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Capítulo 12: O que Fica

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Capítulo 12: O que Fica

O gabinete do Comandante Kai Karmon ficava no último andar do hall principal, e a caminhada até lá era longa o suficiente para que a mente de Anya fizesse o que sempre fazia quando o corpo estava ocupado com algo mecânico e repetitivo.

Voltou.

Krall havia chegado à porta do quarto dela num dia comum de terça-feira — ela lembrava que era terça porque era o dia em que a Academia servia sopa de raiz, que ela detestava, e estava de mau humor por isso — com uma espada de madeira na mão e uma expressão que não pedia permissão.

— Vem.

Só isso.

Ela tinha onze anos e ainda não havia aprendido que vem , dito por Krall, não era um convite.

O pátio estava vazio naquela tarde — ele escolhera um horário entre treinos, quando os outros soldados estavam no refeitório ou descansando. Anya descobriria depois que era intencional. Krall não queria que ninguém visse o começo. Não por causa dela. Por causa de si mesmo — porque ensinar alguém do zero exigia uma paciência que ele não queria exibir em público.

— Segura.

Ele jogou a espada de madeira para ela sem avisar. Anya a agarrou com as duas mãos, instintivamente, e o cabo ficou torto na palma.

— Errado. — Krall ficou parado, os braços cruzados, analisando a pegada dela com aquele olhar que parecia desmontar cada detalhe separadamente. — Solta.

— Acabei de pegar.

— E está errado. Solta e pega de novo.

Ela soltou. Pegou de novo, tentando ajustar o ângulo.

— Ainda errado.

— Você podia me dizer o que está errado em vez de só—

— Podia. — Ele se aproximou e, com dois dedos, reposicionou o polegar dela sem cerimônia, depois ajustou o ângulo do pulso com uma pressão firme e breve. — Mas você precisa aprender a sentir quando está errado antes de precisar que alguém diga. — Recuou. — De novo.

Anya soltou. Pegou.

— Melhor.

Não era elogio. Era constatação. Mas, vindo de Krall, naquela tarde, parecera a mesma coisa.

Eles ficaram no pátio até o sol mudar de posição, e ele a fez pegar a espada tantas vezes que a mão começou a doer de um jeito específico, nas articulações dos dedos, onde o cabo pressionava quando a pegada estava errada. Krall não disse que podia parar. Anya não pediu para parar.

Quando finalmente guardaram as armas, já estava escurecendo.

— Amanhã, mesma hora. — Ele virou para ir embora.

— Por que está me ensinando? — Anya perguntou antes de conseguir se segurar. — Os outros dizem que você não ensina ninguém.

Krall pausou. Não virou.

— Os outros falam muito. — Uma pausa. — Mesma hora.

E foi embora sem mais nada, deixando Anya sozinha no pátio com a mão doendo, a espada de madeira ainda no suporte e a sopa de raiz completamente esquecida.

Nisha havia aparecido no terceiro dia de treino com Krall.

Simplesmente estava lá quando Anya chegou ao pátio — sentada no chão, as costas contra a coluna, afiando uma das adagas com aquele som ritmado e constante que Anya aprenderia a reconhecer de longe. Krall a ignorou. Anya tentou fazer o mesmo.

Durou até o segundo bloqueio errado, quando Nisha disse, sem levantar os olhos da adaga:

— Cotovelo.

Anya olhou para o cotovelo. Estava alto demais.

— Não está ensinando — disse Krall, sem raiva, mais como esclarecimento.

— Não estou. — Nisha passou a pedra pela lâmina mais uma vez. — Só estou aqui afiando minha faca.

— No pátio de treino.

— Gosto do sol aqui.

Krall respirou fundo pelo nariz e voltou para Anya.

— Cotovelo.

Ela ajustou.

Nisha ficou por duas horas, afiando uma adaga que provavelmente não precisava ser afiada, fazendo comentários que tecnicamente não eram direcionados a ninguém. Peso no calcanhar. O pulso dobra assim quando você vai bloquear em cima. Não olha para a arma, olha para o ombro dele.

Na quarta vez que Anya corrigiu algo depois de um comentário de Nisha, Krall parou, olhou para ela por um segundo longo, e depois olhou para Nisha.

Nisha levantou a adaga contra a luz, examinando o fio com uma atenção excessiva.

— Está brilhando bem — disse ela, satisfeita. — Bom dia.

E guardou a adaga e foi embora como se nunca tivesse estado ali.

Anya esperou Krall dizer alguma coisa. Ele não disse. Voltaram ao treino.

Mas, na quinta-feira seguinte, Nisha estava lá de novo. E na semana seguinte. E na semana depois dessa.

Um dia, sem que ninguém tivesse combinado nada em voz alta, os outros também começaram a aparecer. Jones chegava depois do próprio treino e ficava encostado, os braços cruzados, observando e às vezes ajustando a postura de Anya com uma mão na cabeça dela — um gesto tão casual que parecia involuntário. Bagre aparecia com alguma erva nova que havia encontrado e ficava do lado de fora do pátio como se estivesse de passagem, mas sempre demorava mais do que alguém de passagem demora.

Numa tarde em que Anya errara o mesmo bloqueio pela décima vez e jogara a espada no chão com mais força do que pretendia, Nisha dissera, ainda sem levantar os olhos do que quer que estivesse fazendo:

— Você jogou assim porque ficou com raiva de si mesma.

— Eu sei.

— Raiva de si mesma gasta energia que você precisaria para o próximo golpe.

— Eu sei.

— Então para de perder energia. — Uma pausa. — Pega a espada.

Anya pegara.

Jones dissera, naquela mesma tarde, numa voz baixa que era só para ela:

— A Nisha jogou a espada no chão por três semanas seguidas quando estava aprendendo. O Krall ficou só esperando ela pegar de volta toda vez.

— Você está mentindo.

— Estou. — Ele sorriu. — Mas funcionou, não foi?

Ela rira apesar de tudo, e a raiva fora embora antes que percebesse.

Anya parou no meio do corredor.

O Sargento Jimmy havia virado a esquina à frente e pausado, olhando para trás com aquela expressão fechada que não perguntava, mas que era uma pergunta.

— Senhor. — Ela voltou a andar. — Com licença.

Ele virou de volta e continuaram em silêncio.

O quarto de Jones ficava do lado direito do corredor que deixaram para trás. Anya não olhou. Sabia que, se olhasse, a mão iria automaticamente para dentro das roupas, onde o Abismo Pessoal ficava guardado perto do esterno, e não era a hora para isso.

Mas sentiu o pulso dele assim mesmo — fraco, regular, constante.

Como uma respiração muito calma de alguém que não estava mais lá para respirar.

Ela segurou aquela sensação com cuidado, com tanto cuidado que tinha medo de quebrá-la, e continuou andando.

Mais tarde — muito mais tarde, depois do gabinete e do que o Comandante Kai Karmon dissera com aquela voz de quem já praticou palavras difíceis antes de precisar dizê-las —, Anya voltou para o quarto de Jones.

Trancou a porta. Acendeu a luminária amarelada.

Ficou parada no centro do quarto por um tempo que não mediu, com o cheiro de ervas do Bagre, de couro de Jones e do aço frio das adagas de Nisha impregnado em tudo, nas paredes, no colchão. Tudo ali dentro tinha os odores deles, os dos irmãos, os daqueles que tinham cuidado e ensinado tanto.

Depois sentou no chão, as costas contra a cama.

Tirou o Abismo Pessoal de Jones devagar.

O pulso fraco e regular a recebeu, como sempre. Ela fechou os dedos ao redor dele e ficou assim — sem fechar os olhos, sem se preparar para entrar, só segurando. Sentindo o calor pequeno e constante do objeto na palma.

A Marionete estaria lá dentro esperando, com seus dez braços e seus dentes tortos e sua voz que gritava “postura” no meio de um ataque. O gramado estaria perfeito e esverdeado e iluminado por dentro.

O lugar que Jones encontrara lá dentro do Abismo real, onde tudo tentava matar, e que decidira guardar.

Como você achou um lugar assim? Ela pensara isso na primeira vez que entrou. Como ficou parado o tempo suficiente para gravar um espaço quando tudo ao redor está tentando matar?

Ainda não sabia a resposta.

Fechou os olhos. Ali, sendo absorvida para dentro daquele mundo branco, as lágrimas vieram com uma força que ela não conseguiu segurar. Gritou no silêncio, onde a voz não podia ser arrastada, e caiu de joelhos no gramado, suplicando e soluçando, com o coração partido.

Seus irmãos morreram. Morreram.