Capítulo 2: Um Preço
Capítulo 2: Um Preço
Anya não lembrava direito do que tinha acontecido naquele dia no Abismo. E os outros tinham dito que ela se esforçou demais na luta e acabou desmaiando. Sentada no banco de pedra do pátio interno de treino, observando os outros soldados de ranque I lutarem, tinha certeza que não aconteceu aquilo.
Ela segurou a sua espada com gentileza e também força, a mantendo junto de si em todos os momentos. Não a deixou cair mesmo desacordada. Mas, tinha dúvidas. Antes de cair, ela se moveu rápido demais sem ter feito força. Os dois demônios caíram num estalar de dedos.
— Como eu fiz aquilo?
— Pensando alto, Anya? — Jerico passou por ela. O jovem alto e robusto carregava sua espada de folha larga em cima do ombro, na direção do pátio. — Se continuar pensando muito, vai perder seu posto de terceiro lugar pra mim, hein.
— Só se quebrarem minhas duas pernas e meus dois braços. — Ficou de pé rapidamente e se juntou a ele. — Jerico, você já aprendeu a usar aquele habilidade física do seu pai? Eu estava querendo aprender…
— Se suas duas pernas quebrarem, eu te ensino algum dia.
Os dois se juntaram as outras dezenas de soldados. Em fila, postura reta e aguardando. A entrada semicircular de pedra foi preenchida com os passos dos Tenentes. Cinco deles passaram conversando, ditavam assuntos sobre o terreno e as batalhas nos postos, mas não se dirigiram a nenhum deles. Sequer os colocaram em seus olhos.
Depois de irem embora, a figura máxima nas batalhas se mostrou pelo mesmo caminho. Kai Karmon, o Bode, como chamado. Sua roupa era enegrecida com pelugem grossa, e suas botas não faziam som algum quando caminhava. Sua espada ficava a vista do lado direito da cintura, mas suas mãos nunca saíam de trás das costas, parecendo grudadas.
Jerico e Anya já tinham conversando antes e chegaram a conclusão de que ele nunca precisou puxar sua espada dentro de Antares, a Cidade Militar, onde moravam. Não havia um inimigo a sua altura, nunca houve algum pelas histórias.
A marca do queixo, uma deformidade que fazia sua pele aprofundada, deixava seu rosto ainda mais obscuro. Tinha um boato de que houve alguém que zombou dele, perdeu mais do que somente a voz. Kai Karmon cortou a língua, os dentes e o fez engolir enquanto espinhos cortavam a garganta inteira.
O homem era tenebroso.
— Hoje continuaremos com o Primeiro e Segundo Passo de Homero. — Kai não parou de caminhar, passando por eles na mesma direção que os Tenentes. — Escolham seu parceiro de treino e façam ataque contra defesa. Uma troca para cada Passo. Agora.
Os soldados ergueram os braços juntos, mantendo sua mão no peito. Esse mesmo braço continha em seu pulso o símbolo redondo, cortado na diagonal direita. O símbolo para a entrada do Abismo.
— Sim, senhor.
— Eu não entendo esse relatório, Krall. — Jimmy segurava os papéis na mão direita e a caneta na esquerda. Sua cara era desconfortável. — Sua irmã tem uma das maiores notas desde que começamos a querer desenvolver mais suas habilidades. Mesmo sem ter uma habilidade física aprimorada, ela tem estudado muito bem os Passos de Homero, e sabe utilizar a espada. Se você realmente entregar isso, ela vai deixar de entrar no ranque do Batalhão. Vai ficar abaixo da quinta colocação e não vai poder fazer a prova para o Segundo Ranque.
Krall não hesitou.
— Sei disso. Ultimamente eu tenho observado mais sua capacidade mental e estou vendo ondulações em muitos dos aspectos que normalmente ela tem deixado passar. Estou ciente de que o relatório vai tirar ela da colocação, mas é o necessário.
— Realmente não consigo te entender, Krall. — Jimmy abaixou o relatório e o encarou com certa curiosidade. — Sua irmã tem potencial, mas…
— Mas ainda não está na hora — cortou firmemente Krall. — Ponto final, Jimmy. As consequências disso, eu cuido.
— Claro, claro, Tenente. — A cabeça do homem abaixou em respeito. — Como quiser.
Krall deu as costas e saiu sem se despedir. Quando atravessou a porta, deu de cara com o restante do grupo o esperando. Nisha e Bagre jogavam uma adaga um pro outro e Jones segurava seu escudo apoiado no chão, com ambas as mãos.
Assim que o viram, respiraram fundo.
— Está feito, chefe? — perguntou Jones.
— Sim. É a nossa única opção por agora. Vamos, temos que ver o Comandante.
Nisha e Bagre ficaram um a cada lado de Krall, com um olhar estreito.
— A garota vai ficar furiosa com a gente, chefe — disse Bagre. — Vai ficar ainda mais puta contigo por ter feito isso. Anya sempre foi apegada as notas, ficar fora do terceiro lugar vai deixar ela furiosa.
— E por ela ser mulher, isso vai ser ainda pior — completou Nisha. — Vai ter bastante gente que vai zombar dela. Se a habilidade dela aparecer no meio disso tudo? Vai ser pior ainda.
— Eu sei. — Krall continuou atravessando o corredor. Saíram em uma porta de madeira dando para o jardim de pedra e ferro do Batalhão. Estava silencioso, calmo e sem soldados. Foram até a metade do jardim, Krall se virou. — Anya vai ter problemas se continuar aqui. Vamos atrás do Xamã, e ela vai com a gente. Com o plano que Bagre montou, conseguimos pegar a Relíquia do Rejuvenescimento. Era o nosso plano principal.
— A garota não vai atrapalhar?
Os passos vieram pesados do lado de fora do Jardim. Jones fez uma careta ao ver quem era, os outros dois recuaram um passo. O único que ainda manteve postura e expressão era seu líder.
— Krall — a voz de Anya se arrastou com extrema raiva. — Por que fez aquilo comigo?
— Acho que ela já recebeu a notícia, chefe. — Bagre recuou mais um passo.
— Acha? — perguntou antes de se virar para Anya. — Por que fiz o quê?
Ela parou bem na frente dela, levantando o queixo e o encarando fortemente. Estava suada, vindo do treino com o Comandante, e tinha recebido um golpe na maça do rosto. Um golpe pesado, pelo visto.
— Minha nota… — Ela balançava a cabeça, sua voz alta. — Eu caí para nono lugar. Esse ano inteiro eu me mantive em terceiro e segundo. Fiz de tudo nos treinos, eu consegui mais pontos que todo mundo no jogo de caça na Fronteira. Era a minha chance de chegar no Segundo Ranque de soldado. Por que fez isso?
— Primeiro, eu sou seu líder, chefe do esquadrão e também Tenente. — Seu queixo endureceu. — Não esqueça que está falando comigo, não com seus amigos de treino. Segundo, sua ação no Abismo demonstrou falta de controle mental. Pode não ter soltado sua arma, mas caiu diante dos demônios e perdeu sua consciência. É o retrato da falta de treino.
— Mas…
— Não tem mais. — Krall ergueu a mão para ela, a obrigando a fechar a boca. — Treine mais. Se esforce mais. Não tenho nada a mais a acrescentar. Iremos sair… e pelo seu temperamento atual, acredito que não vamos precisar da sua ajuda na próxima missão.
Nisha, Bagre e Jones ficaram de boca aberta, mas nada disseram. Anya simplesmente ergueu a mão, mostrou os dentes, o nariz tremendo e balançou a cabeça. Krall respirou e finalizou:
— Terminamos aqui? Ótimo. Preciso ir agora. Continue treinando e sua hora vai chegar. — Ele esperou que ela falasse, mas Anya apenas recuou um passo. — Não precisa agradecer. Está tudo bem.
— Agradecer? — Anya recebeu como um insulto. — Agradecer. Obrigado mesmo, Krall, por ser um babaca gigante. Por ser um péssimo líder e mais ainda, por estragar a minha vida. Eu te devo muito mesmo, seu bosta.
Anya deu as costas e saiu andando. Krall se manteve parado, observando ela sair. Jones parou ao seu lado, o rosto misturado entre a confusão e choque.
— O que foi isso? — Krall o encarou. Jones continuou: — Não íamos levar ela? Por que cortou Anya?
— Alguém que está irritado com o grupo tende a não ajudar quando chegar a hora. Meu medo é que Anya não tome as melhores decisões. — Não gostava nada de deixá-la, mas era necessário de muitas formas. Precisava proteger a garota de qualquer coisa. — Jones, coloque ela no grupo do Aspas. Diga que ele me deve um favor.