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Capítulo 20: Verdade

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Capítulo 20: Verdade

— Não precisa se preocupar. — Ione falou assim que deixaram a sala do Aspas e voltaram para o salão. Procurou Angelina com os olhos, de um canto a outro, mas ela não estava em lugar nenhum. — O Aspas é um Tenente que preza muito a habilidade dos soldados dele.

— E por que ele está aqui, e não lá fora?

— É simples. — Desceram as escadas. — O Aspas tem o jeito dele de fazer as coisas. A gente também. Vem. Vou te mostrar como se sobe de ranking sem toda aquela baboseira.

Atravessaram o salão cheio. Anya reconheceu alguns rostos no caminho — Soldados e Cabos que dividiram exercícios com ela e depois sumiram dos campos, um por um, sem que ninguém comentasse. Estavam ali. Reunidos, bebendo, à vontade.

— Como eu disse. — Ione seguiu a direção do olhar dela. — Tem gente que foi feita pra estar aqui. E a gente não tem vergonha disso.

— Não é isso que eu tô pensando.

Não era desprezo o que passava pelo rosto dela. Era a permanência daquilo — daqueles homens e mulheres parados ali, num salão que não constava em lugar nenhum. Podiam não ter renome, mas eram fortes; ela já ouvira histórias de mais de um deles. E, mesmo assim, quase nunca apareciam num recrutamento, numa avaliação dos novatos. Não se escondiam. Só que a exposição não valia a pena.

Então era pra cá que eles iam.

— Aqui. — Ione a chamou com um gesto. — Esse é o nosso pote de ouro.

Era um quadro pequeno, menor que os usados nas salas de estudo. E não havia nada nele. Madeira bruta, um único círculo perfeito riscado no centro. Anya olhou, e olhou de novo, esperando encontrar o resto. Ione riu da confusão no rosto dela e apontou.

— É aqui que a mágica acontece. Seus irmãos já te levaram pra dar uma volta no Abismo. Você viu os níveis de baixo. Mas a verdade é que tem muito mais coisa ali do que a gente conhece, e é nessa brecha que a gente sobe.

— São dez andares iniciais. — Anya não se impressionou. — Me disseram que existem outros. Bem mais altos.

— Existem. Depois do décimo, a gente entra na zona segura. — Ele a olhou, o sorriso bobo de novo. — Anya, o Abismo é muito mais do que você acredita, ou do que te contaram. É um lugar novo. Uma casa nova. Um propósito novo. É por isso que a gente vive lá.

Ela deixou ele falar.

Não precisava da explicação inteira. Conhecia a Marionete. Conhecia os andares, e conhecia até um pouco do 120 — onde a criatura vivia antes de ser enterrada dentro do cubo que ela agora carregava no bolso. Ele não fazia ideia de com quem estava falando. Mas ver o Abismo pelo outro lado, pela porta dos desgarrados e não pela Ala de Passe — isso, sim, era novo.

— Me mostra — pediu.

Ione concordou e esticou a mão para a madeira. Anya seguiu o movimento.

O soldado ao lado dela foi o primeiro. Ela viu a pele dele virar flocos brilhantes, aos poucos, puxados para dentro do círculo como se o quadro respirasse fundo. E então foi a vez dela — o corpo desmanchando, levado para outro ponto.

Os olhos se fecharam sozinhos. Tudo escureceu.

Num instante, a mente se recobrou. A sensação era a mesma de quando entrava no Abismo Pessoal: o frio primeiro, depois o tempo se esticando, tudo virando um borrão sem contorno. Ela se preparou para o cinza. Para o enxofre, a terra queimada, o rugido dos andares de baixo que aprendera a reconhecer no teste.

Então os sons voltaram.

Vozes — gente conversando, muita gente. O canto de pássaros em algum lugar acima. E, mais longe, o relincho de um cavalo, depois de outro. Uma mistura de ruídos comuns, vivos, que não tinham nada a ver com o mundo cinza que ela esperava encontrar.

Anya abriu os olhos.

E reconheceu que aquilo, também, era o Abismo.

As casas eram altas, largas, brancas. Os telhados desciam em triângulo, cobertos de telhas avermelhadas, e se erguiam em volta sobre um piso de mármore cinza-claro. O branco contra o vermelho contra o cinza — um contraste tão nítido que Anya não conseguia tirar os olhos dele.

O lugar inteiro era um amontoado de gente, de animais, de… vida. Mais de cem pessoas só naquele pátio. E, às costas dela, um imenso arco dourado.

Ela se virou para encarar o monumento, e a boca se abriu sozinha.

Eu já passei por aqui. Vindo da própria Academia, no dia do teste, atravessara aquele mesmo arco. Só que, do outro lado dele, havia o cinza, o enxofre, o primeiro andar. Não isto.

— Ei. Olha pra frente, garota.

Um anão passou raspando por ela, armaduras pesadas empilhadas nos ombros. Levava um martelo de batalha na mão direita; a esquerda trazia uma manopla de ferro cravejada de pedras douradas. Rangeu os dentes ao abrir caminho e seguiu.

Logo atrás dele vinham mais. Entravam e saíam pelo portal, indo e voltando, como quem faz aquilo todo dia. E não eram todos humanos. Havia mulheres de orelhas pontudas. Criaturas de cauda longa, o corpo coberto de escamas. E, mais adiante, um punhado de seres miúdos — menores que os anões — empoleirados numa caixa, discutindo aos gritos algum plano que ela não entendeu.

Anya não fazia ideia de que lugar era aquele. Só sabia que não era o primeiro andar.

A mão dela tinha ido, sozinha, para o cabo de Bug. Percebeu, e não a tirou de lá.

— Assustada, né? — Ione segurou o ombro dela e a girou de volta para as casas. — Bem-vinda ao 11º andar. É aqui que a gente vai conseguir as respostas que você quer. É aqui que os nossos sonhos podem virar verdade. — Um canto de sorriso. — Se a gente tiver a sorte de não morrer antes.

Desceu as escadas do monumento rindo.

— Vem. — Chamou-a com a mão, animado. — Vou te apresentar o pessoal da minha equipe.

Ela seguiu adiante, descendo e se juntando a Ione com um pouco de entusiasmo. Não sabia que aquele lugar seria a partida para toda sua história. E que a mudaria pra sempre.