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Capítulo 26: Apara e Suma

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Capítulo 26: Apara e Suma

A zona segura terminava numa linha que ninguém tinha desenhado.

Anya percebeu na hora em que cruzou. Um passo, o chão ainda era da cidade — pedra gasta, cheiro de fumaça e comida. O passo seguinte, e a pedra virava rocha crua, o teto se abria num escuro sem fim, e o barulho das casas ficou para trás como se uma porta tivesse se fechado. Nenhum muro marcava o fim.

— Sentiu, né? — Ione apareceu ao lado dela. Tinha ficado calado desde a banca do anão, e agora surgia sem fazer barulho, do jeito dele, as mãos nos bolsos e os olhos em todo lugar. — Todo mundo sente da primeira vez. É o andar tirando as luvas.

— No de baixo não era assim — disse Anya. — Lá tinha… — procurou a palavra — …gente. Aqui também tem, mas é diferente.

— Lá embaixo é vitrine. — Ele cuspiu de lado. — O décimo primeiro é a cara bonita que o Abismo faz pra você não correr no primeiro dia. Daqui pra cima já é o dente.

Ele andava devagar, medindo o chão a cada passo, e falava sem pressa, como quem já disse aquilo a muitos novatos e enterrou alguns.

— Viu aquele anão martelando, lá na entrada? Aposto que tá aqui faz anos. Montou banca, vendeu prego, criou raiz. — Ione apontou o queixo para trás, para a cidade que sumia. — E ele sabe que pode perder tudo numa tarde. Aqui, andar não tem dono de verdade. Tem dono até alguém chegar e matar o chefe por último. Quem dá o golpe final leva o andar. Leva a banca do anão junto.

Anya virou o rosto para ele.

— Só isso? O último golpe?

— Só isso. — Ione deu de ombros, mas não havia graça nenhuma no rosto dele. — Por isso ninguém aqui em cima confia em ninguém. Cada cara que passa pode ser o sujeito que vai tomar o que é teu semana que vem. Você sorri pra ele hoje e mata ele depois de amanhã. — Olhou-a de esguelha. — Guarda essa. Vai te salvar mais que essa espada ai.

Anya guardou. Não custava nada. Ela já não confiava em ninguém com a única coisa que importava — aquilo que tremia dentro dela, que a atirava de um canto a outro do mundo sem pedir licença. Mais um segredo pra somar aos meus , pensou. A diferença é que dos dela ninguém sequer desconfiava.

Seguiram em silêncio por um tempo. A rocha subia dos dois lados, apertando o caminho num corredor, e a luz de brasa velha ficou para trás. Então Ione parou. Levantou dois dedos, e o grupo inteiro estancou atrás dele sem que ninguém dissesse uma palavra.

Ele cheirou o ar. Inclinou a cabeça, escutando. Anya não ouvia nada além do próprio sangue.

— O que foi? — sussurrou.

— Silêncio demais. — Ione falava sem mexer os lábios. — Andar como esse nunca é quieto. Os monstros gostam de fazer barulho, a água escorre, sempre tem alguma coisa rangendo. — Apontou o queixo para a frente, para onde a garganta de pedra se estreitava e escurecia. — Quando fica assim, é porque tem gente se esforçando pra ficar quieta.

À frente, na boca da Goela, alguma coisa se moveu no escuro.

— Merda. — Leonidas falou da frente. — Se separem. É uma emboscada mesmo.

O corredor explodiu.

Vieram das fendas na rocha, dos dois lados, de cima — vultos que até um segundo atrás eram sombra e agora tinham peso, cheiro, aço. Alguém gritou. Uma tocha caiu, rolou, e a luz saltou pelas paredes, fazendo tudo dançar.

Anya correu.

Não pensou. O corpo escolheu antes dela — abriu para a direita, na direção da Goela, para o vão estreito onde menos gente cabia, onde ela podia pôr a rocha nas costas e ter só um lado para defender.

Foi aí que os vultos a viram sozinha. E vieram.

O primeiro chegou rápido, uma lâmina curva mirando o pescoço. Anya se abaixou — sentiu o vento do corte raspar o cabelo — e enterrou o cotovelo nas costelas dele ao subir. O sujeito dobrou. Ela não esperou: girou, sacou a adaga que Nisha tinha entregado como presente e abriu a coxa dele até o osso pedir passagem. Ele caiu gritando.

Um.

Não deu tempo de respirar. O segundo já estava em cima, e atrás dele um terceiro, e Anya recuou os últimos passos até a pedra fria bater nas costas. Sem saída. Os dois lados viraram um só: a frente.

E então começou.

Nas mãos primeiro. Aquele formigamento fino, elétrico, subindo pelos antebraços como água fervendo ao contrário. Anya conhecia. Anya odiava. Era o Erro acordando — o tremor que não pedia licença, que não ligava para plateia nem para segredo, que só queria arrancá-la dali e jogá-la sabe-se lá onde. Bastava deixar. Bastava soltar, e num piscar ela estaria do outro lado do corredor, longe das lâminas, viva.

E toda aquela gente veria uma garota sumir de um lugar e nascer em outro.

Não.

Ela mordeu o tremor. Cravou os dentes, cravou os pés, e engoliu o Erro de volta — goela abaixo, feito quem segura o próprio vomito. Doeu. Doeu como subir escada com a perna quebrada dói, o corpo inteiro berrando para fazer a coisa errada e fácil.

A lâmina do segundo veio no meio disso.

Anya aparou tarde. O aço rasgou pedaço pequeno do braço dela, quente, e o sangue veio depressa. Ela grunhiu — não gritou — e revidou às cegas, o punho fechado acertando algo mole. Cartilagem. O vulto cambaleou. Ela avançou por cima do próprio medo, dois passos, e usou a adaga do jeito que o Krall tinha ensinado: sem firula, buscando o que sangra rápido.

O terceiro hesitou. Foi só um instante — o instante de olhar a companheira caída, o outro estripado, e a garota de braço aberto e olhos de bicho encurralado ainda de pé.

Corre , Anya pensou, para ele. Por favor, corre. Porque eu não sei quanto tempo mais eu seguro isso.

O tremor batia dentro dela feito um segundo coração, exigindo. As pernas começavam a amolecer. Ela sabia o preço de quando o Erro vencia: o breu, o desmaio, acordar sem saber onde. Se caísse ali, cairia para sempre.

Do fundo da Goela, às suas costas, veio um som. Um baque. Depois outro — pesado, arrastado, vindo na direção dela pelo único lado que ela tinha deixado aberto.

E o tremor, sentindo a brecha, subiu mais uma vez. Quase com carinho.

Agora , ele dizia. Agora ou nunca.