Capítulo 19: O Jeito dos Fracassados
Capítulo 19: O Jeito dos Fracassados
— Você reparou como eles são? — Ione parou diante de uma porta de madeira, longe dos pátios de treino, na ala Oeste. — Qualquer coisa que você faça diferente do que estão acostumados vai ser retaliada. Seus irmãos eram iguais a eles.
Abriu a porta antes que Anya conseguisse responder.
Do lado de fora, era só um quarto de poucos metros. Por dentro, o espaço se esticava por quase trinta — soldados espalhados pelo que parecia um grande salão, cadeiras e mesas fora de lugar, um balcão comprido à esquerda onde alguém servia bebidas. Havia gente carregando travessas de carne de um lado para o outro, apresentando os pratos a quem esperava.
Ione abriu os braços, um sorriso ardente no rosto.
— Este aqui, minha amiga, é o jeito que os fracassados fazem pra sobreviver.
Anya entrou com a boca aberta chocada. Os lustres no teto balançavam vagamente, iluminando o recinto inteiro. E os soldados nos andares de cima, caminhando com alguns rolos em mãos, sequer pareciam se importar com o barulho em baixo.
Era tão… diferente.
— O que é isso?
— Bom, não posso te contar agora porque é um segredo bem guardado, mas digamos que somos o método que você está esperando. Vem, vem.
Ione desceu dois degraus e esticou a mão, cumprimentando o bartender. Outros soldados passaram por ele, dando uma encarada de leve, mas acenando. Estavam bêbados aquela hora do dia. E tinha rostos ali que Anya nunca tinha visto na academia.
Quem eram essas pessoas todas?
— Ione – a voz veio de cima, do segundo andar. Era uma mulher de cabelos azulados. Essa Anya reconhecia, era Angelina Sun. Terceira Sargento que sempre brigava de vez em quando com Nisha sobre armamento nos campos de treino. – Aspas quer te ver agora.
— Estou indo, docinho. – Ione fez um movimento para Anya acompanhar ela.
Os dois subiram as escadas e chegaram até onde Angelina os esperava. Com um olhar de cima abaixo, a Sargento soltou um risinho baixo e apontou. Anya bateu à porta duas vezes, e abriram por dentro.
O Tenente Aspas estava praticamente parado na mesa, sentado nela. Com um olhar para os cinco ao redor, eles se distanciaram dando caminho. Anya se aproximou com a cabeça erguida. Aspas era um colega de Krall, um colega antigo que sempre parecia irritado quando qualquer do grupo de seu irmão estava presente.
E por alguma razão, ele parecia irritado naquele momento ao olhar pra ela.
— Anya. – O olhar dela amoleceu em seguida. – Peço desculpas por não estar no funeral dos seus irmãos. Muita gente que não deveria estava lá, mas eu não podia.
Foi um baque. O funeral dos seus irmãos tinha sido na primeira semana, mas ela nunca esperou que ouvisse dele.
— Não… tem problema.
— Krall era um dos caras que eu sempre admirei, mesmo que ele fosse a pessoa mais babaca que já pisou nessa Academia. – E deu um sorriso de canto, se lembrando de algo. – Mas nunca esperei que ele fosse ser morto e sua história ter tido esse fim.
— Como eu disse, não tem problema.
Aspas concordou e cruzou os braços, mudando de assunto.
— Antes dele partir pra última missão, fez com que eu ficasse responsável pela sua pessoa. Pediu que Jones viesse e te colocasse no meu grupo, por isso, acredito que você vá ficar bem aqui.
— Ele me disse que eu posso subir de ranking sem precisar passar o ano todo treinando. Por isso eu vim.
O Tenente brandiu a cabeça, concordando.
— Existe uma maneira sim, e é como nós fazemos hoje em dia. Soldados, independente do Ranking, tem funções diferentes dentro da Academia. E os pontos que você ganha ao treinar com eles, ganhando as caçadas, é uma maneira de medir seus méritos. – Aspas esticou o braço para a esquerda onde havia um quadro agarrado na parede. – Esses são os soldados que tenho em minha tutoria. São cinco que não fazem mais parte do sistema tradicional, eles ganham mérito fazendo missões para a Academia.
— Missões? Do lado de fora?
— Não. – Aspas a encarou. – Tenho certeza que Krall te treinou da mesma forma que fez com seus outros irmãos. Você deve ter entrado no Abismo diversas vezes, treinado lá por muito tempo, mas ele nunca contou o que é aquele lugar de verdade, não é?
Anya não soube responder.
— O Abismo é uma forma de ganhar renome, mesmo que fora das Academias. Cada andar dele remete a um tipo de inimigo específico, e cada vez que você sobe, mais difícil fica. Por isso, muita gente faz seu nome lá, e nós da Academia ganhamos méritos ao realizar missões. Esse é o método que os fracassados usam, como seu irmão disse uma vez.
— Krall disse isso? – Claramente não duvidava disso. – E por que vocês usam então?
— Porque nem todos temos a boa vontade do Comandante ou dos Capitães para nos elevarem. Seus irmãos tinham, isso era evidente. Por isso, ironicamente, ele pediu que você estivesse aqui, mas não entendo o motivo dele ter te rebaixado nos testes.
Não falaria sobre sua habilidade.
— Ele disse que eu não estava preparada mentalmente.
Aspas levantou um pouco a cabeça, desconfiando com os olhos.
— Ione. – Após chamar, o soldado entrou pela porta dando uma risada para Angelina. – Como você descreveria as habilidades da soldado Anya após vê-la em combate?
— Descreveria como aptas a duelar contra qualquer um do ano dela, senhor. Acredito que até mesmo contra aqueles dois.
As sobrancelhas de Aspas se elevaram.
— É muita confiança, não?
— Confio no meu instinto, senhor. Anya não mediu esforços para vencer, além de usar a espada centralizada e bem definida. Pode não ter um estilo desenvolvido, mas não carece do básico e sabe manejar uma arma com postura adequada.
— Então, ela passou no seu teste?
Anya, então, encarou Ione.
— Teste?
Como se não a escutasse, respondeu:
— Ela passou por ser ela, senhor. Além disso, um cachorro de briga sempre vai ser um cachorro de briga, independente do gramado. – E mostrou um sorriso. – E nós somos esse tipo de gente.
Então, no fundo, era tudo um teste para ver se ela estava apta a participar disso tudo. Anya não esperava que Ione fosse assim, mas ao visualizar sua postura, não tinha dúvida. Para ele, tudo era apenas uma questão de sobreviver.