. Ou voltavam com algo a provar — o que era apenas raiva com mais etapas.
A humana à sua frente reagia de um jeito diferente. Conversava. Interagia como se o combate fosse uma troca, e não apenas uma imposição. Havia chegado sem espada e sem ranking suficiente para estar ali, morrera mais de doze mil vezes nas últimas duas semanas, e ainda voltava com a mesma disposição irritante de quem acha que a próxima tentativa vai ser diferente.
A Marionete detestava humanos. Havia boas razões históricas para isso, razões que não precisavam de revisão. Mas aprendera, ao longo de muito tempo, a distinguir entre os humanos que mereciam o desdém e os que tinham a humildade específica de respeitar aquilo que ainda não conseguiam vencer.
Esses últimos eram raros.
— Acho que só estou de bom humor. — Anya ficou ereta, e havia algo levemente diferente na postura — menos defensiva que o usual, mais de quem está prestes a dizer algo que a deixa satisfeita. — Meus irmãos voltam essa semana. Vou poder mostrar que melhorei. E o Jerico voltou hoje da missão externa — fez o teste de Ranking ontem, na Capital. Passou.
— E eu lá tenho interesse em fracotes?
— Nenhum, imagino.
A Marionete relaxou os ombros — todos eles, o que criava um efeito visual considerável. A humana não estava pronta para acertá-la. Estava longe disso, e as duas sabiam. Mas doze mil derrotas em duas semanas, e ainda voltava com a espada na mão e a cabeça no lugar. Jones levara o dobro do tempo para desenvolver metade dessa consistência.
— Acho que vou voltar mais cedo hoje, tá? — Anya jogou a espada de volta para ela num arco limpo, sem cerimônia. — Mais tarde volto para completar o resto do tempo. Me espera aqui.
— Sua desgraçada — a Marionete começou —, e acha que vou pra onde?
Mas a humana já havia praticamente sumido quando a voz saiu, o caminho branco a engolindo de volta para o outro lado.
O gramado voltou ao silêncio perfeito.
A Marionete ficou olhando para o espaço onde ela estivera por um momento, a espada ainda na mão onde fora devolvida, os dez braços em repouso.
— Tanta vontade. — Havia algo no tom que não era bem irritação nem bem admiração, mas ficava num ponto incerto entre os dois. — Jones escolheu direito dessa vez.