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Capítulo 17: Recorde

Bug Espadachim — illusia.com.br · All chapters

Capítulo 17: Recorde

O braço direito do demônio veio pela direita. Anya se abaixou sem pensar muito e cortou para cima com leveza. O membro se partiu, caindo. Antes de o inimigo perceber, a garganta dele também se foi. Ela não demonstrou nenhuma empatia, nenhuma dificuldade.

Um passo recuado, ergueu a espada com um braço, rasgando o peito do décimo. Depois abaixou e rasgou outro pela direita. Antes que conseguissem se agrupar ao redor dela, abriu o espaço entre os dois e saiu cortando ambos.

A espada pingava o sangue deles, mas ela não a limpou. Bloqueou um porrete de espinhos e decepou mais um. Outro passo para trás e um corte veloz para a esquerda, na diagonal. Eram quinze.

Por que está se segurando tanto? A pergunta rasgava sua mente. Podia sentir a Marionete gritando, irritada por ela estar mantendo distância deles. Quer me fazer de idiota?

A Marionete claramente diria algo assim. Anya não tinha direito de errar ali, então respirou fundo. Chegar aos cem seria fácil se mantivesse a calma. Por isso, precisava seguir o ritmo.

Lembre-se de caminhar direito antes de pensar em correr.

A frase de Krall virou um mantra. E então ela cortou mais um, rasgando-lhe a boca aberta e puxando a arma de volta. Acertou o centro da testa de outra criatura, desviou por baixo de um braço e girou a lâmina, golpeando cinco deles.

A arma de um chegou por cima. Bug a defletiu para o lado. Anya subiu, rasgando mais um, depois abrindo outro.

Uma hora. Foi uma hora inteira de ataques diretos. Ela não fizera nem tanto estrago assim, mas os inimigos focavam nela por conta da proximidade. Quando um espaço se abriu entre eles, seus olhos percorreram o campo.

Malditos soldados… Estavam com poucos demônios ao redor. Sem querer, Anya vinha atraindo os monstros por conta da posição de onde eles saíam do buraco.

— Está irritada com seus colegas? — Ione perguntou, de trás. Sentado numa das pedras, apenas abraçava uma das pernas, observando. — Sua atitude de vir até aqui facilitou, e muito, a vida deles. Estão até te elogiando, sabia?

— Droga…

Ela se abaixou no susto, recuou numa acrobacia rápida e empunhou a arma com as duas mãos. Uma hora teria sido suficiente para acabar com sua perna, se fosse antes de entrar no Abismo Pessoal de Jones. Podia estar suando, mas não estava nem perto de cansada.

— Sabe que, se eles não tiverem mais inimigos, vai ser mais fácil passar no teste. — Ione manteve a cara inocente. — Por que está sendo tão legal com eles?

— E o que eu deveria fazer? — Anya bloqueou dois deles, viu um filete passar rente ao braço sem acertá-la por pouco. Subiu a lâmina, cravando-a na axila. Puxou e perfurou dois em fileira. — Me jogar de volta como uma idiota?

— Idiota é quem faz idiotices. Pensar em si não é uma questão de idiotice, é pura lógica. — Houve uma risada quando ele pausou. — Se você quiser, eu te ajudo.

— De novo com isso? — Ela arqueou a sobrancelha ao aparar um golpe e escapar de outro, pulando para a pedra ao lado de Ione. — O que você quer?

— Eu quero que a justiça seja feita, de uma forma ou de outra. — Ele a encarava sem se preocupar com os inimigos vindo em sua direção. Para os demônios, era apenas um corpo etéreo, sem representar perigo algum. — Na verdade, nós queremos as mesmas coisas, mas estamos caminhando bem devagar. Estou te oferecendo um jeito de passar.

— Como faria isso?

— A primeira coisa que precisa saber sobre mim, Anya, é que não sou elogiado por nenhum Comandante, nenhum Sargento, nenhum Tenente. Os Capitães me detestam e os Cabos não são meus amigos. Eu faço o que preciso fazer pra subir, e existem jeitos de subir que muita gente não conhece.

Anya continuou se esquivando da quantidade massiva de demônios chegando pelas laterais, jogando-se para cima e voltando a ficar ao lado dele. Dessa vez, suspirando.

— Então fala logo.

— Vem comigo e faz o que eu mandar.

Jerico observou com mais cautela alguns dos soldados ao redor. Eram praticamente novatos, mas suas bases eram sólidas. Os movimentos das pernas e dos braços eram firmes, as posturas corretas. O idiota à frente dele era um exemplo claro disso.

Mesmo sendo novo, esperava o inimigo chegar e atacava depois de um bloqueio. Cortava pela lateral e se movia bem. Os pés não ficavam presos no chão. Ao levantar para bloquear, deixava um espaço curto, uma brecha visível — mas que os demônios não conseguiriam ler. Não no primeiro andar do Abismo.

— Isso é mais difícil do que imaginei — disse o idiota, recuando alguns passos depois de acertar outro inimigo. — Mas todo mundo falava que aqui era um inferno para os novatos, senhor. Eles exageraram?

Jerico não podia dizer a ele que aquele dia era atípico. Não por haver poucos inimigos, mas porque alguém estava monopolizando todos eles.

— Continue batalhando, este é um teste de resistência. Falar te deixa mais fraco.

O idiota voltou à postura, os braços erguidos e as pernas separadas. Jerico tinha certeza de que qualquer um ali dentro — e ele os observava se entregando — não chegava aos pés de Anya. A amiga era muito veloz, muito forte e precisa.

Também achava que fora injusto da parte da Academia tê-la deixado de fora. E o fato de ele ter subido como um dos primeiros colocados pesava nele com certo receio. Anya era mais habilidosa com a espada, mas as habilidades físicas dela estavam longe das dele.

No cenário atual, como terminaria uma luta entre os dois?

A pergunta o tirou do foco por alguns segundos. Segundos que foram cruciais. O idiota o chamou às pressas ao recuar assustado, e Jerico teve que levantar a cabeça para então ver a estranha movimentação dos demônios.

A quantidade era pequena minutos atrás, três ou quatro vindo em sequência. E os soldados testados seguravam com dificuldade, mas não eram derrotados. De fato, era atípico ver só aqueles poucos — mas, agora…

Era uma avalanche correndo no horizonte, mais de cem, talvez mais de duzentos, desgarrando-se uns dos outros e pulando para a frente. Mesmo de forma etérea, a espinha e o coração dele se encheram de estranheza e medo.

Nem ele nem Ragnar conseguiriam derrotar aquela quantidade de uma vez só. Nem mesmo um soldado de Ranking 3 conseguiria.

— O que é aquilo? — outro instrutor perguntou, com a mesma cara de choque de Jerico. — Merda, aquele desgraçado fez isso de novo?

— Quem?

— É o merdinha do Ione. Ele sempre faz isso pra acabar com o teste rápido. Manda o soldado que está com ele reunir todos os demônios ao redor e joga em cima dos outros. — Era Tyaran, um dos mais antigos soldados de Ranking 3 na Academia. — Eu já reportei e o denunciei várias vezes, mas os Comandantes dizem que tudo vale dentro do Abismo.

Jerico levantou a cabeça mais uma vez. E conseguiu ver quem estava vindo à frente da horda.

— Anya…

E, por alguma razão, havia um maldito sorriso no rosto dela. Estava se divertindo. Depois da notícia dos irmãos, ele sempre a vira de cara fechada, sem fazer nada além de treinar e surrar o idiota, sumindo depois por horas, só para reaparecer no refeitório.

E agora, no meio de todo aquele caos, ela estava sorrindo…

Quando Anya passou por ele, uma estranha energia surgiu nos sentidos de Jerico. Ele virou rápido para onde ela tinha ido, de boca aberta.

— Habilidade Física? — Até pouco tempo atrás, ela não aprendera nenhuma. Isso queria dizer que agora Anya era mais forte do que fora meses antes. Bem mais forte. — Idiota, precisa correr.

— O quê?

— Corre, idiota. Corre. Quer morrer logo agora? — Jerico apontou na mesma direção de Anya. — Pra lá, corre.