Capítulo 25: Fome
Capítulo 25: Fome
Dormiu como uma pedra, no próprio quarto.
Anya acordou com batidas vindo da parede ao lado. Resmungou, encarando o ponto de onde saía o barulho incessante, e depois foi lavar o rosto. Escovou os dentes, ajeitou o cabelo e prendeu-o atrás da cabeça num coque pequeno. Arrumou o lençol e saiu, trancando o quarto.
Girou a chave na maçaneta e, ao virar, deu de cara com Ione, que a encarava. Anya deu um pulo.
— Cacete. — Levou a mão ao peito. — Por que fez isso?
— Porque eu preciso te manter esperta. Não ouviu a batida no quarto ao lado? — Ele tirou um pão doce de uma embalagem e jogou para ela. — Toma, é seu. Temos que ir. Já tá pronta, né?
— Tô, claro.
Ela pegou o pão e deu uma mordida. Era suculento, quase se desfazia na boca. Muito bom. Deixou escapar um suspiro.
— Isso tá muito bom.
— Ótimo. Vamos, o Dex tá esperando a gente.
Passaram pelos corredores, foram até o salão e encontraram Leonidas à espera na porta. O cozinheiro não trazia a expressão alegre do dia anterior, nem parecia animado por ter sido chamado.
— Estão atrasados — comentou, ao vê-los se aproximar. — Vamos. O Dex está esperando na sala do Aspas.
Subiram a escada depressa, passando pelos soldados que conversavam àquela hora da manhã. Dessa vez, diferente da noite anterior, não havia mais que cinco pessoas conversando e bebendo. No topo, Leonidas foi à frente e abriu a porta, deixando-os passar.
Lá dentro, além de Dex, que os aguardava, estavam Astrax, Joana, Frits e Gauls — cada um num canto da sala, os olhos nos quadros ou nos livros. E, atrás da mesa, Aspas, com Dex a seu lado, encarava um mapa estranho.
Também não pareciam nada contentes.
— Estamos aqui, senhor — disse Leonidas, obrigando os dois a levantar o rosto. — Pode começar.
Joana chegou para o lado de Anya e deu um empurrãozinho de brincadeira.
— Achei que você fosse dormir até o meio-dia.
— Era o meu plano. Mas me acordaram. — Anya mastigou o resto do pão doce e lambeu a ponta do dedo. Leonidas estendeu um pacotinho de biscoitos, e ela pegou. — Por que a gente tá aqui?
— Lembra do primo distante do Dex? — Joana falou baixinho. — Comentei dele ontem. Se meteu num problema fora da zona segura.
Dex ergueu o braço, puxando a atenção de todos. Mesmo cansado, a autoridade dele não vacilava um dedo.
— Chamei vocês porque sei que estavam livres. E vou ser franco: não é a melhor composição, mas vai ter que servir. O Bruto ficou preso num ponto fora do 12º, numa missão. E parece que está encrencado.
— Monstros? — Astrax perguntou, ainda sentado. — Uns monstros ele dá conta.
— Não. Parece que é algum tipo de grupo. O Bruto usou um pergaminho de comunicação pra mandar um pedido de socorro — mas também pode ser armadilha, isca pra atrair mais gente. Vocês vão lá. Entenderam?
Todos concordaram. Anya ficou parada, observando de boca aberta. Era só isso? Joana e Leonidas já enchiam as próprias bolsas com uns poucos suprimentos, e Astrax se levantou, esperando os outros saírem.
Era assim que funcionava?
— A gente sempre faz esse tipo de coisa? — perguntou para Joana, baixinho. — Ninguém questiona nada?
— Ah, se quiser perguntar, fica à vontade. Normalmente até pagam a gente pra isso. — Joana ajustou a fivela na cintura. — É só pegar o Bruto e voltar. Coisa simples.
Eles seguiram para o primeiro andar, tocando o quadro.
A passagem para o décimo segundo andar cheirava a metal frio.
Anya foi a última a atravessar. A membrana azul se fechou atrás dela com um estalo surdo, e por um instante o mundo ficou sem chão — aquele puxão no estômago que ela ainda não tinha aprendido a ignorar. Depois os pés acharam pedra, e ela abriu os olhos.
O décimo segundo não tinha o ouro do andar de baixo.
Onde o décimo primeiro fervia de música e tochas, ali a luz era baixa, cor de brasa velha. As casas se encostavam umas nas outras como se tivessem medo do teto. Havia gente — sempre havia gente —, mas conversavam mais baixo e olhavam mais. Um anão de barba trançada parou de martelar quando o grupo passou. Duas criaturas escamadas, encostadas num muro, seguiram Anya com os olhos amarelos até ela sumir de vista.
Aqui a gente não é bem-vindo , ela pensou. Não do jeito de baixo.
— Não encara — murmurou Joana, sem virar o rosto. — Aqui em cima cobram pedágio até por olhar demais.
Leonidas ia na frente, a bolsa de suprimentos batendo no quadril. Astrax fechava a fila, a mão perto do cinto o tempo todo. Ninguém precisou mandar a Anya andar depressa. O corpo dela entendeu sozinho.
O contato esperava onde Dex tinha dito: sob um toldo puído, ao lado de uma banca de peles secas.
Era um anão. Baixo até para um anão, com um olho leitoso e o outro afiado, e os dedos manchados de tinta de mapa. Quando os viu, não sorriu. Só empurrou uma tigela de algo fumegante para o lado, abrindo espaço na mesa.
— Vocês são os do Dex. — Não era pergunta. A voz saía raspada, pedra contra pedra. — Tá reduzido, o time. Ele deve gostar muito do primo. Ou muito pouco de vocês.
— A gente serve — disse Astrax.
— Vamos ver. — Grix desenrolou um retalho de mapa sobre a mesa e prendeu as pontas com o polegar e uma caneca. Um dedo sujo bateu num ponto além da última linha de casas. — Seu amigão tá aqui. Fora da zona, num vão de rocha que os escamados chamam de Goela. Entrou pra entregar um pacote e não saiu.
Anya se inclinou sobre o mapa. As linhas não faziam sentido para ela — ainda não —, mas o nome ficou. Goela.
— Que tipo de problema? — perguntou.
O anão ergueu o olho afiado até ela, como se só agora tivesse reparado que havia uma garota ali.
— Gente. Anda em bando, não usa garra. — Bateu de novo no ponto, mais devagar. — Não são bichos. Bicho a gente entende. Esses aí montaram guarda na boca da Goela faz dois dias, e não deixam ninguém entrar nem sair. Ou tão esperando alguém… — o dedo subiu do mapa e apontou, sem pressa, para o peito de cada um deles, um por um — …ou tão esperando vocês.
Ninguém falou.
Leonidas foi o primeiro a se mexer. Enrolou o mapa e enfiou dentro do casaco.
— Quanto o Dex te deve por isso?
— Já tá pago. — Grix puxou a tigela de volta e voltou a comer, assunto encerrado. — O que ele não pagou foi pra eu avisar vocês de uma coisa. Então eu aviso de graça. — Soprou a colher. — O pacote que o grandão foi entregar? Ninguém encomendou.
Anya sentiu o frio do andar descer mais fundo. Ao lado dela, Joana tinha parado de sorrir.