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Capítulo 11: Ranking

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Capítulo 11: Ranking

Anya ouviu antes de ver.

As vozes chegaram pelo corredor com aquela qualidade específica de comemoração contida — risos que tentavam se comportar mas não conseguiam completamente, o som de pessoas que estão felizes e que estão entre iguais e que não precisam esconder nenhuma das duas coisas. Ela diminuiu o passo sem perceber.

Quando chegou ao pátio interno de treino, parou na borda do corredor.

Eles estavam todos lá. Mais de vinte soldados que haviam sido enviados para a missão externa, reunidos no centro do pátio com seus uniformes escuros e as boinas elevadas — o sinal de missão concluída, que só eram usadas nas primeiras horas depois do retorno, antes de trocarem para o uniforme de rotina. Cada um deles estava em posição, mas havia uma leveza nos ombros, nos rostos, no espaço entre eles que não era de treino. Era de alívio. De volta.

— Então é verdade mesmo, hein? — A voz veio de um dos soldados mais velhos, com um sorriso. — Finalmente temos alguns novos soldados Ranking 2.

Era certo que Jerico e mais cinco do seu pelotão haviam subido — ela já sabia disso, havia ouvido o nome dele ser mencionado no corredor mais cedo com aquela energia de notícia que se espalha antes de ser oficial. Mas havia outros ali que ela não esperava, soldados de outros Comandantes que também haviam sido promovidos durante a missão. O pátio estava cheio de um jeito que não era normal para aquela hora do dia.

Anya ficou onde estava. Recuou meio passo, posicionando o ombro contra a coluna do corredor, suficientemente dentro da sombra para não ser o primeiro rosto que alguém veria ao olhar nessa direção.

Observou.

Jerico estava perto do centro, cumprimentando dois dos irmãos — mais altos, com aquela magreza comprida da família que ele havia descrito uma vez como a maldição dos homens da minha casa. Um deles disse algo em voz baixa e os três riram ao mesmo tempo, a piada obviamente interna. Jerico jogou a cabeça para trás no riso, completamente à vontade, e Anya sentiu um calor no peito que levou um segundo para identificar como alívio genuíno.

Ele conseguiu. Ficou aliviada. Tinha certeza disso.

E então olhou para as próprias mãos.

Não havia planejado fazer isso — os olhos simplesmente foram, como se o corpo quisesse confirmar algo. As palmas abertas, os calos nas articulações que a Marionete havia ajudado a endurecer sem deixar marca visível, os dedos que haviam segurado mais de mil espadas dentro do Abismo de Jones e acordado sempre intactos.

Por que estou tão irritada de não ter subido?

A pergunta chegou com uma honestidade desconfortável. Anya fechou as mãos devagar.

Ela sabia a resposta racional. Krall e os outros haviam sido duros, mas com razão — a habilidade que ela não compreendia, que não controlava, que simplesmente aparecia quando ela se perdia no calor da batalha, era um risco que ela não sabia dimensionar. Se ativasse na frente de alguém errado, se alguém da Academia visse e reportasse antes que ela pudesse explicar o que era — se é que havia explicação — o que aconteceria era o que Jones havia descrito com aquela voz cuidadosa que sempre direcionava.

Experimentos. Relatórios.

Era racional. Era proteção. Ela entendia isso.

E ainda assim ficou ali, na borda do corredor, com as mãos fechadas e um nó no estômago que não era exatamente inveja mas que também não era outra coisa completamente diferente. Era o tipo de sentimento que não tem nome limpo — uma mistura de querer estar ali no centro daquele pátio, de querer que o próprio nome tivesse sido anunciado junto com o de Jerico, de querer que a complicação dentro dela fosse simples o suficiente para ser resolvida com uma missão e um resultado.

Jerico olhou para o lado por um segundo. Ela não sabia se havia sido acaso ou se ele havia sentido — ele tinha esse jeito às vezes, de encontrar onde ela estava sem parecer que estava procurando. Os olhos dos dois se cruzaram por um momento.

Ele não disse nada. Ela também não. Mas havia um reconhecimento ali, rápido e silencioso. Ambos sem acenar, apenas reconhecimento.

Anya desviou o olhar primeiro.

Ao redor, o pátio continuava com sua celebração — ombros relaxados, vozes que subiam e desciam, o som de pessoas que voltaram de algum lugar e que ainda estão processando que voltaram. A luz da manhã caía direta no centro do pátio, deixando a borda do corredor onde Anya estava num contraste de sombra que ela não havia escolhido conscientemente mas que parecia adequado.

Mas ela queria tanto poder estar ali.

Não pelo Ranking em si — ou não só por isso. Era por aquilo que o Ranking representava naquele momento específico, naquele pátio: pertencer ao mesmo corredor de experiência que eles. Ter ido, ter voltado, ter o uniforme com a sujeira da missão ainda impregnada no tecido antes de lavar. Ser parte da memória coletiva que estava sendo celebrada ali.

Fechou os olhos por meio segundo.

Abriu.

— Soldado Anya.

Ela não se assustou. A voz havia chegado de trás, próxima, mas o passo do Sargento Jimmy era conhecido o suficiente — pesado, regular, sem a variação de quem tenta ser silencioso. Ele havia parado bem atrás dela, e quando Anya virou, a primeira coisa que notou não foi a posição nem o uniforme.

Foi a expressão. Funda. Sombria.

— O Comandante Kai Karmon ordenou que esteja presente em seu gabinete. Agora.

— Sim, senhor.

Anya não tinha ideia do que se tratava.

Essa era a parte mais perturbadora — não saber. Havia passado toda a caminhada tentando construir uma possibilidade razoável, alguma explicação que coubesse na expressão do Sargento Jimmy. Não havia conseguido.

Jimmy ficou quieto toda a passarela. Quieto pelos corredores, quieto pelo salão comprido onde o eco dos passos dos dois batia nas paredes de pedra e voltava levemente distorcido. Ele lançava um olhar sorrateiro, mas nada dizia.

Atravessaram o hall de entrada da Academia — o teto alto, as bandeiras dos rankings penduradas em sequência, a luz que entrava pelas janelas altas e caía em faixas diagonais no chão de pedra polida — e continuaram até o ala onde os Comandantes normalmente se reuniam. Anya havia passado por ali poucas vezes na vida. Era o tipo de lugar que existe na periferia da consciência de um soldado de ranking baixo — presente, respeitado, mas jamais tocavam os pés ali se não fossem chamados.

Jimmy passou por dois Tenentes no corredor.

Eles o fitaram. Esperaram que Jimmy parassem para saudá-los. Nada.

Jimmy não parou. Não desacelerou. Passou por eles como se o corredor fosse dele, e os dois Tenentes ficaram parados.

Anya os observou enquanto passava.

A expressão deles não era de indignação. Era outra coisa — os olhos que encontraram os dela por meio segundo e imediatamente desviaram, a cabeça que virou para o lado com uma velocidade que não era natural, os passos que se apressaram na direção contrária sem ao menos dar chance de receberem perguntas.

Mas que merda está acontecendo?

A pergunta não tinha resposta ainda. Ela guardou e continuou.

A Sala do Comando era maior do que a memória dela havia preservado.

Jimmy entrou primeiro e se escorou na porta à direita, segurando-a aberta, e Anya passou por ele a passos curtos, deixando os olhos percorrerem o ambiente devagar, admirando. Havia estado ali uma vez antes, anos atrás, por motivo que agora parecia pequeníssimo comparado ao peso que o ar da sala tinha naquela manhã.

Os Comandantes eram mais de trinta — de alas técnicas, de alas medicinais, de inteligência, de campo. Um grupo que Antares inteira respeitava não apenas pelo título mas pelo que o título representava em anos de decisão, de perda, de resposta.

Anya os respeitava como respeitava seus próprios irmãos — com aquela mistura de admiração e familiaridade.

E no entanto, a cara do Comandante Kai estava estreitamente sombria naquela manhã.

Não era a sobriedade normal de quem está em função. Era outra coisa — as linhas do rosto mais fundas, os ombros tensos carregando tensão. Ao redor, os outros Comandantes ficaram parados por um momento quando ela entrou, e então — quase em uníssono, quase como se houvesse sido combinado — recuaram juntos. Três passos para trás. O espaço entre eles e ela aumentando aos poucos.

Era o espaço que se abre ao redor de alguém quando os outros sabem o que está prestes a acontecer e ela ainda não.

— Soldado Anya, se aproxime.

Ela se aproximou. Os passos soando mais altos do que deveriam no silêncio.

Kai esperou que ela chegasse perto o suficiente. Não havia pressa nos movimentos dele — havia o oposto de pressa, aquela lentidão deliberada de quem sabe que o que vai dizer vai mudar alguma coisa e está usando os últimos segundos antes disso com cuidado.

— Sinto informar dessa maneira. — A voz saiu firme, mas com pesar. — E sei que nada do que eu disser será suficiente para retirar a dor que seu coração vai sentir.

Os pés de Anya afundaram em algo.

Não era o chão — o chão estava ali, sólido, de pedra polida. Era outra coisa, por dentro, como se o piso continuasse firme e só ela estivesse escorregando dele. A sala recuou nas bordas, perdendo o foco. Os outros Comandantes viraram formas escuras e quietas, longe demais para o tamanho da sala. Sobraram a voz do Comandante Kai e o próprio coração batendo num ritmo que havia mudado sem que ela percebesse.

— O Tenente Krall, incluindo os Sargentos Nisha, Bagre e Jones, na manhã do dia 17 do mês de Março, foram dados como mortos. Os nossos sentinelas estiveram os procurando, e a situação terminou com a morte dos quatro. Se houver algo que—

Não.

A palavra não saiu. Ficou presa em algum lugar entre o pensamento e a garganta. Ela abriu a boca sem querer — os lábios se separando num movimento que não havia decidido fazer — e os olhos começaram a ficar molhados antes que ela tivesse processado o suficiente para tentar segurar.

Não. Não é possível. Não tem como ser.

Jones que havia prometido com o dedo mindinho. Nisha que havia dito rapidinho com aquela certeza de quem já voltou de lugares piores. Bagre com as ervas na mão e o esparadrapo no dedo e aquele jeito desengonçado de aparecer na porta esperando sua vez. Krall que era difícil e que havia ensinado de todo jeito, que havia protegido de um jeito que ela só havia entendido depois.

Anya abaixou a cabeça. A mão foi até a boca sem que ela mandasse.

— Não. — A voz saiu pequena, partida no meio, irreconhecível. — Não, por favor.

— Antares lhes dará o maior prestígio que um soldado poderá ter. — O Comandante Kai continuou, porque era o que ele havia sido treinado para fazer, porque parar não ajudaria ninguém, porque as frases precisavam ser ditas mesmo quando não havia palavra que chegasse perto do suficiente. — E que seus serviços nunca serão esquecidos. Jamais serão esquecidos.

Anya fechou os olhos.

Por trás das pálpebras, o gramado verde e perfeito do Abismo de Jones apareceu por um segundo — aquela cor impossível, iluminada por dentro, o lugar que ele havia encontrado no meio de um ambiente que atacava de todos os lados e havia decidido guardar. O lugar que havia passado para ela como se fosse a coisa mais natural do mundo.

Use quando estiver dentro do meu quarto.

É uma promessa.

Obrigado, irmão.

Havia morrido mais de mil e duzentas vezes dentro daquele Abismo. Havia sentido a lâmina, o impacto, o escuro que precede o acordar. Havia aprendido que a morte lá dentro era informação — dolorosa, aterrorizante, mas atravessável.

Isso era diferente.

Isso não tinha acordar do outro lado. Não tinha gramado intacto esperando. Não tinha a voz irritada e divertida da Marionete mandando ela segurar direito a espada.

Preferia ter morrido mil vezes mais para ela do que sentir isso uma vez.