Capítulo 22: Red Hunters
Capítulo 22: Red Hunters
Ione se aproximou dela e jogou um casaco. Era vermelho com uma capa grossa caindo abaixo do braço direito, e com fivelas nas costas. Anya tinha segurado aquilo com estranheza, mas ao ver as pessoas no andar de cima voltando para seus quartos depois daquela cerimonia de entrada, entendeu que eles usavam as mesmas vestimentas.
Seu ombro levou dois tapinhas.
— Dex é assim mesmo. Irritado e cansado. – Ione apontou para a cadeira. Anya e ele se sentaram. – Daqui pra frente, você vai se reportar diretamente a ele. Dex é o líder do nosso grupo faz tempo, então não se preocupe com os outros.
— O próprio lider veio me bater no primeiro dia?
— Não fique preocupada – uma voz veio de cima. Era uma mulher mais velha, na casa dos trinta anos, com tranças dos dois lados da cabeça, caindo para trás. – Ele faz isso com todo mundo.
Outro, do lado oposto, o único que ficou também, respondeu:
— Ele saber que o que você quer é o jeito de termos certeza que seu coração está querendo algo grande. – Era um rapaz alto e forte, com o casaco vermelho indo somente até metade dos braços. Nas costas, dois machados grandes se cruzando. – Nós fizemos o mesmo.
Anya suspirou. Era um bando de gente estranha que estava ali para chegar nos rankings mais altos. Seus olhos, no entanto, não mentiam. Esses dois eram mais fortes do que Ragnar e Jerico também, ou até mesmo Ione.
Ela nunca tinha visto ele em ação, mas os dois exalavam confiança extrema. Ione apenas entusiasmo. Eram emoções diferentes.
— Vai precisar ficar no último quarto – concluiu Ione depois que ela se vestiu. – Não precisa se preocupar com os treinos do lado de fora. Na Academia, se você tiver os pontos suficientes nos bimestres, já é suficiente. Concluas as missões que quiser, faça do seu jeito. Amanhã vou te mostrar como é.
O último quarto do segundo andar, ela precisou passar pela mulher que deu uma risada ainda empoleirada no beiral e acenou. Anya entrou, ficando sozinha no seu novo quarto. Ali dentro, mesmo com a cama e uma pequena escrivaninha, tinha seu coração acelerado.
O golpe que recebeu de Dex não tinha sido forte demais. Krall e Jones já tinham feito algo parecido, mas esse cara… ele tinha apenas brandido com força e vontade. Foi quase como se a Marionete tivesse ficado frente a frente com ela de novo.
Esse é o tipo de gente que vive aqui no Abismo?
Não lembrava de Dex na Academia, e nem sabia qual era a sua posição militar. Seria um Tenente igual Aspas? Anya adormeceu pensando na curta batalha que teve.
I
Quando acordou, saiu da cama e abriu a porta. E o som de gritaria era gigantesca. Os quatro do dia anterior estavam no primeiro andar, com as mesas arrumadas, e mais seis tinham chegado. Esses seis gritavam e gargalhavam, apontando uns para os outros.
— Eu tinha certeza que seria mais difícil – um deles, que segurava um espeto de ferro de um metro apontou para o imenso javali que estava sendo cortado em fatias largas e gordurosas. – Foi quase como se estivéssemos num paraíso.
Anya foi até o final, ajustando a sua espada na fivela, e desceu as escadas. Lá embaixo encontrou com Ione separando algumas fatias em seu prato. Quando a viu, soltou um ‘A’ bem alto, e bateu várias palmas, chamando atenção dos outros.
— Pessoal, pessoal. – Os outros pararam de comer. – Essa aqui é Anya. Ela chegou ontem e Dex já deu uma surra nela. Anya, esse é o pessoal. Você não vai ter contato com todos eles, mas somos todos do mesmo time.
Dex, que comia sentado em uma das mesas, levantou a mesa cumprimentando. Claramente cansado.
— Digam olá, pessoal.
Todos levantaram a mão, dando risadas.
— Anya, não é?
Naquele dia, Anya foi pega por algumas pessoas e levadas para comer. Um dos grandalhões, chamado Leonidas, entregou pra ela um prato cheio de costeletas com molho, e mandou que experimentasse tudo.
Mesmo sendo grande e forte, tinha um olhar gentil. E ficou esperando até que ela provasse e aprovasse com o dedo.
— Meu pai era cozinheiro. – Ele explicou entregando para outros do time. – Você vai ter que provar todos os meus pratos. É assim que vai ficar maior e mais forte. É a regra da casa.
— Todos comemos – disse Joana, a mulher do dia anterior com as tranças. – Ele melhorou muito. Antigamente fazia cada atrocidade que tínhamos que decidir quem ia usar o banheiro. Lembram?
Todos os outros, incluindo Dex, concordaram com comentários.
— Era cada coisa. – Leonidas deu uma risada e entregou para um rapaz chamado Frits. – Se você continuar aperfeiçoando suas próprias habilidades, uma hora elas se tornam únicas. Sou um cozinheiro amador, mas um lanceiro de ponta.
— Nisso concordamos – o próprio Frits respondeu. – Leonidas é o único que consegue abater um javali selvagem desse andar com uma estocada só. Precisa ver qualquer dia, Anya.
Ela estava no meio de um pedaço de carne quando concordou várias vezes.
— O nosso pequeno Astax também faz isso, mas com os Goblins e Orcs. – Leonidas pegou o prato da Anya e entregou com mais carne. – Astax é aquele ali falando com o Dex.
Era um rapaz baixo, musculoso, com uma espada escura na cintura. Ele estava falando com Dex, que só balançava a cabeça. E não parava. Até que um dos estranhos homens, usando uma argola dourada no pescoço puxou a cadeira dele, e o fazendo se levantar na hora.
— E aquele é Gauls – explicou Leonidas. – É o nosso gladiador. É o único que bate de frente com Dex em lutas, mas… bom, digamos que ele não é muito inteligente com outras coisas.
— Está elogiando ele desa forma – disse Joana no canto. – A única coisa que ele sabe fazer é lutar. Por isso está aqui. Ele é Segundo Sargento, Anya. Na verdade, todos nós somos. Os únicos soldados são Ione, Astax e você agora. Você é como se fosse a caçula agora.
— Não é como se eu fosse ficar chateada por isso. – Anya deu um sorriso de canto. – Eu também era caçula dos meus irmãos.
— Então vai se dar bem com todo mundo aqui.
Leonidas sentou-se para comer junto deles. E Ione, do outro lado, se engasgava com batata cozida com mel. Era um grupo falador, que não deixava o silêncio reinar por nada, mas que eram bens centrados e divertidos.
Fazia um tempo desde que Anya ouvia histórias e sorria daquele jeito. Um jeito que a fez esquecer, mesmo por alguns segundos, que tinha uma vingança pra concluir. Mas, já estava instalado em seu coração o seu desejo.
A vingança era o que a faria se mover.