Capítulo 15: Passagem
Capítulo 15: Passagem
— Está direcionando para o lugar errado. — Krall levantou a espada e brandiu a dela para cima, criando um estalido e uma forte pressão de ar. — Observe e reaja com instinto, mas se prepare com cautela.
E ela tentou por semanas da mesma forma. Esperava o golpe e atacava em seguida, tentando pegá-lo desprevenido. Krall rebatia a espada dela para longe, para o lado de onde ela viesse, e grudava a lâmina de madeira em sua garganta.
— Uma espada é feita para matar. Sempre pra matar.
Ela abriu os olhos no gramado. O Abismo ressoava ao seu lado. O som do vento batendo na grama era estranho. Não havia som ali, ela sabia. Quando se levantou, meio tonta, a Marionete tinha dois braços esticados para a frente e outros dois afiando as lâminas do machado e da lança. A cara dela era inexpressiva, mas o tom nas últimas mil vezes em que a matara fora de divertimento.
— Quero que leve isto aqui a sério. — A Marionete não levantou o olhar. — Parece que estou perdendo meu tempo treinando alguém tão deprimente. O que houve com aquele entusiasmo ridículo que você tinha antes?
— Achei que se divertia só me acertando. — Anya ficou de pé outra vez. Não lembrava quantas vezes já fizera aquilo naquele dia. — Estou pronta.
As pedras de amolar pararam juntas.
— Está mesmo? Porque a única coisa que vejo pronta é sua mente vagando. A partir de agora, mais do que antes, vou te matar mais rápido, pirralha.
Foram quantas vezes? Anya não se lembrava mais. Fora surrada em cada uma delas, e a Marionete diminuíra o tempo. Agora, a cada trinta segundos, ela era morta. Já estava começando a ficar irritante.
Mais rápido do que trinta segundos, então? Quinze? Anya já estava começando a se irritar.
— Se usasse aquela habilidade estranha de desaparecer, talvez tivesse mais chance. — A Marionete levantou somente um braço. — A humilhação torna o ser mais humilde, dizem. Matar você com um braço só seria suficiente?
Não houve chance para resposta. Dessa vez, Anya se atirou para a frente. A Marionete ergueu a lâmina, desceu com velocidade na diagonal, e Anya deslizou por baixo dela, vendo o próprio reflexo por poucos momentos no metal. Quando saiu do outro lado, disparou para as costas da criatura.
Os nove braços restantes responderam juntos, mesmo sem vê-la. E Anya entrou em combate curto, envolvendo-se mais e mais. Era a única maneira, ela sabia. A única maneira de deixar fluir a raiva e a vergonha, de deixar a tristeza de lado.
A única maneira de esquecer, por um segundo que fosse, que não treinaria nem conversaria mais com Jones, Nisha ou Bagre. Que nunca mais teria uma lição com Krall, nunca mais veria a precisão dele ao desarmá-la.
Anya saltou, desviou, defletiu e recuou. Quando a lâmina encontrava uma das armas, o tinir e a dor nos dedos, no pulso e no cotovelo rugiam como um leão faminto. E a fome por batalhar mais um pouco chegava a deixá-la sem piscar.
Já haviam se passado quinze segundos. E os dez braços começaram a se mover em ângulos diferentes, em velocidades diferentes. E Anya sabia que a única coisa que podia fazer era enganar a própria mente e o coração para, então, enganar o inimigo.
— Está mais calma hoje? — perguntou Jerico ao vê-la entrar no pátio de treino. — Faz uma semana que está surrando aquele rapaz. Por que está tão revoltada? Seus irmãos não iam gostar de te ver desse jeito.
Anya parou de andar. O coração já estava doendo, e Jerico continuava acertando-a naquele mesmo ponto. Como ele podia saber o que é perder um irmão, se todos os dele estavam vivos? Como podia ter noção da dor, quando cada palavra proferida era para atacá-la no luto?
Quando voltou a caminhar, Jerico a acompanhou pelas costas.
— Cada um deles tem o mesmo sonho que você, o mesmo objetivo. Querem se tornar soldados para proteger o que acreditam. — Jerico a ultrapassou e parou, fazendo os soldados de todos os rankings reunidos ali os encararem. — O que quer que esteja passando, bater nos outros não vai fazer desaparecer. Por que não escuta um pouco?
— Não preciso ouvir nada agora.
Jerico entendeu no momento em que viu os olhos de Anya. Pareciam vermelhos de raiva ou de tanto chorar, ele não sabia dizer. A única certeza era que não eram os mesmos olhos que ele conhecera quando chegou ali pela primeira vez.
— Hoje é dia do Abismo — disse Jerico. — Seu desempenho vai ser registrado. É desse jeito que você quer ser vista?
— Acabamos por aqui, ou tem mais desses conselhos inúteis para me dar? — Anya não recuou; o confrontou. Não precisava das palavras nem das atitudes dele. — Posso ir agora, ou precisa que eu entre em posição para ir embora?
Jerico suspirou e negou com a cabeça.
— Pode ir. Mas, mesmo que entre lá com vontade, não vai conseguir bater o recorde de abates ou de sobrevivência. — Anya já estava longe dele. — Vai perder seu tempo…
O Comandante Kai Karmon entrou no pátio, dessa vez com um semblante mais claro e um olhar simples. Era raro vê-lo assim; parecia estar feliz. E Anya, sempre que encarava aquele homem, sentia o coração ficar mais apertado.
Um mês se passara e ele não encontrara o desgraçado que tirara a vida dos irmãos dela. A culpa era dele? Não podia dizer. O Sargento Jimmy dissera que o Comandante queria mais do que tudo achar quem fizera aquilo, mas… nada ainda.
Como ele podia estar sorrindo assim? Por que só ela estava de luto?
— Hoje será o dia em que vocês serão testados pela primeira vez dentro do Abismo. Estarão acompanhados dos seus representantes e passarão pelo teste. Cada um de vocês enfrentará quantos demônios forem necessários até que seus ossos sejam partidos ao meio. Quando seu instrutor achar que vocês não estão mais aptos a lutar, ele os puxará de volta, e vamos contabilizar. — Ao olhar para os cinquenta presentes, Kai levou alguns segundos para continuar: — Entendam que o Abismo é um lugar aonde vamos para coletar recursos; no entanto, os primeiros andares sempre serão de teste. Quando estiverem lá, lembrem-se do que aprenderam aqui fora. Dispensados por dez minutos. Peguem suas armas e equipamentos.
— Sim, senhor.
Anya não gritou junto deles. Esperou sentada perto do suporte de madeira onde havia pegado a própria espada. A Bug estava com ela até no sono, até nos sonhos. Não desgrudara dela desde que Jimmy a entregara.
Mesmo assim, enfiou a outra mão no meio da roupa, tocando a lâmina afiada da adaga, depois o punhado de ervas de Bagre e o pulsar leve do Abismo Pessoal de Jones. Não importava quanto tempo passasse, ainda estaria ali para ela.
Era só o que importava.