Capítulo 24: Ponto de Controle
Capítulo 24: Ponto de Controle
— Como você pode ver, aqui fora é sempre movimentado. — Leonidas e Ione estavam lado a lado, apontando para a rua. — Tem que tomar cuidado, porque o pessoal é meio nervoso. Aqui no Abismo existe uma coisa que eles chamam de Convergência. É por isso que você está vendo um anão, um elfo e umas raças que a gente nunca conseguiu decorar o nome direito.
Ione se inclinou e falou baixo, quase sem mexer os lábios:
— Não vai dizer que não sabe perto deles. Ficam putos com isso.
— Acredito. — Anya olhou de novo para a multidão. — E como funciona essa tal de Convergência?
— Depende. — Leonidas puxou uma cadeira, e os outros o imitaram, sentando de frente para a rua. — Tem muita gente que diz que o Abismo está presente em todos os mundos. E tem quem diga que ele escolhe em qual quer estar.
— A gente não faz ideia — corrigiu Ione. — Essa é a verdade.
Anya riu. Leonidas tossiu, puxando a atenção de volta para si.
— Mesmo que a Ione diga que não sabemos, o que importa é o seguinte: essas raças não estão na mesma dimensão que a nossa. Por isso convergem aqui, no Abismo. — O cozinheiro se empolgava à medida que explicava. — E quanto mais alto a gente sobe, mais chance tem de topar com outras. Depois do vigésimo andar, as coisas ficam muito diferentes.
Anya já tinha ouvido tanta coisa naquele dia que mal sentia estar vivendo de verdade. Uma semana antes, estava moendo o Idiota de pancada no treino. Agora estava sentada dentro do Abismo, esperando Astrax voltar com os pratos.
Por falar nele. Astrax saiu da hospedagem equilibrando uma bandeja com quatro pratos. Distribuiu, sentou-se, cruzou as pernas e espetou uma batata assada no mel.
— E aí, o que eu perdi?
— Nada, ainda. — Ione mordeu a própria batata e ergueu o rosto, e o som que soltou foi quase um gemido. — Cacetada. Isso tá bom demais. Mudou o tempero?
— Que nada, é o de sempre. — Leonidas riu. — Esfomeado você que é.
Astrax apontou o garfo para a rua, na direção de uma carruagem pequena, abarrotada de suprimentos. Na frente, um cocheiro guiava dois cavalos.
— Tem que tomar cuidado com os cavalos, Anya. — Falou depressa, de boca cheia. — Aqui no Abismo eles são raríssimos. As outras raças não criam nenhum bicho de montaria, só a gente. Se você esbarrar num, pronto: problema na certa.
Anya guardou o conselho. Ficou mais algumas horas ali com eles. Leonidas preparou um lanche — teve chá, e até biscoito saiu do forno. Ninguém parecia se importar com o tempo que passava. Mas, aos poucos, a noite foi se instalando.
Astrax foi o primeiro a se levantar, dizendo que precisava treinar para o dia seguinte. Ione bocejou e avisou que ia dormir pelo menos doze horas antes de ouvir o Dex gritar o nome dela de novo. Quando Leonidas comentou que também ia se recolher, Anya perguntou a ele:
— Por que a nossa hospedagem é toda acabada assim?
— Ah. — A pergunta não pareceu agradá-lo. — Não é porque a gente gosta, isso eu garanto. É que todo mundo que aparece aqui bate o olho na gente e vai embora. Nunca tivemos motivo pra caprichar na aparência.
— E quem é esse “todo mundo”?
— O pessoal que precisa de ajuda com missão. Uns pedintes que oferecem Jurax em troca de algum favorzinho. — Leonidas dobrou a cadeira de madeira e se endireitou. — A gente não liga pra fama. Mesmo que remendar essas paredes e esse chão fosse bem-vindo.
Ao sair para descansar, deixou Anya sozinha do lado de fora. Ela comeu até ficar estufada, guardou a cadeira lá dentro e saiu para andar um pouco. No décimo primeiro andar, a rua era movimentada demais. Parou na beira da calçada, olhando o vaivém, e respirou fundo.
Aquele lugar era diferente do mundo lá fora. Trazia a sensação de que ela ainda podia seguir o caminho dos irmãos.
— Anya. — Joana a chamou por trás. Tinha acabado de sair da hospedagem. — Vou voltar para a Academia. Você tem o que fazer por lá?
— Tenho. Preciso treinar.
— Ótimo. Vem, me faz companhia.
As duas atravessaram a passarela de pedra e saíram na rua principal. Dali, seguiram a pé até o arco dourado gigante. Mesmo de longe, Anya o enxergava perfeito, o brilho imenso lambendo as tochas.
Era deslumbrante. Nunca tinha visto nada igual.
Ao seu lado, Joana reparou.
— O charme do Abismo é grande. Não pode se deixar levar por ele aqui dentro. — Deu uma risada e a empurrou de leve. — Lá fora, a gente é soldado. Aqui, é caçador.
— E qual é a diferença?
— Sempre achei que, de soldado, tem sempre alguém querendo mandar na gente. Na Academia é o tempo todo. Aqui, o Dex deixa cada um seguir o próprio instinto.
Anya concordou com um aceno. Jerico, por exemplo, nem tinha tirado o cheiro de soldado ranking 2 e já queria dar ordem nela.
— Sei bem como é. — Bufou. — Mas fiquei pensando numa coisa. Vocês ainda fazem alguma coisa lá fora? Fora os requisitos pra subir de posição, quero dizer.
— Eu quase não vou. Mas os mais novos vão. O Bruto, por exemplo, é Ranking 1 e nem pisa na Academia. Veio direto pra cá. É primo distante do Dex, de outro reino.
— Nem sabia que dava pra fazer isso. — Era uma possibilidade. Mas ela precisava voltar para o quarto de Jones. A Marionete só podia aparecer dali.
— Amanhã cedo eu volto — continuou. — Só queria saber se posso usar o quadro a qualquer hora.
— Pode, claro. — Joana apontou para o próprio braço. — A marca do Abismo deixa você entrar e sair quando quiser. É só vir pra cá direto.
Chegaram ao arco dourado. Joana foi à frente, mostrando que bastava esticar o braço: a marca, um círculo perfeito, vibrava quando chegava perto. Ela atravessou, e a membrana azul a engoliu.
Anya repetiu o gesto, meio receosa. Quando passou, respirou um ar de madeira e fumaça. Abriu os olhos de volta no salão. O barulho e a música se alastravam outra vez, as pessoas conversando quase aos gritos, e Joana já trocava palavra com outro membro da Academia.
Era diferente. Era estranho. Mas o coração dela dizia que era o único jeito de conseguir o que queria.