Capítulo 13: Aqueles que Partem
Capítulo 13: Aqueles que Partem
— Ele morreu.
A Marionete não estava feliz. Não havia risada, não havia os dentes tortos aparecendo naquele sorriso que Anya sabia ser crueldade com diversão. Os dez braços estavam abaixados, numa espera quieta, e as armas haviam sumido para onde quer que fossem quando ela não queria usá-las. A voz havia perdido aquela camada de performance que estava sempre presente — o exagero, a provocação, a energia de quem está se divertindo.
O que ficou era mais simples e mais pesado.
Anya havia escolhido ficar jogada na grama, de costas, olhando para cima. O branco infinito do Abismo de Jones se estendia acima dela sem nuvem, sem profundidade, sem nada para focar além da própria ausência de coisa. A grama estava fria sob os braços, sob a nuca — aquela temperatura constante que nunca mudava, que não esquentava com o sol porque não havia sol, só luminosidade difusa vinda de todo lugar e de lugar nenhum.
— O Comandante me disse ontem. — A voz dela saiu mais plana do que pretendia. — Eles morreram em missão. — Uma pausa. — Disse que as sentinelas não encontraram os corpos. Que os sinais de batalha foram prova suficiente, além de alguns traços de roupas e também…
— Já entendi. — A voz da Marionete cortou devagar, sem brutalidade. — Não precisa continuar.
Anya fechou a boca.
O silêncio do gramado era diferente do silêncio dos corredores da Academia — lá havia sempre algum som de fundo, passos, vozes distantes, o ruído das forjas chegando pelo vento. Aqui havia apenas a ausência total de qualquer coisa que não fossem elas duas.
— Bom. — A Marionete quebrou o clima e o silêncio. — Isso não é novidade, no esquema do mundo. Qualquer ser vivo está destinado a morrer. É a única certeza que existe, e existe para todos. — Uma pausa mais longa. — Mas eles… são um pouco difíceis de acreditar. É bem complicado de acreditar.
Havia uma correção no tempo verbal que a Marionete fizera, e Anya ouviu, mas não disse nada.
A criatura deu meia-volta num movimento único e começou a caminhar para longe, em direção ao horizonte do gramado, onde o verde encontrava o branco e o olho perdia a referência de distância.
— Pra onde está indo?
— Posso ser um demônio na cultura de vocês. — A Marionete não parou, mas virou o rosto o suficiente para que a voz chegasse completa. — Mas sei o que é estar de luto. — Uma pausa, e, quando continuou, havia algo na voz que Anya já ouvira em outras pessoas antes: honestidade crua e nua. — O Jones foi um grande inimigo meu. Anos. Chegava aqui com aquela armadura ridícula e aquele escudo enorme, e ficávamos nisso, e eu nunca o destruí por completo e ele nunca me venceu, e era um acordo que funcionava de um jeito que eu adorava. — Os dez braços se moveram de leve, um gesto que em outra criatura seria encolher os ombros. — Ele ter morrido para outra criatura me angustia de um jeito que eu não esperava. Então não vou ficar aqui te olhando remoer o que eles eram. Não hoje.
E continuou andando.
Anya ficou olhando a silhueta da Marionete diminuir contra o branco, até que não havia mais como distinguir onde uma coisa terminava e a outra começava.
Depois olhou para cima de novo.
Os dedos encontraram a grama sem que ela tivesse decidido estender a mão — apenas estavam lá, tocando a textura fria e perfeita que Jones guardara dentro de um objeto do tamanho de uma bússola e carregara consigo por anos. Ela passou a ponta dos dedos devagar pelos fios, sentindo a resistência suave de cada um.
Jones não ia gostar que ela ficasse ali. O pensamento chegou com a voz dele, não com a dela — aquele tom leve, paciente, com a risada embutida que aparecia antes mesmo da piada. Levanta, garotinha. O gramado não vai a lugar nenhum.
Nisha ia dizer que deitar no chão de luto é a posição errada para qualquer coisa. A voz de Nisha tinha aquela qualidade direta, sem crueldade, que era quase mais difícil de aguentar do que se tivesse crueldade. De pé. Sempre de pé.
Bagre ia aparecer com alguma erva que servia para dor que não tem nome e ficaria do lado sem dizer nada, porque era o jeito dele de estar presente.
Krall ia reclamar dela deitada sem fazer nada. Com aquela voz que soava dura e que ela aprendera, com o tempo, a traduzir corretamente.
Os dedos agarraram a grama. Prenderam-na.
Como eles morreram?
A pergunta não era nova — estava lá desde o gabinete do Comandante, desde as palavras de Kai Karmon ditas com aquela voz de quem praticou, desde o trajeto de volta pelo corredor com o Sargento Jimmy à frente e o silêncio pesado atrás. Mas agora tinha uma forma mais afiada, uma borda que não estava lá antes.
Quem matou eles?
Ela já havia decidido. Não naquele momento — o momento era só a confirmação de algo que se formara mais cedo, nos corredores, no pátio, nas horas entre ouvir e entender.
— Vou encontrar quem fez isso. — A voz saiu firme. Não alta, não dramática: firme. Quis acreditar naquelas palavras leves e curtas. Ergueu o dedo mindinho para o branco infinito acima. — E vou fazer de tudo para que paguem pelo que fizeram.
O gramado não respondeu. O branco não respondeu. Mas a promessa fora feita para o único lugar onde Jones ainda existia, e isso era suficiente.
Anya fechou os olhos.
O quarto de Jones se formou em fragmentos ao redor dela — a luz amarelada da luminária, o cheiro de ervas e couro, a madeira escura do teto com a trinca fina no canto direito. O Abismo Pessoal esfriou de leve na palma quando a conexão se desfez, o pulso dele ficando mais distante, mais quieto, até ser só o peso do objeto.
Ela ficou sentada no chão por um momento, deixando os dois lugares se separarem por completo na cabeça.
Depois se apoiou na borda da cama com uma mão e levantou. Os joelhos protestaram de leve — estivera sentada tempo demais, ou o corpo estava cansado de formas que não eram físicas. Guardou o Abismo dentro das roupas, sentindo o peso familiar perto do esterno.
Foi até a porta. Girou a maçaneta devagar, como se parte dela ainda esperasse que o quarto pedisse para ela ficar.
Abriu.
O Sargento Jimmy estava do lado de fora.
— Anya. — E, nas mãos dele, havia algo embalado num pano marrom bem sujo e lamacento. — Entre, por favor.
Ela recuou um passo quando ele entrou às pressas, olhando para todos os lados. O Sargento foi até a escrivaninha e colocou o objeto sobre ‘2ela. Depois se apoiou e respirou fundo.
— Aqueles desgraçados fizeram de tudo para pegar algo que não deviam. — Ele falava para a parede. — Seus irmãos tiveram um fim que podia ter sido evitado, mas todos querem mais. Todos são gananciosos, Anya. Eu nunca esperei que… não… eles não podiam ter morrido por qualquer um.
Anya se aproximou da lateral e encarou Jimmy, os olhos cheios de lágrimas e uma raiva que escapava no aperto do queixo. Ele balançou a cabeça, e uma gota caiu sobre a embalagem cheia de lama.
— O Krall nunca seria morto sem levar o desgraçado junto. — Virou a cabeça para ela. — Ele me disse que era uma missão para recuperar uma Relíquia. Uma merda de Relíquia. O Coronel tinha dito que ninguém consegue mais achar uma delas, que viraram lendas, e mandaram o Krall e os irmãos dele para lá.
— Eu não estou entendendo, Sargento.
Ele segurou o ar e se ajustou, ainda com raiva.
— Eu não deveria, mas não vou te deixar no escuro. — Segurou a embalagem e puxou-a devagar para o outro lado. — Os sentinelas voltaram do campo de batalha, mas havia algo que recuperaram e que eu não podia deixar com os Comandantes.
Os olhos de Anya começaram a brilhar. Aquela era a arma, a espada que ela vira por anos sendo empunhada, cortando e sendo afiada. O cabo escuro, o pomo com a inicial K, e a lâmina protegida por um guarda-mão de madeira bruta.
— A espada do Krall estava fincada no chão onde achamos… o que sobrou deles. — De novo olhou para ela. — Mesmo que tenham morrido, isso pertence a quem estava com eles. Ela é sua, Anya. O Krall ia gostar que ficasse com você.
Anya não sentiu vontade de chorar, nem de reclamar, nem de sofrer. A promessa que fizera ao Abismo, ela a concretizaria com aquela espada cravada na cabeça da criatura que os levou.
Quando a empunhou, o peso se dividiu entre os dedos, depois a palma, depois o cotovelo e o ombro. Ela sentiu, por alguns segundos, a arma se adaptar por completo ao seu corpo, sem mudar de forma.
Essa era a espada de Krall.
— Ele a chamava de “Bug”.