Capítulo 14: Enfrente
Capítulo 14: Enfrente
Não tinha sido falta de aviso. Anya recebeu um golpe no pescoço, depois no torso e na perna, caindo de bruços na mesma hora. Quando levantou o queixo, ficou observando o rosto de Krall. Inexpressivo em grande parte, com os olhos levemente vibrando.
— Por que sempre me acerta quando começamos a treinar? — Anya forçou a palma na coxa e ficou de pé. — Continua doendo bastante, mesmo depois de meses.
— Seu inimigo vai pra cima de você com tudo o que tiver. — Num giro perfeito de braço, ele recuou a espada de madeira para a postura neutra. — Preciso ensinar que um treino é a simulação de uma batalha, e uma batalha é vida ou morte.
Do outro lado do pátio, Nisha zombou com um “uuuu”. Jones e Bagre, ao lado dela, deram risadas fracas.
— Não se percam neles — avisou Krall. — Eles apanharam bastante para estar aqui, e ainda podem apanhar se continuarem com essa palhaçada.
Os três se calaram na hora. Mesmo sendo Sargentos, ainda sofriam com Krall e sua autoridade.
— A Espada Enganosa é a única coisa que realmente vale a pena ensinar para alguém com suas habilidades. É a mistura de enganar com certeza, a junção do certo e do errado contra o inimigo que virá com tudo para cima de você.
— Por que acha que ele vai vir desse jeito?
— Uma mulher com uma espada na mão atrai o olhar de todos os homens ao redor. — Krall vislumbrou Nisha parada com as adagas na mão. — Uma mulher com uma arma se torna presa fácil, mas somente para os que a subestimam. Estou errado, Nisha?
— Nem um pouco, senhor. — Ela ergueu a adaga, concordando plenamente. — São só burros demais. E a gente bate neles com força, Anya.
Anya soltou uma risada, concordando. Krall levantou a espada mais uma vez, na direção dela.
— Se pode enganá-los com sua existência, pode enganar com sua espada. O primeiro passo é o direcionamento. Direcione-o para onde sua espada pode cortá-lo. Sempre faça isso. Agora, vamos.
— Pra quem não se lembra ou não sabe, as regras para o Ranking valem o ano inteiro. — O Comandante Kai Karmon informava no pátio. — Existem aqueles que ficaram por mérito próprio e aqueles que se acham indignos de ir à frente. No entanto, sempre que uma nova equipe de cadetes chega ao posto de Soldados, eles precisam subir, independentemente da situação. Não sejam idiotas ao ponto de achar que serão poupados das provas e testes por terem tido notas ou desempenhos excelentes antes. Aqui, em Antares, tudo é uma luta, tudo é uma batalha. Então, batalhem.
Anya ficara na última fileira de soldados. Eram cinquenta naquele ano, com rostos novos e um ou dois antigos. Ela ficara para mais um ano, mas não seria só mais uma daquele grupo. Encarava o Comandante Kai Karmon com afinco, porque faria de tudo para chegar ao Ranking 3.
— Sempre haverá dois soldados de Ranking 2 ou 3 para observar o treino — disse um dos soldados novos ao seu lado. — Não se preocupe. Acho que eles vão pegar leve com você.
Anya apenas caminhou para a frente quando a formação se desfez. O soldado continuou observando e deu uma risada.
— Sempre chegam cheios de energia e acabam despedaçados, como meu velho dizia.
O Comandante continuou parado e, quando um dos Tenentes se foi, voltou a encarar a multidão.
— Agora, formem suas duplas. Quero que treinem e mostrem para os soldados acima de vocês do que são capazes. — Ia dar as costas quando viu Anya se aproximar com passos rápidos. — Soldado Anya.
— Senhor. Gostaria de solicitar uma reunião formal para tratar de um assunto particular. — Já passara praticamente um mês. Ela não ia desistir tão fácil. — Por favor.
— Assuntos pessoais não podem ser tratados no pátio de treino. Para que haja reunião, você precisa estar entre os três primeiros colocados. Mostre o que sabe fazer, e um dos Sargentos marcará a reunião que deseja.
— Senhor…
— Dispensada, soldado.
Ele deu as costas, partindo com mais dois Tenentes. Mesmo de costas, aquele homem era forte, os sentidos aguçados. Anya perderia para ele em um segundo, ou menos. Nem mesmo a Marionete seria capaz de segurar um golpe sério dele.
Estava fora do seu escopo.
— Parece que você é a minha parceira de treino. — O idiota de antes apareceu com a espada de madeira apoiada no ombro, relaxado. — Eu disse que iam pegar leve, mas encarar o Comandante de cara? Não faz ideia de onde está se metendo, né?
Anya esperou o Comandante sair de sua vista. Então virou para o suporte de armas. Foi até ele, pegou a espada e voltou caminhando devagar. O idiota ainda estava sorrindo. E ela apertou o cabo com força.
Um mês inteiro no Abismo Pessoal. Um mês inteiro aprendendo a lutar contra uma criatura rápida, veloz, forte e drástica. Um mês inteiro apanhando e lembrando dos irmãos. Um mês inteiro pronta para este momento.
— Se ele não vai me dar a reunião, ótimo. — Ergueu a espada na direção do idiota. — Pode vir.
— Anya, pare.
Ela e o idiota olharam para a direita. O rapaz alto e forte, diferente dos irmãos magricelas, tinha parado ali para observar. E sua expressão era vazia. Um olhar decepcionado, a mão em cima do cabo da espada e um pé apoiado na parede.
— O que foi? — perguntou ela, irritada.
— Estou apenas observando uma pessoa irritada pronta para surrar a outra. Olhe pra ele, Anya. — Jerico esperou que ela olhasse para continuar: — Mesmo que o acerte com tudo o que tem, não vai adiantar nada. Está treinando pra quê?
Um treino é uma simulação da batalha.
— Qual o intuito do treino? — Jerico perguntou de novo. — Não é matar, é?
Treinar é um simulado. Treinar é uma batalha.
— Sua definição de treino é diferente da minha. — Anya voltou a erguer a espada. — Pode vir, idiota.
O pé direito dele. A mão esquerda. Um movimento simples. E uma explosão de velocidade. O idiota usou uma habilidade como primeiro movimento, e sua energia inteira se moveu para um ataque, talvez dois ou três.
O ângulo da espada vinha na diagonal, mas era lento demais… comparado a ela. Comparado a eles.
— Eu queria testar isso contra alguém forte — o idiota disse, se mexendo duas vezes mais rápido e atraindo os olhares dos instrutores. — Mas vou fazer de você o meu exemplo pessoal.
Anya moveu a espada um pouco para a direita. Um bloqueio simples. O idiota e Jerico viram aquilo. Mas, quando o golpe chegou perto da espada, ela deslizou para a frente, no ângulo reto. A espada do idiota passou rasgando o ar, criando um pequeno zunido, e ele virou rápido para um segundo movimento.
Anya sabia que as habilidades físicas tinham um custo. Aprendera isso com Jones e Krall. Quanto mais usar, quanto mais esticar, menos vai ter. Uma troca de momento por resistência. Uma troca do futuro pelo agora.
Então, ao levantar a espada para conter o segundo golpe, viu no rosto do idiota uma gota de suor.
Esse é o seu limite.
Até Jerico pôde perceber que era. E quem melhor que Anya para entender disso? A espada do idiota acertou o vazio onde ela se preparava para bloquear. E ela ficou por trás dele. Não haveria uma terceira troca. Não para ele.
O gasto do corpo para uma habilidade dependia do uso. E, antes de ele virar — muito mais lento do que na primeira vez —, foi a espada de Anya que chegou às costas dele. Um golpe seco e duro, com um braço só.
O choque fez as pernas do idiota cederem, e ele caiu no chão, arfando de dor. Poderia ter entendido o que aconteceu, se tivesse tentado ler a inimiga. Jerico falhara nisso muitas vezes. Sempre que tentava enganar Anya com a espada, com truques ou habilidades, ela se movia contra ele de um jeito diferente.
Na última semana antes de se tornar Ranking 2, ela vencera Jerico numa trocação.
O idiota poderia ter ganhado de Anya se conseguisse ler todos os movimentos dela, dos mais sutis até os que diziam “vem me atacar, idiota”.
— Conseguiu o que queria? — perguntou Jerico, ainda indiferente. — Ganhar dele não te faz ser a pessoa que Krall era.
— Quer vir testar quem eu sou? — Anya já tinha cansado dos comentários dele. — O que veio fazer aqui? Vai fazer alguma missão, vai encher o saco de outra pessoa. Eu estou aqui pra lutar. Vai querer?
— É idiotice pensar que eu vou aceitar. — Jerico relaxou os ombros de novo. — Se eu aceitar e ganhar, vou estar demonstrando que sou mais forte. Se eu perder, você ganha a chance de se tornar Ranking 2 indiretamente e eu perco méritos com o Comandante. Acha que sou idiota de…
— Acho. Acho que é idiota. Se não vai lutar, cai fora.
Anya deu as costas e foi até outro soldado que esperava uma chance de treinar. Ela não tinha por que esperar por uma chance. Criaria a própria.