Capítulo 18: Método
Capítulo 18: Método
Quando Anya passou rasgando o ar, não se deu ao trabalho de olhar para quem corria ao seu lado. Novato ou veterano, com anos de pátio ou com o suor do primeiro dia ainda no uniforme — dava no mesmo. Quem ficasse atrás dela seria esmagado. Era a única regra que importava agora, e ela havia parado de sentir culpa por ela em algum ponto do último mês.
Ione ia à frente, as pernas etéreas comendo o terreno cinza sem levantar poeira, e virou o rosto por cima do ombro. Riu, largo e satisfeito. Olhava para ela, não para a horda que engolia os outros atrás dele.
— Eu disse que esse era o método mais rápido! — gritou. — Olha pra eles.
Anya olhou.
Atrás dela, a avalanche já havia alcançado os soldados. Os demônios os engoliam um a um, subindo uns pelas costas dos outros, uma parede de carne cinza e vermelha que se fechava sobre cada uniforme que encontrava. Alguns novatos ainda lutavam — ela viu lâminas subindo e descendo no meio da massa, viu um rapaz abrir três criaturas antes que a quarta o cobrisse —, mas lutar contra aquilo era aparar a maré com uma faca. Outros foram soterrados e arrancados às pressas, o corpo se desfazendo em fragmentos brancos no instante em que o instrutor os julgava quebrados e os cuspia de volta para a Ala. Uns poucos corriam na direção contrária, espalhando os inimigos pelo campo, comprando a própria vida com a dos que ficavam.
Cheirava a enxofre, e a algo mais fundo por baixo, um odor de terra queimada que grudava no fundo da garganta.
Eles queriam entrar aqui com vontade. O pensamento veio sem pena. Agora estão entrando.
— O jogo nunca foi viver muito. — Ione afrouxou o passo, e ela parou a alguns metros dele, a respiração fina, Bug pesando morna na mão. — Eles querem que você sobreviva. Só isso. — Uma pausa, e os olhos dele a mediram de um jeito novo. — Seu irmão te ensinou isso, não foi?
Anya virou a cabeça devagar.
— Conhecia meus irmãos?
— E quem não conhecia? — Não houve sorriso desta vez. A voz dele perdeu a folga e, por um segundo, pareceu mais velha do que o rosto. — Krall e os outros eram bons no que faziam. Bons demais. Mas eram mais do que só soldados, garota, e uma parte de você já desconfia disso. — Ele voltou os olhos para a horda, como quem consulta um relógio. — O Krall te ensinou que só se sobe ganhando renome, ficando nos primeiros lugares, sangrando na frente das pessoas certas. E é verdade. Mas não é só assim que funciona.
O coração dela bateu uma vez, alto.
— Existe outro jeito.
— Sempre existe outro jeito de subir. — Ione observou mais alguns soldados se desfazerem em branco e voltarem para casa derrotados, e não moveu um músculo do rosto. — Agora termina com isso. Termina o que começou, e a gente volta. O Aspas e eu vamos te ajudar.
Anya deixou escapar uma risada curta e concordou com a cabeça.
Não era alegria. Fazia um mês que ela não sabia mais o que era aquilo. Era outra coisa — a certeza fria e limpa de que finalmente havia uma porta, e de que ela passaria por ela custasse o que custasse. Subiria por dentro daquela máquina até o ponto de poder olhar de cima e encontrar o rosto de quem tinha arrancado os irmãos dela do mundo. Só isso. No meio do enxofre e do rugido, a mente inteira dela cabia dentro daquele único objetivo, e não sobrava espaço para mais nada.
Foi por isso que, quando recobrou o fio da própria consciência, já estava no meio deles.
Cinco de uma vez, talvez seis. Bug entrou primeiro — a lâmina abriu o braço do mais próximo, subiu, rasgou o peito de outro, desceu e levou a cabeça de um terceiro antes que os olhos dele terminassem de se arregalar. Ela cuspiu uma arma para o lado com as costas da mão, girou o corpo, e a perna de um quarto demônio caiu no chão cinza com um baque úmido. Não havia técnica bonita naquilo. Havia economia. Cada golpe pagava por si.
Num intervalo que não passou de um minuto, o braço dela já havia girado mais de setenta vezes. Contava sem contar, do jeito que Krall a ensinara — não conte os golpes, conte o que sobra em pé —, e o que sobrava em pé ao redor dela era cada vez menos.
E então um deles se esgueirou pelas costas.
Não gritou. Era essa a diferença — todos os outros gritavam, e esse veio calado, a espada erguida. Anya não o viu. Sentiu. O clamor da batalha subiu por dentro dela como água fervendo, e o instinto explodiu antes que qualquer decisão a alcançasse.
Ela empinou a espada para trás, girando, os olhos escancarados —
— e o perdeu de vista.
Piscou. O mundo cinza voltou de um ângulo que não era o de antes. O corpo inteiro se esvaziou de uma vez, aquela exaustão brusca e sem fundo que ela conhecia bem, a conta que sempre chegava depois. As pernas tremeram.
Mas não cederam.
De novo. Ela havia se movido de novo, sem querer, sem mandar — o mundo se desmontando e se remontando ao redor dela num estalo, cuspindo-a dois passos adiante, viva, onde a espada do demônio calado agora cortava apenas o ar.
E Anya riu.
Foi uma risada baixa, quase sem voz. E ela não gostou de quanto gostou dela.
I
Quando Anya saiu do Abismo, ainda tinha um sorriso caloroso no rosto. Segurava Bug com força, encharcada de suor, e precisou apoiar as mãos nas próprias pernas para recuperar o fôlego. Estava concentrada demais no que acabara de fazer para escutar as vozes ao redor — irritadas, cheias de desgosto.
— Acha que isso é algum tipo de brincadeira? — Um dos soldados de Ranking 3 chegou perto dela, as veias do pescoço saltadas. — Eles estão aprendendo a lutar.
— E existe alguma restrição sobre o que se pode fazer dentro do Abismo? — Ione falou do outro lado dela, encarando o homem sem pressa. — Se uma situação dessas acontecer lá fora, de verdade, eles vão saber se defender sozinhos?
— Não é assim que fazemos as coisas.
— Não é assim que você faz. — Ione marcou a frase com um gesto curto de mão. — Mas fique tranquilo. Pode relatar ao Comandante, se achar necessário.
Nenhum deles respondeu. Nem os soldados, nem os Tenentes parados atrás — e Anya reparou no silêncio que caiu sobre o grupo assim que o nome do Comandante foi dito. Ione abriu um sorriso de canto para ela. Virou-se e a chamou.
— Vamos. Não precisamos perder mais tempo com isso.
Os dois seguiram para o corredor lateral.
Antes de dobrar a esquina, ela sentiu o olhar nas costas. Virou o rosto o suficiente. Jerico a observava sair, a surpresa e a tristeza dividindo o rosto dele.
O placar já tinha sido atualizado. Anya não chegou a ver.
O número cem, cravado no mesmo lugar onde antes estivera o nome de Krall.