Capítulo 27: Feitiço
Capítulo 27: Feitiço
E Anya respondeu fechando os olhos.
No meio do escuro, o corpo dela foi arrancado do chão — para cima, dessa vez. Numa direção que ela não escolheu, sem aviso. Só o puxão, o nada, e depois o baque surdo de aterrissar em algum lugar que as costas dela reconheceram antes dos olhos.
— Onde ela foi parar? — a voz veio de baixo.
Anya abriu os olhos e soltou o ar preso no peito.
Estava empoleirada numa saliência de rocha encravada na parede do corredor, uns quatro metros acima do chão. As pernas dobradas embaixo do corpo, a Bug ainda na mão, o braço rasgado latejando ao ritmo do coração. Olhou para as próprias mãos como se fossem de outra pessoa.
E esperou o breu chegar. O desmaio, a moleza, o preço.
Não veio.
Não estou cansada.
Não estava. O coração disparava, o braço sangrava — mas aquele fundo de poço que sempre a engolia depois de um salto, o esgotamento que a jogava de joelhos, não estava lá. Alguma coisa tinha mudado. E ela sabia o quê. Sabia das noites, do quarto do Jones, daquilo que a obrigava a repetir o tremor até cair, de novo e de novo, até doer menos. Sabia — e não deixava nem o próprio pensamento terminar a frase.
Lá embaixo, os vultos giravam no escuro, procurando uma garota que não estava mais onde deviam procurar.
— Ela tava aqui agora. — Um deles cuspiu, impaciente. — Deixa. Não importa. A gente pegou algum daqueles bastardos do Red?
— Um saiu ferido. Não deu tempo do resto. — O segundo falava rápido, engolindo as palavras. — Nos viram antes da gente fechar o cerco. Mas foda-se isso agora. — Uma pausa, e a voz baixou, mais tensa. — O desgraçado continua preso lá dentro. Não dá mais pra tirar ele aqui. Vamos ter que levar pra outro andar.
Anya prendeu a respiração.
Os outros hesitaram, discutiram por alguns segundos — vozes se atropelando, uma a favor, outra contra — até o primeiro cortar tudo:
— Chega. A gente leva ele. Agora.
E se moveram.
Anya esticou o pescoço sobre a beira da pedra, procurando o grupo dela no breu lá embaixo — Leonidas, Joana, Astrax, Ione, qualquer um. Não achou ninguém. A emboscada tinha espalhado todos pelos cantos do corredor, e o resto de luz que a tocha caída ainda soltava não alcançava mais que os próprios pés dela.
Só ela tinha ouvido. Só ela sabia para onde o Bruto ia.
E estava sozinha, sangrando, quatro metros acima de todo mundo, com um poder que tinha obedecido pela primeira vez na vida — e nenhuma garantia de que fosse obedecer de novo. Era praticamente estar no meio do nada, mais uma vez.
Mas precisou respirar fundo antes.
Se aqueles caras estavam indo até o Bruto, então era simples: ela ia atrás. Olhou para baixo. Sentiu a altura no estômago antes de medi-la com os olhos — quatro metros de queda até a pedra, tudo escuro.
— Puta merda.
O braço ainda latejava. Mas, quando dobrou os dedos, eles obedeceram, e o talho no antebraço já tinha parado de sangrar — rápido demais para o tamanho do corte. Ela preferiu não pensar nisso agora. Bug seguia firme na mão. Não tinha perdido a espada. Podia descer.
Embainhou a Bug. Puxou a adaga do cinto — a lâmina curta, a de trabalho, não a do morto — e se deixou escorregar pela parede, cravando o aço na rocha para frear a descida. A pedra rangeu, soltou faísca, mas segurou. Quando faltavam dois metros, largou tudo e saltou.
O pouso foi macio. Silencioso.
Anya agachou, olhou um lado e o outro do corredor e começou a seguir — colada na parede, os pés escolhendo onde pisar, a respiração curta. Na mesma direção que os vultos tinham tomado.
O corredor estreito foi afunilando até uma boca de luz. Ela parou antes de entrar nela.
Tochas. Um acampamento inteiro enfiado no vão da rocha — e escondido bem, talvez melhor que o próprio salão que os Red usavam para entrar no Abismo, lá na Academia. A luz não alcançava todos os ângulos; morria antes de chegar às paredes e deixava metade do lugar no breu. Havia cabanas pequenas, montadas às pressas. Cordas. Caixas empilhadas.
E, riscando o chão de terra batida até sumir num túnel escuro do outro lado, o rastro fresco de alguma coisa pesada. Arrastada.
Pesada feito um corpo. E só havia um corpo ali que eles fariam questão de arrastar.
Bruto.
Ela tinha chegado tarde. Estavam levando ele.
I
— Estamos todos bem. — Leonidas disse ao ver o resto do grupo se juntando de novo, um a um, saindo do breu do corredor. Só o Ione tinha se machucado — um corte no pescoço, raso, que ele apertava com a mão nua. — Viram pra onde eles foram?
— Devem ter voltado lá pra dentro. — Joana respirava pesado, o peito subindo e descendo. — Achei que ia ser mais fácil. O Bruto se meteu com uns caras estranhos… mas a gente derrubou um monte.
— Eu só peguei quatro. — Astrax cruzou os braços, contrariado. — Fugiram quando viram um dos colegas cair morto.
Ninguém precisou lembrar que o Astrax virava outra coisa quando o assunto era briga. Mesmo em desvantagem, foi o único que não recuou um passo — segurou a linha, quebrou o ímpeto do ataque, deu ao resto do grupo o tempo que faltava.
Foi quando viram o emblema que um dos caídos carregava que a cara de todos se fechou.
Um broche. Uma folha dourada, lapidada com capricho, cada nervura no lugar certo. Agora suja de sangue.
Aquilo não era marca de ladrão de corredor. Todos ali sabiam disso, mesmo que ninguém dissesse em voz alta. O silêncio que veio depois durou mais do que devia.
— A gente precisa avisar o Dex. Agora, sem perder tempo. — A voz do Ione saiu dura, a mão ainda no pescoço. — Se o moleque continuar arrumando confusão com gente desse tipo, vai sobrar pra todo mundo.
— E vamos deixar o garoto lá dentro? — Leonidas não gostou do próprio tom, mas não voltou atrás.
Joana não respondeu. Vinha encarando os dois, calada, o olhar indo de um para o outro — e então alguma coisa estalou atrás dos olhos dela. Endireitou as costas. Olhou em volta, para os cantos, para o alto, para o breu de onde ninguém mais saía.
— Droga. Droga. — Os outros pararam. — Cadê a Anya?