Capítulo 16: Primeiro Andar
Capítulo 16: Primeiro Andar
— É o seguinte — disse Ione ao passar por Anya. — Sou seu instrutor de hoje, mas não quero moleza, entendeu? Eu gosto de ver as lutas e os demônios apanhando. E, se quiser mesmo ganhar algum crédito, consigo te arrumar um trabalho depois.
Sujeito engraçado e entusiasmado. Caminhava ao lado dela com pressa, mas parava quando via que estava longe demais. Depois relaxava, se lembrava de algo e continuava falando:
— Quer mesmo bater o recorde do primeiro andar?
— Acho que só assim pro Comandante Kai ver que estou apta a fazer o teste do Ranking antes da hora.
— E o que vai fazer quando conseguir isso?
— Vou fazer qualquer coisa pra conseguir o terceiro ranking. — Ela não hesitou em dizer. — Deve existir algum jeito, mas eu ainda não conheço.
Ione deu uma olhada para ela, curioso, e concordou em segundos.
— Existe um jeito, mas é difícil. Não me olha assim, garota. Antares tem muitos segredos escondidos dentro das regras. Seus irmãos deviam ter te contado sobre isso. — E continuou em frente sem parar. — Quando entrarmos no Abismo, você tem que se preparar. Eles vão querer mostrar o que é estar lá dentro, mas você conhece bem, não é?
— Sim.
O que o Abismo representava para muitos soldados era um terror. Ver a quantidade de inimigos vindo na sua direção e não poder fazer nada além de rezar para sair inteiro. Anya treinara com os irmãos por anos lá dentro e, recentemente, com algo pior ainda.
Quando acessaram a Ala de Passe, responsável por fazer a transição para o Abismo, praticamente todos os soldados já estavam presentes. Além deles, os de Ranking 2 e 3 que serviriam de instrutores e observadores.
Sentia-se o cheiro do nervosismo no ar. Anya não sentia isso; queria entrar lá o mais rápido possível.
— Está tudo bem — disse Ione ao passar por ela. — O teste é coletivo. Sempre colocam os soldados juntos. Querem ver até onde vai sua ganância. Eu sou um soldado Ranking 3 por um motivo, e você precisa saber qual é o seu objetivo para chegar aonde estou.
— Eu tenho um, senhor.
— Dá pra ver que sim. — Ione tirou uma pequena joia do bolso, como todos os outros instrutores, e a estendeu. — Vamos fazer a marcação do Abismo em você e depois entramos. Sabe como funciona.
Anya deixou o braço esticado. A joia era amarelada, com uma pequena ponta afiada. Ione usou essa ponta para riscar a pele dela com maestria e calma. Um círculo perfeito, o mesmo que já fora marcado nos anos anteriores.
Terminou puxando a joia e apreciando a própria arte.
— Até que ficou bom. O que acha?
— É um círculo bem-feito. — Anya deu um leve sorriso e esperou. Aos poucos, o mundo ao redor começou a desaparecer, como fazia no Abismo Pessoal. O breu se instalou à sua volta, criando a ilusão de solidão, e, quando piscou, tinha voltado para aquele mundo vermelho, com cheiro de enxofre e o mórbido terreno acinzentado.
O céu estava cinza. As rochas sopravam fumaça para o alto. E o som de grunhidos e gemidos baixos vinha de todos os lados. Quando Anya virou o rosto, o corpo do soldado Ione era uma mistura de fragmentos esbranquiçados.
O corpo dele não era mais físico — e não só o dele. Os soldados instrutores misturados aos de Ranking 1 tinham o mesmo aspecto. Mas, no ano anterior, não era assim. Ione reparou na feição confusa dela:
— Não soube das mudanças?
— Não. — Ela chegou perto e passou a mão, os dedos atravessando o corpo dele. — O que é isso?
— O Comandante teve a ideia de deixar os testes mais imersivos. — Ao erguer o braço e a perna, os músculos se fragmentaram em pequenas quantidades e reapareceram segundos depois. — Se eu achar que você não tem mais força pra continuar, posso mandar a gente de volta pra Ala na mesma hora.
Não era uma ideia ruim. Antes, Anya tivera que ser puxada para fora fisicamente. Assim, o instrutor poderia fazer isso sem precisar tocá-la. Era melhor.
— Não vai ser necessário.
— Eu gosto da sua ousadia, soldado Anya. — Ione se aproximou com aquele sorriso bobo de lado. — Assim que você rasgar todos os recordes deste lugar idiota, os outros andares vão ser ainda mais divertidos. Se conseguir mesmo ultrapassar o recorde de sobrevivência e de abate, eu mesmo faço de você minha soldado.
— Por quê?
— Porque as pessoas mais divertidas são as mais imprevisíveis. — Ione parou, o corpo oscilando bem diante dos olhos dela. — Um homem pode mudar o mundo se for ambicioso o suficiente. Se quer fazer acontecer, mostre pra todo mundo que pode.
Anya abriu um sorriso. E se pegou pensando que fazia praticamente um mês que não conseguia fazer isso direito. Ione, em poucos minutos, tinha resgatado a animação dela. Era diferente da ordem sombria que ela vinha seguindo dentro de si.
— Agora, o mais importante — disse Ione. — O Krall foi quem conseguiu mais abates no primeiro andar. Foram praticamente cem. Consegue fazer mais do que isso?
— Claro que posso. — A mão dela repousou no pomo da espada. — Vou mostrar pro Comandante Kai o erro dele.
— Isso mesmo. — A voz dele era alta, chamando atenção. — Mostre pra aquele corcunda quem você é. Agora, vamos. Vai começar. Vou ficar te observando.
Ao redor dela, os outros soldados também se preparavam para o inevitável. Conheciam o teste, conheciam o primeiro andar na teoria e já tinham tido certa experiência em combates contra aquelas criaturas. Mesmo como cadetes, algumas vezes eram levados por instrutores para se adaptar àquele mundo cinza.
Não era diferente de uma guerra em avalanche. Era preciso esperar os corpos dos inimigos se moverem na sua direção e, então, resistir até onde desse. Cada corpo caído valeria como um abate.
E o chão rangeu com força a cinquenta metros deles. A avalanche, como era de se esperar: um amontoado de inimigos correndo. Eles brotaram do chão, agarrando-se à terra e às pedras, subindo uns nos outros. A face torcida, um misto de cinza e vermelho, os olhos esbugalhados e as bocas abertas com dentes tortos e amarelados, gritando para todos os lados.
Mesmo no primeiro andar, eram criaturas que não deviam ser subestimadas.
— Qual vai ser sua estratégia pra lidar com eles? — perguntou Ione. — Vai aparar e abater?
— Não. — Ela se inclinou para a frente, torcendo o joelho na direção das criaturas. — Nenhum deles acharia isso divertido.
Ione torceu as sobrancelhas ao ver Anya disparar. Não só ela — todos os outros fizeram o mesmo.
— O que ela está fazendo? — o idiota perguntou, sem entender a movimentação. E seu instrutor, Jerico, não respondeu à pergunta. Mas sabia que Anya não faria algo em que não tivesse confiança. — Senhor, como posso prosseguir?
— Este é um teste de resistência — respondeu Jerico, ainda observando Anya. — A energia é fundamental. Sempre pense nisso. Não se exponha, e acabe com os inimigos.